Arquivo do mês: dezembro 2010

O SUCESSO DO TERROR

LUCIANA RIBEIRO ENTREVISTA LUIZ NAZARIO, para o jornal Estado de Minas.

A que você atribui o sucesso dos filmes de terror? E o fascínio dos espectadores pela sensação de medo, frio na barriga e sustos?

O sucesso do terror cinematográfico deve-se a vários fatores: o sistema da globalização, que libera o sadomasoquismo das massas com a perda da dimensão humana do sagrado e a concentração da mesma em religiões totalitárias; a repressão sexual operada por uma realidade de desemprego, miséria, feiúra, doença e morte, em confronto com um imaginário cada vez mais sofisticado, liberado, e mesmo depravado; o desenvolvimento das técnicas cinematográficas que tornam a imagem cada vez mais próxima da ilusão de realidade, tornando os efeitos sempre mais convincentes; a mudança do perfil do público, formado hoje em sua maioria por adolescentes, que buscam no cinema um tipo de gozo perverso, que afasta das salas os espectadores adultos e maduros, que preferem um cinema mais sensível, hoje raro. Quanto ao fascínio do espectador médio pelo medo cinematográfico, é uma catarse necessária para que ele seja devolvido à realidade insuportável com a sensação de que essa não seria tão insuportável quanto a que experimentou na sala escura: ele precisa provar o horror sagrado, absoluto, para retornar à vida medíocre, cinzenta, com a sensação de ter tido emoções intensas, conformando-se à sua existência aborrecida. Os filmes de terror cumprem, na sociedade globalizada, de forma mais discreta, as mesmas funções que desempenham os brinquedos extremistas nos parques de diversão e os esportes radicais como o body-jumping.

Na sua opinião, quais linhas de filmes de terror são mais significativas na história do gênero?

Desde o início do cinema, os filmes de terror sempre abordaram o sobrenatural: o mundo dos mortos, dos fantasmas, dos demônios, dos monstros, dos alienígenas, dos psicopatas. Com o fim do Código de Produção, em 1968, o terror passou a ser cada vez mais explícito, perdendo a poesia, que era sua característica mais interessante. Com essa renovação do gênero nos anos 1970-1980, com a ascensão de diretores de mão pesada, como Tobe Hooper, John Carpenter, Wes Craven, George Romero e Tom Holland, os mundos sobrenaturais começaram a entrecruzar-se, de modo que o cinema de terror passou a abrigar mundos cada vez mais estranhos, como o dos animais demoníacos (Tubarão, Orca), o da tecnologia demoníaca (O elevador assassino, Christine), o dos alienígenas demoníacos (Alien, Predador), o dos psicopatas demoníacos (Jason, Freddy Kruger), o dos psicopatas com tecnologia demoníaca (a família de assassinos de O massacre da serra elétrica, o motorista de Duel), o dos psicopatas mortos com tecnologia demoníaca (o bonequinho Chucky)…

Quais são os diretores, monstros e vilões mais importantes historicamente? Por quê?

Mais que diretores, cinco produtores marcaram o cinema de terror: Carl Laemmle Jr., o produtor dos filmes de monstros clássicos da Universal (O homem que ri, Frankenstein, Drácula, Lobisomem, Múmia); Val Lewton, que criou um terror sugestivo, atmosférico, em clássicos do filme B (como Sangue de pantera); William Castle, pelos gimmicks de terror que inventava para o lançamento de seus ótimos filmes sensacionalistas (ele é homenageado no filme Matinê); Roger Corman, que realizava um terror barato, mas ainda elegante, inteligente e divertido (como O corvo); e Steven Spielberg, que desde os anos 1970 vem renovando o gênero com seus melodramas de horror com efeitos especiais de última geração (Parque dos dinossauros, Guerra dos mundos).

Você identifica algum motivo para este ano ter tido tantos filmes de terror? Viu algum deles?

O último filme de terror que vi e que me impressionou foi O chamado, de Gore Verbinski, que uma amiga minha considerou como sendo apenas um filme vagabundo sobre pessoas assustadas por um vídeo caseiro feito no inferno. Mas vi nele algumas qualidades, para além dos sustos vulgares de toda produção do terror contemporâneo. Antes dele, pelas sugestões de horror que contêm, O sexto sentido e Sinais, de M. Night Shyamalan, impressionaram-me, assim como Os outros, de Alejandro Amenábar. Também gostei de A Bruxa de Blair, de Daniel Myrick e Eduardo Sánchez, pela sensação que ele deixa e que se manifesta bem depois que saímos do cinema, à noite, quando ficamos sozinhos; e de Mimic, de Guillermo del Toro, que elevou ao máximo o horror que quase todo mundo sente diante de uma barata parada sobre seu travesseiro, atrás de sua toalha de rosto, ou voando em sua direção.

