Arquivo do mês: junho 2010

VICTOR SJÖSTRÖM

Lillian Gish em O vento

Tão grande diretor quanto ator, Victor Sjöström amava os romances de Selma Lagerlöf. Como diretor, concebia o filme como uma série de composições pictóricas, enquadrando os atores no cenário como um pintor faria com seus modelos, mas sem perder o interesse humano no conjunto formado pela continuidade dos quadros. Como ator, Sjöström começou atuando em inúmeros curtas-metragens mudos, alguns perdidos depois de um incêndio na produtora Svenka Bio. Seu papel de maior relevo ele obteve já idoso: o do professor Isak Borg de Smultronstället (Morangos silvestres, Suécia, 1957), de Ingmar Bergman, que vai de carro, com a nora, até a cidade universitária de Lund, onde receberá um título honorífico após 50 anos de carreira, remorando sua vida durante a viagem. Bergman declarou sobre a atuação de seu mestre: “O filme termina com um close-up de Isaak Borg na hora da compreensão e da reconciliação. Neste close-up, o rosto de Sjöstrom brilhava com uma claridade quase mística, como que refletindo outra realidade e outra luz. Os seus olhos estavam muito abertos, sorrindo com ternura. Era maravilhoso. Nunca vi uma expressão tão nobre, tão perfeitamente liberta de qualquer inquietação”.

Seus filmes:

Ingeborg Holm (Ingeborg Holm, Suécia, 1913, 72’, p&b, mudo, melodrama). Direção: Victor Sjöström. Ingeborg Holm perde o marido, de tuberculose, e vai à falência no comando de sua pequena mercearia. Sem condições de cuidar dos filhos, perde a guarda deles e passa a viver num abrigo de indigentes. Quando a filha fica doente, ela foge do abrigo para cuidar dela, mas chega a tempo apenas de vê-la morrer. A polícia, que caça a fugitiva, encontra-a e leva-a de volta ao abrigo. Tempos depois, ela recebe a visita do filho que não a via desde bebê. Ele é incapaz de reconhecê-la. Uma legenda anuncia: “Essa foi a última gota para a mente estarrecida dela”. Ingeborg Holm enlouquece. Quinze anos depois recebe nova visita do filho, que é informado da loucura da mãe. Ela passeia com um pedaço de pau no colo, dizendo que aquele pau é o filho dela. O filho tornou-se um belo marinheiro. Ele pede para ficar sozinho com a mãe. Mostra-lhe então uma foto dela, que ela havia posto no cestinho dele quando teve de abandoná-lo para que ele não a esquecesse. Ao ver a foto, ao reconhecer-se, ela se lembra de tudo, e recupera a razão!

Markurells i Wadköping (Pai e filho, Suécia / Alemanha, 94’, p&b, sonoro, melodrama). Direção: Victor Sjöström. Emocionante melodrama, com Sjöström no papel principal. Um rude dono de restaurante ama o filho acima de tudo. O rapaz está para se formar, mas não estuda Química e só pensa em namorar. O pai tenta comprar os examinadores com um almoço delicioso. Durante o banquete, um dos professores fala demais, comentando que o filho do dono do restaurante é na verdade, segundo seu barbeiro,  filho do juiz da cidade. O dono do restaurante quase enlouquece e avança para matar a esposa, mas esta o enfrenta, corajosa, dizendo que ele devia deixar de histórias, pois havia sido homem bastante para que ela o escolhesse como pai de seu filho, e que este o amava como um pai verdadeiro, assim como ele amava o rapaz como seu verdadeiro filho. No final, o dono do restaurante perdoa o juiz e acaba se orgulhando do rapaz, que consegue passar e se formar junto com a turma. A interpretação de Sjostrom é teatral, exagerada, expressionista, quase louca. Os filmes dele devem ter inspirado todos os escritores de novelas da TV!

Körkarlen  / Der Fuhrmann des Todes (A carruagem fantasma, Suécia, 1920, 106’, p&b, mudo). Direção: Victor Sjöström. Com Victor Sjöström, Hilda Borgström, Tore Svennberg, Astrid Holm.

Havsgamar (Predadores do mar, Suécia, 44’, p&b, mudo, melodrama). Direção: Victor Sjöström.

Eld Ombord (Fogo a bordo, Suécia, 106’, p&b, mudo, melodrama). Direção: Victor Sjöström.

Trädgardsmästaren (O jardineiro cruel, Suécia, 78’, p&b, mudo, melodrama). Direção: Victor Sjöström.

Der Todeskuss (O beijo da morte, Suécia, 1916, 32’, p&b, mudo). Direção: Victor Sjöström. Com  Victor Sjöström, Albin Lavén.

Lágrimas do palhaço. Direção: Victor Sjöström.

Terje Vigen (Terra virgem, Suécia,  1917, p&b, mudo). Direção: Victor Sjöström. Com Victor Sjöström, Bergliot Husberg, August Falck, Edith Erastoff.

Ingmarssönerna (Os filhos de Ingmar, Suécia, 118’, p&b, mudo, melodrama). Direção: Victor Sjöström.

Den Röda Bokstaven (A carta escarlate, Suécia / EUA, 113’, p&b, mudo, melodrama). Direção: Victor Sjöström.

Karin Ingmarsdotter (Karin, filha de Ingmar, Suécia, 123’, p&b, mudo, melodrama). Direção: Victor Sjöström.

Dödskyssen / Terje Vigen (O beijo da morte, Suécia, 85’, p&b, mudo, melodrama). Direção: Victor Sjöström.

Berg-Ejvind och Hans Hustru (O fora-da-lei e sua mulher, Suécia, 1918, 96’, p&b, mudo, melodrama). Direção: Victor Sjöström. Com Victor Sjöström, Edith Erastoff, John Ekman, Nils Aréhn, Jenny Tschernichin-Larsson.

Vem Dömer (Ritual do amor, Suécia, 98’, p&b, mudo, melodrama). Direção: Victor Sjöström.

Klostret i Sendomir (O monastério de Sendomir, Suécia, 78’, p&b, mudo, melodrama). Direção: Victor Sjöström.

The Wind (Vento e areia, EUA, 1928). Direção: Victor Sjöström. Com Lillian Gish. Foi Lillian Gish quem primeiro se apaixonou pelo romance de Dorothy Scarborough, desejando enterpretar a jovem sulista, de família, que vai ao Texas para casar-se, mas é violentada no trem por um desconhecido, acabando por matá-lo e por enlouquecer, em meio à tempestade de areia provocada pelo vento contínuo. As filmagens foram das mais penosas. O calor do deserto era tanto que a película derretia dentro da câmera. Foi preciso que os técnico levassem todo o material congelado para as filmagens. A areia era lançada sobre Lillian Gish por oito hélices de avião, junto com produtos sulfurosos que lhe queimavam a pele e quase a deixaram cega. Seus cabelos estragavam-se em contato com o vapor de enxofre e a fricção de areia e os atores deviam se curvar sobre as montarias para tentar permanecer em cena. A melhor seqüência é quando Lillian Gish, depois de matar seu agressor, tenta enterrá-lo sozinha. É sobre-humano o seu esforço em esconder o cadáver sob um monte de areia. Cavar dunas ao vento é uma verdadeira agonia. Quando finalmente ela consegue enfiar o corpo dentro da cova e cobri-lo com areia fina, volta para sua cabana, aliviada. Mas o vento continua a soprar, batendo em sua janela, lançando areia na vidraça. Logo ela se depara com um horrível espetáculo: o vento está desenterrando o corpo, espalhando a areia – já a cabeça do morto aparece descoberta… Nesse filme mudo, a constância do vento é tão marcante, os detalhes que revelam sua presença tão concretos que ao fim da sessão sai-se com a impressão de ter assistido a um filme sonoro: ninguém consegue lembrar-se de suas imagens sem o silvo do vento que parece acompanhá-las. É como se Victor Sjöström tivesse criado a imagem sonora silenciosa…

