TINTO BRASS

Vanessa Readgrave e o 'falo' apropriado por Kubrick, em Drop-out (1970), de Tinto Brass

Drop-Out (1970). Direção: Tinto Brass. Roteiro: Tinto Brass, Franco Longo. Com Franco Nero (Bruno), Vanessa Redgrave (Mary). Os dois protagonistas, co-produtores do filme, formavam um dos mais belos casais na vida real. Vi o filme no cinema uma única vez: nunca mais o exibiram em lugar nenhum, e não existem cópias dele no mercado mundial de vídeo. Trata-se, até onde me lembro, de um belíssimo mix de filme underground e de filme noir.  Era impressionante uma cena de tortura com gângsters anões e a força devastadora das imagens finais, carregadas de vermelho, durante um apocalíptico concerto de rock.  No site de um fã de Tinto Brass pode-se ler uma denúncia de escandalosa apropriação feita por Stanley Kubrick em A Clockwork Orange (Laranja mecânica, 1971) de três obras de arte que decoram o apartamento da personagem Mary (Redgrave): a escultura fálica The Rocking Machine, de Herman Makkink; a peça Christ Unlimited; e um quadro pop erótico de uma mulher em posição de coito, obras que decoram igualmente o apartamento da “mulher dos gatos”, assassinada com a escultura fálica. Claro que Kubrick valoriza esses objetos de arte e os torna inesquecíveis pelo seu papel dramático na trama, enquanto que no filme de Brass eles são meros elementos decorativos. Mas não deixa de ser selvagem essa apropriação de elementos de um filme feito apenas um ano antes… Tinto Brass prometia muito antes de enveredar pelo erotismo fácil de Salon Kitty, Caligula e La Chiave, tentando integrar o sexo à política, conservando algum refinamento cinematográfico, mas em imagens sem vida e congeladas. Seus personagens são fantoches antipáticos, cujas sexualidades, mais mentais que físicas, só se realizam mediante a utilização de um arsenal de estímulos. Como o prazer não depende de artifícios, a espetacularização do coito revela aí apenas o fundo de impotência que alimenta o erotômano. Seus últimos filmes – Monella, Fallo!, Così Fan Tutte, L’Uomo che Guarda, etc. – apresentam um erotismo ainda mais vulgar: nada mais resta de seu empenho artístico e de seu engajamento político, que se esboroaram sob uma profusão de seios, nádegas e vaginas.

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