DIÁRIO CINEMATOGRÁFICO

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HUMPHREY BOGART

Humphrey Bogart

Os grandes estúdios de Hollywood  não distribuíam papéis segundo o talento dos atores, mas segundo o seu tipo físico. Por isso, Humphrey Bogart tornou-se o ator mais assassinado do cinema. O próprio Bogart ironizou sua situação, observando: “Nos meus primeiros 34 filmes, fui abatido 12 vezes, eletrocutado ou enforcado 8 vezes… Os meus problemas consistiam em encontrar uma maneira de dizer “aaaaargh” e de cuspir sangue. Devo dizer, entretanto, algo em meu favor: inventei e experimentei novas maneiras de segurar o ventre enquanto agonizava. Algumas ainda estão sendo utilizadas hoje em dia”.

Para Harry Cohn, Bogart não possuía um único ângulo fotogênico. Classificado como “feio” pelos produtores, o ator era sempre escalado para filmes de gangsters, terror e policiais. E, mesmo depois de ter seu talento reconhecido, na meia-idade, Bogart foi obrigado a ouvir de Jack Warner a seguinte explicação para a assinatura de um excepcional contrato de 15 anos: “Nós só assinamos porque temos certeza de que não existe risco algum de que seu rosto fique mais deteriorado do que já é”. A feiúra de Bogart era um empecilho para o estrelato, mas ele soube contorná-lo, forjando uma personalidade cativante de macho romântico, algo paranóide.

O último filme de Bogart antes de atingir o estrelado foi The Wagons Roll at Night (A tragédia do circo, EUA, 1941, 84’, p&b, drama). Direção: Ray Enright. Com Humphrey Bogart, Sylvia Sidney, Eddie Albert, Joan Leslie. Um comerciante (Albert) consegue domar um leão escapado do circo que invadira sua loja: ele se torna uma celebridade da noite para o dia. Para explorar essa súbita fama do rapaz, Nick Coster (Bogart) contrata-o como aprendiz de domador e dá-lhe o nome artístico de Varney. O domador que treina Varney é um beberrão e logo o discípulo supera o mestre, desencadeando ciúmes.  Quando o beberrão arma uma briga com Varney e é por acidente atacado pelo leão Satã, a cartomante (Sidney) tem a ideia de esconder Varney da polícia na fazenda de Nick, “até as coisas se acalmarem”.

Na fazenda, Varney conhece a irmã de Nick (Leslie) e se apaixona pela jovem, que vive afastada da vida circense porque Nick despreza seu próprio mundo: “Somos um bando de vagabundos, fracassados, trapaceiros”, ele diz a certa altura à cartomante. Mais tarde ele o reafirma: “Somos uns ciganos vagabundos, gente desqualificada.” Para salvar a irmã desse destino, Nick mantém a garota longe de seus conhecidos e a protege doentiamente: “Minha irmã será uma dama, nem que eu tenha que quebrar o pescoço dela”, ele diz exaltado.

Ao descobrir que a irmã se apaixonou pelo jovem domador, Nick torna-se paranóico: “É só eu virar as costas que encontro tudo que é verme invadindo a minha casa!”. Repuxando o lábio superior sobre a arcada dentária para fazer seu cacoete de maníaco, Bogart faz seu personagem revelar de forma metafórica algo do plano sinistro que arquiteta para matar o ‘Romeu’ durante sua estréia como domador de leões: “Vamos dar uma festa que vai ficar na história do circo!”.

A cartomante tenta salvar o ingênuo Varney das garras de Nick e segue para a fazenda a fim de preveni-lo. Como o taxi não corre o bastante, ela diz ao motorista: “Ei, chofer, tá com reumatismo? Pé na tábua!”. Ao trocar as balas verdadeiras por balas falsas do revólver que deverá ser usado pelo domador caso o leão Satã o ataque, Nick tranqüiliza Varney com uma expressão sádica disfarçada sob a máscara risonha, sabendo que a fera há de estraçalhar o jovem domador: “Com uma arma no bolso você estará tão seguro como um bebê na creche.”

The Wagons Roll at Night não é exatamente um filme sobre o circo, mas sobre as paixões que latejam sob a lona. Satã, o leão assassino, torna-se um símbolo para o personagem de Nick, o dono de circo que odeia os circenses e que, movido por esse ódio assassino, desencadeia uma tragédia. Mas o maligno Nick também revela possuir, in extremis, um bom coração: ele se arrepende de sua maldade, no último minuto, ao ver o sofrimento da irmã diante da morte iminente do jovem domador, e se sacrifica para arrancar Varney das garras de Satã.

