Arquivo do mês: julho 2010

DORIS DÖRRIE

 

 

Kirschblüten - Hanami (2008), de Doris Dörrie

Happy Birthday, Türke! (Alemanha, 1992, cor).  Direção: Doris Dörrie. O detetive privado Kemal Kayankaya, turco criado por uma família alemã, é contratado pela turca Ilter para procurar seu marido Amend, desparecido desde a morte do sogro Vassif. Investigando o caso, o detetiva descobre o submundo da comunidade turca na Alemanha, e a experiência o faz assumir sua identidade étnica. A cineasta alemã tenta aqui recuperar algo da atmosfera decadente e colorida dos filmes de Rainer Werner Fassbinder com a ajuda de uma trilha sonora composta pelo compositor predileto deste diretor, Peer Raben. Mas falta à talentosa Doris Dörrie uma alma atormentada.

Kirschblüten – Hanami (Hanami – Cerejeiras em flor, Alemanha / França, 2008). Direção: Doris Dörrie. Com Elmar Wepper, Hannelore Elsner. Uma dançarina de Butô amadora e frustrada (Elsner), casada com um lixeiro (Wepper), recebe dos médicos a notícia de que o marido está às portas da morte. Sem coragem de contar a verdade aos três filhos – um casado com dois filhos, uma lésbica e outro solteiro que mora no Japão – ela decide apenas visitá-los com o marido. Os filhos sentem-se incomodados com a visita dos pais, que desarranja o cotidiano de suas vidas abastadas e mesquinhas, cheia de trabalho e de estresse. A amante da filha lésbica é a única personagem mais simpática e humana, que se dispõe a dar um pouco de atenção aos velhos. Quando o casal decide passar um tempo a sós no Mar Báltico, a mulher subitamente falece dormindo, durante a noite. O viúvo fica enlouquecido e passa a “incorporar” a esposa, usando secretamente seus vestidos, como forma de compensar seu comportamento diante da esposa, cuja vocação arística ele frustrou. E esse homem tosco, que nunca se interessou por Butô, decide visitar o filho no Japão para satisfazer a “esposa” que ele carrega na mala, sob a forma dos vestidos e colar que ela usava. Depois de perder-se em Tóquio, de freqüentar o bas-fond, de assistir ao florescer das cerejeiras e de irritar o filho com sua presença muda e incômoda, ele conhece uma jovem mendiga dançarina de Butô e empreende com ela uma viagem até o Monte Fuji. Mas o “Sr. Fuji é muito tímido” e está sempre encoberto. Até que, quando o viúvo passa mal de madrugada, sentindo os efeitos de sua doença fatal que ele desconhece ter contraído, apesar de medicar-se diariamente, provavelmente contra a pressão alta, ele se levanta e encontra o Monte Fuji numa visão esplendorosa. Diante dele, ele dança Butô vestido com o quimono da esposa morta e acaba morrendo também, unindo-se à mulher como “dois rolinhos de primavera”, deixando todo seu dinheiro para a jovem mendiga. O filho incinera o corpo do velho numa estranha cerimônia fúnebre japonesa e se despede da mendiga, agradecendo o que ela fez pelo pai. Com uma trama artificial e forçada, simbologia piegas e personagens antipáticos e até grotescos, o filme parece destinado a comover apenas certa “sensibilidade” alemã.

HUMPHREY BOGART

Humphrey Bogart

Os grandes estúdios de Hollywood  não distribuíam papéis segundo o talento dos atores, mas segundo o seu tipo físico. Por isso, Humphrey Bogart tornou-se o ator mais assassinado do cinema. O próprio Bogart ironizou sua situação, observando: “Nos meus primeiros 34 filmes, fui abatido 12 vezes, eletrocutado ou enforcado 8 vezes… Os meus problemas consistiam em encontrar uma maneira de dizer “aaaaargh” e de cuspir sangue. Devo dizer, entretanto, algo em meu favor: inventei e experimentei novas maneiras de segurar o ventre enquanto agonizava. Algumas ainda estão sendo utilizadas hoje em dia”.

Para Harry Cohn, Bogart não possuía um único ângulo fotogênico. Classificado como “feio” pelos produtores, o ator era sempre escalado para filmes de gangsters, terror e policiais. E, mesmo depois de ter seu talento reconhecido, na meia-idade, Bogart foi obrigado a ouvir de Jack Warner a seguinte explicação para a assinatura de um excepcional contrato de 15 anos: “Nós só assinamos porque temos certeza de que não existe risco algum de que seu rosto fique mais deteriorado do que já é”. A feiúra de Bogart era um empecilho para o estrelato, mas ele soube contorná-lo, forjando uma personalidade cativante de macho romântico, algo paranóide.

O último filme de Bogart antes de atingir o estrelado foi The Wagons Roll at Night (A tragédia do circo, EUA, 1941, 84’, p&b, drama). Direção: Ray Enright. Com Humphrey Bogart, Sylvia Sidney, Eddie Albert, Joan Leslie. Um comerciante (Albert) consegue domar um leão escapado do circo que invadira sua loja: ele se torna uma celebridade da noite para o dia. Para explorar essa súbita fama do rapaz, Nick Coster (Bogart) contrata-o como aprendiz de domador e dá-lhe o nome artístico de Varney. O domador que treina Varney é um beberrão e logo o discípulo supera o mestre, desencadeando ciúmes.  Quando o beberrão arma uma briga com Varney e é por acidente atacado pelo leão Satã, a cartomante (Sidney) tem a ideia de esconder Varney da polícia na fazenda de Nick, “até as coisas se acalmarem”.

