O CINEMA E A CRÍTICA

O cinema antigo: Cine Majestic

PAULA POLETO ENTREVISTA LUIZ NAZARIO

21 de dezembro de 2007

Qual deve ser a formação do crítico?

Não acredito que a formação de um jornalista seja suficiente para alguém exercer a crítica de cinema. O crítico de cinema nasce fora do jornalismo, na freqüência cotidiana das salas de cinema desde a infância. O crítico de cinema é um doente da sétima arte. Desde pequeno, ele sofre do mal da cinefilia. Às vezes, ele consegue fazer desse mal uma atividade, ou mesmo uma profissão. Ele pode se misturar aos jornalistas, escrever em jornais, falar na TV, mas é essencialmente um ser de outra espécie.

O que é cinema?

É tudo o que a vida deveria ser e não é.

Qual a função da crítica?

Apontar na massa da produção aqueles filmes que mereçam ser vistos e possam conservar esse mesmo valor no futuro.

Quais os critérios da crítica?

Totalmente subjetivos. O bom crítico é aquele que consegue escrever algo de interessante sobre um filme, seja lá o que for.

O que pensa a respeito do cinema nacional?

Raramente assisto a um filme nacional. Não vou ao cinema para ver as paisagens e os tipos humanos que vejo todo dia nas ruas.

Quais as sugestões ao cinema nacional?

Que seja mais engraçado e menos vulgar, mais cinematográfico e menos televisivo.

Quais são suas preferências estéticas?

Minhas preferências são variadas. Gosto de filmes de arte e de filmes comerciais, de obras-primas e de lixos. Adoro o cinema clássico e moderno – o americano, o alemão, o russo, o japonês, o francês, o italiano. Mas o melhor cinema é o cinema mudo.

Qual deve ser a formação do critico como espectador?

Jamais assistir a um filme dublado. Jamais comer pipoca no cinema, fazendo aqueles barulhos horríveis e intermitentes de saquinhos amassados. Jamais papear durante o filme, incomodando os espectadores e constrangendo eventuais acompanhantes. Jamais entrar em sessão já começada, tentando abrir caminho no escuro entre as pessoas que já estão acomodadas.

O que pensa sobre as escolas de cinema?

Não conheço nenhuma para dizer o que penso sobre elas.

Qual o papel da imprensa especializada neste ramo?

A imprensa tornou-se uma peça importante na estratégia de marketing das distribuidoras mais poderosos.

Qual deve ser o papel do Estado na atividade cinematográfica?

No cinema nazista e no cinema soviético o Estado assumiu o controle total da produção; o cinema deve sobreviver apenas pela bilheteria, sem apoios perigosos.

Quais os melhores momentos de filmes e de diretores?

São aqueles que conseguem permanecer em nossa memória por anos.

Qual o futuro do cinema?

Previsões sobre o futuro do cinema são vãs e inúteis. Mas a tendência é a predominância do cinema americano sobre as demais cinematografias, que dificilmente conseguirão atingir o nível de qualidade técnica, dramática, mercantil, das produções realizadas em Hollywood. Claro que existirão sempre cineastas “autorais” e filmes de arte interessantes, mas o cinema de arte está em avançada agonia, se já não morreu.

Qual o papel dos circuitos e das produções alternativas?

Em geral, os independentes sonham em fazer sucesso e entrar no grande circuito; o problema é que, ao entrar no grande circuito, deixam ser independentes, realizando filmes padronizados. Para os grandes estúdios, o circuito independente serve para experimentos que, mais tarde, acabam incorporando, renovando a linguagem, mas geralmente de forma desvirtuada, apenas para ficar em dia com todo o tipo de público. Raros são os cineastas que conseguem manter uma produção pessoal nessa arte industrial por excelência. Para manter a independência e realizar filmes pessoais (que por alguma razão acabam chegando ao grande circuito) cineastas-artistas de sucesso, como Woody Allen, Pedro Almodóvar ou Lars von Trier, são levados a criar suas próprias empresas para poder continuar a produzir seus filmes “autorais”.

O que pensa sobre as mídias digitais, incluindo a pirataria? Qual o papel do circuito?

O digital tornou a imagem em movimento mais acessível e manipulável. Por essa possibilidade infinita de manipulação dos pixels, a imagem perde cada vez mais sua credibilidade: tudo o que vemos pode ser digital, ou seja, irreal. O digital tem um efeito positivo quando permite, por exemplo, a restauração de filmes e a divulgação dos clássicos, assim como a recuperação de raridades cinematográficas que dificilmente o seriam não fôra a possibilidade de sua nova comercialização através do DVD. Essa mídia torna tudo o que se produziu e se produz no mundo, no campo audiovisual, acessível a qualquer pessoa dotada dos equipamentos da civilização em qualquer lugar do planeta. Por outro lado, o digital também pode significar o fim do cinema, na medida em que os cinemas de rua fecham as portas; as pequenas salas desaparecem; e sobram apenas salas multiplex em shoppings-centers que podem a qualquer momento se tornar salas digitais, terminando com a produção, revelação e distribuição de películas. É a quarta onda de destruição do cinema, a maior de todas as ondas de destruição de películas, provavelmente a destruição final.

Uma resposta para “O CINEMA E A CRÍTICA

  1. Excelente entrevista, cuja resposta final torna-se cada vez mais profética: as projeções da mostra de cinema de São Paulo deste ano (2010), são quase todas digitais, de péssima qualidade, inviabilizando filmes que mereciam tratamento melhor, como o de Raul Ruiz. Trata-se, como muitos expressaram, quase de uma projeção de DVD, provavelmente o “formato” mais barato e pobre do universo e que, em breve, predominará em cada sala de cinema do planeta.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s