ALEXANDER PTUSHKO

A flor de pedra: a Fada da Floresta assume a forma de um lagarto

Alexander Ptushko (1900-1973) foi um mestre na animação em stop-motion no cinema mudo da URSS, tendo sido por muitos considerado como o “Walt Disney soviético”. Seu filme mais famoso: Kamennyy tsvetok (A flor de pedra, URSS, 1946), o primeiro filme soviético rodado inteiramente em cores – após a primeira experiência de Sergei Eisenstein em Ivã, o Terrível Parte II, utilizando ainda película colorida capturada da Alemanha, no sistema Agfacolor. O filme baseou-se no conto homônimo incluído na coletânea A caixa de malaquita (1939), de Pavel Petrovich Bazhov (1879-1950), escritor do Ural. A flor de pedra foi um dos mais belos filmes fantásticos produzidos na URSS a destilar, contudo, venenosa propaganda sobre o papel do artista num regime comunista.

Na velha Rússia, um artesão, mestre em talhar a pedra, está ficando velho, doente e fraco, e mesmo assim hesita em adotar um aprendiz. Seu neto, Danilo, cujos pais morrerem, vive com ele e passa o tempo na floresta observando a natureza. Comprometendo-se com uma jovem que o ama desde a infância, Danilo possui um raro talento para esculpir a malaquita. Quando o senhor da terra encomenda ao mestre artesão a caixa de pedra mais linda que ele seja capaz de fazer, por ter apostado 500 mil rublos com um nobre francês que sua caixa de malaquita era mais bela que a dele – sem que ele tivesse uma assim – é Danilo quem consegue, durante a última noite de trabalho, talhar na pedra a caixa maravilhosa, pois seu avô, mesmo esgotando-se de trabalhar dia e noite, não conseguira concluir o serviço dentro do prazo.

Encantado com essa obra de arte, o senhor dá a Danilo uma moeda pelo trabalho que lhe renderá os quinhentos mil rublos (a exploração do trabalho sob o capitalismo deve ficar patente no conto de fadas comunista). A esposa dele encomenda a Danilo um novo trabalho: um vaso em forma de flor. Durante a realização desse vaso de malaquita, o aprendiz desposa a jovem que o amava e que ele ama, mas não tanto quanto ama sua arte. Infeliz com o resultado do vaso em forma de flor, que todos à volta julgam, contudo, uma obra-prima, ele acredita que ainda não descobriu todos os segredos da pedra. A seu ver, seu vaso de pedra era apenas um vaso de pedra, não tinha vida como a flor, nem era tão belo como a pedra…

Durante um jantar em que os aldeões admiram o vaso em forma de flor, um camponês alerta o artista descontente com sua obra: – Cuidado com esses pensamentos, a Senhora da Floresta promete aos artífices a revelação dos segredos da pedra, mas encerra-os em seus domínios, de onde jamais ninguém retorna… Enlouquecido com essa revelação, o jovem aprendiz escapa do jantar e, nos fundos da casa, tem um misterioso encontro com a Fada, que lhe promete revelar os segredos da pedra. A Fada surge no meio de um jardim que floresce instantaneamente e marca o encontro revelador para uma data futura. A data coincide com as bodas de Danilo. Durante a festa, ele se recorda da data e abandona a noiva e os convidados para ter com a Senhora da Floresta. A Fada conduz o jovem até uma caverna escavada numa montanha de rochas, que se abrem magicamente. No interior, gigantescas estalactites e estalagmites formam encantadores salões de cristal, cada qual de cor diferente.

À medida em que eles adentram nesses salões, as vestes da Senhora da Floresta assumem formas magníficas nas mesmas tonalidades das cores dos cristais do ambiente, numa interação perfeita entre sua aparência e a das pedras brilhantes. Finalmente, a Fada oferece ao aprendiz o mais maravilhoso dos cristais, no qual ele deverá esculpir uma flor gigantesca, extraindo da experiência todos os segredos da malaquita. Danilo fica seduzido pelo desafio e se põe a trabalhar, esculpindo na pedra maravilhosa uma gigantesca flora, bela como ninguém jamais terá visto. Terminada a gigantesca flor de pedra reluzente que de tão bem talhada parece viva, Danilo quer retornar aos seus, mas a fada, ciumenta, impede que ele saia da caverna, deseja mesmo desposá-lo. Danilo sente-se ainda infeliz porque ninguém poderá admirar seu trabalho. Revolta-se. Mas a fada mostra seu poder tornando-se tão gigantesca quanto a flor de pedra.