The scarlet letter (A letra escarlate, EUA, 1926, 98’,p&b, mudo). Direção: Victor Sjöström. Com Lillian Gish, Lars Hanson, Henry Walthall, Karl Dane. Na puritana Boston de 1645, o reverendo Arthur Dimmesdale apaixona-se pela jovem Hester Prynne (Gish). Ele está disposto a casar-se com ela, mas a moça já é casada com um homem mais velho que se encontra há muito tempo fora do país. Dimmesdale também viaja e fica vários meses afastado. Ao retornar, descobre que Hester deu à luz a um filho seu e recusa revelar o nome do pai da criança. Por força da moral da época, ela foi obrigada a usar uma letra “A” bordada na roupa, como sinal público de adultério.

Fontes: 

The San Francisco Silent Film Festiva 2009: http://www.silentfilm.org.

Kino Eye: http://www.kinoeye.org/02/05/umland05.php.

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ROUBEN MAMOULIAN

Fredric March em Dr. Jekyll and Mr. Hyde (1931)

Dr. Jekyll and Mr. Hyde (O médico e o monstro, EUA, 1932, p&b, horror). Direção: Rouben Mamoulian. Com Fredric March, Miriam Hopkins, Holmes Hebert. Primeira versão sonora da novela de Robert Louis Stevenson. Um respeitável médico (March) faz experiências químicas no próprio corpo e se converte, sempre que ingere sua fórmula, num monstro deformado e perverso, que leva uma prostituta (Hopkins) ao suicídio, de tanto torturá-la física e moralmente. O filme faz das ambiguidades sexuais do texto de Stevenson uma leitura um pouco dirigida, concentrando as perversões sexuais sugeridas, como práticas do monstro, num caso concreto e singular de sadomasoquismo heterossexual patológico – pela própria natureza da imagem, o cinema sempre reduz ao singular concreto o universal abstrato da literatura; e o singular concreto do cinema é sempre determinado pela sexualidade dominante na sociedade. Enfim, mesmo reduzindo o imaginário original a uma paródia do casamento, pervertido nas relações mórbidas entre uma prostituta decaída e um cliente medonho, o filme consegue evocar todo o o horror da monstruosidade latente na sexualidade humana. A máscara simiesca que transforma o rosto de March é muito efetiva, e o ator foi premiado com o Oscar por sua dupla caracterização de médico e monstro.

CLARENCE BROWN

Flesh and the Devil

The Last of the Mohicans (EUA, 1920, 73′, p&b, mudo). Direção: Clarence Brown, Maurice Tourneur. Com Wallace Beery, Barbara Bedford. Elogiada adaptação da novela de James Fenimore Cooper, capturando sua essência sem alterar sa trama básica. Durante as guerras entre os franceses e os índios, duas irmãs tentam encontrar o pai desaparecido, um oficial britânico, quando defendia o Huron contra os franceses e seus aliados. As duas heroínas são ajudadas pelos Chingachgook e por Uncas, o último remanescente da tribo dos Moicanos, que também conta com seus amigos Hawkeye, aliados que habitam a fronteira. 

The Light of Faith (EUA, 1922, 33’, CM, p&b, mudo). Direção: Clarence Brown. Com Lon Chaney, Hope Hampton. 

The Eagle (O Águia, EUA, 1925, p&b, mudo, drama). Direção: Clarence Brown. Com Rudolph Valentino, Vilma Banky. Um dos melhores filmes estrelados pelo mais magnético galã do cinema mudo – uma pena que Rodolfo Valentino nunca tenha contracenado com Greta Garbo: seria o filme mais erótico do cinema silencioso. 

Kiki (EUA, 1926, p&b, mudo). Direção: Clarence Brown. Roteiro: Hanns Kräly, baseado na peça de André Picard. Direção de Arte: William Cameron Menzies. Com Norma Talmadge, Lew Cody, Ronald Colman. Uma espirituosa parisiense (Talmadge, numa de suas raras performances cômicas) está decidida a tornar-se corista e conquistar o coração do empresário musical (Colman), ainda que ele já esteja comprometido com uma beldade loira. 

Flesh and the Devil (A carne e o diabo, EUA, 1926, p&b, mudo, drama, romance, gay). Direção: Clarence Brown. Com Greta Garbo, John Gilbert, Lars Hanson. O filme vai trançando duas tramas finíssimas. A primeira é a história da amizade entre dois homens, Ulrich Von Eltz (Hanson) e Leo Von Harden (Gilbert), que fazem na infância um pacto de sangue para que nada os separe, sob a Estátua da Amizade – dois homens musculosos se enlaçando – cravada no meio de uma ilha deserta que eles chamam de Ilha da Amizade; a segunda é a história da paixão de Von Harden pela exótica vamp Felicitas (Garbo), que o fisga para só depois revelar estar casada. Um mero detalhe para ela, que passa essa informação ao amante logo depois de ser possuída por ele e trocarem anéis de fidelidade, e um pouco antes da chegada do marido. Assim Felicitas expõe Von Harden ao Conde Von Rhaden, justificando-se simplesmente: “Minha única desculpa é que te amo.” Essa deixa lançada ao amante é como um tapa na cara do marido, que, poupando a esposa desavergonhada, desafia o amante para o duelo de morte. A cena do duelo é magnífica, toda em silhuetas recortadas no horizonte, um teatro de sombras enquadrado com a câmara recuada até uma perspectiva abismal, deixando ver apenas a fumaça saindo dos dois canos das pistolas a cada extremidade lateral da tela…  Ficamos sabendo quem morreu na contenda na elipse que constitui a cena seguinte, que enquadra apenas Felicitas ao espelho do toucador de seu quarto, provando, coquete, o mais novo acessório de seu guarda-roupa: um véu negro. Ela então sorri discretamente, pois está feliz com a morte do marido, com a herança conquistada, com a porta aberta para um novo casamento… Deslumbrante destruidora de corações, Felicitas, que traíra o marido com o amante, não demora em trair o amante, agora engajado no front, com o melhor amigo dele. Von Harden pedira ao riquíssimo Von Eltz que consolasse uma pobre víuva em sua ausência. Sem suspeitar que von Harden o havia traído com aquela bela estranha, ele se deixa envolver por ela. E como Felicitas não conseguia resistir a um rico casamento, quando von Harden retorna, é tarde demais. Logo Von Eltz cai em depressão, abandonado pelo amigo, que finge não gostar de Felicitas para evitar situações constrangedoras. Como na ida dos três juntos à Igreja, quando ouvem o padre furioso que suspeita de tudo fazer um sermão sobre a carne e o diabo. Inútil sermão: ao beber do sangue de Cristo na taça comum, logo depois de Von Harden, que deixa escorrer uma gota do vinho, Felicitas vira a taça para colar seus lábios ali e beber aquela gota… A única crise de consciência que Felicitas tem é quando, prestes a fugir com Von Harden, ganha de Von Eltz um lindo bracelete de diamantes: para compensar sua rarefeita presença no leito conjugal, ele a mima assim com presentes caros. E agora?  Que fazer? Fugir com o amante ou ficar com o marido, isto é, com o bracelete? Ela se descabela, se contorce, se dilacera. É um dilema cruel. Também no final ela é movida por uma crise de consciência, mas esta é provocada pela própria Providência Divina, através da irmã de Von Eltz que ama Von Harden secreta e inutulmente: ela implora a Deus e este então envia Felicitas para um destino trágico, reconciliando os dois amigos na doce Iha da Amizade. Foi rodado um final alternativo heterossexual. Mas o original é bem melhor e parece que o público da época aceitou-o bem, já que Felicitas era o próprio Diabo no corpo de Greta Garbo, a atriz mais perfeita e a mulher mais linda do mundo. 

