ROMAN POLANSKI

Em 1977, a jovem Samantha, com 13 anos de idade, mas não mais virgem, foi posar para uma sessão de fotos, dirigida por Polanski, para a revista Vogue. A mãe de Samantha, que a empresariava,  também deve ter autorizado seu comparecimento, sozinha, à festa regada a drogas na mansão de artistas permissivos de Hollywood, onde tudo podia acontecer. Pensava essa mãe que a festa era para beber Coca-Cola e ver desenhos animados na TV?

Polanski foi condenado a 90 dias de prisão. Depois de 42 dias de cárcere, foi liberado após fechar um acordo financeiro com a vítima. Não esperou que o juiz, determinado a renegar o acordo e condená-lo a muitos anos de cadeia, concluísse o processo: fugiu dos EUA em 1978 e passou as décadas seguintes livre na Europa, filmando na Espanha, Alemanha, Itália, Suíça e Tunísia.[1]

Em 2009, convidado pelo Festival de Cinema de Zurique, onde receberia um prêmio pelo conjunto da obra, Polanksi foi subitamente detido, a pedido dos EUA, pela polícia suíça, que reativou o mandado internacional de prisão que vigora contra ele desde o processo inconcluso de 1977.

No escândalo requentado pelo politicamente correto, Polanski passou a ser perseguido pelas mídias como um perigoso pedófilo. A nova fantasia que evoca o termo pedófilo serve perigosamente para caracterizar não mais o abuso sexual de bebês e crianças por adultos, mas também o sexo consensual entre adolescentes e adultos, com forte discriminação dos homossexuais: na polêmica envolvendo sacerdotes pedófilos, uma alta autoridade do Vaticano chegou a declarar que os padres pedófilos eram apenas os homossexuais…

The Ghost Writer (O escritor fantasma, 2010)

Depois de passar dois meses numa prisão suíça, o cineasta ficou detido no seu chalé alpino, aguardando a decisão sobre sua extradição. Ali ele pode finalizar  a pós-produção de The Ghost Writer (O escritor fantasma, 2009-2010),  mas não pode comparecer à première mundial do filme no Festival de Berlim nem pode receber o prêmio que ganhou de Melhor Diretor no 23º European Film Awards.

Em The Ghost Writer (O escritor fantasma, 2010), a arte de Roman Polanski ressente-se de uma propaganda ideológica nada sutil, concentrada na crítica – mais ou menos velada, mais ou menos óbvia – ao ex-Primeiro Ministro Tony Blair, culpado por “tudo o que deu errado na política inglesa.”

Nessa visão supercial – a partir da novela The Ghost, de Robert Harris -, a discussão do terrorismo e da tortura torna-se pífia diante do mistério enterrado no universo paranóico, que Polanski sabe como poucos criar.

O mistério é escavado aos poucos pelo Fantasma (Ewan McGregor), o personagem sem nome do escrevinhador, um tipo  simpático, mas sem noção do perigo, com o qual não conseguimos nos identificar o bastante para lamentar o que lhe ocorre nas cenas finais.

A melhor coisa do filme, aliás, é o soco verbal que o Fantasma recebe de Ruth (a ótima Olivia Williams), esposa do farsesco político Adam Lang (Pierce Brosnan), quando o escrevinhador pergunta porque ela não quis se tornar também uma política como o marido:  “E porque você não quis se tornar um bom escritor?”

O mistério até que poderia conduzir a uma revelação transcendente, como em Rosemary’s Baby (O bebê de Rosemary, EUA, 1968) ou Le Locataire (O inquilino, França, 1976). Mas Polanski evita lançar os espectadores nos abismos do terror e o filme acaba se apequenando ao refugiar-se na banalidade.

A conspiração da CIA, engendrada para manipular o governo inglês a favor dos interesses norte-americanos, transcorre de acordo com a cartilha paranóica da esquerda, sempre pronta a minimizar o terror para condenar seu combate como “paranóia estadunidense”.

Ao adaptar um best-seller antiamericano da nova literatura inglesa, Polanski deve ter querido vingar-se: embora as autoridades suíças tenham decidido em 2010 que ele não seria extraditado, o processo kafkiano continua aberto. Mas, ao ferir injustamente seus acusadores, Polanski aqui feriu também a sua arte.

Carnificine (O deus da carnificina, 2011)

Entre 31 de janeiro e 14 de março de 2011, Polanski rodou em Paris um novo huis-clos: Carnificine (O deus da carnificina, 2011), que se passa inteiramente dentro de um apartamento. Com este filme, Polanski  ganhou o prêmio de Melhor Diretor no 60º Festival de Berlim

La Vénus à la fourrure (2013)

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Vi com Cris La Vénus à la fourrure (A pele de Vênus, 2013), a partir de uma peça de David Ives. Apenas dois atores sustentam o novo huis-clos de Polanski. Após uma linda abertura pelas ruas de Paris sob um céu de chumbo, a ação transcorre toda dentro de um pequeno teatro, numa fria noite de tempestade.

Vanda Jordan (Emmanuelle Seigner), uma atriz que beira a decadência sem ter conseguido destacar-se, chega atrasada ao teste de atores para a nova peça do diretor Thomas (Mathieu Amalric), por ele adaptada do romance Vênus em casaco de pele, de Leopold von Sacher-Masoch. Abusando do visual gótico-sadomasô, Vanda pensa ser a pessoa ideal para encarnar Wanda von Dunayev.

O diretor já encerrou as audições, sem encontrar os atores certos, e não vê na candidata retardatária nenhuma qualidade especial que o comova, apressando-se em despachá-la. Com truques que apelam à vaidade e ao fetichismo do diretor, Vanda consegue, contudo, convencê-lo a mudar de ideia.

Thomas acaba ensaiando com a atriz quase a peça inteira, assumindo o papel do pervertido aristocrata Severin, que deseja ser dominado por Wanda, num jogo sadomasoquista entre atriz e diretor no entra-e-sai da pele de seus personagens. Apenas no final, quando Thomas deixar cair suas últimas defesas, Vanda revela seus verdadeiros e sinistros propósitos.

Após o nazismo na Polônia ocupada, com sua infância no gueto e o assassinato da mãe em Auschwitz; do comunismo na Polônia do pós-guerra, do qual fugiu de carro até Paris; do assassinato da primeira esposa, Sharon Tate, grávida, por quem estava apaixonado, pelos psicopatas de Charles Mason; e da suspeita infame da mídia de que ele havia participado do crime, Polanski parece aludir em La Vénus à la fourrure ao último pesadelo de sua vida.

Seigner, a segunda esposa de Polanski, que estrelou outros filmes seus, para o injusto desgosto da crítica, que recusa conhecer seu talento (ela está ótima no papel da azarada Vanda) contracena com Amalric, parecido com o cineasta, e cujo personagem cai, como o diretor na vida real, numa ratoeira sexual armada pela sanha do politicamente correto.

O politicamente correto é, de fato, a nova peste totalitária, a minar a liberdade dos indivíduos pela imposição violenta de sentimentos de culpas sociais pelas “minorias oprimidas”, numa empresa de equalização forçada.

Em La Vénus à la fourrure, Polanski mostra que ainda está em forma, agora com o apoio de sua Polônia natal, mas permanece limitado ao limbo da produção independente europeia, sem perspectivas de reinserir-se no panteão de Hollywood.

Notas

[1] http://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2013/09/polanski-fala-sobre-impacto-de-condenacao-por-crime-sexual-em-1977.html.

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