Os efeitos especiais cada vez mais sofisticados de hoje em dia melhoram ou empobrecem a nova safra?

Não suporto a edição estilo Seven, que picota a continuidade numa série de fotogramas, sugerindo as coisas mais horripilantes do mundo para forçar, de modo sub-reptício, o terror mental, psicológico. Isso intensifica e ao mesmo tempo empobrece o cinema. O sobrenatural é metafísico, e requer um espaço mental para meditarmos sobre ele; a atual edição dos filmes de terror não concede mais esse espaço, quer preenchê-lo inteiramente com um caleidoscópio sinistro. Por isso prefiro o horror dos anos de 1920-1950, onde o Mal é apenas sugerido, não somos agredidos pelas mutilações, o sangue jorrando, as tripas saltando para fora, os crânios esfacelados, com cérebros derramados no chão, como em Marcas da violência, de David Cronenberg. Ele e David Lynch são grandes diretores, mas também recorrem a esses efeitos para impressionar o público adolescente, que é o que lota as sessões, transforma um filme em sucesso de bilheteria e empurra o cinema cada vez mais para baixo, para o nível – como dizia Guará – “pré-mental”.

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A FIGURA DO DETETIVE

 

Margaret Rutherford, a mais perfeita encarnação de Miss Marple

DANIEL BENJAMIN DE OLIVEIRA ENTREVISTA LUIZ NAZARIO para seu projeto de iniciação científica da Universidade Anhembi Morumbi, a 28 de setembro de 2005.

A figura do detetive apareceu primeiro no cinema encarnada em Sam Spade (Humphrey Bogart), em Relíquia Macabra, ou houve algum antecessor?

A figura do detetive existe desde os primeiros filmes policiais realizados nas primeiras décadas do século. Por exemplo: o detetive aventureiro Kay Hoog do filme Die Spinnen (As aranhas, 1919), de Fritz Lang. O “filme de detetive” alemão deriva, por sua vez, das pioneiras séries criminais francesas, tremendamente populares, como Fantomas (1913-1914), Judex (1915) e Les Vampires (1916), de Louis Feuillade, com a vilã Irma Vep, a vampira, interpretada pela acrobata Musidora.

Quais são os detetives mais famosos do cinema? Há uma variedade de tipos?

Os detetives mais famosos do cinema são aqueles que se tornaram antes célebres na literatura: Miss Marple e Monsieur Poirot, de Agatha Christie; Sherlock Holmes e seu caro Watson, de Conan Doyle. Existem muitas adaptações das novelas estreladas por esses personagens. Os tipos são basicamente dois: os detetives de estirpe inglesa, que trabalham com as evidências deixadas pelo criminoso no local do crime, montando quebra-cabeças mentais pelo método indutivo; e os detetives de origem americana, que confiam mais no uso da força bruta contra os suspeitos, arrancando confissões à base de interrogatórios exaustivos entrecortado por sopapos.

Como a figura do detetive evoluiu no cinema? À sombra de Sherlock, como defende o escritor Marçal Aquino, ao afirmar que ”quando se pensa em um investigador clássico, a grande referência é Sherlock Holmes. Tanto que os detetives que vieram depois, como os da ficção noir, passaram a ser variações cada vez mais distanciadas dele em função da violência urbana”?

As diferenças são culturais: uma tradição de polícia não-violenta e intelectual (inglesa) e uma tradição de polícia violenta e pragmática (americana).

Quem se opõe ao detetive no cinema? Como o tipo vilão é construído na cinematografia detetivesca?

O melhor vilão é aquele que age na sombra e de quem ninguém suspeita: poderia ser, em tese, qualquer um, mas no fim é aquele único que poderia cometer o crime.

Quais são os elementos fundamentais de uma trama detetivesca?

Crime envolto em mistério, suspense durante a investigação, falsas pistas colocadas no caminho do detetive e revelação final.

Sam Spade ainda é um ícone, alimentando o imaginário popular acerca do detetive, que se confunde com o herói noir – durão, individualista, soturno e charmoso. Sua imagem opõe-se à do detetive “real”, que trabalha em equipe e leva uma vida “normal”, tomando o cuidado de guardar o sigilo e a discrição exigidos pela profissão. A que o senhor atribui tamanha influência da personagem? Em que medida a atmosfera noir permitiu a cristalização do ícone?

Os detetives dos filmes noir não me parecem tão fascinantes assim. São brutais e cínicos, agindo de maneira pouco inteligente, descobrindo os autores dos crimes quase por acaso. Quando não são passados para trás pelos vilões e vilãs, muito mais fascinantes para mim.

