OLIVER STONE

 

Oliver Stone encontra-se com Hugo Chávez no Festival de Veneza 2009. Foto: Nicolas Genin.

Ex-combatente no Vietnã,  Oliver Stone levou para o cinema  suas obsessões guerreiras e sua visão brutal do mundo, regada a sexo, drogas e rock and roll, sem esperança para o humor, a sutileza, a finesse. Começou com um filme de terror B não de todo ruim, The Hand (A mão, 1981), logo alcançando a fama com Platoon (Platoon, 1986), que, por razões enigmáticas, foi um grande sucesso de crítica e de bilheteria. Interessado pelo Terceiro Mundo, Stone realizou Salvador (Salvador – O martírio de um povo, 1986), uma espécie de filme-reportagem ou docudrama político histérico e aborrecido, que passa a ser a principal característica de seu estilo.

Depois de atacar o “capitalismo” em Wall Street (Wall Street – Poder e cobiça, 1987); de denunciar uma conspiração antissemita que levou ao assassinato do radialista, comediante e crítico Barry Champlain em Talk Radio (Verdades que matam, 1988) – sendo este seu melhor filme graças à peça de Eric Bogosian, que este escritor adaptou; de retornar à problemática do Vietnã em  Born on the Fourth of July (Nascido em 4 de julho, 1989), sobre um soldado mutilado que se torna um militante pacifista; e de reduzir Jim Morrison a um drogado comum em The Doors (The Doors, 1991), Stone debruçou-se sobre o assassinato de Kennedy em JFK (JFK – A pergunta que não quer calar, 1991).

Neste filme, Oliver Stone atingiu o máximo de sua paranóia. São três horas de filmagens baseadas nas hipóteses de Jom Garrison, que concluiu que Kennedy foi assassinado por uma conspiração múltipla da CIA, do FBI, da Máfia e dos anticastristras, cujo “pivô” seria um homossexual milionário. Os intelectuais brasileiros não estão sós em seu “Vôo da Solidariedade”: Stone joga pesado a favor da ditadura de Fidel Castro. E aponta o Mal que corrompe a América: os homossexuais ricos, com ligações no Pentágono, que ameaçam a estabilidade da família norte-americana. Kevin Costner repete seu papel em Os intocáveis, mas seu texto final é grotesco. Sissy Spacek faz uma esposa irritante, levando o filho na apoteose do tribunal, onde se exibe o filme proibido, com o cérebro do presidente saltando na capota do carro oficial: Jackie tenta apanhar o pedaço do crânio ou fugir do carro em movimento horrorizada com a cabeça de Kennedy em pedaços ao seu lado? Até hoje não entendi a movimentação dela sobre a capota do carro.

Gary Oldman como Lee Harvey Oswald, Tommy Lee Jones como o milionário homossexual, Joe Pesci como um homossexual sadomasoquista e Kevin Bacon como um prostituto fazem um ótimo trabalho – que só agrava a péssima imagem dos homossexuais no mundo. A montagem do atentado com a hipótese dos três assassinos é convincente. Mas com sua vovação para carniceiro, Oliver Stone se refestela com cenas de necrópsia. Ele é, definitivamente, um fascista em pele de carneiro esquerdista. “A quem aproveitou a morte de Kennedy?”, pergunta Mr. X. A única resposta que não falseia a verdade histórica é: “Oliver Stone”. JFK é um abuso. Abraão Zapruder filmou em 8mm o momento histórico da morte de Kennedy com as mãos a tremer enquanto o tiro perfurava a cabeça do Presidente. Já Oliver Stone, mais que a verdade dos fatos, quer os pedaços do cérebro. Bem fez a crítica de cinema Pauline Kael ao se aposentar em 1991 para, segundo ela mesma, “não precisar mais assistir a nenhum filme de Oliver Stone”.

Depois de retornar mais uma vez às problemáticas do Vietnã em Heaven & Earth (Céu e inferno, 1993), Stone glorificou a violência assassina em Natural Born Killers (Assassinos por natureza, 1994), em sua suposta crítica das mídias, levou à proibição do filme na Irlanda e na Inglaterra. Pelo menos dez crimes cometidos nos EUA foram relacionados ao filme: um garoto de quatorze anos degolou uma menina de treze em Dallas, no Texas, para ser, como disse a um amigo, “famoso como os assassinos por natureza”; na Geórgia, um adolescente acusado de matar um velhinho de 82 anos gritou para as câmaras de TV: “Eu sou um assassino por natureza!”. Estimulados também pelo filme de Oliver Stone, Florence Rey e Audry Maupin, descritos como “pessoas pacíficas” pelos amigos, pegaram o carro e resolveram matar pedestres a tiros, sendo caçados pela polícia nas ruas de Paris, deixando um saldo de cinco mortos.