Na fazenda, Varney conhece a irmã de Nick (Leslie) e se apaixona pela jovem, que vive afastada da vida circense porque Nick despreza seu próprio mundo: “Somos um bando de vagabundos, fracassados, trapaceiros”, ele diz a certa altura à cartomante. Mais tarde ele o reafirma: “Somos uns ciganos vagabundos, gente desqualificada.” Para salvar a irmã desse destino, Nick mantém a garota longe de seus conhecidos e a protege doentiamente: “Minha irmã será uma dama, nem que eu tenha que quebrar o pescoço dela”, ele diz exaltado.

Ao descobrir que a irmã se apaixonou pelo jovem domador, Nick torna-se paranóico: “É só eu virar as costas que encontro tudo que é verme invadindo a minha casa!”. Repuxando o lábio superior sobre a arcada dentária para fazer seu cacoete de maníaco, Bogart faz seu personagem revelar de forma metafórica algo do plano sinistro que arquiteta para matar o ‘Romeu’ durante sua estréia como domador de leões: “Vamos dar uma festa que vai ficar na história do circo!”.

A cartomante tenta salvar o ingênuo Varney das garras de Nick e segue para a fazenda a fim de preveni-lo. Como o taxi não corre o bastante, ela diz ao motorista: “Ei, chofer, tá com reumatismo? Pé na tábua!”. Ao trocar as balas verdadeiras por balas falsas do revólver que deverá ser usado pelo domador caso o leão Satã o ataque, Nick tranqüiliza Varney com uma expressão sádica disfarçada sob a máscara risonha, sabendo que a fera há de estraçalhar o jovem domador: “Com uma arma no bolso você estará tão seguro como um bebê na creche.”

The Wagons Roll at Night não é exatamente um filme sobre o circo, mas sobre as paixões que latejam sob a lona. Satã, o leão assassino, torna-se um símbolo para o personagem de Nick, o dono de circo que odeia os circenses e que, movido por esse ódio assassino, desencadeia uma tragédia. Mas o maligno Nick também revela possuir, in extremis, um bom coração: ele se arrepende de sua maldade, no último minuto, ao ver o sofrimento da irmã diante da morte iminente do jovem domador, e se sacrifica para arrancar Varney das garras de Satã.

The Malthese Falcon (O Falcão Maltês / Relíquia macabra, EUA, 1941, p&b, policial, noir). Direção: John Huston. Com Humphrey Bogart, Peter Lorre, Mary Astor. Baseado na novela de Dashiell Hammett, o filme dá vida ao personagem de  Sam Spade (Bogart), um detetive cínico e amoral, que  investiga o assassinato de seu parceiro. Personagens dúbios e sinistros, em busca de uma preciosa estatueta de falcão maltês, povoam o universo sombrio do filme, considerado um dos primeiros noir do cinema.

Bogart está especialmente sinistro em The Two Mrs. Carrolls (Inspiração trágica, EUA, 1947, 99’, p&b, suspense, noir, Warner). Direção: Peter Godfrey. Roteiro: Thomas Job, baseado na peça de Martin Vale. Com Humphrey Bogart (Geoffrey Carroll), Barbara Stanwyck (Sally Morton Carroll), Alexis Smith (Cecily Latham), Nigel Bruce (Dr. Tuttle), Isobel Elsom (Mrs. Latham), Patrick O’Moore (Charles Pennington), Ann Carter (Beatrice Carroll), Anita Sharp-Bolster (Christine), Barry Bernard (Horace Blagdon). Bigart é aí um artista mórbido, obcecado por sua “obra”, composta por estranhos e mórbidos retratos que pinta de suas esposas vampirizadas, tomadas como modelos de “anjos da morte” sempre que ele encontra novas vítimas-amantes para descartar aquelas. Os movimentos que  Bogart imprime ao seu personagem lembram os de um morcego, sobretudo na eletrizante seqüência final.

O assassinato de esposas por maridos elegantes e frios parece ter sido iniciado com a primeira versão para o cinema de Gaslight (À meia luz, 1940), de Harold Dickinson. Desde então, maridos desequilibrados e cínicos, obcecados por paixões secretas (jogos, dívidas, arte, etc.) costumam levar copos com leite ou chá envenenados para as esposas se “acalmarem” antes de dormir, matando-as lentamente ou fazendo com que elas fiquem perturbadas e loucas.

Esse e outros métodos de eliminar esposas produziram brilhantes exemplares de suspense: Suspicion (Suspeita, 1941), de Alfred Hitchcock; Gaslight (À luz de gás, 1944), de George Cukor; Notorius (Interlúdio, 1946), de Hitchcock; The Two Mrs. Carrolls (Inspiração trágica, 1947), de Peter Godfrey; The Stranger (O estranho, 1946), de Orson Welles; Monsieur Verdoux (O Barba Azul, 1947), de Charles Chaplin; Sorry, Wrong Number (Uma vida por um fio, 1948), de Anatole Litvak; Conspirator (O traidor, 1949), de Victor Saville; Sudden Fear (1952), de David Miller; Diabolique (As diabólicas, 1955), de Henri-Georges Clouzot; Midnight Lace (A teia de renda negra, 1960), de David Miller.

NO MARROCOS, COM A CRÍTICA

Críticos em Casablanca: Nazario, Pereira, Toninho (em pé), Rubinho, Fonseca (agachados). Foto: Lambe-lambe.

Durante quase quatro anos fui crítico de cinema da revista IstoÉ, tendo como editores Geraldo Mayrink, Marília Pacheco Fiorillo e Humberto Werneck. Assistia às pré-estréias da meia-noite, às sessões matutinas com cafés da manhã, às sessões para a crítica nas pequenas cabines das empresas; usufruía de uma entrada permanente de cinema e fui um dos poucos críticos convidados pela Fox Films e pela Royal Air Marrocos para visitar, numa inusitada promoção, as locações do filme The Jewel of the Nile (As jóias do Nilo, 1985), de Lewis Teague. O Marrocos era, para mim, apenas um lugar no mapa, até que me encontrei, em 1986, junto a outros críticos de cinema, a caminho da África. Seguem-se páginas inéditas do diário de minha primeira viagem internacional: no Marrocos, com a crítica…

Para Toninho – que aniversaria hoje.

