ALFRED HITCHCOCK

 

Psycho (Psicose, 1960), de Alfred Hitchcock.

Marcelo Miranda entrevista Luiz Nazario. Psicose, jornal O Tempo, Belo Horizonte, 18 de agosto de 2010.

Psicose estreou no Brasil em 20 de agosto de 1960, há cinqüenta anos. Qual a importância de Psicose para o cinema daquela época e o que reverbera ainda hoje?

Creio que foi o primeiro filme a matar a personagem principal na metade da trama… Isso já foi um choque para o público. Depois, a forma como a personagem, vivida pela estrela Janet Leigh, foi morta, logo depois de arrepender-se de ter roubado o dinheiro do escritório onde trabalhava, preparando-se para devolver o mesmo. Foi também, segundo os críticos, o primeiro filme realizado em Hollywood a mostrar uma privada… Mas isso eu não posso confirmar, parece-me uma afirmação um pouco exagerada. Talvez tenha sido o primeiro a fazer isso após a adoção do Código Hays (1934-1967). Mas o cinema mudo era tão ousado que é provável que privadas tenham sido mostradas em algumas comédias, por exemplo. Talvez o maior achado do filme tenha sido o psicopata Norman Bates encarnado por Anthony Perkins, que será imitado desde então em inúmeros filmes de suspense e terror: Norman é o “pai” dos psicopatas realistas do cinema – dos tipos paranóides de Homicidal (1961) e Mr. Sardonicus (1961), de William Castle às loucas furiosas de What Ever Happened to Baby Jane? (O que aconteceu com Baby Jane?, 1962) e Hush…Hush, Sweet Charlotte (Com a maldade na alma, 1964), de Robert Aldrich, Strait-Jacket (Almas mortas, 1964), de William Castle, e Die! Die! My Darling! (Fanatismo macabro, 1965), de Silvio Narizzano; do violento líder da gangue de Lady in a Cage (A dama enjaulada, 1964), de Walter Grauman, ao assassino louco de Maniac (1963), de Michael Carreras; do pastor pervertido de Crimes of passion (Crimes de paixão, 1984), de Ken Russell, ao Dr. Hannibal Lecter e ao serial killer de The Silence of the Lambs (Silêncio dos inocentes, 1991), de Jonathan Demme. O subgênero criado por Psicose também produziu um filão sobrenatural: os filmes de psicopatas sobrenaturais, do imortal adolescente afogado Jason ao imortal queimado vivo Freddy Krüger…

Especificamente para o gênero do terror, o que o filme somou?

Ele criou através de sua estética sombria, de sua violência gráfica, de seu universo desencantado e de seu personagem mentalmente insano um novo subgênero entre o filme de suspense e o filme de terror: o “filme de psicopata assassino”, um personagem que pode se tornar, no limite, também sobrenatural.

Como fenômeno cultural, o que o filme representou?

Creio que Hitchcock trouxe glamour para o gênero “terror”, estimulando toda uma geração de cineastas marginais. Psycho (Psicose, 1960) e The Birds (Os pássaros, 1963) [1] foram os únicos filmes deste cineasta que poderiam ser classificados dentro do gênero terror, ainda que não o sejam exatamente. Hitchcock havia feito comédias e musicais, mas, sobretudo, melodramas e policiais onde o suspense era a tônica. Já Psycho é um policial de mistério com elementos tão sinistros – o motel semi-abandonado, o assassinato no chuveiro (muito violento para a época), a mãe empalhada, o hoteleiro voyeur, etc. – que poderia ser classificado como um filme de terror. Isso estimulou cineastas de terror como William Castle e Roger Corman, ou a produtora inglesa Hammer, a produzir filmes nessa linha. O diretor Francis Ford Coppola foi lançado por Corman num belo exemplar do gênero: Dementia 13 (Demência 13, 1963). E depois de Baby Jane, de Aldrich, a versão feminina de Norman Bates, grandes atrizes veteranas esquecidas (Bette Davis, Joan Crawford, Olivia de Havilland, Tallulah Bankhead, etc.) ganharam uma segunda chance brilhando como psicopatas nesse gênero de filmes.

Pessoalmente, qual a sua relação com o filme? O que mais se lembra da primeira vez que viu, se já o usou como objeto de pesquisa, se ainda o revê…

Pessoalmente, fiquei muito impressionado, quando vi o filme no cinema, em seu relançamento em São Paulo, no cine Metro, em fins da década de 1980, com as duas seqüências de assassinato: a da mulher no chuveiro e a do policial na escada. Mas não sou dos que consideram Psicose o melhor filme, nem mesmo um dos melhores filmes, de Hitchcock. Sou muito mais fã de Festim diabólico, de Um corpo que cai, de Janela indiscreta, de O homem que sabia demais e, sobretudo, de Os pássaros – o único filme de toda a história do cinema que eu não me canso de rever. Mas é claro que, nas minhas aulas de cinema, mostro aos alunos a magia da cena do chuveiro, quando a câmera registra um ângulo impossível, pois a lente e o equipamento ficariam molhados. Os técnicos e cenógrafos construíram um chuveiro especial, do qual a água caía para fora do campo visual para oferecer aos espectadores a visão subjetiva da protagonista. Um efeito especial tão sutil que passou despercebido. Como a porta que se abre no final de Os pássaros, e que não passa de um efeito de luz, uma porta feita de luz. Só um gênio do cinema como Hitchcock seria capaz de imaginar isso.

Nota

[1] Os pássaros ganhou uma seqüência bastarda, Os Pássaros II (1993), feito para a TV, com a participação de Tippi Hedren. Encontra-se em produção uma “refilmagem” do original com tecnologia 3-D, supostamente com George Clooney e Naomi Watts nos papéis principais. Nem seria preciso utilizar o 3D para “diferenciar” o novo filme, cujo roteiro, escrito por Martin Campbell, pretende ser “mais fiel” ao original literário, o belíssimo conto de Daphne Du Maurier (1907-1989), cuja trama metafísica serviu para Hitchcock apenas como ponto de partida.

Curiosidade

Catherine Deneuve estrelaria um filme de Hitchcock ambientado no Leste Europeu, uma trama de espionagem à maneira de Torn Courtain (Cortina rasgada, 1966). Hitchcock almoçou com a atriz em Paris e apresentou-lhe a sinopse. Infelizmente, ele morreria alguns meses mais tarde. “Teria adorado trabalhar com ele”, lamentou a atriz. Também teríamos adorado ver um filme de Alfred Hitchcock estrelado por Catherine Deneuve…

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