Arquivo do dia: 04/06/2010

LINA WERTMÜLLER

Lina Wertmüller

Lina Wertmüller nunca foi bem apreciada pelos críticos, nem mesmo na Itália, ou especialmente lá. Seu feminismo causava repulsa nos machistas italianos nos anos de 1970. Seu anarquismo assustava os comunistas que dominavam a crítica. Pode ser difícil gostar sem restrições de seus filmes: eles sempre acabam desapontando, ficando aquém de suas promessas. Mas é preciso reconhecer que ela é brilhante em muitos momentos de todos eles. Que mais se poderia exigir de um autor de cinema?

Como escritora, Lina Wertmüller é igualmente notável: sua novela A cabeça de Alvise é uma pequena obra-prima. Mas não recebeu os elogios que merecia em sua época e foi esquecida. Mas poucas vezes um estudo sobre a inveja que corrói um coração foi tão engraçado e cinematográfico. É um mistério que Wertmüller não tenha querido transformar seu livro em um filme, já que as cenas já estavam todas prontas, como num maravilhoso roteiro… Enfim, mesmo boicotada pelas mídias, Lina Wertmüller continuou em sua intrépida e coerente trajetória de cineasta anarquista.

Sotto… sotto… strapazzato da anomala passione (1984) aborda o lesbianismo, com seqüências suntuosas passadas num jardim maravilhoso. Certa vez, em Roma, quis saber onde se localizava aquele jardim, decorado com grotescas e enormes figuras de pedra.  Perguntei a um jornaleiro. Um cliente idoso que estava ali à toa ouviu minha descrição do jardim e concluiu com ar de cansaço e nonchalance:  “A Itália está cheia dessas coisaa… belíssimas!”, a última palavra saiu quase que sem querer,  num súbito e incontrolável entusiasmo. Assim são os italianos…  Nunca descobri onde ficava o jardim do filme.

In una notte di chiaro di luna (1989), com Nastassia Kinski, Rutger Hauer, Peter O’Toole e Faye Dunaway, é sobre a paixão levada aos seus limites. E também sobre o pavor extremo desencadeado pela AIDS – a ponto de destruir as mais belas paixões. É impressionante a cena do restaurante, quando o jornalista (Hauer) que faz uma reportagem sobre a AIDS, passando-se por um soropositivo, revela ao garçom sua condição: os olhares de terror, a discriminação silenciosa, o pedido para que ele se retire… o jornalista descobre, no papel de um doente de AIDS,  o mundo de intolerância paranóica que subjaz na elite de Veneza, de aparência tão liberal e moderna… Mais tarde, ao fazer um exame de sangue, descobre-se soropositivo… Fugindo do grande amor de sua vida (Kinski) – que passa o resto do filme a procurá-lo, desesperada – ele se alia a uma milionária soropositiva (Dunaway) que faz de seu escuro apartamento de alto luxo em Nova York um Bunker, uma nova masmorra medieval, para  investir toda sua fortuna em pesquisas científicas, até descobrir a cura da maldita doença. O reencontro de Rauer e Kinski no final emociona: ele confessa que a amava demais, que temia tanto sua rejeição que preferiu afastar-se…

Metalmeccanico e parrucchiera in un turbine di sesso e di politica (Itália, 1996, 101′, cor, comédia política). Direção: Lina Wertmuller. Com Tullio Solenghi (Tunin Gavazzi), Gene Gnocchi (Zvanin), Veronica Pivetti (Rossella Giacometti). Em meio à paixão avassaladora por uma mulher de visão política oposta, um mecânico que se vê desempregado tenta preencher seu tempo livre de maneira criativa, segundo a utopia do sociólogo italiano Domenico de Masi – que sugere que o tempo livre seja cada vez mais utilizado com coisas sem custo financeiro nem obsessão com o consumismo: com amizade, amor e sexo, vagabundagem, meditação e jogos…

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ROMAN POLANSKI

Em 1977, a jovem Samantha, com 13 anos de idade, mas não mais virgem, foi posar para uma sessão de fotos, dirigida por Polanski, para a revista Vogue. A mãe de Samantha, que a empresariava,  também deve ter autorizado seu comparecimento, sozinha, à festa regada a drogas na mansão de artistas permissivos de Hollywood, onde tudo podia acontecer. Pensava essa mãe que a festa era para beber Coca-Cola e ver desenhos animados na TV?

Polanski foi condenado a 90 dias de prisão. Depois de 42 dias de cárcere, foi liberado após fechar um acordo financeiro com a vítima. Não esperou que o juiz, determinado a renegar o acordo e condená-lo a muitos anos de cadeia, concluísse o processo: fugiu dos EUA em 1978 e passou as décadas seguintes livre na Europa, filmando na Espanha, Alemanha, Itália, Suíça e Tunísia.[1]

Em 2009, convidado pelo Festival de Cinema de Zurique, onde receberia um prêmio pelo conjunto da obra, Polanksi foi subitamente detido, a pedido dos EUA, pela polícia suíça, que reativou o mandado internacional de prisão que vigora contra ele desde o processo inconcluso de 1977.

No escândalo requentado pelo politicamente correto, Polanski passou a ser perseguido pelas mídias como um perigoso pedófilo. A nova fantasia que evoca o termo pedófilo serve perigosamente para caracterizar não mais o abuso sexual de bebês e crianças por adultos, mas também o sexo consensual entre adolescentes e adultos, com forte discriminação dos homossexuais: na polêmica envolvendo sacerdotes pedófilos, uma alta autoridade do Vaticano chegou a declarar que os padres pedófilos eram apenas os homossexuais…

The Ghost Writer (O escritor fantasma, 2010)

Depois de passar dois meses numa prisão suíça, o cineasta ficou detido no seu chalé alpino, aguardando a decisão sobre sua extradição. Ali ele pode finalizar  a pós-produção de The Ghost Writer (O escritor fantasma, 2009-2010),  mas não pode comparecer à première mundial do filme no Festival de Berlim nem pode receber o prêmio que ganhou de Melhor Diretor no 23º European Film Awards.

