Arquivo do mês: novembro 2010

ARTHUR CRABTREE

A Madona das Sete Luas (1945)

Madonna of the Seven Moons (A Madonna das Sete Luas, Inglaterra, 1945, 100’ na versão original, 88’ na versão lançada nos EUA’, p&b, drama psicológico). Direção: Arthur Crabtree. Roteiro: Roland Pertwee, baseado na novela de Margery Lawrence. Com Phyllis Calvert (Maddalena Labardi / Rosanna), Stewart Granger (Nino Barucci), Patricia Roc (Angela Labardi), Peter Glenville (Sandro Barucci), John Stuart (Giuseppe Labardi), Nancy Price (Mama Barucci), Reginald Tate (Dr. Charles Ackroyd), Jean Kent (Vittoria), Peter Murray-Hill (Jimmy Logan), Dulcie Gray (Nesta Logan).

Produzido pela companhia inglesa Gainsborough Pictures dentro da onda dos filmes psicanalíticos surgidos entre o fim da guerra e o imediato pós-guerra, como Lady on the Dark (1944), de Mitchell Leisen; The Seventh Veil (O sétimo véu, 1945), de Compton Bennett; Spellbound (Quando fala o coração, 1945), de Alfred Hitchcock, It Had to Be You (1947), de Don Hartman e Rudolph Mate, Madonna of the Seven Moon (A Madonna das Sete Luas, 1945), de Arthur Crabtree, causou forte impacto em seu tempo, como se pode perceber por este comentário de um fã na Amazon, que viu o filme aos nove anos de idade: “I was taken to see this film by my parents (in the first week of April 1945) and so had no option but to sit through it. The scenes involving the change of mood in Maddalena when her split personality came into play, accompanied by matching music, I found absolutely and completely terrifying, so much so that I hardly dared look at the screen for fear of what would happen next. Sinister, mysterious, shadowy, menacing – these were my impressions of the film. To see it on video many years later was to be reminded vividly of these childhood reactions. An absolutely unique film!”.

Madonna of the Seven Moon, ousava apresentar um tema escabroso, décadas mais tarde revisitado, com maior atrevimento e escândalo, por Luis Buñuel em Belle de Jour (A bela da tarde, 1967), adaptado da novela Belle de Jour (1928), de Joseph Kessel. Aqui, a bela adolescente italiana Maddalena Labardi (Calvert), vivendo num convento, é estuprada por um campônio durante um passeio no bosque. O ataque deixa-a mentalmente perturbada. Mas, sem perder tempo com o que ocorre à personagem após o ataque, o filme salta muitos anos no tempo para encontrar Maddalena casada com o rico Giuseppe Labardi (John Stuart) e mãe de uma filha adulta, Angela (Roc, com 29 anos, mesma idade de Calvert à época do filme…).

A família de bem vive na Inglaterra, cercada de amigos importantes. Mas o trauma sofrido pela dama na adolescência subjaz no fundo de sua alma. Durante uma recepção em sua mansão, Maddalena, entretendo seus convidados, sente-se mal e desmaia, sem saber bem porque, ao ver Sandro Barucci (Glenville), um playboy interessado em Angela. Mais tarde, Maddalena foge de casa, desaparecendo dentro da noite. Angela decide investigar o paradeiro da mãe e acaba encontrando pistas que a levam à Itália. No período em que perde a consciência, a socialite assume outra personalidade: a de uma cigana selvagem. A amnésica socialite Maddalena agora encarna a selvagem cigana “Rosanna”!

Rosanna tem um quarto reservado para si num bairro popular de Florença, em casa da “mãe” Barucci. Tal como Maddalena nunca imaginou manter outra vida como Rosanna, também Rosanna não guarda memória alguma de sua vida como Maddalena: no toucador de seu quarto pobre, ela se transforma ao usar um par de brincos dourados com pingentes de sete luas – como as sete luas esculpidas na fachada da casa dos Barucci. Na pele de Rosanna, Maddalena entrega-se sem pejos ao amor louco com seu amante de longa data, o bandido cigano Nino Barucci (Granger), tão apaixonado por ela que aceita suas idas e vindas sem questionamentos, embora às escondidas tente descobrir para onde ela vai quando desaparece.