No aeroporto, pouco antes da partida, além da cansativa burocracia da viagem, paira a ameaça do terrorismo líbio: todos os passageiros são revistados. Dentro do avião, um fotógrafo da Folha imagina ver uma bomba na poltrona à nossa frente: “É um fio solto”, explica-lhe o comissário de bordo. Assim, com mais de uma hora de atraso, decolamos à 1h30 do Rio de Janeiro, com destino a Casablanca. O grupo de críticos convidados inclui Antonio Gonçalves Filho, Carlos Fonseca, Geraldo Mayrink, Edmar Pereira, Nelson Hoineff, Rubens Ewald Filho, mais alguns jornalistas da área de Turismo.

Logo a viagem se transforma numa festa. Cecília, um travesti a bordo, senta-se ao lado de Rubens, ocupando, por longas horas, a poltrona de Edmar, exibindo o álbum fotográfico de seus shows eróticos. Observando tudo à distância, Geraldo se pergunta: “Será o começo de uma grande amizade?”. Assim que se livra de Cecília, Rubens se explica: “Agora já tenho onde ficar em Paris.” Depois, tiramos um retrato em grupo e passeamos em vão pelos corredores à procura de poltronas livres para vermos o filme que seria exibido. Decepcionado, Geraldo toma conta do serviço de bordo: descobriu onde a aeromoça guarda os corpos e o vinho, e assalta a reserva.

Apagadas as luzes, um francês reclama que não estamos deixando ninguém dormir com nossas discussões intermináveis. Rubens mostra-se de mau humor: “Foi o pior jantar que comi num avião.” Ao descobrir que viajamos na segunda classe, explode: “Estamos no porão do Titanic! Somos os coitadinhos de E la nave va!”. E faz a expressão indescritível da gente lamentável que embarca clandestina no navio de Fellini. Os marroquinos já se aproximam de nós, entabulando conversas fiadas. Edmar exige de Maria Emília, a public-relations da Fox, uma sessão de haxixe como parte das programações. Rubens diz que eu, fumando, escreverei mais dez livros….

A música árabe nos fones de ouvido introduz-me no estrangeiro. De madrugada, Geraldo me chama para ver o espetáculo da aurora. Por horas a fio, o sol tinge o céu de vermelho, laranja, lilás, amarelo, dourado, acima das nuvens que parecem cordilheiras, ilhas, montanhas de algodão. Geraldo conclui: “É acadêmico, mas bonito.”

Chegamos esgotados em Casablanca. Um jovem guia bem apessoado que se apresenta como Youssef nos recepciona no aeroporto Mohamed V. Nota-se, pelo rosto empapuçado, que acordou bem cedo para cumprir suas obrigações. No microônibus que nos leva a Rabat, indiferente ao nosso cansaço, ele nos explica o país detalhadamente. Sua voz é monocórdica, com forte acento árabe no francês recitado. A certa altura, Rubens pergunta: “Mas ele não desliga?”. Geraldo geme e suspira. Edmar revira os olhos. Nelson se contorce. O mal-estar é geral, mas ninguém ousa interromper o falatório. Finalmente, comovido por tantas expressões de dor, peço a Youssef que se cale imediatamente. Desconcertado, ele se acalma aos poucos. A crítica me aplaude e enaltece. Um repórter do Estado toma-me por herói. Mas as duas jornalistas da Revista Geográfica Internacional, sexualmente interessadas em Youssef, censuram-me veladamente.

Do Hotel de la Tour Hassan, em Rabat, vamos almoçar no Royal Golf Der Salam, onde, às vezes, o rei joga golpe., É um clube esplêndido, com um bem cuidado jardim de violetas, margaridas e rosas selvagens do tamanho de uma mão espalmada. Durante o almoço, imaginamos Edmar se afogando na banheira com uma overdose de haxixe e as possíveis manchetes que o caderno 2 daria: “Alegria! E o coração de Edmar não suportou” ou “Afogado na banheira. Era Edmar”. Seguimos para conhecer o palácio do Rei Hassan II, o suntuoso mausoléu construído ao lado de uma mesquita do século XII, cuja torre desabou e que abriga os restos do seu pai, Mohamed V, a quem o Marrocos deve sua independência, desde 1956. Antes de chegarmos, Geraldo tem um ataque de nervos e manda parar o ônibus. Quer voltar sozinho para o hotel e descansar. Ele é deixado no meio da rua pelo jovem guia estupefato. Sem sequer saber o nome do hotel, ele vagou por toda Rabat, sem encontrar um taxi, e chegou ao hotel milagrosamente, bem depois de nós… Toninho observa: “Os críticos comportam-se como turistas-divas!”.

Diante da Torre Hassan, Youssef explica-me que para os muçulmanos o Paraíso ganha-se pelo despeito ao outro, pela crença em Deus e no Profeta, pela peregrinação a Meca pelo menos uma vez na vida e pelas cinco orações diárias. O ritual das abluções é parte importante da religião islâmica. Noto que não há imagens na arte: o antropomorfismo e o zoomorfismo são proibidos pela religião. Assim como o álcool: nos bares e cafés, freqüentados exclusivamente por homens, só se bebe café com leite e chá de menta.

O interior do mausoléu todo branco é composto de pastilhas multicoloridas, que culminam num enorme lustre de bronze. Lá embaixo, ao lado do túmulo, um homem reza sobre o Corão aberto, como a velar eternamente pela alma do soberano. Nosso estranho anfitrião, Mohamed Tazi, explica que ele é pago para isso. Edmar acha tudo “maquiado demais”. O fotógrafo da Folha não entra no edifício e, diante do meu espanto, justifica-se: “Não dá para trabalhar assim; não consegui fotografar direito nem a parte exterior”, confirmando a tese de Susan Sontag, que relaciona o ato de fotografar nas férias ao sentimento de culpa de quem se aferra a uma rígida moral do trabalho.