Anna Karenina (Anna Karenina, EUA, 1935,95′, p&b, drama). Direção: Clarence Brown. Com Greta Garbo, Fredric March, Freddie Bartholomew, Basil Rathbone, Maureen O’Sullivan. Baseado na clássica novela de Leon Tolstoy. São Petersburgo, 1880. A bela Condessa Anna Karenina (Garbo) abandona seu confortável casamento com Karenin, rico funcionário do governo, e seu adorável filhinho, para viver uma súbita paixão pelo Conde Sergei Vronsky, que conheceu em Moscou quano foi ajudar o irmão Stiva a resolver uma crise conjugal. Ao descobrir a traição, Karenin proíbe a esposa de ver Sergei. Mas ela viaja com amante para a Itália, para viver momentos tórridos. O romance, contudo, vai esfriando, e Anna, cada vez mais saudosa do filho, vê-se num beco sem saída. 

Wife vs. Secretary (Ciúmes, EUA, 1936, 88′, p&b, comédia). Direção: Clarence Brown. Com Clark Gable, Jean Harlow, Myrna Loy, James Stewart. O editor Van Stanhope (Gable) é um executivo dinâmico que tem com a bela Linda (Loy) um casamento feliz. Mas os amigos do casal e até a sogra de Linda a alertam sobre a secretária  Whitney (Harlow), de quem até o namorado desconfia. Quando o executivo e a secretária viajam a negócios para Havana, Linda decide agir. 

The rains came (E as chuvas chegaram, EUA, 1939, 103′, p&b, drama). Com Tyrone Power,  Myrna Loy, George Brent, Brenda Joycem Nigel Bruce, Maria Ouspenskaya. Baseado na novela de Louis Bromfield. O sedutor Tom Ransome (Brent), amigo do respeitado médico indiano Major Rama Safti (Power), leva uma vida à toda, há anos, em Ranchipur. Numa recepção na corte da Maharani (Ouspenskaya), Ransome, que se envolve com a jovem Fern Simon (Joyce), reecontra a ex-amante Lady Edwina Esketh (Loy), agora casada com o empresário Lord Esketh (Bruce). Ela aproveita um corte de energia para tentar reatar seu antigo affair com Ransome, embrenhados numa sala isolada do palácio.  Emergindo do apagão, logo ao retornar à sala de jantar ela espicha o olho para o Major Rama:  – Ele não é nada mau, nada mau – cochicha ao ex-amante, dizendo em seguida ao marido, que parece adoentado:  – Não se preocupe que o médico de Ranchipur não é mau. Na manhã seguinte, o médico é chamado para tratar de Lord Esketh e, após a consulta, convidado para um chá com a Lady, que pede que ele mostre um pouco da cidade no dia seguinte: vão a uma escola de música, que ela confunde com um asilo de loucos, e onde ouvem uma triste canção de amor. O romance parece inevitável. Mas o médico é sério e resiste aos encantos de Lady Esketh. Mais tarde, Ransome acompanha Lady Esketh a outra festa, enfurecendo o marido acamado, que anota o nome dele numa lista, que ele elabora com cuidado, contendo os nomes dos amantes da esposa…  Durante a recepção, em meio a uma conversa fútil entre Lady Esketh e Ransome , um terromoto arrasa a cidade, rompe o dique e faz a inundação inundar toda Ranchipur, matando milhares de pessoas. Logo uma peste irrompe. A vida de todos é subvertida. A Maharani, que perdeu seu Marajá na tragédia, pede a Ransome que assuma o cargo de seu conselheiro pessoal e planeja a sucessão do poder para o Major Rama. Aceitando a missão, Ransome indica Fern como assistente. Feliz em poder ajudar o homem que ama, Fern causa inveja em Lady Esketh que, agora apaixonada pelo Major Rama, imita a jovem e se voluntaria como enfermeira para cuidar dos empestados. A Maharani, contudo, tem planos para o Major Rama e ordena a deportação de Lady Esketh. Encarnando agora o papel de santa, Lady Esketh cuida dos doentes com dedicação, mas essa abnegação leva-a a  uma distração fatal: sonolenta, ela bebe água do copo contaminado de uma empestada. Morre redimida, permitindo que o Major Rama – a nova Índia liberta do misticismo irracional -, assuma o poder em Ranchipur. A trilha sonora de Alfred Newman é especialmente brilhante na seqüência em que Lady Esketh se contamina: desde o início dessa seqüência sabemos o que acontecerá graças à música – mas não sabemos como acontecerá aqulilo que prevemos que acontecerá, graças à brilhante direção de Clarence Browm. Segundo o IMDB, as cenas de catástofe consumiram 50 dos 100 dias de filmagens, e nelas foram usados 33 milhões de galões de água. Ranchipur foi construída em 18 acres do terreno dos fundos do estúdio da Fox. Só o palácio do Marajá, arruinado no terremoto, custou 75 mil dólares (uma fortuna na época). O rompimento do dique foi filmado em duas noites usando 14 câmaras. Foi o primeiro filme a ganhar um Oscar por Melhores Efeitos Visuais (categoria então chamada de Melhores Efeitos/Efeitos Especiais), para Edmund Hansen (som) e Fred Sersen (efeitos visuais), que conseguiram assim vencer os efetistas que criaram o incêndio de Atlanta em Gone with the Wind (E o vento levou). De fato temos aqui uma catástrofe ainda mais espetacular: tão convincente que parece filmada ao vivo. Além do aspecto simbólico da estátua da Rainha Vitória submergindo nas águas – uma ácida crítica americana ao colonialismo britânico -, a seqüência proporciona um grande prazer sádico-visual: nada como ver uma cidade inteira ruindo de ponta a ponta, casas desabando sobre massas em fuga, vigas esmagando corpos anônimos, torrentes arrastando milhares de pessoinhas, placas afundando multidões em crateras tectônicas abertas no solo encharcado. Bravo! Uma catástrofe perfeitamente encenada possui algo de mágico que é sempre revigorante. 

Edison, the Man (Edison, o mago da luz, p&b EUA, 1940, 107’, p&b, drama). Direção: Clarence Brown. Com Spencer Tracy e Rita Johnson. Cinebiografia de Thomas Edison que culmina com sua descoberta da luz elétrica. 