The Malthese Falcon (O Falcão Maltês / Relíquia macabra, EUA, 1941, p&b, policial, noir). Direção: John Huston. Com Humphrey Bogart, Peter Lorre, Mary Astor. Baseado na novela de Dashiell Hammett, o filme dá vida ao personagem de  Sam Spade (Bogart), um detetive cínico e amoral, que  investiga o assassinato de seu parceiro. Personagens dúbios e sinistros, em busca de uma preciosa estatueta de falcão maltês, povoam o universo sombrio do filme, considerado um dos primeiros noir do cinema.

Bogart está especialmente sinistro em The Two Mrs. Carrolls (Inspiração trágica, EUA, 1947, 99’, p&b, suspense, noir, Warner). Direção: Peter Godfrey. Roteiro: Thomas Job, baseado na peça de Martin Vale. Com Humphrey Bogart (Geoffrey Carroll), Barbara Stanwyck (Sally Morton Carroll), Alexis Smith (Cecily Latham), Nigel Bruce (Dr. Tuttle), Isobel Elsom (Mrs. Latham), Patrick O’Moore (Charles Pennington), Ann Carter (Beatrice Carroll), Anita Sharp-Bolster (Christine), Barry Bernard (Horace Blagdon). Bigart é aí um artista mórbido, obcecado por sua “obra”, composta por estranhos e mórbidos retratos que pinta de suas esposas vampirizadas, tomadas como modelos de “anjos da morte” sempre que ele encontra novas vítimas-amantes para descartar aquelas. Os movimentos que  Bogart imprime ao seu personagem lembram os de um morcego, sobretudo na eletrizante seqüência final.

O assassinato de esposas por maridos elegantes e frios parece ter sido iniciado com a primeira versão para o cinema de Gaslight (À meia luz, 1940), de Harold Dickinson. Desde então, maridos desequilibrados e cínicos, obcecados por paixões secretas (jogos, dívidas, arte, etc.) costumam levar copos com leite ou chá envenenados para as esposas se “acalmarem” antes de dormir, matando-as lentamente ou fazendo com que elas fiquem perturbadas e loucas.

Esse e outros métodos de eliminar esposas produziram brilhantes exemplares de suspense: Suspicion (Suspeita, 1941), de Alfred Hitchcock; Gaslight (À luz de gás, 1944), de George Cukor; Notorius (Interlúdio, 1946), de Hitchcock; The Two Mrs. Carrolls (Inspiração trágica, 1947), de Peter Godfrey; The Stranger (O estranho, 1946), de Orson Welles; Monsieur Verdoux (O Barba Azul, 1947), de Charles Chaplin; Sorry, Wrong Number (Uma vida por um fio, 1948), de Anatole Litvak; Conspirator (O traidor, 1949), de Victor Saville; Sudden Fear (1952), de David Miller; Diabolique (As diabólicas, 1955), de Henri-Georges Clouzot; Midnight Lace (A teia de renda negra, 1960), de David Miller.

ANATOLE LITVAK

Tudo isso e o céu também

Quando a França entrou em guerra, a censura proibiu uma série de filmes: os filmes de guerra, os filmes “deprimentes” e os filmes militares, mesmo que fossem comédias de vaudeville, que ridicularizavam o exército. Na primeira lista de interditados encontrava-se L’Équipage (França, 1935, p&b), de Anatole Litvak, que, segundo a censura, incitava o ódio contra a Alemanha.

The Sisters (As irmãs, EUA, 1938, p&b, drama).  Direção: Anatole Litvak. Com Bette Davis, Errol Flynn.

