ROMAN POLANSKI
Em The Ghost Writer (O escritor fantasma, 2010), a arte de Roman Polanski ressente-se de uma propaganda ideológica nada sutil, concentrada na crítica – mais ou menos velada, mais ou menos óbvia – ao ex-Primeiro Ministro Tony Blair, culpado por “tudo o que deu errado na política inglesa.” Nessa visão supercial – a partir da novela The Ghost, de Robert Harris -, a discussão do terrorismo e da tortura torna-se pífia diante do mistério enterrado no universo paranóico, que Polanski sabe como poucos criar.
O mistério é escavado aos poucos pelo Fantasma (Ewan McGregor), o personagem sem nome do escrevinhador, um tipo simpático, mas sem noção do perigo, com o qual não conseguimos nos identificar o bastante para lamentar o que lhe ocorre nas cenas finais. A melhor coisa do filme, aiás, é o soco verbal que o Fantasma recebe de Ruth (a ótima Olivia Williams), esposa do farsesco político Adam Lang (Pierce Brosnan), quando o escrevinhador pergunta porque ela não quis se tornar também uma política como o marido: “E porque você não quis se tornar um bom escritor?”
O mistério até que poderia conduzir a uma revelação transcendente, como em Rosemary’s Baby (O bebê de Rosemary, EUA, 1968) ou Le Locataire (O inquilino, França, 1976). Mas Polanski evita lançar os espectadores nos abismos do terror e o filme acaba se apequenando ao refugiar-se na banalidade de uma conspiração da CIA, engendrada para manipular o governo inglês a favor dos interesses norte-americanos. Tudo transcorre de acordo com a cartilha paranóica da esquerda, sempre pronta a minimizar o terror para condenar seu combate como “paranóia estadunidense”.
Em 2009, convidado pelo Festival de Cinema de Zurique, onde receberia um prêmio pelo conjunto da obra, Polanksi foi detido pela polícia suíça, que reativou o mandado internacional de prisão que vigora contra ele desde o processo inconcluso em 1974 nos EUA sobre o suposto estupro que ele teria cometido contra uma menor. Polanski foi libertado apenas após pagar uma pesada fiança, voltando agora a sofrer novas acusações de pedofilia. O termo tem servido, de maneira confusa e perigosa, para caracterizar não mais apenas o abuso sexual de crianças por adultos como também o de adolescentes por adultos e ainda para discriminar os homossexuais: na recente polêmica envolvendo sacerdotes pedófilos, uma alta autoridade do Vaticano declarou que os padres pedófilos eram apenas os homossexuais, confundindo orientação sexual com desvio sexual.
No caso de Polanski, a garota vitimada não era virgem; havia acabado de posar nua para uma sessão de fotos dirigida por Polanski, contando com a presença da mãe, que autorizou isso, assim como deve ter autorizado a filha menor, mas bastante ativa, a comparecer sozinha à festa barra pesada na mansão de artistas permissivos de Hollywood, onde tudo pode acontecer – ou será que a adolescente e sua mãe acharam que ela ia para a festa beber guaraná e ver desenho animado na TV? Essa mãe devia ser processada. De qualquer forma, o cineasta parece ter resolvido vingar-se de sua atual perseguição pela Justiça norte-americana adaptando um best-seller da nova safra da literatura inglesa anti-americana. Ao ferir injustamente seus acusadores, porém, Roman Polanski feriu também sua própria arte.