Os anos passam, mas a noiva-viúva ainda tem esperanças de que Danilo volte para ela, e até se mudou para sua casa, cuidando do velho mestre, que se encontra nas últimas. Aprende com ele a talhar a pedra, vende seus trabalhos no mercado e decide encontrar, custe o que custar, o marido desaparecido. Embrenha-se na floresta e enfrenta as armadilhas lançadas pela fada. Neste momento, a Senhora da Floresta percebe que não terá Danilo, e permite que sua noiva penetre na caverna. Aqui, é Eurídice que resgata Orfeu do Hades: é a noiva, ativa e corajosa, quem consegue, com seu amor-mais-forte-que-a-morte, trazer Danilo de volta ao mundo dos vivos. A Senhora da Floresta que queria desposar o artista, que pretendia manter Danilo para sempre em sua caverna, depois de ter seu amor rejeitado revela que tudo não passou de uma prova, e que o jovem casal havia superado o teste da fidelidade com êxito. E, assim, os dois podem voltar para casa, e ainda recebem prêmios. A jovem ganha a caixa de joias predileta da Senhora da Floresta, que a Danilo concede a lembrança do segredo da pedra que ela lhe ensinou, com a condição de nunca revelá-los a ninguém.

Na forma de um conto de fadas que se quer “real como a vida” (segundo o velho que o conta aos meninos que lhe pedem para narrar uma história, no começo do filme), A flor de pedra destaca o papel do artista no regime soviético, que inicia em 1946 uma nova fase, após a vitória amarga (20 milhões de russos mortos) após a Segunda Guerra. O artista explorado no mundo capitalista recebe do Estado comunista uma tarefa grandiosa: ele não fará mais arte comercial, nem arte utilitária, mas Arte Pura. Não importa que o artista estatizado deva, desde então, ser isolado do mundo. É o preço da realização da Grande Arte sem finalidade comercial ou utilitária. Para criar Arte Pura o artista depende exclusivamente da Fada, isto é: do Estado – e mais precisamente de Stalin. O artista soviético é livre, pois não depende mais do corrupto senhor capitalista. Ele agora pode dedicar-se exclusivamente à Arte Pura, criar imensas e gloriosas estátuas de Stalin…

Pode parecer, à primeira vista, que a Fada-Stalin é na verdade uma Bruxa Má, um Monstro, um Demônio. Mas não: a tirania cruel, as torturas infligidas, incluindo os anos de encarceramento do artista, o sofrimento da esposa abandonada, a agonia do velho mestre esquecido em sua cabana – todos os horrores engendrados pela Fada-Monstro – que se encolhe como um lagarto para espionar e se agiganta como uma montanha para atemorizar – devem ser entendidos pelo bom comunista como apenas uma prova, que premia, ao fim e ao cabo, o amor verdadeiro. O sofrimento físico e moral imposto pelo Estado aos eleitos que ele priva da liberdade purifica o artista e fortalece a sociedade. Não há no cinema stalinista propaganda mais bela e perversa da submissão total do artista ao Estado quanto A flor de pedra.

Alexander Ptushko colaborou no roteiro e realizou a direção de arte e os efeitos especiais de Viy (URSS, 1967, cor), de Georgi Kropachyov e Konstantin Yershov.

FILMOGRAFIA

Sluchay na stadione (URSS, 1928, p&b). Direção: Alexander Ptushko.

Shifrovanny dokument (URSS, 1928, p&b). Direção: Alexander Ptushko.

Sto priklyucheni (URSS, 1929, p&b). Direção: Alexander Ptushko.

Krepi oboronu (URSS, 1930, p&b). Direção: Alexander Ptushko.

Kino v derevnyu (URSS, 1930, p&b). Direção: Alexander Ptushko.

Vlastelin byta (URSS, 1932, p&b). Direção: Alexander Ptushko.

Novyy Gulliver / The New Gulliver (URSS, 1935, p&b). Direção: Alexander Ptushko.

Vesyolye muzykanty (URSS, 1937, p&b). Direção: Alexander Ptushko.

Skazka o rybake i rybke (URSS, 1937, p&b). Direção: Alexander Ptushko.

Zolotoy klyuchik / The Gold Key (URSS, 1939, p&b). Direção: Alexander Ptushko.

Kamennyy tsvetok (A flor de pedra, 1946).  Direção: Alexander Ptushko.

Tri vstrechi (URSS, 1948, cor). Direção: Alexander Ptushko.

Sadko / The Magic Voyage of Sinbad (URSS, 1953, cor). Direção: Alexander Ptushko.

Ilya Muromets / The Sword and the Dragon  (URSS, 1956, cor). Direção: Alexander Ptushko.

Sampo / The Day the Earth Froze (URSS, 1959, cor). Direção: Alexander Ptushko.

Alye parusa / Scarlet Sails (URSS, 1961, cor). Direção: Alexander Ptushko.

Skazka o poteryannom vremeni / A Tale of Lost Times (URSS, 1964, cor). Direção: Alexander Ptushko.

Story About Czar Saltan / The Tale of Tsar Saltan (URSS, 1966, cor). Direção: Alexander Ptushko.

Ruslan i Lyudmila / Ruslan and Ludmila (URSS, 1972, cor). Direção: Alexander Ptushko.

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