Confessions of a Nazi Spy (Confissões de um espião nazista, EUA, 1939, 104’, p&b, drama antinazista). Direção: Anatole Litvak. Roteiro: Milton Krims e John Wexley, a partir de uma série de artigos de Leon Turrou, publicados em 1938 sob o título Storm Over America, no New York Post. Com Edward G. Robinson, Francis Lederer, George Sanders. Coube a Anatole Litvak, antes da eclosão da Segunda Guerra, a direção do primeiro filme abertamente antinazista em Hollywood, e não a Fritz Lang, como ainda escrevem alguns críticos desinformados. O filme aborda o perigo nazista sem recorrer a metáforas, expondo com realismo didático os métodos terroristas do Partido Nazista Norte-Americano. Era uma ousadia dos Irmãos Warner exporem ao grande público uma realidade que Hollywood ainda fingia ignorar. A ação se passa em Nova York, onde agentes nazistas infiltrados tentam minar a confiança do povo na democracia americana. Suas pistas são seguidas por um comissário do FBI. O filme levantou protestos da Embaixada alemã. Como os nazistas ainda se encontravam muito atuantes na América, realizando grandes comícios no Madison Square Garden, os cinemas que exibiam o filme sofreram ataques com bombas caseiras. Para garantir a segurança dos espectadores, os distribuidores acabaram retirando o filme de cartaz. Hollywood ainda exportava suas produções para o mercado alemão, mas, depois deste filme, os nazistas interromperam a importação de filmes da Warner e o estúdio quase foi à falência.

All This and Heaven Too (Tudo isso e o céu também, EUA, 1941). Direção: Anatole Litvak. Com Bette Davis, Jeffrey Lyne, Charles Boyer. Uma pobre governanta (Davis), que esteve envolvida num processo criminal na Inglaterra, emigra para a América em busca de uma nova vida, provavelmente junto a um pastor (Lyne), que a aborda no navio. Mais tarde, ao assumir o emprego de professora de francês num colégio de meninas, enfrenta o preconceito das alunas, que leram nos jornais notícias escabrosas sobre o affaire. A professora decide contar-lhes toda a verdade sobre seu passado. A governanta cuidava amorosamente dos três adoráveis filhos (duas meninas e um menino) de um casal problemático. A esposa carente, ciumenta e detestável, empurrava para a traição o gelado marido (Boyer) que não a amava mais. Mas o amor do nobre patrão pela governanta não se consuma, permanecendo platônico até o fim. Diante da perfídia da esposa, que demite a governanta e recusa dar-lhe uma carta de recomendação que poderia tirá-la da miséria, mesmo sabendo-a inocente, o aristocrata mata a esposa a tiros. Depois, tenta o suicídio. A governanta é suspeita de ter incitado o suposto amante ao crime e é detida para acareação. O patrão, agonizante, protege-a com um silêncio enobrecedor de seus atos, perante torpes acusações. A história de amor infeliz da ex-governanta, narrada no longo flashback que constitui o filme, comove a classe inteira. A professora de francês ganhou o coração das meninas e uma nova chance de ser feliz.

The Battle of Russia (A Batalha da Rússia, EUa, 1943, 128′, p&b, doc). Direção, Produção:  Anatole Litvak. Produção: Frank Capra. Roteiro: Anatole Litvak, Frank Capra, Robert Heller, Anthony Veiler.  Trilha Sonora: Dimitri Tiomkin. Edição: William Hornbeck. Narração: Anthony Veiller, Walter Huston. Documentário com imagens exclusivas filmadas pelos soviéticos ou capturadas do inimigo nazista. Registra a maior batalha na história de todas as guerras: a Batalha de Stalingrado, na qual mais de 2 milhões de pessoas morreram. A ordem de guerra 227 do governo soviético era: “Nenhum passo atrás! Stalingrado não deve render-se ao inimigo!”. Em fevereiro de 1943, o  Exército Vermelho fez mais de 330 mil prisioneiros – todo o 6º Exército, parte do 4º Exército alemães, incluindo o Marechal Von Paulus e 20 generais. A partir de Stalingrado iniciou-se a contra-ofensiva geral que liberou, uma a uma, todas as regiões ocupadas pelos alemães desde  a invasão da URSS em 1941. O feito foi elogiado pelas mais altas autoridades norte-americanas na guerra:  “Na história, não se conhece maior demonstração de coragem como a demonstrada pelo povo da Rússia.” (Henry L. Stimson, Secretário de Guerra); “Nós e nossos aliados temos e reconhecemos o eterno débito de gratidão, com o exército e o povo da União Soviética” (Frank Knox, Secretário da Marinha);  “A bravura e o espírito lutador e agressivo dos soldados russos requerem toda a admiração das Forças Armadas americanas.” (George C. Marshall, Membro Chefe do Exército dos Estados Unidos);  “Junto-me em admiração pela defesa histórica e heróica da União Soviética.” (Ernest J. King, Comandante-Chefe dos Estados Unidos);  “A escala de grandeza mostrada pela Rússia marcaram-na como o maior sucesso militar de toda a história da humanidade.” (General Douglas MacArthur, Comandante-Chefe da Área do Sudoeste do Pacífico). O documentário integra a série de sete filmes produzidos por Frank Capra a pedido do governo norte-americano, reunidos sob o título Why We Fight:  1: Prelude to War (1943); 2: The Nazis Strike (1943); 3: Divide and Conquer (1943); 4: The Battle of Britain (1943); 5: The Battle of Russia (1943); 6: The Battle of China (1944); 7: War Comes to America (1945). 