Logo ao chegarmos ao hotel, Fonseca sofre um infarto e é obrigado a permanecer em Rabat. Seguimos para Meknes, no mesmo dia. Antes, paramos em Khemisset, toda cor de terra roxa, onde há uma fonte surrealista, composta por três cavalos e um peixe de pedra coloridos. Aí, tomamos chá de menta com marroquinos, sentado de frente para aruá. Rubens comenta: “É isso o que eles fazem no domingo? Eu era feliz e não sabia.” Edmar aproxima-se de mim e sussurra em meus ouvidos: “Nazario, você não está chocado com o reducionismo da crítica, com a falta de compreensão?”. De fato, eu estava. Os campos de oliveiras, papoulas e margaridas; os minaretes, as cegonhas e os burrinhos não haviam liberado a afetividade dos críticos, apenas sua memória fotográfica. O próprio Edmar achava que a paisagem era “o melhor no gênero”. Toda visão era comparada ao décor de um filme já visto. Eram passados em revista todos os filmes cuja ação ou locação situava-se no Marrocos, de Morocco (Marrocos, 1930), de Joseph von Sternberg, a The Man Who Knew Too Much (O homem que sabia demais, 1956), de Alfred Hitchcock.

A sensibilidade dos críticos estava dirigida para as semelhanças, as correlações, as analogias. E nada lhes era sagrado. Se Youssef mostrava-nos o que para ele era importante, belo e misterioso, de tudo isso os críticos se apressavam a escarnecer, demonstrando sua indiferença. Eu me divertia muito com o grupo, mas o narcisismo, entregue a si mesmo, tornava-se freqüentemente agressivo. À falta de um filme, objeto-espelho privilegiado, os críticos decalcavam suas vítimas da realidade. Para tirar-me da depressão, Edmar começou a contar-me como, crescendo no interior de Minas, abandonado pela família, e dotado desde cedo de uma sensibilidade doentia, encontrava consolo em viver no pasto, com os animais da roça: “Fui boi, e também me apaixonei por uma ovelha.” E me enternecia narrando seu passado zoomórfico, sua infância zoofílica.

Em Meknes vimos o belo Portal de Challah, do século XIV, as portas monumentais de Bab Mansour, Bab Berdaine, Bab Jamaa Ennouar e Bab Khémis. Depois, o túmulo de Moulay Ismäes, segundo soberano da dinastia alauita. Foi uma espécie de Rei Sol do Marrocos, sonhando em casar-se com a filha de Luís XIV, enquanto se incumbia de decapitar pessoalmente os seus escravos. Ele teria gerado 800 filhos e construído inúmeros palácios para abrigar seu harém. Seus restos mortais encontram-se dentro da única mesquita acessível aos não-muçulmanos. Passando pela Bacia de Agdal, que irrigava os jardins do palácio, pelo Estábulo que – dizem – abrigava 12 mil cavalos, e pelo imenso e sinistro depósito de cereais, tenho a impressão de penetrar na pousada de um gigante. Enfim, mergulhamos no caos da Praça El Hedim, e voltamos para o hotel, sob o protesto das duas jornalistas insuportáveis e de Maria Emília, que ansiavam por estranhas aventuras nas vielas da cidade antiga.

Logo fomos surpreendidos com a pior notícia que eu poderia ouvir: como ocorria uma “reunião de líderes árabes” em Fez, o passeio a essa cidade, que estava programado no roteiro de nossas excursões, fora cancelado. Numa medida totalitária, especialmente revoltante para mim, que aguardava ansiosamente conhecer a universidade mais antiga do mundo, as autoridades simplesmente fecharam a cidade aos estrangeiros. Fiquei a imaginar que reunião levaria um governo a impedir, sem qualquer consideração para com os turistas que visitavam o país, o acesso a uma cidade histórica da importância de Fez.

No dia seguinte, fomos recompensados com uma visita às ruínas romanas de Volubilis. Era mais um episódio na história das conquistas sofridas pelo Marrocos. O país fez parte do império cartaginês, transformou-se na província da Mauritânia sob os romanos, foi tomado pelos árabes, declarou independência em 788, com várias tribos unificadas no século X pelos almorávidas até o século XV, quando portugueses e espanhóis apossaram-se de seus portos, só reconquistados no século XVII, para serem novamente perdidos para os franceses, até o início do século XX.

Volubilis é uma cidade-ruína. Segundo o guia local, ela foi soterrada pelo mesmo terremoto que arrasou Lisboa no ano de 1755. A população de dez mil pessoas sucumbiu. Nomeada com o nome de uma flor – volubilis – era uma cidade de luxo e conforto, com um grande arco, termas, banhos públicos, vomitórios, edifícios com mosaicos coloridos e dezenas de estátuas, das quais só restam os pedestais. Assistir ao por do sol em meio às ruínas de Volubilis foi uma experiência fascinante, mesmo para a endurecida crítica.

A caminho de Marrakesh, Youssef fornece-nos uma longa explicação – ele não perdeu o hábito de falar como matraca – sobre o casamento no Marrocos. No casamento tradicional, ao atingir 17 ou 18 anos, o filho diz para a mãe que quer se casar. Esta comunica a decisão ao pai, que procura o pai da moça que ele julga apropriada. Com uma troca de presentes, dá-se o pedido oficial. O espelho é um bom presente para as noivas: quanto mais rico o casamento, mais espelhos a noiva ganha para decorar seu quarto. Depois de uma semana de visitações entre os parentes, chega o grande dia, quando o noivo conhecerá sua futura esposa. Mas é só depois de consumado o ato sexual que ela pode tirar o véu e revelar seu rosto ao marido. É preciso então exibir às famílias o sangue no lençol. À vista desta prova de sucesso, as mulheres cantam com a língua a honra comprovada da família. Se isso não ocorre há escândalo e guerra tribal. Entre os berberes e montanheses, esse tipo de casamento ainda é bastante praticado. No casamento marroquino moderno, os ritos tendem a transformar-se em festas. Mas que ninguém se engane: os regulamentos continuam tão rígidos quanto nos casamentos mais tradicionais.

