O ARTISTA

by Luiz Nazario

The Artist (O artista, França / Bélgica, 2011, 100′, drama). Direção: Michel Hazanavicius. Produção: La Petite Reine / uFilm / JD Productions / Thomas Langmann / Emmanuel Montamat. Roteiro: Michel Hazanavicius. Fotografia: Guillaume Schiffman. Trilha Sonora: Ludovic Bource. Elenco: Jean Dujardin, Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell, Penelope Ann Miller, Missi Pyle, Malcolm McDowell.

Na Hollywood de 1927, no apogeu do cinema mudo, George Valentin (Jean Dujardin) é o maior astro da produtora Kinograph, em filmes que estrela sempre ao lado de seu cãozinho terrier ensinado Jack Russel. Seu caminho se cruza com o da jovem dançarina Peppy Miller (Bérénice Bejo), que se inscreverá, depois de um pequeno escândalo envolvendo o ator, na mesma companhia dele, como figurante, e dentro da qual ela vai galgando pouco a pouco o estrelato.

Com o advento do som, Valentin, que se recusa a falar, é dispensado pelo estúdio. Para provar que o filme falado não tem futuro, ele decide produzir, dirigir e estrelar uma película muda, cujo lançamento coincide com a do sonoro A pinta, estrelado pela Miller: enquanto ele afunda em seu fiasco, em plena crise de 1929, ela vai às alturas com um estouro de bilheteria.

The Artist não deve fazer sucesso no Brasil. É um filme delicioso, sofisticado, inteligente, em preto e branco e sem falas, à maneira de Silent Movie (A última loucura de Mel Brooks, 1976) – que não ousava tanto, ao manter a fotografia colorida, talvez por verificar certa decepção do público pelo fato de seu Young Frankenstein (O jovem Frankenstein, 1974) ter sido fotografado em preto-e-branco –, mas com humor bem mais sutil e o tom romântico dos filmes dos anos de 1920-1930.

É um filme para cinéfilos, que encontrarão referências às comédias da Keystone (a corrida do policial), aos antigos seriados americanos, tipo The Perils of Pauline (Os perigos de Paulina, 1933), Darkest Africa (A deusa de Joba, 1936) ou Perils of Nyoka (A filha das selvas, 1941); ao Rudolph Valentino (óbvio); a John Gilbert (astro do mudo que fracassou no falado devido à voz fina, inadequada à sua imagem de galã); a Greta Garbo (“I want to be alone”); a Citizen Kane (Cidadão Kane, 1941) – a cena do café da manhã; a Sunset Blvd. (O crepúsculo dos deuses, 1950) – o fiel mordomo do astro decadente; a Georges Méliès (pioneiro do cinema que, pobre e esquecido, queimou seus filmes num acesso de raiva); a Marilyn Monroe (a pinta falsa que torna a figurante uma estrela); e a Vertigo (Um corpo que cai, 1958) – de onde foi “roubada” toda a trilha final. É também um filme para quem gosta de cachorrinhos, pois o terrier do artista é o melhor ator do mundo.

Que este pequeno filme despretensioso, que ousou nadar contra a corrente optando pela estética do cinema mudo, tenha arrebatado três Globos de Ouro (entre 57 prêmios recebidos em diversos festivais) e conquistado o número espantoso de dez indicações ao Oscar, é mais um sintoma da decadência do cinema contemporâneo: uma produção inteligente e sensível, contando uma história de amor sem uma única cena de sexo, com personagens humanos, bem construídos por atores carismáticos, parece agora, na meca do cinema, algo de enorme e de extraordinário.