The Naked Pit (Na cova da serpente, EUA, 1948, p&b). Direção: Anatole Litvak. Com Olivia de Havilland, Mark Stevens, Celest Holm. Litvak obtém um clima de loucura através de malabarismos técnicos de impacto visual, como na imagem da massa de dementes no hospício vista, a grande altura, com um vertiginoso travelling vertical, cercando Olivia de Havilland, perdida como um passarinho entre víboras a se agitar no fundo de um poço.  Impactante e cômica é a cena em que o psiquiatra entrevista a paciente aparentemente recuperada, agitando loucamente o dedo em sua direção, até estonteá-la, provocando nela uma recaída.

Sorry, Wrong Number (A vida por um fio, 1948, 89’, p&b, noir, suspense). Direção: Anatole Litvak. Com Barbara Stanwyck, Burt Lancaster. Eletrizante suspense, tirado de uma peça radiofônica. Para seu desespero, uma inválida intercepta, numa linha cruzada, os planos que seu marido elabora para assassiná-la. Pressionado por traficantes, o marido pretende matar a esposa adoentada naquela mesma noite para obter o dinheiro do seguro: a coitada não pode fugir do quarto e ninguém acredita em sua história! Barbara Stanwiyck sustenta o drama - que caminha a passos largos para um desfecho trágico - praticamente sozinha em cena, imobilizada em seu leito – que se torna cada vez mais um leito de morte. Sua performance expressionista é extraordinária.

Anastasia (Anastasia, a princesa esquecida, 1956).Direção: Anatole Litvak.

Goodbye Again (EUA / França, 1961, 120′, p&b, drama). Direção, Produção: Anatole Litvak. Adaptação da novela de Françoise Sagan, Aimez-vous Brahmas? Com Ingrid Bergman, Yves Montand, Anthony Perkins. A decoradora Paula Tessier (Bergman) mantém um relacionamento estável, mas irregular, com o empresário Roger Demarest (Montand), que a ama com desdém, dedicando toda sua energia à conquista de mulheres mais jovens, visitando ainda, de vez em quando, outra amante, belíssima, com quem compartilha seus problemas. Vivendo de migalhas, Paula não se decide a romper com Roger: ela não consegue deixar de amá-lo, mesmo sabendo-se traída, e alimenta ainda a esperança de que ele a despose e sossegue. A situação muda quando Paula conhece Philip Van der Besh (Perkins), filho de uma rica cliente. Esse jovem mimado, depressivo e carente, que vive correndo em seu conversível e bebendo todas as noites, apaixona-se num coup de foudre pela madura e tristonha Paula. Cortejada pelo rapaz, Paula tem agora a opção de entregar-se a esse novo amor, esquecendo-se de Roger. Contudo, quando este se mostra abalado com o inesperado romance temporão de Paula, ela se dispõe a romper com o jovem Philip, desde que ele a despose. Roger cede finalmente ao velho desejo de Paula e os dois agora vivem juntos, como marido e mulher. Mas a rotina amorosa de Roger não se alterna com o casamento: ele apenas suprimiu de Paula a última chance que ela teve de ser feliz com quem a amava verdadeiramente. Diante do espelho, Paula percebe, enfim, que caiu numa armadilha, assumindo o papel ainda mais deprimente de esposa traída… A bela fotografia em preto-e-branco de Armand Thirard capta a atmosfera agitada e melancólica da Paris das caves existencialistas. Banhado na Terceira Sinfonia de Brahms, com arranjos de Georges Auric, o filme traz um trio de atores magníficos dirigidos com elegância pelo mestre Litvak, que demonstra com clareza didática como as mulheres são usadas pelos homens com a ajuda de outras mulheres, e como o casamento, instituição sagrada e falida, tornou-se um mero álibi para os homens, mas uma trágica armadilha para as mulheres.

