VICTOR SJÖSTRÖM
Tão grande diretor quanto ator, Victor Sjöström amava os romances de Selma Lagerlöf. Como diretor, concebia o filme como uma série de composições pictóricas, enquadrando os atores no cenário como um pintor faria com seus modelos, mas sem perder o interesse humano no conjunto formado pela continuidade dos quadros. Como ator, Sjöström começou atuando em inúmeros curtas-metragens mudos, alguns perdidos depois de um incêndio na produtora Svenka Bio. Seu papel de maior relevo ele obteve já idoso: o do professor Isak Borg de Smultronstället (Morangos silvestres, Suécia, 1957), de Ingmar Bergman, que vai de carro, com a nora, até a cidade universitária de Lund, onde receberá um título honorífico após 50 anos de carreira, remorando sua vida durante a viagem. Bergman declarou sobre a atuação de seu mestre: “O filme termina com um close-up de Isaak Borg na hora da compreensão e da reconciliação. Neste close-up, o rosto de Sjöstrom brilhava com uma claridade quase mística, como que refletindo outra realidade e outra luz. Os seus olhos estavam muito abertos, sorrindo com ternura. Era maravilhoso. Nunca vi uma expressão tão nobre, tão perfeitamente liberta de qualquer inquietação”.
Seus filmes:
Ingeborg Holm (Ingeborg Holm, Suécia, 1913, 72’, p&b, mudo, melodrama). Direção: Victor Sjöström. Ingeborg Holm perde o marido, de tuberculose, e vai à falência no comando de sua pequena mercearia. Sem condições de cuidar dos filhos, perde a guarda deles e passa a viver num abrigo de indigentes. Quando a filha fica doente, ela foge do abrigo para cuidar dela, mas chega a tempo apenas de vê-la morrer. A polícia, que caça a fugitiva, encontra-a e leva-a de volta ao abrigo. Tempos depois, ela recebe a visita do filho que não a via desde bebê. Ele é incapaz de reconhecê-la. Uma legenda anuncia: “Essa foi a última gota para a mente estarrecida dela”. Ingeborg Holm enlouquece. Quinze anos depois recebe nova visita do filho, que é informado da loucura da mãe. Ela passeia com um pedaço de pau no colo, dizendo que aquele pau é o filho dela. O filho tornou-se um belo marinheiro. Ele pede para ficar sozinho com a mãe. Mostra-lhe então uma foto dela, que ela havia posto no cestinho dele quando teve de abandoná-lo para que ele não a esquecesse. Ao ver a foto, ao reconhecer-se, ela se lembra de tudo, e recupera a razão!
Markurells i Wadköping (Pai e filho, Suécia / Alemanha, 94’, p&b, sonoro, melodrama). Direção: Victor Sjöström. Emocionante melodrama, com Sjöström no papel principal. Um rude dono de restaurante ama o filho acima de tudo. O rapaz está para se formar, mas não estuda Química e só pensa em namorar. O pai tenta comprar os examinadores com um almoço delicioso. Durante o banquete, um dos professores fala demais, comentando que o filho do dono do restaurante é na verdade, segundo seu barbeiro, filho do juiz da cidade. O dono do restaurante quase enlouquece e avança para matar a esposa, mas esta o enfrenta, corajosa, dizendo que ele devia deixar de histórias, pois havia sido homem bastante para que ela o escolhesse como pai de seu filho, e que este o amava como um pai verdadeiro, assim como ele amava o rapaz como seu verdadeiro filho. No final, o dono do restaurante perdoa o juiz e acaba se orgulhando do rapaz, que consegue passar e se formar junto com a turma. A interpretação de Sjostrom é teatral, exagerada, expressionista, quase louca. Os filmes dele devem ter inspirado todos os escritores de novelas da TV!
Körkarlen / Der Fuhrmann des Todes (A carruagem fantasma, Suécia, 1920, 106’, p&b, mudo). Direção: Victor Sjöström. Com Victor Sjöström, Hilda Borgström, Tore Svennberg, Astrid Holm.
Havsgamar (Predadores do mar, Suécia, 44’, p&b, mudo, melodrama). Direção: Victor Sjöström.
Eld Ombord (Fogo a bordo, Suécia, 106’, p&b, mudo, melodrama). Direção: Victor Sjöström.
Trädgardsmästaren (O jardineiro cruel, Suécia, 78’, p&b, mudo, melodrama). Direção: Victor Sjöström.