Marrakesh deslumbra à primeira vista por ser uma cidade toda ocre. Muralhas erigidas no século XI ainda a protegem por treze quilômetros. O minarete da Kutubia, de 67 metros, com um desenho diferente em cada uma das quatro faces, domina a paisagem. No palácio Bahia há alguns dos mais belos interiores em estilo almorávida. Visitamos o mausoléu da família real saadiana, do século XVI, mas, ao penetrarmos na necrópole por sinistros corredores estreitos, Rubens tem um acesso de tédio e decide voltar para dentro do ônibus, onde permanece lendo, ensimesmado, sua revista Première.

A guia local explica que cada dinastia transferia a capital para uma cidade diferente: no século X, os almorávidas passam a sede do governo de Fez para Marrakesh; no século XIII, os merinidas a transferem de novo para Fez; no século XV, os saadianos reelegem Marrakesh; depois, os alauítas preferem Meknes. Também cada dinastia destruía – verdadeira barbárie – os monumentos da dinastia anterior, por mais belos que fossem os edifícios, construindo os seus sobre as ruínas. Só as tumbas dos ex-soberanos eram poupadas. Por isso restam poucos exemplos de cada estilo arquitetônico.

À noite, percorro com Edmar e Toninho uma avenida tenebrosa, onde só se avistam de ponta a ponta, os retratos iluminados do rei Hassan II, afixados, poste sim, poste não, até o infinito, num anacrônico culto à personalidade. Caminho por esse horror de braço dado a Toninho, como dois marroquinos, notando a expressão de infelicidade no rosto de Edmar. Mais tarde, ele me confessa sentir inveja de todos os prazeres alheios. Por isso, à noite, quer me tirar para dançar na boate do Hotel. Sem a menor vontade de dançar, declino do convite. Rubens tira para dançar cada uma das jornalistas sem atrativos, e Geraldo lhe diz, à parte: “Hum… Você só pega mulheres sensuais!”. E assim a noite se esvai.

O almoço típico em tenda árabe, com um show de “Folclore e Fantasia” a convite do Club Mediterrané ultrapassa os limites do ridículo, A chamada “Fantasia” é uma espécie de Disneylândia das Arábias. Originalmente, devia ser uma encenação épica sobre as origens do povo e a unificação das tribos, Agora, tudo se passa ao som do Bolero de Ravel, e a cavalgada dos guerreiros é acompanhada de um comentário “poético” nauseante. Salva-se a comida, apesar da necessidade de se usar as mãos. Os grupos folclóricos cantam e dançam durante o almoço, repetindo versos em homenagem ao rei.

Visita ao mercado: um labirinto do qual não se sai enquanto não se gasta até o último dirham. Contam que um turista ali se separou da esposa loira e nunca mais a encontrou. O detalhe da cor dos cabelos da mulher serve para dar verossimilhança à lenda… Mas o mercado parece, de fato, ser um palco onde se perpetram todos os crimes. Na Praça Djema el F’na, perco-me do grupo, atraído por uma moça berbere, coberta por um véu lilás, que me leva, hipnotizado, para sua alcova. Perdido na multidão, eu a sigo sem avistar meus companheiros de viagem. Já começo a me sentir inquieto quando o pai da moça propõe-me a compra de haxixe. Digo-lhe que não estou interessado, mas que meus amigos estavam. Ele então me leva de volta ao grupo e posso dizer triunfante a Edmar e Nelson: “Encontrei o homem do haxixe!”. Os dois, que só falavam disso a viagem inteira, empalidecem. Não esperavam por esse serviço de delivery.

Logo depois, Edmar, sentado ao meu lado no bar diante da praça, disse-me contente: “Me encantam as pessoas que vêem para vá, se drogam, e ficam por aqui, se destruindo lentamente. Os Guarás que ficaram!”. Eu engolia meu chá de menta, que fizera Edmar pagar pelos serviços prestados, refletindo até que ponto a droga e o sexo não eram, no Marrocos, apenas dois chamarizes míticos para atrair turísticos. Eu não via nada parecido aqui com a decadência evocada em certos filmes, nem percebia o erotismo decantado pelos escritores homossexuais, de André Gide a Pier Paolo Pasolini, de Joe Orton a Jean Genet. Mesmo Elias Canetti precisou recorrer a uma história de alcova para registrar algo de mais excitante em As vozes de Marrakesh.

Os homens marroquinos amavam-se mais do que o comum: os jovens sempre andavam abraçados. Mas isso se explicava por uma fraternidade ostensiva contra os pais autoritários. No Marrocos, é o pai quem educa o filho para que herde seu nome, obrigando-o ao respeito das tradições. A educação é severa, implicando em surras com vara. Por isso o filho só ama a mãe, a quem pede dinheiro. O pai é uma besta negra, um monstro. Daí o apego aos amigos: vimos até dois jovens na estrada, cada um na sua bicicleta, agarrados um ao outro, sob o risco de caírem de seus veículos. Mas essa amizade masculina não se expande para o terreno da sexualidade, que permanece o maior tabu, nem diminui o machismo dos homens marroquinos: sob o pretexto de serem sagradas, as mulheres sofrem as maiores restrições sociais.