The Night of the Generals (A  noite dos generais, Inglaterra / EUA, 1967, 144’, cor, guerra, Holocausto). Direção: Anatole Litvak. Produção: Columbia Pictures Corporation / Filmsonor S.A. / Horizon Pictures / Anatole Litvak, Sam Spiegel. Roteiro: Paul Dehn, Joseph Kessel, baseado em livro de Hans Hellmut Kirst. Música: Maurice Jarre. Fotografia: Henri Decaë. Desenho de Produção: Alexandre Trauner. Direção de Arte: Auguste Capelier. Figurino: Rosine Delamare, Jean-Claude Philippe. Edição: Alan Osbiston. Elenco: Peter O’Toole (General Tanz), Omar Sharif (Major Grau), Tom Courtenay (Kurt Hartmann), Donald Pleasence (General Kahlenberg), Joanna Pettet (Ulrike von Seydlitz-Gabler), Philippe Noiret (Inspetor Morand), Charles Gray (General von Seydlitz-Gabler), Coral Browne (Eleanore von Seydlitz-Gabler), John Gregson (Coronal Sandauer), Nigel Stock (Sargento Otto Kopkie), Christopher Plummer (Marechal Rommel) Juliette Gréco (Juliette), Yves Brainville (Liesowski), Sacha Pitoëff (Médico), Charles Millot (Wionczek), Raymond Gérôme (Coronel), Véronique Vendell (Monique Demond), Pierre Mondy (Sargento Kopatski), Harry Andrews (General Stulpnagel). Durante a Segunda Guerra Mundial, uma prostituta é brutalmente assassinada em Varsóvia. O major Grau (Sharif), encarregado do caso, possui apenas uma pista: uma testemunha viu o criminoso usando um uniforme de general alemão, mas não viu seu rosto. Grau tem três suspeitos: Kahlenberge (Pleasance), Von Seidlitz-Gabler (Gray) e Tanz (O’Toole), todos sem álibi. Subitamente Grau é promovido a tenente-coronel, sendo transferido para Paris por indicação de Kahlenberge. O destino reúne os três suspeitos em Paris pouco antes do Dia D.  Ajudado pelo inspetor Morand (Philippe Noiret), um simpatizante da Resistência, Grau continua ali suas investigações, por conta própria. O filme destaca um caso de assassinato de prostitutas polonesas durante o Holocausto. A liquidação do gueto judeu é descrita com realismo e pode ter inspirado Spielberg em Schindler’List. Relevante também é a descrição de uma reunião neonazista em Berlim nos anos de 1960, que recorda as primeiras reuniões nazistas que Litvak havia descrito, corajosamente, em Confessions of a Nazi Spy. Um ciclo que se fecha - outro que se inicia.

VICTOR SJÖSTRÖM

Lillian Gish em O vento

Tão grande diretor quanto ator, Victor Sjöström amava os romances de Selma Lagerlöf. Como diretor, concebia o filme como uma série de composições pictóricas, enquadrando os atores no cenário como um pintor faria com seus modelos, mas sem perder o interesse humano no conjunto formado pela continuidade dos quadros. Como ator, Sjöström começou atuando em inúmeros curtas-metragens mudos, alguns perdidos depois de um incêndio na produtora Svenka Bio. Seu papel de maior relevo ele obteve já idoso: o do professor Isak Borg de Smultronstället (Morangos silvestres, Suécia, 1957), de Ingmar Bergman, que vai de carro, com a nora, até a cidade universitária de Lund, onde receberá um título honorífico após 50 anos de carreira, remorando sua vida durante a viagem. Bergman declarou sobre a atuação de seu mestre: “O filme termina com um close-up de Isaak Borg na hora da compreensão e da reconciliação. Neste close-up, o rosto de Sjöstrom brilhava com uma claridade quase mística, como que refletindo outra realidade e outra luz. Os seus olhos estavam muito abertos, sorrindo com ternura. Era maravilhoso. Nunca vi uma expressão tão nobre, tão perfeitamente liberta de qualquer inquietação”.

