O CINEMA MUDO CONTEMPORÂNEO

The Heart of the World (O coração do mundo, 2000), de Guy Maddin.

Como já havia observado em As sombras móveis: a atualidade do cinema mudo (1999), o silencioso ganhou, durante as comemorações dos cem anos do nascimento do cinema, uma “segunda vida”. Com incríveis possibilidades de remasterização de cópias, transferência de suportes, barateamento de reprodução e instantaneidade de exibição, a era digital permite a restauração em massa do cinema mudo que jazia invisível nas prateleiras dos arquivos de cinema, para sua comercialização em massa, em escala mundial. Os jovens artistas hoje podem redescobrir as imagens gloriosas do esplendor da aurora do cinema sem depender tanto dos caprichos dos “guardiões dos tesouros” das cinematecas em suas programações.

Uma das fontes das vanguardas contemporâneas repousa no leito da tradição histórica das vanguardas silenciosas. Essa tradição, na verdade, nunca foi rompida. Basta pensar no primeiro filme, experimental e caligaresco, de Orson Welles, Hearts of Age (Corações da idade, 1934); no inquietante filme noir sem diálogos The Thief (O ladrão silencioso, 1952), de Russell Rouse; nas cenas de pura pantomima e onomatopeia das comédias de Jacques Tati, como Jour de Fête (Carrossel da esperança, 1949); Mon Oncle (Meu tio, 1958); Playtime (Playtime: Tempo de diversão, 1967) e Traffic (As aventuras de M. Hulot no tráfego louco, 1971).

A linguagem visual do cinema mudo, com sua estética plástica, expressiva, exagerada, cômica e dramática, foi recuperada em inúmeras animações silenciosas, desde os curtas-metragens em stop-motion de Jan Lenica e Jiri Trinka, que deixaram herdeiros como Jiri Barta e Tim Burton, até a revitalização das sombras chinesas de Lotte Reiniger por Michel Oncelet, em Princes et Princesses (Príncipes e princesas, 1999); e das pantomimas e onomatopeias do personagem Tatischeff, verdadeiro sobrenome de Tati, em L’illusionniste (O mágico, 2010), de Sylvain Chomet, adaptada de um roteiro inédito daquele cineasta.

E, claro, não podemos excluir as paródias do cinema mudo, como Silent Movie (A última loucura de Mel Brooks, 1976), de Mel Brooks; nem o cinema gótico de terror, que se serviu das tradições mais macabras do expressionismo, em filmes como Begotten (1990) e Shadow of the Vampire (A sombra do vampiro, 2000), de E. Elias Merhige; Dark City (Cidade das sombras, 1998), de Alex Proyas; The Call of Cthulhu (2005), de Andrew Leman.

Das Cabinet des Dr. Caligari (O gabinete do Dr. Caligari, 1920), de Robert Wiene, foi refilmado quadro a quadro com recursos de computação gráfica por David Lee Fisher, em The Cabinet of Dr. Caligari (2007), com o extraordinário Doug Jones como o sonâmbulo Cesare, com resultados superiores à pretensa refilmagem sonora de Robert Kay, em The Cabinet of Caligari (1962), irreconhecível pela atualização da trama em situações completamente diversas.

Podemos destacar ainda, dentro de uma vertente mais romântica da nova vanguarda, algumas ficções científicas, como o americano Sky Captain and the World of Tomorrow (Capitão Sky e o mundo de amanhã, 2004), de Kerry Conran; o argentino La Antena (2007), de Esteban Sapir; ou o francês Renaissance (2008), de Christian Volckman.

Mas a obra mais original deste quase “movimento” de revitalização da estética do cinema mudo no cinema contemporâneo é a do cineasta canadense Guy Maddin, que soube como ninguém atualizar para a nossa sensibilidade perversa, com edições em ritmo vertiginoso, as estéticas já clássicas das primeiras vanguardas europeias – as do expressionismo alemão, do naturalismo americano, do surrealismo francês e do construtivismo russo.

Já as mixagens são máquinas moedoras de carne, reciclando material morto com material fresco, em tentativas facilitadoras de modernização do cinema mudo, realizadas por compositores vanguardistas. A trilha da Cinematic Orchestra para Chelovek s kino-apparatom (O homem da câmera, 1929), de Dziga Vertov, por exemplo, ignora o contexto em que o filme foi produzido e torna-se distração egocêntrica de consumo de imagens justapostas à trilha, da qual que se pode gostar ou não, sem visão consciente do cinema.

Mestre na técnica, Gustav Deutsch retira de suas remontagens de filmes mudos, como em Film Ist – A Girl & a Gun (2009) ou Film Ist. 1-12, DVD Installation (2001), os contextos das obras, para criar referências abstratas subjetivas, deslocando o foco de interesse dos filmes para a expressão de seu universo mental. Seria esse universo mais interessante que os filmes? Que cada um tire suas conclusões. O importante é saber que o sucesso de The Artist (O artista, 2011), de Michel Hazanavicius, não nasceu do vazio das imagens mudas no sonoro: seus cinco Oscars consagraram uma tradição sempre viva dentro do cinema contemporâneo, como o seu coração secreto a bater silenciosamente.