Der Todeskuss (O beijo da morte, Suécia, 1916, 32’, p&b, mudo). Direção: Victor Sjöström. Com Victor Sjöström, Albin Lavén.
Lágrimas do palhaço. Direção: Victor Sjöström.
Terje Vigen (Terra virgem, Suécia, 1917, p&b, mudo). Direção: Victor Sjöström. Com Victor Sjöström, Bergliot Husberg, August Falck, Edith Erastoff.
Ingmarssönerna (Os filhos de Ingmar, Suécia, 118’, p&b, mudo, melodrama). Direção: Victor Sjöström.
Den Röda Bokstaven (A carta escarlate, Suécia / EUA, 113’, p&b, mudo, melodrama). Direção: Victor Sjöström.
Karin Ingmarsdotter (Karin, filha de Ingmar, Suécia, 123’, p&b, mudo, melodrama). Direção: Victor Sjöström.
Dödskyssen / Terje Vigen (O beijo da morte, Suécia, 85’, p&b, mudo, melodrama). Direção: Victor Sjöström.
Berg-Ejvind och Hans Hustru (O fora-da-lei e sua mulher, Suécia, 1918, 96’, p&b, mudo, melodrama). Direção: Victor Sjöström. Com Victor Sjöström, Edith Erastoff, John Ekman, Nils Aréhn, Jenny Tschernichin-Larsson.
Vem Dömer (Ritual do amor, Suécia, 98’, p&b, mudo, melodrama). Direção: Victor Sjöström.
Klostret i Sendomir (O monastério de Sendomir, Suécia, 78’, p&b, mudo, melodrama). Direção: Victor Sjöström.
The Wind (Vento e areia, EUA, 1928). Direção: Victor Sjöström. Com Lillian Gish. Foi Lillian Gish quem primeiro se apaixonou pelo romance de Dorothy Scarborough, desejando enterpretar a jovem sulista, de família, que vai ao Texas para casar-se, mas é violentada no trem por um desconhecido, acabando por matá-lo e por enlouquecer, em meio à tempestade de areia provocada pelo vento contínuo. As filmagens foram das mais penosas. O calor do deserto era tanto que a película derretia dentro da câmera. Foi preciso que os técnico levassem todo o material congelado para as filmagens. A areia era lançada sobre Lillian Gish por oito hélices de avião, junto com produtos sulfurosos que lhe queimavam a pele e quase a deixaram cega. Seus cabelos estragavam-se em contato com o vapor de enxofre e a fricção de areia e os atores deviam se curvar sobre as montarias para tentar permanecer em cena. A melhor seqüência é quando Lillian Gish, depois de matar seu agressor, tenta enterrá-lo sozinha. É sobre-humano o seu esforço em esconder o cadáver sob um monte de areia. Cavar dunas ao vento é uma verdadeira agonia. Quando finalmente ela consegue enfiar o corpo dentro da cova e cobri-lo com areia fina, volta para sua cabana, aliviada. Mas o vento continua a soprar, batendo em sua janela, lançando areia na vidraça. Logo ela se depara com um horrível espetáculo: o vento está desenterrando o corpo, espalhando a areia – já a cabeça do morto aparece descoberta… Nesse filme mudo, a constância do vento é tão marcante, os detalhes que revelam sua presença tão concretos que ao fim da sessão sai-se com a impressão de ter assistido a um filme sonoro: ninguém consegue lembrar-se de suas imagens sem o silvo do vento que parece acompanhá-las. É como se Victor Sjöström tivesse criado a imagem sonora silenciosa…
The scarlet letter (A letra escarlate, EUA, 1926, 98’,p&b, mudo). Direção: Victor Sjöström. Com Lillian Gish, Lars Hanson, Henry Walthall, Karl Dane. Na puritana Boston de 1645, o reverendo Arthur Dimmesdale apaixona-se pela jovem Hester Prynne (Gish). Ele está disposto a casar-se com ela, mas a moça já é casada com um homem mais velho que se encontra há muito tempo fora do país. Dimmesdale também viaja e fica vários meses afastado. Ao retornar, descobre que Hester deu à luz a um filho seu e recusa revelar o nome do pai da criança. Por força da moral da época, ela foi obrigada a usar uma letra “A” bordada na roupa, como sinal público de adultério.
Fontes:
The San Francisco Silent Film Festiva 2009: http://www.silentfilm.org.
Kino Eye: http://www.kinoeye.org/02/05/umland05.php.