Como o senhor avalia a desconstrução desse ícone através de personagens como o detetive C. W. Briggs (Woody Allen), em Escorpião de Jade – com seu físico frágil e careca proeminente – e os apatetados Ace Ventura (Jim Carrey), em filmes homônimos, e Pat Healy (Matt Dillon) em Quem vai ficar com Mary?. Eles são capazes de desmistificar a figura criada desde a literatura por Conan Doyle ou reforçam a imagem clássica através da antítese?

São paródias de detetives, umas inteligentes (Woody Allen), outras vulgares e tolas (Jim Carrey, Matt Dillon). Procuram a desmistificação através da derrisão, mas os mitos perduram e sobressaem-se diante de suas caricaturas.

Qual o papel da mulher nos filmes de detetive? Há um espaço para a mulher-detetive ou ela ainda figura mais como acompanhante – secretária, namorada, vilã?

As mulheres detetives – como Miss Marple – são personagens mais interessantes que os homens detetives, devido à aparente fragilidade delas no confronto com o Mal. Infelizmente são personagens menos comuns: poucos são os filmes nos quais as mulheres podem demonstrar sua inteligência. Se o cinema industrial é ainda um mundo de difícil acesso às mulheres cineastas, alguns dos melhores autores da literatura policial são mulheres: Agatha Christie, Patrícia Highsmith, Dorothy Sawyers, P. D. James – sem falar das mais modernas, que eu não acompanho.

JUZO ITAMI

 

Juzo Itami

Juzo Itami nasceu em Kyoto, em 1933, filho do cineasta Manaku Itami, conhecido por filmes que satirizavam o código de honra dos samurais. Itami começou a carreira como ator, em filmes de Kon Ichikawa e Nagisa Oshima, trabalhando também no cinema americano, notadamente em 55 Days at Peking (55 dias de Pequim, 1963), de Nicholas Ray, e Lord Jim (Lorde Jim, 1965), de Richard Brooks. Sua irmã Yukari era casada com o escritor Kenzaburo Oe, Prêmio Nobel de Literatura.

Antes de passar à direção, aos 50 anos de idade, Itami foi produtor de filmes de sucesso. Assim obteve independência financeira para poder criar, como diretor, com toda a liberdade, suas parábolas ácidas sobre a sociedade japonesa contemporânea.

Em seu primeiro filme, Ososhki (O funeral, 1984), uma família tenta manter as regras da etiqueta durante um funeral, mas tudo se reduz à hipocrisia na nova sociedade consumista do Japão ocidentalizado, onde os valores religiosos tradicionais cederam ao hedonismo.

Em Tampopo (Tampopo, os brutos também comem espaguete, 1986), um caminhoneiro americanizado tenta transformar a dona de um restaurante de beira de estrada, interpretada pela esposa do diretor, Nobuko Miyamoto, na melhor cozinheira do país. A atriz, notável comediante, também estrelou os filmes seguintes de Itami.

Em Marusa no onna (A coletora de impostos, 1987), Nobuko Miyamoto é a advogada de aparência frágil, dotada de um caráter que a torna determinada até a obsessão. Ela é assim capaz de enfrentar e derrotar sozinha, apenas com sua aguda inteligência, as forças criminosas mais renitentes.

Em Mimbo no Onna (A arte da extorsão, 1992), Nobuko Miyamoto retorna encarnando a mesma personagem de advogada-detetive implacável, agora contratada pelos funcionários de um hotel localizado em território da Yakuza. Atormentados pelos mafiosos, os funcionários são instruídos pela advogada, com vasto currículo no combate ao crime, e conseguem, com golpes legais certeiros, virar o jogo.

Itami incomodava a “boa sociedade”, que reagiu de modo rasteiro: a revista Flash tornou público que ele havia traído a esposa Nobuko Miyamoto com uma jovem de 26 anos. O editor da Flash, Kenji Kaneto, declarou que sua reportagem sensacionalista era “fundamentada”. Como bem observou o jornalista Antônio Gonçalves Filho, também as ligações entre a Yakuza e as mídias no Japão são fundamentadas…

Por não suportar o escândalo, Itami teria se atirado do alto do edifício de seu escritório, em Tóquio, aos 64 anos de idade, deixando uma nota sobre a mesa: “Somente através da morte poderei provar minha inocência”. Esse suicídio pareceu a muitos um assassínio planejado. Houve pelo menos um antecedente: após o lançamento de Mimbo no Onna, Itami foi apunhalado em seu rosto e pescoço por integrantes da Yakuza.

Enquanto estava hospitalizado, Itami, opositor dos métodos criminosos de segmentos corruptos da elite japonesa, escreveu um livro denunciando a extensão do crime organizado no país. O próximo filme de Itami mostraria os bastidores da seita Aum, do guru Shoko Asahara, que matou dezenas de pessoas com gás sarin no metrô de Tóquio. Com a morte de Itami, calou-se precocemente uma das raras vozes críticas no cinema japonês.