The Human Comedy (A comédia humana, EUA, 1943, 118’, p&b, drama). Direção: Clarence Brown. Roteiro: William Saroyan. Com Mickey Rooney, Frank Morgan, James Craig, Danna Reed, Marsha Hunt, Van Johnson. O filme é narrado pelo fantasma de um pai que descreve sua família. Trata-se de um verdadeiro poema em imagens, escrito por William Saroyan. Uma lição de humanismo em plena Segunda Guerra Mundial, procurando encontrar o sentido da vida em meio à mortandade em curso, confortando as esposas e mães que são deixadas sozinhas em casa; os idosos que perdem seus filhos na guerra ou se vêem na iminência de perderem seus empregos com a mudança dos padrões industriais; as crianças e adolescentes que crescem confusas num  mundo conturbado. O eixo da narrativa é o departamento de telegramas do Correio, que acolhe e desencadeia os dramas existenciais dos moradores da pequena cidade de Ítaca. Há dois personagens que aparecem por minutos e se tornam inesquecíveis: o menino feioso e solitário que vai à biblioteca sem nem saber ler, apenas para ver e admirar os livros que o encantam com as formas e cores de suas encadermações; ele se sente tão sozinho que passa uma hora na fila do cinema – não para ver o filme, mas para poder ficar perto de outras pessoas; a professora que explica a dois alunos que se pegam por uma menina o que significa ser um homem civilizado numa democracia; logo em seguida, ao ser desrespeitada por um treinador do colégio, que usa da mentira para obter privilégios para o aluno rico – que ele treina – vencer a corrida, ela não hesita em transgredir seus princípios abstratos para impedir que o aluno pobre – que é mais capaz – seja concretamente prejudicado na disputa. 

The White Cliffs of Dover (Evocação, EUA, 1944, p&b, mudo, drama, romance). Direção: Clarence Brown. O título original é mais poético que o nacional: “Os brancos rochedos de Dover”. Irene Dunne é uma jovem americana que vai passar as férias em Londres e acaba se apaixonando por um baronete inglês, interpretado pelo belo ator Alan Marshal, um nome  hoje esquecido. Ela se casa com o baronete, e logo o perde na Primeira Guerra. Alguns anos depois, o filho que ela teve com o baronete cresce saudável no campo, encantado com a filha de uma família de dependentes (Elizabeth Taylor, uma boneca de 10 anos de idade). A cena em que o garoto recebe dois nobres amiguinhos alemães para o chá é brilhante: jovenzinhos hitleristas, eles se comportam como espiões atrapalhados em suas mentiras, já anunciando, contudo, de modo sinistro, a próxima guerra e suas novas tragédias. Enfim, chorei muito. Que filme… O que era o cinema então… O que é o cinema agora… Nada mais presta… 

National Velvet (Virtude selvagem, EUA, 1944, 123′, cor, drama). Direção: Clarence Brown.Com Elizabeth Taylor, Mickey Rooney, Donald Crisp, Anne Revere, Angela Lansbury. Baseado no romance de Enid Bagnold. Desgostoso da vida depois de sofrer um acidente, Mike Taylor (Rooney), jovem ex-jóquei inglês, planeja roubar a família que o abrigou. Mas vacila diante da bondade da menina Velvet (Taylor, aos 11). Os dois adoram cavalos.  Quando Velvet ganha um alazão numa rifa, ela o inscreve no Grand National Sweepstakes. Embora Mike não possa correr, ele ajuda a menina a se disfarçar de jóquei: e ela ganha a corrida. Anne Revere ganhou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. 

The Yearling (Virtude selvagem, EUA, 1946, 128′, cor, drama). Direção: Clarence Brown. Com Claude Jarman Jr., Gregory Peck, Donn Gift, Jane Wyman. Adaptado da obra de Marjorie Kinnan Rawlings, ganhadora do Prêmio Pulitzer. Flórida, 1870. Em meio à natureza selvagem, pioneiros criam pequenas ilhas de civilização. Nessa terra fértil e de grande beleza, mas nem sempre receptìva à espécie humana, o menino Jody Baxter (Jarman Jr.), de 11 anos, tenta convencer os pais Ezra (Peck) e Orry (Wyman) a que o deixem ter um bichinho de estimação.  Isso significa uma boca a mais para ser alimentada, o que torna o desejo do menino um sonho proibido. Endurecida pela vida de trabalho incessante e pela morte de seus três primeiros filhos ainda crianças, Orry nem sequer tem um poço perto de casa para poder lavar a roupa e banhar-se: ela vive se queixando de tudo, eternamente mal humorada. Já Ezra esbanja energia e otimismo, é o pai perfeito, o melhor amigo de Jody, capaz de enxergar um lado bom até numa tragédia: mesmo ferido de morte, ele se levanta e segue em frente, sem nunca desistir. Quando ele quase morre picado por uma cascavel, manda Jody – tão alegre e vital quanto ele –  sacrificar uma corsa para usar seu coração e fígado para absorver o veneno. O menino salva assim o pai, mas descobre que a corsa tinha um filhote, que agora ficou só e abandonado. Decidido a adotar o bichinho, o menino convence o pai a convencer a mãe a deixar que ele o traga para casa. A mãe reluta, mas, considerando que o marido quase morreu e conseguiu sobreviver através do sacrifício da corsa, acaba aceitando. O filhote, chamado de Flag, logo cresce e começa a destruir as plantações. Nem mesmo uma cerca, erguida a duras pelas por Jody, numa tentativa desesperada de manter a corsa consigo, consegue deter Flag e impedir que ela devore as mudas que foram plantadas com grande sacrifício. Enfim, o pai exige que o filho amarre Flag numa árvore e a mate com um tiro. O filho não consegue fazê-lo, deixa Flag fugir, mas no dia seguinte ela retorna à plantação, e Orry a fere com um tiro. Jody termina o sacrífio jurando ódio eterno aos pais. Fugindo de casa, passa três dias sem comer, perdido num barco… Mas acaba retornando, menos intrépido e mais amadurecido, tendo aprendido que a vida é boa, mas difícil, e que não se pode conquistar nada  – nem um poço de água para a mãe – sem sacrifícios. A família se reconcilia e o filho dorme em paz, sonhando com Flag, não com tristeza ou dor, mas como um jovem adulto que recorda o momento mais feliz de sua infância… Em esplêndido Technicolor, o filme foi indicado a sete Oscars, tendo recebido dois: o de Melhor Direção de Arte e o de Melhor Fotografia em Cores. Peck ganhou o Globo de Ouro de Melhor Ator.  Mas Jarman Jr. e Wyman mereciam igualmente os prêmios máximos do cinema americano por suas antológicas perfomances.

Song of Love (Sonata de amor, EUA, 1947, 118′, p&b, drama romântico). Direção: Clarence Brown. Com Katharine Hepburn, Paul Henreid, Robert Walker, Else Janssen, Henry Daniell.  A extraordinária pianista Clara Wieck (Hepburn) abandona a carreira para dedicar sua vida ao brilhante, mas ainda obscuro compositor Robert Schumann (Henreid). Os anos passam. Esposa e mãe devotada, Clara desdobra-se para cuidar de seus sete filhos, com a ajuda da temperamental governanta Bertha (Janssen), enquanto Robert leciona música para sustentar a família. Entre seus alunos, destaca-se o jovem Johannes Brahms (Walker), que passa a morar com os Schumann. Johannes apaixonou-se por Clara desde o primeiro dia em que a viu, mas esse romance permanece platônico até o fim. Clara adora o marido, que começa, contudo, devido às dificuldades econômicas e à falta de reconhecimento – apesar de todo o apoio que recebe do bem sucedido Franz Liszt (Daniell) a soçobrar na melancolia. É internado num asilo, onde imagina ter acabado de compor a primeira sonatina que dedicara a Clara como presente de casamento. Com a morte de Schumann, Clara é revisitada por Brahms, que ainda a ama, e deseja desposá-la, mas ela insiste em permanecer fiel ao falecido, passando a dedicar o resto da vida a divulgar, nos teatros, suas composições imortais. O filme termina com seu concerto de despedida, já idosa, em presença de Sua Majestade, que criança a vira tocar, encantado, naquele mesmo teatro, aquela mesma sonatina de Schumann. Pouco antes de a música terminar, a câmara afasta-se do piano, abarcando o palco, ampliando sempre o travelling panorâmico em recuo, voando delicadamente de costas até o lugar mais alto do teatro, visto agora em magnífico plano geral: e quando a música termina, no último estágio do travelling, podemos, junto com as mãos de um espectador anônimo, fechar o programa do concerto, ornado com um camafeu com os perfis de Clara e Schumann, gravado em delicado alto relevo, e por que não dizer, em puro ouro cinematográfico.