Levamos quase quatro horas na viagem de Marrakesh a Ouarzazate. Pouco a pouco, fui sendo tomado pela angústia do deserto. As paisagens sem cor, sem vida, sem gente ofereciam apenas a visão árida de montanhas de pedras. Aqui e ali casas de argila, pastores de ovelhas, meninos conduzindo camelos. Geraldo, que insistia desde São Paulo em ser fotografado junto a um camelo, ficou radiante ao avistar os bichos. Paramos para as fotos. Mais tarde, ele ainda nos mostrava um postal de camelos que encontrara numa tabacaria: “Um camelal”, exclamava, sorrindo como uma criança.

Admirei a beleza dos Atlas, vistos pela estrada sinuosa de 1675 curvas, a uma altura de mais de mil metros, que, sem nenhuma proteção, nosso motorista percorria, impassível diante dos abismos e dos precipícios. Rubens comentou: “Só falta o Fonseca ser o único sobrevivente!”. As curvas fechadas, a conversa sussurrada, o fumo que impregna o ar já rarefeito e a música árabe repetitiva que Youssef insiste em colocar no seu gravador – tudo me enjoava. Eu via os cactos subindo pelas montanhas, as cabras sustentando-se nas escarpas e os montanheses recostados nos casebres de argila e palha de trigo como restos de vida que se agarravam aonde podiam, até se extinguirem completamente. Tinha a impressão de um vazio devorando tudo, e subitamente percebi o efeito das miragens. Elas vinham como uma projeção da consciência evocada pelo vazio, como as últimas reservas da imaginação que não queria acabar assim.

Chegar a Ouarzazate foi como chegar a um oásis. As casas ocres, as construções em arcos, aquela pequena civilização germinando com seus bares, cinemas e hotéis – essa aparição de algo no meio do nada revigora os sentidos. No hotel Club Karam turistas francesas em topless tomam sol numa indolência generalizada. Olho um canteiro de flores e vejo a terra rachada: “Flores esturricadas!”, comenta Geraldo. As pessoas vêem no inverno de Paris para Ouarzazate em vôos diretos, em busca do sol. Não há nada a fazer aqui, exceto tomar sol. Eu procuro em vão um companheiro de escândalo.

Depois do almoço, visitamos a Kasbah do século XVIII, feita de argila e palha, que guarda o calor. Ali, as mulheres só podiam observar os espetáculos que se davam no pátio através das grades das janelas. O quarto da favorita é sempre o mais ricamente decorado, assim como o seu túmulo. Nesta Kasbah, há um curioso “interfone” – uma espécie de encanamento retangular que fazia o som ecoar através dos cômodos – através do qual o paxá falava de um andar a outro. Já que lamentavelmente não nos foi permitido conhecer Fez, chegamos, enfim, ao ponto mais fantástico de nossa visita ao país: uma Kasbah antiqüíssima e monumental erguida no deserto, como se, durante alguma noite mágica, a terra tivesse sonhado, e esse sonho se tivesse tornado realidade.

Ao voltarmos de Ouarzazate, passamos por um grupo de pessoas que observavam o infinito. Imaginamos que elas olhavam as estrelas e pusemos também a mirar o firmamento, enquanto Rubens puxava um cordão musical entoando sucessos da Bossa Nova. Mais tarde soubemos que naquele trecho da estrada caíra um ônibus carregado de turistas franceses: todos haviam morrido.  As pessoas não estavam mirando estrelas, mas cadáveres destroçados.

Chegou, enfim, a minha vez de passar mal. Embora comendo pouco, à noite tenho vômitos e diarréias. Desço às três da manhã até a portaria do hotel. O responsável diz que está desolado, mas não tem remédio. Como desolação não cura, uma ânsia incontrolável me leva a sujar o tapete. O atendente resolve então chamar o médico, que chega meia hora depois. Trata-se, na verdade, de um jovem residente, que queria dar-me uma injeção usando uma seringa velha e usada, sem ter sequer álcool e algodão. Propõe usar meu perfume francês como desinfetante. Como a idéia não me entusiasma, receita-me comprimidos e cobra-me 20 dólares pela visita. Promete voltar se eu não melhorar.

Uma hora depois, os fluidos do meu corpo recomeçam a fugir. Olho para o espelho e vejo um fantasma. Torno a chamar o residente. Ele agora traz álcool, algodão e uma seringa descartável (que deve ter comprado com parte dos meus 20 dólares). Mas sem aquela borrachinha para pressionar minha veia, faz força com as mãos. Espeta primeiro meu braço direito, depois o esquerdo, à procura de uma veia, em vão. Eu sangrava e tinha os braços arroxeados. Abatido, eu reclamava em francês, sentindo-me como um junkie agonizando depois da última picada. Tudo tinha para mim o sentido horrível de uma iniciação.

Com o infarto de Fonseca, a diarréia generalizada, a estrada à beira do abismo e a minha forte intoxicação, Rubens começou a desenvolver uma teoria conspiratória. “Querem acabar com a crítica! Envenenaram a comida, levaram-nos à estrada mais perigosa. E agora, qual será o próximo passo?”. Havia algum temor real na piada: Rubens era tremendamente supersticioso: à mesa, jamais passava o sal a outra pessoa, “para não secá-la”; ficou assustado quando, no almoço, contou treze à mesa, logo se aliviando com a lembrança de que a desgraça só ocorria ao mais velho ou ao mais novo, estando ele fora de perigo. A melhor definição de Rubens havia sido dada por Edmar: “Adoro o Rubens, mas ele é um turista da condição humana. Nunca mergulha fundo, nunca se perde no vício.”. Da mesma forma, a melhor definição de Edmar fora dada por Rubens: ”Adoro o Edmar, mas quando ele cisma com alguma coisa, começa a inventar teorias absurdas, que defende com uma coerência absoluta, e se você as contesta, ele inventa teorias ainda mais absurdas.”