Seus filmes:

Ingeborg Holm (Ingeborg Holm, Suécia, 1913, 72’, p&b, mudo, melodrama). Direção: Victor Sjöström. Ingeborg Holm perde o marido, de tuberculose, e vai à falência no comando de sua pequena mercearia. Sem condições de cuidar dos filhos, perde a guarda deles e passa a viver num abrigo de indigentes. Quando a filha fica doente, ela foge do abrigo para cuidar dela, mas chega a tempo apenas de vê-la morrer. A polícia, que caça a fugitiva, encontra-a e leva-a de volta ao abrigo. Tempos depois, ela recebe a visita do filho que não a via desde bebê. Ele é incapaz de reconhecê-la. Uma legenda anuncia: “Essa foi a última gota para a mente estarrecida dela”. Ingeborg Holm enlouquece. Quinze anos depois recebe nova visita do filho, que é informado da loucura da mãe. Ela passeia com um pedaço de pau no colo, dizendo que aquele pau é o filho dela. O filho tornou-se um belo marinheiro. Ele pede para ficar sozinho com a mãe. Mostra-lhe então uma foto dela, que ela havia posto no cestinho dele quando teve de abandoná-lo para que ele não a esquecesse. Ao ver a foto, ao reconhecer-se, ela se lembra de tudo, e recupera a razão!

Markurells i Wadköping (Pai e filho, Suécia / Alemanha, 94’, p&b, sonoro, melodrama). Direção: Victor Sjöström. Emocionante melodrama, com Sjöström no papel principal. Um rude dono de restaurante ama o filho acima de tudo. O rapaz está para se formar, mas não estuda Química e só pensa em namorar. O pai tenta comprar os examinadores com um almoço delicioso. Durante o banquete, um dos professores fala demais, comentando que o filho do dono do restaurante é na verdade, segundo seu barbeiro,  filho do juiz da cidade. O dono do restaurante quase enlouquece e avança para matar a esposa, mas esta o enfrenta, corajosa, dizendo que ele devia deixar de histórias, pois havia sido homem bastante para que ela o escolhesse como pai de seu filho, e que este o amava como um pai verdadeiro, assim como ele amava o rapaz como seu verdadeiro filho. No final, o dono do restaurante perdoa o juiz e acaba se orgulhando do rapaz, que consegue passar e se formar junto com a turma. A interpretação de Sjostrom é teatral, exagerada, expressionista, quase louca. Os filmes dele devem ter inspirado todos os escritores de novelas da TV!

Körkarlen  / Der Fuhrmann des Todes (A carruagem fantasma, Suécia, 1920, 106’, p&b, mudo). Direção: Victor Sjöström. Com Victor Sjöström, Hilda Borgström, Tore Svennberg, Astrid Holm.

Havsgamar (Predadores do mar, Suécia, 44’, p&b, mudo, melodrama). Direção: Victor Sjöström.

Eld Ombord (Fogo a bordo, Suécia, 106’, p&b, mudo, melodrama). Direção: Victor Sjöström.

Trädgardsmästaren (O jardineiro cruel, Suécia, 78’, p&b, mudo, melodrama). Direção: Victor Sjöström.

Der Todeskuss (O beijo da morte, Suécia, 1916, 32’, p&b, mudo). Direção: Victor Sjöström. Com  Victor Sjöström, Albin Lavén.

Lágrimas do palhaço. Direção: Victor Sjöström.

Terje Vigen (Terra virgem, Suécia,  1917, p&b, mudo). Direção: Victor Sjöström. Com Victor Sjöström, Bergliot Husberg, August Falck, Edith Erastoff.

Ingmarssönerna (Os filhos de Ingmar, Suécia, 118’, p&b, mudo, melodrama). Direção: Victor Sjöström.

Den Röda Bokstaven (A carta escarlate, Suécia / EUA, 113’, p&b, mudo, melodrama). Direção: Victor Sjöström.

Karin Ingmarsdotter (Karin, filha de Ingmar, Suécia, 123’, p&b, mudo, melodrama). Direção: Victor Sjöström.

Dödskyssen / Terje Vigen (O beijo da morte, Suécia, 85’, p&b, mudo, melodrama). Direção: Victor Sjöström.

Berg-Ejvind och Hans Hustru (O fora-da-lei e sua mulher, Suécia, 1918, 96’, p&b, mudo, melodrama). Direção: Victor Sjöström. Com Victor Sjöström, Edith Erastoff, John Ekman, Nils Aréhn, Jenny Tschernichin-Larsson.

Vem Dömer (Ritual do amor, Suécia, 98’, p&b, mudo, melodrama). Direção: Victor Sjöström.