To Please a Lady (Agora sou tua – Indianapolis, EUA, 1950, 95′, cor, comédia romântica). Direção: Clarence Brown. Com Clark Gable, Barbara Stanwyck. Mike Brannan (Gable), arrogante piloto de provas, odiado e admirado na mesma medida, é acusado de provocar um acidente fatal. Investigando o caso, a dura repórter Regina Forbes (Stanwyck) tenta entrevistar o escorregadio corredor. 

Angels in the Outfield (EUA, 1951, 99′, p&b). Direção: Clarence Brown. Com Paul Douglas, Janet Leigh, Keenan Wynn.

LINA WERTMÜLLER

Lina Wertmüller

Lina Wertmüller nunca foi bem apreciada pelos críticos, nem mesmo na Itália, ou especialmente lá. Seu feminismo causava repulsa nos machistas italianos nos anos de 1970. Seu anarquismo assustava os comunistas que dominavam a crítica. Pode ser difícil gostar sem restrições de seus filmes: eles sempre acabam desapontando, ficando aquém de suas promessas. Mas é preciso reconhecer que ela é brilhante em muitos momentos de todos eles. Que mais se poderia exigir de um autor de cinema?

Como escritora, Lina Wertmüller é igualmente notável: sua novela A cabeça de Alvise é uma pequena obra-prima. Mas não recebeu os elogios que merecia em sua época e foi esquecida. Mas poucas vezes um estudo sobre a inveja que corrói um coração foi tão engraçado e cinematográfico. É um mistério que Wertmüller não tenha querido transformar seu livro em um filme, já que as cenas já estavam todas prontas, como num maravilhoso roteiro… Enfim, mesmo boicotada pelas mídias, Lina Wertmüller continuou em sua intrépida e coerente trajetória de cineasta anarquista.

Sotto… sotto… strapazzato da anomala passione (1984) aborda o lesbianismo, com seqüências suntuosas passadas num jardim maravilhoso. Certa vez, em Roma, quis saber onde se localizava aquele jardim, decorado com grotescas e enormes figuras de pedra.  Perguntei a um jornaleiro. Um cliente idoso que estava ali à toa ouviu minha descrição do jardim e concluiu com ar de cansaço e nonchalance:  “A Itália está cheia dessas coisaa… belíssimas!”, a última palavra saiu quase que sem querer,  num súbito e incontrolável entusiasmo. Assim são os italianos…  Nunca descobri onde ficava o jardim do filme.

In una notte di chiaro di luna (1989), com Nastassia Kinski, Rutger Hauer, Peter O’Toole e Faye Dunaway, é sobre a paixão levada aos seus limites. E também sobre o pavor extremo desencadeado pela AIDS – a ponto de destruir as mais belas paixões. É impressionante a cena do restaurante, quando o jornalista (Hauer) que faz uma reportagem sobre a AIDS, passando-se por um soropositivo, revela ao garçom sua condição: os olhares de terror, a discriminação silenciosa, o pedido para que ele se retire… o jornalista descobre, no papel de um doente de AIDS,  o mundo de intolerância paranóica que subjaz na elite de Veneza, de aparência tão liberal e moderna… Mais tarde, ao fazer um exame de sangue, descobre-se soropositivo… Fugindo do grande amor de sua vida (Kinski) – que passa o resto do filme a procurá-lo, desesperada – ele se alia a uma milionária soropositiva (Dunaway) que faz de seu escuro apartamento de alto luxo em Nova York um Bunker, uma nova masmorra medieval, para  investir toda sua fortuna em pesquisas científicas, até descobrir a cura da maldita doença. O reencontro de Rauer e Kinski no final emociona: ele confessa que a amava demais, que temia tanto sua rejeição que preferiu afastar-se…

Metalmeccanico e parrucchiera in un turbine di sesso e di politica (Itália, 1996, 101′, cor, comédia política). Direção: Lina Wertmuller. Com Tullio Solenghi (Tunin Gavazzi), Gene Gnocchi (Zvanin), Veronica Pivetti (Rossella Giacometti). Em meio à paixão avassaladora por uma mulher de visão política oposta, um mecânico que se vê desempregado tenta preencher seu tempo livre de maneira criativa, segundo a utopia do sociólogo italiano Domenico de Masi – que sugere que o tempo livre seja cada vez mais utilizado com coisas sem custo financeiro nem obsessão com o consumismo: com amizade, amor e sexo, vagabundagem, meditação e jogos…

ROMAN POLANSKI

Em 1977, a jovem Samantha, com 13 anos de idade, mas não mais virgem, foi posar para uma sessão de fotos, dirigida por Polanski, para a revista Vogue. A mãe de Samantha, que a empresariava,  também deve ter autorizado seu comparecimento, sozinha, à festa regada a drogas na mansão de artistas permissivos de Hollywood, onde tudo podia acontecer. Pensava essa mãe que a festa era para beber Coca-Cola e ver desenhos animados na TV?

Polanski foi condenado a 90 dias de prisão. Depois de 42 dias de cárcere, foi liberado após fechar um acordo financeiro com a vítima. Não esperou que o juiz, determinado a renegar o acordo e condená-lo a muitos anos de cadeia, concluísse o processo: fugiu dos EUA em 1978 e passou as décadas seguintes livre na Europa, filmando na Espanha, Alemanha, Itália, Suíça e Tunísia.[1]

Em 2009, convidado pelo Festival de Cinema de Zurique, onde receberia um prêmio pelo conjunto da obra, Polanksi foi subitamente detido, a pedido dos EUA, pela polícia suíça, que reativou o mandado internacional de prisão que vigora contra ele desde o processo inconcluso de 1977.

No escândalo requentado pelo politicamente correto, Polanski passou a ser perseguido pelas mídias como um perigoso pedófilo. A nova fantasia que evoca o termo pedófilo serve perigosamente para caracterizar não mais o abuso sexual de bebês e crianças por adultos, mas também o sexo consensual entre adolescentes e adultos, com forte discriminação dos homossexuais: na polêmica envolvendo sacerdotes pedófilos, uma alta autoridade do Vaticano chegou a declarar que os padres pedófilos eram apenas os homossexuais…

The Ghost Writer (O escritor fantasma, 2010)

Depois de passar dois meses numa prisão suíça, o cineasta ficou detido no seu chalé alpino, aguardando a decisão sobre sua extradição. Ali ele pode finalizar  a pós-produção de The Ghost Writer (O escritor fantasma, 2009-2010),  mas não pode comparecer à première mundial do filme no Festival de Berlim nem pode receber o prêmio que ganhou de Melhor Diretor no 23º European Film Awards.

Em The Ghost Writer (O escritor fantasma, 2010), a arte de Roman Polanski ressente-se de uma propaganda ideológica nada sutil, concentrada na crítica – mais ou menos velada, mais ou menos óbvia – ao ex-Primeiro Ministro Tony Blair, culpado por “tudo o que deu errado na política inglesa.”