Depois de refletir sobre a brutalidade do futebol americano em Any Given Sunday (Um domingo qualquer, 2000) – na cena mais impactante, durante uma partida um jogador tem um de seus olhos arrancado da face -, onde também aproveitou para exibir com muito gosto os corpos  nus dos jogadores musculosos no vestiário, Oliver Stone parece ter se curado de sua homofobia assumindo ser homossexual: essa saída do armário levou-o a realizar Alexander (Alexandre, 2004), seu segundo melhor filme, libertário na revelação das ambigüidades sexuais da cultura greco-latina – que filmes como Gladiador (2000), de Riddley Scott, ou Tróia (2004), de Wolfgang Petersen, evitam como a peste. Um crítico notou que o filme seria proibido no Irã devido à embaraçosa verdade histórica que apresenta: Alexandre o Grande (Colin Farrell) liquida o exércitro persa comandado por Dario III e destrói o palácio real em Persépolis em 330 a.C., terminando com o Império Persa ao mesmo tempo em que se entrega ao amor carnal com Hephaistion (Jared Leto), um escândalo para Ahmadinejad que, em 2007, na Universidade de Columbia, declarou não haver homossexuais no Irã (eles ali são enforcados…).

Mas essa aparente abertura de visão não impediu Oliver Stone de continuar a seguir, politicamente, uma trilha errada. Em 2003 ele finalizou um documentário sobre o nefasto Yasser Arafat: Persona non grata (1993-2003) e lançou Comandante (2003), onde exaltou o ditador cubano Fidel Castro. Logo denunciou que seu filme estaria sendo “bloqueado nos Estados Unidos”, assumindo a postura de um inocente ignorante da História: “Não sei exatamente o motivo. São as palavras de Fidel e as pessoas têm o direito de escutá-las.” Não contente em ser porta-voz do ditador comunista nas salas de cinema, Stone produziu também um documentário para a TV sobre Fidel Castro: Looking for Castro (2004). O ditador cubano fascina os pretensos esquerdistas milionários de Hollywood: Jack Nicholson chamou Fidel de “gênio”, Oliver Stone declarou ser ele “um dos homens mais sábios da terra”…

A visão terceiro-mundista neo-stalianista ou islamo-esquerdista de Oliver Stone aprofundou-se em South of the Border (2009), onde ele recolheu depoimentos de toda a turma: Tariq Ali, Raúl Castro, Hugo Chávez, Rafael Correa, Cristina Kirchner, Néstor Kirchner, Fernando Lugo, Lula e Evo Morales. Não deixa de ser curiosa a presença do escritor paquistanês muçulmano Tariq Ali em meio a essa plêiade de presidentes populistas sul-americanos, como uma espécie de embaixador do mundo muçulmano a interpretar com a máxima autoridade a realidade sul-americana.

Em 2010, na revista Time, Oliver Stone apontou, sem qualquer respaldo em fatos ou votos, o Presidente Lula como “o melhor político do mundo”, causando grande estrago na cultura política brasileira, já mistificada com a popularidade de “85%” daquele que estava a eleger a primeira “Presidenta” do Brasil, que nunca havia concorrido para cargo algum. O Brasil inteiro acreditou nessa patranha, sem ter o cuidado de verificar que, na votação popular inlcuída no mesmo número da revista Time, Lula encontrava-se na rabeira das preferências, tendo sido seu nome para receber o título de “melhor político do mundo” uma opção exclusiva de Oliver Stone…

Também para seu projeto para o programa Showtime de uma série com dez horas de duração intitulada Oliver Stones Secret History of America (2010), Oliver Stone escolheu nomes bastante significativos: Josef Stalin, Adolf Hitler e Mao Tsé Tung, ao lado do demagogo americano Joseph McCarthy. Para justificar esses nome, Stone pôs-se a fazer declarações revisionistas e antissemitas. Durante a reunião semi-anual da Associação dos Críticos da TV em Passadena, o cineasta argumentou que “Hitler é um bode expiatório fácil ao longo da história e tem sido usado de forma banal […]. Ele é o produto de uma série de ações. É a causa e o efeito… As pessoas na América não sabem das ligações entre a Primeira Guerra Mundial e a Segunda Guerra Mundial […] Através do meu trabalho documental tenho sido capaz de andar com os sapatos de Stalin e os de Hitler para entender os seus pontos de vista. […] Nós vamos educar nossas mentes e torná-las mais liberais e alargá-las. Queremos ir além das opiniões… Analise o financiamento do partido nazista. Quantas empresas americanas estavam envolvidas, desde a GM até a IBM. Hitler era apenas um homem que poderia facilmente ter sido assassinado.”

Mais tarde, ao London’s Sunday Times, Stone considerou Stalin como alguém por quem nutria simpatia, e o Holocausto como um acontecimento superdimensionado pelos judeus que “dominam a mídia” e que teriam impedido que Hitler e Stalin fossem colocados “no contexto”: “Eles ficam em cima de qualquer comentário, é o lobby mais poderoso de Washington. […] Hitler era um Frankenstein, mas havia também um Dr. Frankenstein: os industriais alemães, os americanos e os britânicos. Ele tinha um grande apoio. […] Hitler causou danos muito maiores aos russos que ao povo judeu, com 25 ou 30 milhões de mortos […] Israel tem ferrado a política externa dos Estados Unidos durante anos […]  A política dos EUA em relação ao Irã foi horrível”.