Klostret i Sendomir (O monastério de Sendomir, Suécia, 78’, p&b, mudo, melodrama). Direção: Victor Sjöström.

The Wind (Vento e areia, EUA, 1928). Direção: Victor Sjöström. Com Lillian Gish. Foi Lillian Gish quem primeiro se apaixonou pelo romance de Dorothy Scarborough, desejando enterpretar a jovem sulista, de família, que vai ao Texas para casar-se, mas é violentada no trem por um desconhecido, acabando por matá-lo e por enlouquecer, em meio à tempestade de areia provocada pelo vento contínuo. As filmagens foram das mais penosas. O calor do deserto era tanto que a película derretia dentro da câmera. Foi preciso que os técnico levassem todo o material congelado para as filmagens. A areia era lançada sobre Lillian Gish por oito hélices de avião, junto com produtos sulfurosos que lhe queimavam a pele e quase a deixaram cega. Seus cabelos estragavam-se em contato com o vapor de enxofre e a fricção de areia e os atores deviam se curvar sobre as montarias para tentar permanecer em cena. A melhor seqüência é quando Lillian Gish, depois de matar seu agressor, tenta enterrá-lo sozinha. É sobre-humano o seu esforço em esconder o cadáver sob um monte de areia. Cavar dunas ao vento é uma verdadeira agonia. Quando finalmente ela consegue enfiar o corpo dentro da cova e cobri-lo com areia fina, volta para sua cabana, aliviada. Mas o vento continua a soprar, batendo em sua janela, lançando areia na vidraça. Logo ela se depara com um horrível espetáculo: o vento está desenterrando o corpo, espalhando a areia – já a cabeça do morto aparece descoberta… Nesse filme mudo, a constância do vento é tão marcante, os detalhes que revelam sua presença tão concretos que ao fim da sessão sai-se com a impressão de ter assistido a um filme sonoro: ninguém consegue lembrar-se de suas imagens sem o silvo do vento que parece acompanhá-las. É como se Victor Sjöström tivesse criado a imagem sonora silenciosa…

The scarlet letter (A letra escarlate, EUA, 1926, 98’,p&b, mudo). Direção: Victor Sjöström. Com Lillian Gish, Lars Hanson, Henry Walthall, Karl Dane. Na puritana Boston de 1645, o reverendo Arthur Dimmesdale apaixona-se pela jovem Hester Prynne (Gish). Ele está disposto a casar-se com ela, mas a moça já é casada com um homem mais velho que se encontra há muito tempo fora do país. Dimmesdale também viaja e fica vários meses afastado. Ao retornar, descobre que Hester deu à luz a um filho seu e recusa revelar o nome do pai da criança. Por força da moral da época, ela foi obrigada a usar uma letra “A” bordada na roupa, como sinal público de adultério.

Fontes: 

The San Francisco Silent Film Festiva 2009: http://www.silentfilm.org.

Kino Eye: http://www.kinoeye.org/02/05/umland05.php.

ROUBEN MAMOULIAN

Fredric March em Dr. Jekyll and Mr. Hyde (1931)

Dr. Jekyll and Mr. Hyde (O médico e o monstro, EUA, 1932, p&b, horror). Direção: Rouben Mamoulian. Com Fredric March, Miriam Hopkins, Holmes Hebert. Primeira versão sonora da novela de Robert Louis Stevenson. Um respeitável médico (March) faz experiências químicas no próprio corpo e se converte, sempre que ingere sua fórmula, num monstro deformado e perverso, que leva uma prostituta (Hopkins) ao suicídio, de tanto torturá-la física e moralmente. O filme faz das ambiguidades sexuais do texto de Stevenson uma leitura um pouco dirigida, concentrando as perversões sexuais sugeridas, como práticas do monstro, num caso concreto e singular de sadomasoquismo heterossexual patológico – pela própria natureza da imagem, o cinema sempre reduz ao singular concreto o universal abstrato da literatura; e o singular concreto do cinema é sempre determinado pela sexualidade dominante na sociedade. Enfim, mesmo reduzindo o imaginário original a uma paródia do casamento, pervertido nas relações mórbidas entre uma prostituta decaída e um cliente medonho, o filme consegue evocar todo o o horror da monstruosidade latente na sexualidade humana. A máscara simiesca que transforma o rosto de March é muito efetiva, e o ator foi premiado com o Oscar por sua dupla caracterização de médico e monstro.

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