Nessa visão supercial – a partir da novela The Ghost, de Robert Harris -, a discussão do terrorismo e da tortura torna-se pífia diante do mistério enterrado no universo paranóico, que Polanski sabe como poucos criar.

O mistério é escavado aos poucos pelo Fantasma (Ewan McGregor), o personagem sem nome do escrevinhador, um tipo  simpático, mas sem noção do perigo, com o qual não conseguimos nos identificar o bastante para lamentar o que lhe ocorre nas cenas finais.

A melhor coisa do filme, aliás, é o soco verbal que o Fantasma recebe de Ruth (a ótima Olivia Williams), esposa do farsesco político Adam Lang (Pierce Brosnan), quando o escrevinhador pergunta porque ela não quis se tornar também uma política como o marido:  “E porque você não quis se tornar um bom escritor?”

O mistério até que poderia conduzir a uma revelação transcendente, como em Rosemary’s Baby (O bebê de Rosemary, EUA, 1968) ou Le Locataire (O inquilino, França, 1976). Mas Polanski evita lançar os espectadores nos abismos do terror e o filme acaba se apequenando ao refugiar-se na banalidade.

A conspiração da CIA, engendrada para manipular o governo inglês a favor dos interesses norte-americanos, transcorre de acordo com a cartilha paranóica da esquerda, sempre pronta a minimizar o terror para condenar seu combate como “paranóia estadunidense”.

Ao adaptar um best-seller antiamericano da nova literatura inglesa, Polanski deve ter querido vingar-se: embora as autoridades suíças tenham decidido em 2010 que ele não seria extraditado, o processo kafkiano continua aberto. Mas, ao ferir injustamente seus acusadores, Polanski aqui feriu também a sua arte.

Carnificine (O deus da carnificina, 2011)

Entre 31 de janeiro e 14 de março de 2011, Polanski rodou em Paris um novo huis-clos: Carnificine (O deus da carnificina, 2011), que se passa inteiramente dentro de um apartamento. Com este filme, Polanski  ganhou o prêmio de Melhor Diretor no 60º Festival de Berlim

La Vénus à la fourrure (2013)

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Vi com Cris La Vénus à la fourrure (A pele de Vênus, 2013), a partir de uma peça de David Ives. Apenas dois atores sustentam o novo huis-clos de Polanski. Após uma linda abertura pelas ruas de Paris sob um céu de chumbo, a ação transcorre toda dentro de um pequeno teatro, numa fria noite de tempestade.

Vanda Jordan (Emmanuelle Seigner), uma atriz que beira a decadência sem ter conseguido destacar-se, chega atrasada ao teste de atores para a nova peça do diretor Thomas (Mathieu Amalric), por ele adaptada do romance Vênus em casaco de pele, de Leopold von Sacher-Masoch. Abusando do visual gótico-sadomasô, Vanda pensa ser a pessoa ideal para encarnar Wanda von Dunayev.

O diretor já encerrou as audições, sem encontrar os atores certos, e não vê na candidata retardatária nenhuma qualidade especial que o comova, apressando-se em despachá-la. Com truques que apelam à vaidade e ao fetichismo do diretor, Vanda consegue, contudo, convencê-lo a mudar de ideia.

Thomas acaba ensaiando com a atriz quase a peça inteira, assumindo o papel do pervertido aristocrata Severin, que deseja ser dominado por Wanda, num jogo sadomasoquista entre atriz e diretor no entra-e-sai da pele de seus personagens. Apenas no final, quando Thomas deixar cair suas últimas defesas, Vanda revela seus verdadeiros e sinistros propósitos.

Após o nazismo na Polônia ocupada, com sua infância no gueto e o assassinato da mãe em Auschwitz; do comunismo na Polônia do pós-guerra, do qual fugiu de carro até Paris; do assassinato da primeira esposa, Sharon Tate, grávida, por quem estava apaixonado, pelos psicopatas de Charles Mason; e da suspeita infame da mídia de que ele havia participado do crime, Polanski parece aludir em La Vénus à la fourrure ao último pesadelo de sua vida.

Seigner, a segunda esposa de Polanski, que estrelou outros filmes seus, para o injusto desgosto da crítica, que recusa conhecer seu talento (ela está ótima no papel da azarada Vanda) contracena com Amalric, parecido com o cineasta, e cujo personagem cai, como o diretor na vida real, numa ratoeira sexual armada pela sanha do politicamente correto.

O politicamente correto é, de fato, a nova peste totalitária, a minar a liberdade dos indivíduos pela imposição violenta de sentimentos de culpas sociais pelas “minorias oprimidas”, numa empresa de equalização forçada.

Em La Vénus à la fourrure, Polanski mostra que ainda está em forma, agora com o apoio de sua Polônia natal, mas permanece limitado ao limbo da produção independente europeia, sem perspectivas de reinserir-se no panteão de Hollywood.

Notas

[1] http://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2013/09/polanski-fala-sobre-impacto-de-condenacao-por-crime-sexual-em-1977.html.

TINTO BRASS

Vanessa Readgrave e o 'falo' apropriado por Kubrick, em Drop-out (1970), de Tinto Brass

Drop-Out (1970). Direção: Tinto Brass. Roteiro: Tinto Brass, Franco Longo. Com Franco Nero (Bruno), Vanessa Redgrave (Mary). Os dois protagonistas, co-produtores do filme, formavam um dos mais belos casais na vida real. Vi o filme no cinema uma única vez: nunca mais o exibiram em lugar nenhum, e não existem cópias dele no mercado mundial de vídeo. Trata-se, até onde me lembro, de um belíssimo mix de filme underground e de filme noir.  Era impressionante uma cena de tortura com gângsters anões e a força devastadora das imagens finais, carregadas de vermelho, durante um apocalíptico concerto de rock.  No site de um fã de Tinto Brass pode-se ler uma denúncia de escandalosa apropriação feita por Stanley Kubrick em A Clockwork Orange (Laranja mecânica, 1971) de três obras de arte que decoram o apartamento da personagem Mary (Redgrave): a escultura fálica The Rocking Machine, de Herman Makkink; a peça Christ Unlimited; e um quadro pop erótico de uma mulher em posição de coito, obras que decoram igualmente o apartamento da “mulher dos gatos”, assassinada com a escultura fálica. Claro que Kubrick valoriza esses objetos de arte e os torna inesquecíveis pelo seu papel dramático na trama, enquanto que no filme de Brass eles são meros elementos decorativos. Mas não deixa de ser selvagem essa apropriação de elementos de um filme feito apenas um ano antes… Tinto Brass prometia muito antes de enveredar pelo erotismo fácil de Salon Kitty, Caligula e La Chiave, tentando integrar o sexo à política, conservando algum refinamento cinematográfico, mas em imagens sem vida e congeladas. Seus personagens são fantoches antipáticos, cujas sexualidades, mais mentais que físicas, só se realizam mediante a utilização de um arsenal de estímulos. Como o prazer não depende de artifícios, a espetacularização do coito revela aí apenas o fundo de impotência que alimenta o erotômano. Seus últimos filmes – Monella, Fallo!, Così Fan Tutte, L’Uomo che Guarda, etc. – apresentam um erotismo ainda mais vulgar: nada mais resta de seu empenho artístico e de seu engajamento político, que se esboroaram sob uma profusão de seios, nádegas e vaginas.