The Artist (O artista, França / Bélgica, 2011, 100′, drama). Direção: Michel Hazanavicius. Produção: La Petite Reine / uFilm / JD Productions / Thomas Langmann / Emmanuel Montamat. Roteiro: Michel Hazanavicius. Fotografia: Guillaume Schiffman. Trilha Sonora: Ludovic Bource. Elenco: Jean Dujardin, Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell, Penelope Ann Miller, Missi Pyle, Malcolm McDowell.

Na Hollywood de 1927, no apogeu do cinema mudo, George Valentin (Jean Dujardin) é o maior astro da produtora Kinograph, em filmes que estrela sempre ao lado de seu cãozinho terrier ensinado Jack Russel. Seu caminho se cruza com o da jovem dançarina Peppy Miller (Bérénice Bejo), que se inscreverá, depois de um pequeno escândalo envolvendo o ator, na mesma companhia dele, como figurante, e dentro da qual ela vai galgando pouco a pouco o estrelato.

Com o advento do som, Valentin, que se recusa a falar, é dispensado pelo estúdio. Para provar que o filme falado não tem futuro, ele decide produzir, dirigir e estrelar uma película muda, cujo lançamento coincide com a do sonoro A pinta, estrelado pela Miller: enquanto ele afunda em seu fiasco, em plena crise de 1929, ela vai às alturas com um estouro de bilheteria.

The Artist não deve fazer sucesso no Brasil. É um filme delicioso, sofisticado, inteligente, em preto e branco e sem falas, à maneira de Silent Movie (A última loucura de Mel Brooks, 1976) – que não ousava tanto, ao manter a fotografia colorida, talvez por verificar certa decepção do público pelo fato de seu Young Frankenstein (O jovem Frankenstein, 1974) ter sido fotografado em preto-e-branco –, mas com humor bem mais sutil e o tom romântico dos filmes dos anos de 1920-1930.

É um filme para cinéfilos, que encontrarão referências às comédias da Keystone (a corrida do policial); ao maior galã do cinema mudo, Rudolph Valentino (óbvio); a John Gilbert (astro que que não resistiu à passagem do silencioso ao falado devido à sua voz fina, inadequada à imagem viril que projetara); a Greta Garbo (“I want to be alone”, diz a estrela Peppy Miller a certa altura); a Georges Méliès (pioneiro do cinema que, pobre e esquecido, queimou seus filmes num acesso de raiva, como o faz Valentin).

O cinema falado também foi incluído no rol das citações: dos antigos seriados americanos, tipo The Perils of Pauline (Os perigos de Paulina, 1933), Darkest Africa (A deusa de Joba, 1936) ou Perils of Nyoka (A filha das selvas, 1941) à cena do café da manhã de Citizen Kane (Cidadão Kane, 1941), de Orson Welles; da presenta do fiel mordomo da decadente estrela de cinema mudo de Sunset Blvd. (O crepúsculo dos deuses, 1950), de Billy Wilder, à pinta falsa que torna a figurante uma estrela, pinta emprestada de Marilyn Monroe. Mais escandalosamente, toda a trilha sonora das cenas finais foi roubada de Vertigo (Um corpo que cai, 1958), de Alfred Hitchcock.

Que este filme despretensioso, nostálgico do grande cinema americano, que ousou nadar contra a corrente ao optar por um mergulho na estética do cinema mudo, sem esquecer os clássicos do sonoro, tenha arrebatado três Globos de Ouro (entre 57 prêmios recebidos em diversos festivais) e cinco Oscars (após o número espantoso de dez indicações), incluindo o de Melhor Filme, é mais um sintoma da decadência do cinema contemporâneo.

Somente nos tempos que correm uma produção modesta, sensível, inteligente como The Artist, contando apenas uma história de amor, sem apelar para uma única cena de sexo, com personagens humanos, bem construídos, encarnados por atores carismáticos (incluindo o terrier Jack Russel, por momentos o melhor ator do mundo), pode parecer, na Meca do cinema, o maior evento do ano, algo de enorme e de extraordinário.

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2 Respostas para “O CINEMA MUDO CONTEMPORÂNEO

  1. Talvez a parte mais rica em conteúdo do cinema mudo tenha sido o expressionismo alemão, que acabou dando origem a outros gêneros como o noir nos EUA na década de trinta. Em outubro irei participar de um curso sobre esse período, que é uma atividade criada pelo CENA UM e ministrado pelo especialista no assunto Carlos Primati.

  2. Não conheço os livros do especialista Carlos Primati, mas se estiver interessado no cinema expressionista, tenho alguns sobre o tema: As sombras móveis (onde corrigi, atualizei e ampliei o tosco De Caligari a Lili Marlene, que escrevi antes da Internet, quando o acesso à informação sobre os filmes era difícil); cinco capítulos na coletânea O Expressionismo (organizada por J. Guinsburg) e um capítulo sobre o projeto que coordenei na Escola de Belas Artes da UFMG, Animação expressionista, na coletânea Concepções contemporâneas da arte, que organizei com Patrícia Franca.

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