No ônibus a caminho de Casablanca sento-me ao lado de Maria Emilia. Entre uma gargalhada e outra, ela nos transmitia informações corriqueiras como se fossem segredos de Estado. Pessimista, achava sempre que o pior estava para acontecer. Também recebia todas as broncas do grupo e, como um pára-raios, vivia num estado de tensão e desânimo permanentes. Só o sexo poderia aliviá-la. Mas ela tentava em vão. “Voltarei pura para o Rio”, não cansava de se queixar, entre risadas histéricas. O jovem repórter do Estado esperava sempre Maria Emília aparecer para o jantar com medo nos olhos: “Ih…!”, dizia-me, “a Maria Emília vai chegar toda emperiquitada!”. De fato, depois de uma excursão exaustiva, ela retornava refeita, num outro modelo verde de pano áspero, enforcada num colar de metal brilhoso, que lhe caí até os joelhos. Outra noite, voltando para o quarto, Geraldo e eu tomávamos o elevador quando ela veio correndo atrás de nós, tentando nos alcançar: “Esperem por mim…!”. Mais que depressa, Geraldo sussurrou: “Nem morta!”, pressionando com força o botão que fechava a porta.

No ônibus a caminho de Casablanca, sentada a meu lado Maria Emília me fala do Papa João XXIII e do dia em que quase foi violentada em Roma; de suas dores de rins e de seu desejo de ser seduzida por um milionário; das orações que os muçulmanos são obrigados a fazer e de suas íntimas fantasias eróticas; no auge da carência, ela me confessa de repente, num gemido entrecortado de risos nervosos: ”Eu já não sei quem sou!”.

Casablanca é uma cidade moderna, mas não deixa de ter seu encanto. Todas as edificações são como indica seu nome: de cor branca. É um entreposto comercial, com bairros residenciais luxuosos. Há um palácio enorme com uma passagem subterrânea de sete quilômetros que dá diretamente numa praia particular. O mar é bravio, há poucas margens para os banhistas. Mas os cafés a beira-mar são mistos e agradáveis. Passo por Casablanca como que por um sonho. Ainda enfraquecido, sou apenas a sombra de mim mesmo. Mas ao tirar fotografias num lambe-lambe da Praça das Nações Unidas, sinto-me revigorado. Edmar comenta: “O Nazario se recuperou depressa!”. Depois, achando-me bem em todas as fotos, exclamou no ônibus: “O Luiz Nazario é a Sônia Braga! Nas fotos ele fica alto, bonito…”. (Mais tarde mostrei a meu irmão médico a receita do remédio que o residente marroquino me injetou: ele me disse que a dose seria mais indicada para curar um cavalo…).

No mercado popular, compro caftans típicas, almofadas, tapetes e maravilhosas caixinhas de madeira marchetada. No hotel adquiro o Corão na edição da Pléiade para entender essa estranha religião que mantém os povos que a adotam numa eterna Idade Média. Em toda parte, constato a verdade de uma observação de Youssef: as pessoas aqui são pobres, mas não miseráveis. Há lugares onde se pode comer e beber por um dirham. Assim, ninguém morre de fome. E essa perspectiva alegra o povo. Não se vê, mas ruas, o espetáculo da gente-trapo se decompondo nas sarjetas, tão familiar entre nós. Os marroquinos trabalham pouco e se divertem na pobreza. Por isso tampouco há progresso…

Em nosso último almoço, Geraldo observa que, na outra mesa, as jornalistas de turismo estão se divertindo muito, e pela primeira vez parecem mais alegres que nós. “Não podemos ficar por baixo”, argumenta. E, subitamente, começamos todos a rir sem motivo, numa hilaridade que começou por provocação e terminou incontrolável. Toninho, que não ouviu a proposta, fica aflito por ter perdido a piada. É difícil explicar-lhe que, aqui, a piada é o nosso próprio riso orquestrado.

De volta a São Paulo, concluo ter feito uma viagem programada do começo ao fim, sem surpresas nem explorações pessoais. Mas uma frase de Kathleen Turner, explicando como foi rodar as engraçadas cenas da corrida de trem em As jóias do Nilo, no Marrocos, onde a vemos balançando as pernas, dependurada num vagão, acaba por me livrar de todas as decepções: “É claro que eu estava amarrada por uma porção de cordas e não havia perigo de cair. Mas depois você volta para casa e se pergunta se todo mundo faz esse tipo de coisa.”.

Luiz Nazario e Antonio Gonçalves Filho em Casablanca. Foto: Lambe-lambe.

O EDIFÍCIO YACOUBIAN

Omaret Yacoubian (O Edifício Yacoubian, Egito, 2006): clichês da homosssexualidade

Omaret Yacoubian (O Edifício Yacoubian, Egito, 2006, 165’, cor, drama, falado em árabe). Direção: Marwan Hamed. Roteiro: Marwan Hamed, com base no romance de Alaa Al Aswani. Fotografia: Sameh Selim. Com Adel Iman, Nour El-Sherif, Khaled Sawy, Yossra, Mohamed Imam, Hind Sabri.

Construído em 1930, o Edifício Yacoubian foi um dos mais charmosos do centro do Cairo, e outrora um marco de elegância e requinte, onde moravam “até judeus”. Depois da ditadura de Abdel Nasser, com a fuga dos judeus e a mudança de governo, o prédio foi ocupado por militares, cujas esposas criavam galinhas no telhado, iniciando a decadência do prédio, hoje habitado por uma fauna de todas as classes sociais – os ricos remanescentes nos luxuosos apartamentos e os pobres na favela instalada no telhado.

Um ex-engraxate enriquecido com o tráfico de drogas escolhe uma segunda esposa para com ela fazer sexo, já que a esposa atual não responde à sua tara de velho. Ele também quer tornar-se um político corrupto, mas cai em armadilhas de políticos ainda mais espertos, e mais corruptos, ficando na dependência desses gângsteres, intimamente ligados à polícia e ao sistema judiciário. O decadente Paxá Zaki (Iman) tenta manter a dignidade enquanto visita a elegante ex-amante cantora ocidentalizada e seduz garçonetes vagabundas de bares populares, que lhe dão golpes, até ser expulso de casa pela irmã gananciosa e histérica, que deseja apossar-se de seus bens e propriedades.