PRESERVANDO ACERVOS AUDIOVISUAIS

LUIZ NAZARIO responde a Leonardo Oliveira e Rodrigues. Partes da entrevista foram publicadas em: Preservação da memória audiovisual mineira, Jornal FUNDEP, 2008, URL: www.fundep.ufmg.br. Revisão: 27/06/2010.

Como surgiu a idéia e quando teve início a digitalização do acervo da Escola de Belas Artes?

A idéia da digitalização do acervo de vídeos da Escola de Belas Artes surgiu logo após a conclusão do Projeto Filmoteca Mineira (2003), que incluiu a digitalização de importantes títulos dos acervos de películas do FTC e do CRAV. Catalogamos então todo o acervo da Filmoteca da EBA e produzimos a Coleção Filmoteca Mineira, uma caixa com 10 DVDs contendo 50 títulos essenciais de nosso acervo, que hoje podem ser vistos pelo público na Biblioteca da EBA. Já se podem fazer pesquisas com mais facilidade sobre estes filmes, que antes tinham um acesso muito restrito. Faltava, porém, catalogar o acervo de vídeo da EBA, que possui algumas raridades e que, tal como o acervo de películas, corre o risco de desaparecer, seja pela ação do tempo, seja pelo descaso das pessoas, mais preocupadas em produzir “novidades” que em conservar as “velharias” produzidas, que um dia também foram “novidades”.

O que significa a iniciativa para a sociedade, e para a comunidade acadêmica?

Como um chamado “país em desenvolvimento”, o Brasil despreza o passado, não conserva sua produção cultural, substitui sem refletir as construções antigas pelas construções modernas, o velho pelo novo, na contramão do verdadeiro desenvolvimento, no qual o antigo é preservado com o máximo de cuidado como fonte de conhecimento e de prazer estético. Soube que a TV UFMG nada conserva de sua programação, apagando as fitas para reutilizá-las… A mentalidade “desenvolvimentista”, de crescimento destrutivo, é inimiga da memória. Outro dia, meu personal trainer, sabendo que eu trabalhava com cinema, disse-me que tinha assistido a um filme antigo no fim de semana. Fiquei imaginando que filme mudo, que clássico do cinema, o jovem esportista poderia ter visto, quando ele completou a frase: “Um filme antigo… Lá dos anos 90”. Para os jovens de hoje só conta o hic et nunc, o carpe diem… O mundo perde assim suas três dimensões, com passado, presente e futuro. Predomina a idéia unidimensional de um presente contínuo e sempre igual a si mesmo, um mundo, portanto, sem possibilidade de modificação. Por isso a idéia da conservação é revolucionária, e não interessa ao poder.

Como foi/está sendo o processo de transposição/restauração e quais os resultados já colhidos?

Estamos na primeira etapa do projeto, que consiste em catalogar todas as fitas de vídeos da Biblioteca. Nas fitas não seladas, a descrição das caixas pode não coincidir com o conteúdo gravado da TV ou gerado a partir de matrizes de produções da UFMG, doadas por professores, alunos, etc. A revisão das fitas também é necessária para avaliar o estado das cópias e a necessidade de se conservar ou descartar o material. A idéia é também substituir progressivamente os títulos identificados como importantes e que existem no mercado por DVDs selados. Para isso, elaboramos um modelo especial de ficha catalográfica, que servirá tanto para identificar e avaliar todo o conteúdo das fitas quanto para lançar seus dados no sistema Pergamum. Isto será feito com as fitas seladas e também com aquelas que forem identificadas como produções locais, numa forma de divulgação universal de sua existência muito interessante para todos os envolvidos nestas produções. Já o acesso às fitas não seladas e de produção local será, em respeito aos direitos autorais, restrito ao espaço da Biblioteca. Quanto ao processo técnico de transposição, este se encontra hoje facilitado por programas de computador como o Nero, o DivX, o Movie Maker, que autoram um DVD em poucas horas, sem maiores problemas. O projeto não contempla restauração do material, embora algumas edições corretivas nos filmes mutilados por publicidades de TV possam ser feitas. Mas os 50 títulos mais importantes do acervo, ou seja, aqueles que só existem na Biblioteca da EBA e em nenhum outro acervo, constituindo, pois, material exclusivo, estes ganharão matrizes em Mini-DV para sua conservação.

De quantos títulos é composto o acervo e quantos já foram digitalizados?

O Acervo de Vídeo da Biblioteca da EBA possui cerca de 1000 fitas em VHS e DVD, e tende a crescer com a rápida obsolescência do VHS. Hoje não se encontram mais aparelhos de vídeo à venda nos grandes magazines. O mercado já foi inteiramente digitalizado. Muitos colecionadores de vídeo estão se desfazendo de suas fitas, depois de transpor seus conteúdos para o suporte DVD. As doações de fitas de vídeo para as bibliotecas públicas serão, daqui para frente, cada vez mais freqüentes. As bibliotecas, por seu lado, não sabem como lidar com este material. Há instruções, por exemplo, para descartar toda fita que não seja selada, como foi feito com as cópias xérox dos livros. Isto é muito perigoso. Em nome do respeito dos direitos autorais podem ocorrer verdadeiros holocaustos de filmes preciosos para os pesquisadores do cinema, que não os encontram à venda no mercado sob nenhum formato. É preciso agir com cautela nos casos das “fitas piratas”, sem descartá-las cegamente, pois podem conter obras de valor para a pesquisa em cinema. Cito o caso da recente doação de um lote em VHS pela viúva do cinéfilo Antônio Fernandes dos Santos, Elvira Fernandes dos Santos. Seu marido, chamado de “Chamberlain” pelos alunos, depois de aposentar-se gravou uns 1000 filmes da TV, anotando suas fichas técnicas com cuidado. Infelizmente, os títulos deste acervo são em sua maioria dublados e interrompidos a intervalos por anúncios publicitários. Mas também são clássicos do cinema, sobretudo do cinema americano, que podem interessar aos estudiosos e pesquisadores que não dispõem de outras fontes de informação sobre as obras. Estou atualmente processando a revisão deste acervo para nele identificar as raridades que não existem no mercado sob nenhum formato e mereçam integrar a coleção da Biblioteca da EBA. Devo esclarecer ainda que digitalizar todas as fitas da Biblioteca não é um objetivo do Projeto, pois isso seria contraproducente, dada a quantidade de tempo e material necessários para levar a cabo tal tarefa. O Projeto propõe a digitalização de 50 títulos deste acervo – as produções locais de maior valor, que não se encontram digitalizadas em DVD’s, que possam ser encontrados no mercado, preservando a memória do cinema da UFMG, que não existe em outros arquivos de filme.

Quais são os tipos de filme do acervo?

Há um pouco de tudo: filmes narrativos clássicos (Charles Chaplin, Fritz Lang, Sergei Eisenstein, Luis Buñuel, Alfred Hitchcock, Orson Welles, etc.) e modernos (Federico Fellini, Michelangelo Antonioni, Pier Paolo Pasolini, Werner Herzog, David Lynch, Tim Burton, etc.); filmes brasileiros (Igino Bonfioli, Humberto Mauro, Alberto Cavalcanti, Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra, etc.) documentários (A história do Oscar, em dez programas, ou 90 Anos de Cinema: Uma Aventura Brasileira, em seis programas, por exemplo); entrevistas com professores; aulas gravadas sobre animação e história do cinema; vídeos institucionais sobre restauração e história da arte; animações mundiais e locais; produções de oficinas de arte oferecidas nos festivais de inverno de Ouro Preto; exercícios de pencil test realizados em cursos de animação na Escola.