Em The Ghost Writer (O escritor fantasma, 2010), a arte de Roman Polanski ressente-se de uma propaganda ideológica nada sutil, concentrada na crítica – mais ou menos velada, mais ou menos óbvia – ao ex-Primeiro Ministro Tony Blair, culpado por “tudo o que deu errado na política inglesa.”

Nessa visão supercial – a partir da novela The Ghost, de Robert Harris -, a discussão do terrorismo e da tortura torna-se pífia diante do mistério enterrado no universo paranóico, que Polanski sabe como poucos criar.

O mistério é escavado aos poucos pelo Fantasma (Ewan McGregor), o personagem sem nome do escrevinhador, um tipo  simpático, mas sem noção do perigo, com o qual não conseguimos nos identificar o bastante para lamentar o que lhe ocorre nas cenas finais.

A melhor coisa do filme, aliás, é o soco verbal que o Fantasma recebe de Ruth (a ótima Olivia Williams), esposa do farsesco político Adam Lang (Pierce Brosnan), quando o escrevinhador pergunta porque ela não quis se tornar também uma política como o marido:  “E porque você não quis se tornar um bom escritor?”

O mistério até que poderia conduzir a uma revelação transcendente, como em Rosemary’s Baby (O bebê de Rosemary, EUA, 1968) ou Le Locataire (O inquilino, França, 1976). Mas Polanski evita lançar os espectadores nos abismos do terror e o filme acaba se apequenando ao refugiar-se na banalidade.

A conspiração da CIA, engendrada para manipular o governo inglês a favor dos interesses norte-americanos, transcorre de acordo com a cartilha paranóica da esquerda, sempre pronta a minimizar o terror para condenar seu combate como “paranóia estadunidense”.

Ao adaptar um best-seller antiamericano da nova literatura inglesa, Polanski deve ter querido vingar-se: embora as autoridades suíças tenham decidido em 2010 que ele não seria extraditado, o processo kafkiano continua aberto. Mas, ao ferir injustamente seus acusadores, Polanski aqui feriu também a sua arte.

Carnificine (O deus da carnificina, 2011)

Entre 31 de janeiro e 14 de março de 2011, Polanski rodou em Paris um novo huis-clos: Carnificine (O deus da carnificina, 2011), que se passa inteiramente dentro de um apartamento. Com este filme, Polanski  ganhou o prêmio de Melhor Diretor no 60º Festival de Berlim

La Vénus à la fourrure (2013)

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Vi com Cris La Vénus à la fourrure (A pele de Vênus, 2013), a partir de uma peça de David Ives. Apenas dois atores sustentam o novo huis-clos de Polanski. Após uma linda abertura pelas ruas de Paris sob um céu de chumbo, a ação transcorre toda dentro de um pequeno teatro, numa fria noite de tempestade.

Vanda Jordan (Emmanuelle Seigner), uma atriz que beira a decadência sem ter conseguido destacar-se, chega atrasada ao teste de atores para a nova peça do diretor Thomas (Mathieu Amalric), por ele adaptada do romance Vênus em casaco de pele, de Leopold von Sacher-Masoch. Abusando do visual gótico-sadomasô, Vanda pensa ser a pessoa ideal para encarnar Wanda von Dunayev.

O diretor já encerrou as audições, sem encontrar os atores certos, e não vê na candidata retardatária nenhuma qualidade especial que o comova, apressando-se em despachá-la. Com truques que apelam à vaidade e ao fetichismo do diretor, Vanda consegue, contudo, convencê-lo a mudar de ideia.

Thomas acaba ensaiando com a atriz quase a peça inteira, assumindo o papel do pervertido aristocrata Severin, que deseja ser dominado por Wanda, num jogo sadomasoquista entre atriz e diretor no entra-e-sai da pele de seus personagens. Apenas no final, quando Thomas deixar cair suas últimas defesas, Vanda revela seus verdadeiros e sinistros propósitos.

Após o nazismo na Polônia ocupada, com sua infância no gueto e o assassinato da mãe em Auschwitz; do comunismo na Polônia do pós-guerra, do qual fugiu de carro até Paris; do assassinato da primeira esposa, Sharon Tate, grávida, por quem estava apaixonado, pelos psicopatas de Charles Mason; e da suspeita infame da mídia de que ele havia participado do crime, Polanski parece aludir em La Vénus à la fourrure ao último pesadelo de sua vida.

Seigner, a segunda esposa de Polanski, que estrelou outros filmes seus, para o injusto desgosto da crítica, que recusa conhecer seu talento (ela está ótima no papel da azarada Vanda) contracena com Amalric, parecido com o cineasta, e cujo personagem cai, como o diretor na vida real, numa ratoeira sexual armada pela sanha do politicamente correto.

O politicamente correto é, de fato, a nova peste totalitária, a minar a liberdade dos indivíduos pela imposição violenta de sentimentos de culpas sociais pelas “minorias oprimidas”, numa empresa de equalização forçada.

Em La Vénus à la fourrure, Polanski mostra que ainda está em forma, agora com o apoio de sua Polônia natal, mas permanece limitado ao limbo da produção independente europeia, sem perspectivas de reinserir-se no panteão de Hollywood.

Notas

[1] http://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2013/09/polanski-fala-sobre-impacto-de-condenacao-por-crime-sexual-em-1977.html.