Em sua desesperada busca pela mãe evaporada, Angela é acompanhada pelo falso amigo Sandro, sem desconfiar que esse malandro, disfarçado de playboy, trama na verdade aplicar-lhe um golpe, filho que é do bandido Nino. Por fim, Angela, chocada, descobre toda a verdade sobre a cigana Rosanna, sua própria mãe, desvendando ao mesmo tempo a trama armada pelo seu namorado Sandro, filho do amante bandido da mãe. Angela quase morre na aventura, mas consegue recuperar Maddalena, que retorna ao lar, à família, aos valores burgueses, tentando entender o que lhe aconteceu, tratada agora pelo Dr. Charles Ackroyd (o grande ator Reginald Tate, numa de seus raros papéis no cinema). Um filme sem dúvida espantoso para sua época e ainda intrigante quando revisto hoje.

Filmografia

1945

Madonna of the Seven Moons.

They Were Sisters.

1946

Caravan.

1947

Dear Murderer.

1948

The Calendar.

1948

Quartet (episódio: “The Kite”).

1949

Don’t Ever Leave Me.

1950

Lilli Marlene.

1952

Hindle Wakes.

1953

Stryker of the Yard.

The Wedding of Lilli Marlene.

1956

Colonel March of Scotland Yard (série de TV em 9 episódios).

The Adventures of Sir Lancelot (série de TV).

Douglas Fairbanks, Jr., Presents (série de TV em 12 episódios).

The Adventures of Robin Hood (série de TV).

1957

Stryker of the Yard (série de TV).

West of Suez.

Morning Call.

1958

Death Over My Shoulder.

Fiend Without a Face (O horror vem do espaço).

Ivanhoe (série de TV em doze epsódios).

Horrors of the Black Museum.

ALFRED HITCHCOCK

 

Psycho (Psicose, 1960), de Alfred Hitchcock.

Marcelo Miranda entrevista Luiz Nazario. Psicose, jornal O Tempo, Belo Horizonte, 18 de agosto de 2010.

Psicose estreou no Brasil em 20 de agosto de 1960, há cinqüenta anos. Qual a importância de Psicose para o cinema daquela época e o que reverbera ainda hoje?

Creio que foi o primeiro filme a matar a personagem principal na metade da trama… Isso já foi um choque para o público. Depois, a forma como a personagem, vivida pela estrela Janet Leigh, foi morta, logo depois de arrepender-se de ter roubado o dinheiro do escritório onde trabalhava, preparando-se para devolver o mesmo. Foi também, segundo os críticos, o primeiro filme realizado em Hollywood a mostrar uma privada… Mas isso eu não posso confirmar, parece-me uma afirmação um pouco exagerada. Talvez tenha sido o primeiro a fazer isso após a adoção do Código Hays (1934-1967). Mas o cinema mudo era tão ousado que é provável que privadas tenham sido mostradas em algumas comédias, por exemplo. Talvez o maior achado do filme tenha sido o psicopata Norman Bates encarnado por Anthony Perkins, que será imitado desde então em inúmeros filmes de suspense e terror: Norman é o “pai” dos psicopatas realistas do cinema – dos tipos paranóides de Homicidal (1961) e Mr. Sardonicus (1961), de William Castle às loucas furiosas de What Ever Happened to Baby Jane? (O que aconteceu com Baby Jane?, 1962) e Hush…Hush, Sweet Charlotte (Com a maldade na alma, 1964), de Robert Aldrich, Strait-Jacket (Almas mortas, 1964), de William Castle, e Die! Die! My Darling! (Fanatismo macabro, 1965), de Silvio Narizzano; do violento líder da gangue de Lady in a Cage (A dama enjaulada, 1964), de Walter Grauman, ao assassino louco de Maniac (1963), de Michael Carreras; do pastor pervertido de Crimes of passion (Crimes de paixão, 1984), de Ken Russell, ao Dr. Hannibal Lecter e ao serial killer de The Silence of the Lambs (Silêncio dos inocentes, 1991), de Jonathan Demme. O subgênero criado por Psicose também produziu um filão sobrenatural: os filmes de psicopatas sobrenaturais, do imortal adolescente afogado Jason ao imortal queimado vivo Freddy Krüger…

Especificamente para o gênero do terror, o que o filme somou?