Para o Rabino Marvin Hier, fundador e decano do Centro Simon Wiesenthal, que produziu os documentários Genocide (Genocídio, 1981) e The Long Way Home (O longo caminho para casa, 1987), ambos premiados com o Oscar, “Oliver Stone tem todo o direito para interpretar a história numa maneira não convencional e não seguir o roteiro de documentários do History Channel. E sim, é verdade que houve muitos, inclusive corporações americanas, que ajudaram o desenvolvimento desde o início do ‘Terceiro Reich’. Mas profanamos a memória dos milhões que foram assassinados quando tentamos colocar seu arquiteto num contexto. Nenhuma teoria de causa e efeito poderá justificar Auschwitz, onde seres humanos se degradaram ao conduzir crianças para as câmaras de gás. […] As observações de Oliver Stone só servem para legitimar os revisionistas e aqueles que seriam preparados para marcharem novamente contra os judeus.”

Stone desculpou-se com um texto visivelmente articulado por seus assessores, preocupados com eventuais boicotes às suas produções: “Na tentativa de fazer um ponto histórico mais amplo sobre a série de atrocidades cometidas pelos alemães contra muitas pessoas, eu fiz uma associação infeliz sobre o Holocausto, pela qual eu lamento muito. Os judeus, obviamente, não controlam a mídia ou qualquer outra indústria. Na verdade, os responsáveis por manter o tema do Holocausto atual são os grupos de pessoas que trabalharam duro para manter a memória sobre aquelas atrocidades – e que eram realmente atrocidades.” [(Fonte: Alef, Edição 1.474 / 28 de julho de 2010.]

Mas Abraham Cooper, em nome da Liga Antidifamação e do Museu do Holocausto, não se convenceu, considerando que a série ainda não foi ao ar: “Como uma tempestade de protestos de grupos judeus, mas não dos parceiros de Stone, percorreu a Internet e a mídia, Stone pediu desculpas, declarando que o Holocausto foi uma ‘atrocidade’, o que foi um grande alívio para o seu agente de publicidade, mas não para os indignados sobreviventes do Holocausto. […] Quer queiramos ou não, os filmes são poderosas plataformas para o ensino de história – lições verdadeiras ou falsas não são facilmente desaprendidas.[…] Stone estará ‘contextualizando’ pessoas que têm ‘sido completamente difamadas pela história’. E vejam só quem ele escolheu: Stalin, Hitler e Mao, juntamente com o demagogo americano Joseph McCarthy. Por que toda essa angústia sobre tal produção? Por um lado, a completa reformulação por Stone dos maiores carniceiros do século XX numa produção americana poderia ressoar em todos os lugares errados no exterior. […] O Irã é o principal governo que patrocina a negação do Holocausto. Finalmente, a atitude de Stone ‘contextualizar’ Hitler e Stalin como caras não-tão-terríveis, com quem se poderia ter empatia, não só projeta uma feia sombra revisionista sobre o passado, como também poderia incapacitar a determinação contra futuros mega-homens maus. […] Que ensinamentos sobre Hitler, Stalin e Mao poderemos esperar de Oliver Stone, um homem que convive facilmente com Mahmoud Ahmadinejad do Irã, cuja pretensão é ser genocida, e com Hugo Chávez da Venezuela?” [Fonte: O Perigo ‘Oliver Stone’, The Los Angeles Times].

De fato, Oliver Stone, o cineasta que se quer o cronista da “verdadeira História americana”, é cada vez mais popular entre os anti-americanos. O presidente venezuelano, Hugo Chávez, chegou mesmo a declarar que gostaria que os americanos o nomeassem como embaixador em Caracas.  Outros nomes de figuras carimbadas também foram lembrados por Chávez: “- Eu lanço Oliver Stone candidato (…), ou Sean Penn, (Noam) Chomsky, temos muitos amigos lá. Bill Clinton…” [Fonte: Chávez quer Oliver Stone como embaixador em Caracas, O Globo, 5 jan. 2011].

Há alguns anos atrás, Ivan Reitman convenceu Oliver Stone a interpretar uma paródia de Oliver Stone em sua comédia Dave (Dave – Presidente por um dia, 1993): o cineasta fez aí uma breve aparição num talk show, no papel de um cineasta paranóico que tem uma teoria da conspiração sobre o Presidente do filme, que de fato não é o verdadeiro Presidente: o cineasta do filme descobrira de fato a verdade sobre o personagem, mas com isso ele estragava toda a sutil escaramuça armada na Casa Branca, para o nosso deleite. Felizmente, ele não recebia dos demais convidados ou do público qualquer crédito ou atenção, como na história do menino mentiroso que grita Lobo! toda hora, até que o lobo realmente aparece e quando ele grita Lobo! desta vez ninguém lhe dá bola… Em nenhum outro momento de sua carreira Oliver Stone foi tão verdadeiro quanto nesta paródia de si mesmo.

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