LINA WERTMÜLLER

Lina Wertmüller

Lina Wertmüller nunca foi bem apreciada pelos críticos, nem mesmo na Itália, ou especialmente lá. Seu feminismo causava repulsa nos machistas italianos nos anos de 1970. Seu anarquismo assustava os comunistas que dominavam a crítica. Pode ser difícil gostar sem restrições de seus filmes: eles sempre acabam desapontando, ficando aquém de suas promessas. Mas é preciso reconhecer que ela é brilhante em muitos momentos de todos eles. Que mais se poderia exigir de um autor de cinema?

Como escritora, Lina Wertmüller é igualmente notável: sua novela A cabeça de Alvise é uma pequena obra-prima. Mas não recebeu os elogios que merecia em sua época e foi esquecida. Mas poucas vezes um estudo sobre a inveja que corrói um coração foi tão engraçado e cinematográfico. É um mistério que Wertmüller não tenha querido transformar seu livro em um filme, já que as cenas já estavam todas prontas, como num maravilhoso roteiro… Enfim, mesmo boicotada pelas mídias, Lina Wertmüller continuou em sua intrépida e coerente trajetória de cineasta anarquista.

Sotto… sotto… strapazzato da anomala passione (1984) aborda o lesbianismo, com seqüências suntuosas passadas num jardim maravilhoso. Certa vez, em Roma, quis saber onde se localizava aquele jardim, decorado com grotescas e enormes figuras de pedra.  Perguntei a um jornaleiro. Um cliente idoso que estava ali à toa ouviu minha descrição do jardim e concluiu com ar de cansaço e nonchalance:  “A Itália está cheia dessas coisaa… belíssimas!”, a última palavra saiu quase que sem querer,  num súbito e incontrolável entusiasmo. Assim são os italianos…  Nunca descobri onde ficava o jardim do filme.

In una notte di chiaro di luna (1989), com Nastassia Kinski, Rutger Hauer, Peter O’Toole e Faye Dunaway, é sobre a paixão levada aos seus limites. E também sobre o pavor extremo desencadeado pela AIDS – a ponto de destruir as mais belas paixões. É impressionante a cena do restaurante, quando o jornalista (Hauer) que faz uma reportagem sobre a AIDS, passando-se por um soropositivo, revela ao garçom sua condição: os olhares de terror, a discriminação silenciosa, o pedido para que ele se retire… o jornalista descobre, no papel de um doente de AIDS,  o mundo de intolerância paranóica que subjaz na elite de Veneza, de aparência tão liberal e moderna… Mais tarde, ao fazer um exame de sangue, descobre-se soropositivo… Fugindo do grande amor de sua vida (Kinski) – que passa o resto do filme a procurá-lo, desesperada – ele se alia a uma milionária soropositiva (Dunaway) que faz de seu escuro apartamento de alto luxo em Nova York um Bunker, uma nova masmorra medieval, para  investir toda sua fortuna em pesquisas científicas, até descobrir a cura da maldita doença. O reencontro de Rauer e Kinski no final emociona: ele confessa que a amava demais, que temia tanto sua rejeição que preferiu afastar-se…

Metalmeccanico e parrucchiera in un turbine di sesso e di politica (Itália, 1996, 101′, cor, comédia política). Direção: Lina Wertmuller. Com Tullio Solenghi (Tunin Gavazzi), Gene Gnocchi (Zvanin), Veronica Pivetti (Rossella Giacometti). Em meio à paixão avassaladora por uma mulher de visão política oposta, um mecânico que se vê desempregado tenta preencher seu tempo livre de maneira criativa, segundo a utopia do sociólogo italiano Domenico de Masi – que sugere que o tempo livre seja cada vez mais utilizado com coisas sem custo financeiro nem obsessão com o consumismo: com amizade, amor e sexo, vagabundagem, meditação e jogos…

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