Ele criou através de sua estética sombria, de sua violência gráfica, de seu universo desencantado e de seu personagem mentalmente insano um novo subgênero entre o filme de suspense e o filme de terror: o “filme de psicopata assassino”, um personagem que pode se tornar, no limite, também sobrenatural.

Como fenômeno cultural, o que o filme representou?

Creio que Hitchcock trouxe glamour para o gênero “terror”, estimulando toda uma geração de cineastas marginais. Psycho (Psicose, 1960) e The Birds (Os pássaros, 1963) [1] foram os únicos filmes deste cineasta que poderiam ser classificados dentro do gênero terror, ainda que não o sejam exatamente. Hitchcock havia feito comédias e musicais, mas, sobretudo, melodramas e policiais onde o suspense era a tônica. Já Psycho é um policial de mistério com elementos tão sinistros – o motel semi-abandonado, o assassinato no chuveiro (muito violento para a época), a mãe empalhada, o hoteleiro voyeur, etc. – que poderia ser classificado como um filme de terror. Isso estimulou cineastas de terror como William Castle e Roger Corman, ou a produtora inglesa Hammer, a produzir filmes nessa linha. O diretor Francis Ford Coppola foi lançado por Corman num belo exemplar do gênero: Dementia 13 (Demência 13, 1963). E depois de Baby Jane, de Aldrich, a versão feminina de Norman Bates, grandes atrizes veteranas esquecidas (Bette Davis, Joan Crawford, Olivia de Havilland, Tallulah Bankhead, etc.) ganharam uma segunda chance brilhando como psicopatas nesse gênero de filmes.

Pessoalmente, qual a sua relação com o filme? O que mais se lembra da primeira vez que viu, se já o usou como objeto de pesquisa, se ainda o revê…

Pessoalmente, fiquei muito impressionado, quando vi o filme no cinema, em seu relançamento em São Paulo, no cine Metro, em fins da década de 1980, com as duas seqüências de assassinato: a da mulher no chuveiro e a do policial na escada. Mas não sou dos que consideram Psicose o melhor filme, nem mesmo um dos melhores filmes, de Hitchcock. Sou muito mais fã de Festim diabólico, de Um corpo que cai, de Janela indiscreta, de O homem que sabia demais e, sobretudo, de Os pássaros – o único filme de toda a história do cinema que eu não me canso de rever. Mas é claro que, nas minhas aulas de cinema, mostro aos alunos a magia da cena do chuveiro, quando a câmera registra um ângulo impossível, pois a lente e o equipamento ficariam molhados. Os técnicos e cenógrafos construíram um chuveiro especial, do qual a água caía para fora do campo visual para oferecer aos espectadores a visão subjetiva da protagonista. Um efeito especial tão sutil que passou despercebido. Como a porta que se abre no final de Os pássaros, e que não passa de um efeito de luz, uma porta feita de luz. Só um gênio do cinema como Hitchcock seria capaz de imaginar isso.

Nota

[1] Os pássaros ganhou uma seqüência bastarda, Os Pássaros II (1993), feito para a TV, com a participação de Tippi Hedren. Encontra-se em produção uma “refilmagem” do original com tecnologia 3-D, supostamente com George Clooney e Naomi Watts nos papéis principais. Nem seria preciso utilizar o 3D para “diferenciar” o novo filme, cujo roteiro, escrito por Martin Campbell, pretende ser “mais fiel” ao original literário, o belíssimo conto de Daphne Du Maurier (1907-1989), cuja trama metafísica serviu para Hitchcock apenas como ponto de partida.

Curiosidade

Catherine Deneuve estrelaria um filme de Hitchcock ambientado no Leste Europeu, uma trama de espionagem à maneira de Torn Courtain (Cortina rasgada, 1966). Hitchcock almoçou com a atriz em Paris e apresentou-lhe a sinopse. Infelizmente, ele morreria alguns meses mais tarde. “Teria adorado trabalhar com ele”, lamentou a atriz. Também teríamos adorado ver um filme de Alfred Hitchcock estrelado por Catherine Deneuve…