A bonita pobretona Bothayna precisa ceder às nauseantes investidas sexuais de seus sucessivos patrões para sustentar a família. Depois de romper com o namorado, que se converte ao islamismo radical, ela se deixa seduzir pelo Paxá. Já o ex-namorado, que sonhava em ser policial, depois de ser rejeitado na academia por ser de família pobre, participa de manifestações de protesto islâmico pela limpeza do país e acaba sendo torturado e estuprado numa delegacia, convertendo-se então num terrorista suicida. O jornalista Hatem (Sawy), que se tornou homossexual na infância ao ser abusado por um criado, usa seu dinheiro para seduzir um policial pobre, casado e pai de um filho pequeno.

Pintando uma série de caracteres e acompanhando suas atividades dentro e fora do Edifício Yacoubian, o filme transforma o prédio num microcosmo do país, dividido entre a decadência dos costumes em meio a um arremedo de democracia e o terrorismo islâmico que cresce prometendo limpeza geral. Baseado no romance homônimo de Alaa Al Aswani, um best-seller local, o filme teve um orçamento de US$ 6,7 milhões, tornando-se o filme mais caro da história do cinema árabe.

O simples fato de o roteiro de O Edifício Yacoubian ter sido aprovado causou sensação no Egito, o maior país produtor e exportador de cinema e TV do mundo árabe. Mas dificilmente este filme será exportado para o resto do mundo islâmico devido ao tema polêmico. Se os árabes beijam-se, andam de mãos dadas e dormem na mesma cama, essas intimidades não são consideradas sinais de homossexualidade. Por isso muitos estrangeiros viajam ao Egito e ao Marrocos em busca de sexo com homens que não se consideram gays por isso. São aqueles identificados como efeminados que sofrem todo tipo de repressão: de penas leves no Líbano (onde foi fundada a Helen, primeira associação de homossexuais do mundo árabe e cuja presidente, Ghassan Makaren, luta pelo reconhecimento da cidadania) à pena de morte na Arábia Saudita, por exemplo.

Também no Egito a homossexualidade é crime: em 2002, a polícia invadiu um restaurante-barco no Nilo usado como ponto de encontro gay prendendo 52 homens, 21 dos quais foram condenados a três anos de prisão. Os gays muçulmanos citam em seu favor uma passagem do Alcorão que reporta ter havido em Medina uma casta de efeminados que cantava para Maomé. Mas para os líderes religiosos, todo e qualquer desvio do caminho sagrado da sexualidade reprodutiva é errado e anormal.

O ator Khaled Sawy observou ao jornalista Paulo Cabral: “É verdade que temos censura. Quando estamos produzindo uma obra de arte sabemos que há um teto que não pode ser ultrapassado. […] Mostrar cenas muito explícitas de corpos se tocando e de beijos – principalmente entre dois homens – ultrapassaria em muito o teto, não só da censura como também da sensibilidade do público egípcio. Nós estamos mostrando neste filme o amor homossexual completo, de maneira nunca antes exposta no cinema árabe. Mas o que queremos mostrar é todo o lado do sentimento e do amor e não necessariamente dois homens na cama. Queremos que as pessoas assistam ao filme e saiam de lá pensando. Não queremos que ninguém saia do cinema no meio do filme fisicamente chocado com o que viu.”

Mesmo assim, 112 deputados egípcios exigiram cortes no filme. O diretor ameaçou retirar as cópias em exibição nos cinemas se isso ocorresse, o que levou a uma corrida do público às salas, provocando recordes de bilheteria. Após o sucesso local, o reconhecimento internacional: em 2006, o filme conquistou o Grande Prêmio de Longa-Metragem na 8.ª Bienal de Cinema Árabe em Paris; o Prêmio de Melhor Diretor Estreante nos Festivais de Tribeca e Montreal e de Melhor Ator (Adel Imam) na Mostra de São Paulo.

O filme não toma, aparentemente, nenhuma posição. É como se espiasse por cima de um muro uma vida podre desenrolando-se no Cairo, sem condenar esse ou aquele personagem. Essa falsa neutralidade é obtida através de uma técnica corrosiva: todos os personagens caem em tentação; todos tentam enganar o próximo; todos possuem uma sexualidade mórbida; todos são antipáticos, corruptos, repugnantes. Apenas a ex-amante do Paxá, que canta músicas ocidentais num restaurante de luxo escapa dessa pocilga humana. Mas o destino reserva a outros dois personagens – e apenas a eles – um final feliz: depois de passar o filme atrás de moças vulgares e enchendo a cara, dizendo-se diz o último gentleman do Egito, o Paxá encontra sua cara-metade na jovem pobretona Bothayna, que desiste de dar-lhe um golpe e aceita o enrugado “príncipe encantado” que promete levá-la a Paris: os dois são redimidos pelo casamento no final.

Já o policial pobre seduzido pelo rico jornalista gay purga-se de sua queda na degeneração deixando o Cairo e voltando para sua aldeia com a esposa – que ele surrava e violentava de vez em quando – depois que o filho menor morre de febre enquanto ele dormia com o jornalista. Este, infeliz com a partida do amante, volta a caçar na rua até encontrar a morte de forma violenta, estrangulado na cama, quando se oferecia para ser penetrado por um desconhecido que lhe rouba o relógio de ouro e outros pertences. Também o terrorista islâmico termina os dias violentamente, crivado de balas durante um atentado em que mata o policial que o torturou na delegacia e o entregou aos estupradores. Assim, de certa forma, ao romper pretensamente um tabu no cinema árabe, Omaret Yacoubian apenas confirma para o mundo islâmico a homossexualidade como o Mal.