Quais são as obras mais raras ou importantes?

Do ponto de visto do Projeto, que está de certa forma organizando o Acervo de Vídeo da Biblioteca da EBA, as obras mais importantes não são as cópias dos clássicos, das obras-primas, dos filmes consagrados pela História do Cinema. Estes já se encontram preservados pelos grandes arquivos mundiais de filmes e cada vez mais intensamente digitalizados no mercado mundial do DVD. O que conta para nós são as obras produzidas em Minas, sobretudo na UFMG, especialmente na Escola de Belas Artes: somente aqui existem estas obras, aqui elas devem ser preservadas, e a partir daqui tornadas acessíveis. Também considero importantes e raras as fitas com títulos que não podem ser encontrados em DVD ou VHS em nenhum mercado. A vida útil do vídeo é de apenas dez, no máximo quinze anos. Um DVD em tese dura décadas, se bem conservado, mas pode cair no chão, riscar e perder-se de uma hora para outra. Pode-se, porém, gravar seu conteúdo no disco rígido de um computador ou numa fita Mini-DV e com este material pode-se fazer uma nova cópia, exatamente igual à que se perdeu, prolongando indefinidamente a vida da cópia.

Alguma delas, em específico, demandou cuidado especial?

Ainda não entramos na fase da digitalização, estamos na fase de catalogação de todo o acervo, e já temos mais de duzentas fichas catalográficas completas. Isso significa que 200 fitas já passaram pela revisão dos bolsistas e alunos voluntários da EBA envolvidos no Projeto, e que já podemos ter um mapa muito preciso do conteúdo e do estado destas fitas, um lote que consideramos prioritário para o projeto, isto é, as fitas de produção local. É com base nestas fichas que poderemos selecionar as verdadeiras raridades, dentro do número limitado de digitalizações que nos propomos cumprir, dentro do prazo de um ano do Projeto, e com o equipamento e o material adquiridos especificamente para isto. Naturalmente, montada a estrutura da digitalização na Ophicina Digital do FTC e da Biblioteca da EBA, novos DVDs a partir das fitas do acervo poderão ser feitos, sempre que necessário, mesmo após o término do Projeto, que se encerra em dezembro de 2008. Acredito que a digitalização de nosso acervo de vídeos entrará, assim, na rotina de trabalho da Biblioteca da EBA e da Ophicina Digital do FTC. Lamento apenas que as VHS’s da Biblioteca do Teatro Universitário, que eu esperava que fossem integradas ao Acervo da EBA, não possam ser revisadas neste Projeto, uma vez que permanece incerto o destino deste acervo, de 400 fitas, que devem conter raridades, doadas pelo crítico, artista e professor Paula Lima, que viveu na Inglaterra e foi secretário da grande atriz de teatro e cinema Vivien Leigh, a estrela de …E o vento levou. Temo que o vento também leve os vídeos do acervo Paula Lima, isto é, que o tempo apague suas fitas…

O que representa a difusão do DVD e do cinema digital para a produção audiovisual brasileira?

Este mercado ganhou uma amplidão impressionante na última década, para a delícia e o desespero dos cinéfilos colecionadores, que hoje, pela primeira vez desde o nascimento da Sétima Arte, podem ter acesso a uma história viva e sempre ampliada do cinema. Imagine que na minha adolescência em São Paulo eu me dava por feliz quando conseguia assistir, depois de rodar toda a cidade, numa sala remota e empoeirada, com projeção sofrível, a uma cópia riscada, turva, incompleta, de um filme como Metropolis, de Fritz Lang. Recentemente este filme ganhou a restauração digital mais perfeita já realizada numa película, incluindo a regravação da partitura original, nunca antes retomada desde a estréia na Berlim de 1927, pois redescoberta no espólio do compositor depois de dada como perdida, e tudo isso sendo lançado num pequeno disco que podemos adquirir pela Internet, com dinheiro digital, sem sair de casa. Curiosamente, pouco depois foi encontrada uma nova cópia do filme, e todo esse esforço de restauração deverá ser refeito para a produção de uma cópia ainda mais completa, que será lançada numa caixa mais sofisticada, etc. Estamos vivemos um mundo completamente novo, onde o conhecimento é reciclado numa velocidade incrível, com diversas conseqüências, boas e más. Uma delas, talvez a pior, seja o fim do cinema. Assisti ao filme O outro lado numa sala com projeção digital e não pude diferenciar a imagem na tela de uma película projetada, e fiquei triste, pois percebi que estamos chegando ao fim do cinema. Primeiro acabaram os palácios do cinema, depois as salas de rua, agora a película é substituída pelo vídeo. Logo só teremos salas digitais, e cópias em películas serão coisas do passado, junto com os laboratórios, os distribuidores, os projecionistas… O cinema era uma idéia interessante… Obrigava-nos a sair de casa, a ter outros amigos cinéfilos, a marcar encontros, a debater os filmes, a ter uma vida social. Nós cinéfilos fazíamos os maiores sacrifícios para ver um filme, pois sabíamos que, se o perdêssemos, nunca mais voltaríamos a vê-lo. Agora não me aborreço mais se perder todos os filmes em cartaz; posso adquirir uma cópia dele em DVD, assistir à sua reprise na TV a cabo, ver pedaços dele na Internet… Assim nos fechamos cada vez mais em casulos, sem vida social, sem maratonas pelas grandes salas de cinema, sem tardes passadas em sebos e livrarias acolhedoras, sem leitura de jornais em mesas de cafés. Passamos a ser alimentados somente pelo tubo digital, correndo como ratos de laboratório numa esteira que vai da telinha do computador à telinha da TV. Quanto ao audiovisual brasileiro, creio que ele se fará cada vez mais em meio digital, pois o cinema realizado e exibido em película se tornará, cada vez mais, um luxo, um requinte, um prazer raro só experimentado nas grandes capitais do Primeiro Mundo, como Paris, Berlim, Nova York. No resto do mundo, só haverá pequenas salas digitais para nostálgicos do cinema que ainda ousarem sair de casa em busca de outras paisagens, e de outros cinéfilos, que já não existem mais…

Qual a importância da Fundep para a viabilização do projeto?

A Fundep tem uma importância fundamental na medida em que, cuidando da parte burocrática e não-acadêmica do projeto, como aquisição de equipamentos e materiais, contratação de estagiários, pagamento de bolsistas, administração de recursos, permite que os pesquisadores concentrem-se no que efetivamente sabem fazer, otimizando o tempo da pesquisa, que deve ser finalizada dentro de um prazo sempre curto, tendo em vista que ela se processa em meio às obrigações didáticas do professor, entre os intervalos das orientações de alunos, da preparação das aulas, da produção de artigos e livros, da realização de cursos e palestras, das reuniões e concursos, e mesmo das entrevistas de divulgação do próprio projeto…

Qual é a sua avaliação do momento atual do cinema e audiovisual no Brasil?

Eu sou uma força do passado, escreveu Pier Paolo Pasolini. Como este escritor e cineasta italiano, valorizo muito o passado, gosto tanto do antigo que o moderno me interessa pouco. Assim, não acompanho a produção atual, todo o tempo que tenho livre eu passo mergulhado no cinema clássico, na grande literatura, na alta filosofia. Nada que seja momentoso, novo, jovem, louco, bombante, fashion, me atrai. Prefiro a dimensão humana que se perdeu em algum hiato do tempo e que recusa retornar ao mundo presente.