O CRÍTICO DE CINEMA E A MÍDIA

Casa onde nasceu Glauber Rocha, em Vitória da Conquista.

Entre setembro e outubro de 2002, ministrei na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), em Vitória da Conquista, o curso “O sexo cinematográfico: representações do desejo no cinema”, promovido pela Pró-Reitoria de Extensão, por meio do projeto Janela Indiscreta, para o qual também comentei a projeção de Il Decameron (Decameron, 1971), de Pier Paolo Pasolini, o filme que representou o pecado da luxúria na mostra “Sete Filmes Capitais”. Na época, eu desenvolvia o projeto Pier Paolo Pasolini: Vida e Obra, por meio de convênio da UFMG com a Universidade de Bolonha.

O jornal local noticiou o evento: “O curso vai mostrar como as imagens forjadas do desejo permanecem vinculadas aos padrões morais da sociedade e como o sexo assume formas diversas, segundo as modificações de comportamento introduzidas pelas novas tecnologias e políticas do corpo. Ao analisar as representações do desejo no decorrer da história do cinema, o curso pretendia resgatar a influência de diretores como Pasolini e Fassbinder e o aparecimento do erotismo e da pornografia como um novo cinema de gênero.” (Universidade realiza curso sobre cinema, A Tribuna da Bahia, 23 set. 2002).

Fiquei hospedado num ótimo hotel e fui muito bem recebido pelo organizador do evento, Esmon Primo, que havia criado através de Janela indiscreta o cineclube local, convidando para ali palestrar cineastas como Walter Salles e diversos críticos de cinema. Ele era um funcionário da universidade, empenhado na divulgação do cinema, e estava envolvido também com a política local. Cheguei a estar com ele uma noite num comício do PT, onde ele tinha muitos amigos, todos felizes e contentes, como crianças grandes, ao carregar e agitar suas bandeiras vermelhas aos gritos de “Lula-lá”.

Entre uma aula e outra, Esmon Primo levou-me a visitar a casa onde Glauber Rocha havia nascido. Era uma linda casa construída em 1938, um ano antes do nascimento do cineasta. Nos tempos da infância de Glauber viviam ali 22 pessoas aparentadas. Quando de minha visita, era habitada apenas por um casal idoso, creio que tios de Glauber. A casa estava bem conservada, como se o tempo ali tivesse parado. Nos jardins do fundo, havia uma pitangueira (comi uma pitanga saborosa) e uma jabuticabeira (então sem jabuticabas), além de jasmins que perfumavam o quintal à noite.

Antes de voltar a Belo Horizonte, passei uns dias em São Paulo e encontrei-me com Anita Novinsky e seus novos orientandos. Relatando para Anita minha curiosa viagem a Vitória da Conquista, ela me disse que eu havia perdido uma oportunidade única de conhecer, naquela cidade, o Centro de Estudos Inquisitoriais Anita Novinsky, à Avenida Paramirim, n. 2765, dirigido pelo Bispo Dom Evandro Gomes Brito, e no qual ela era cultuada como santa. Dom Evandro tornou-se um herege contemporâneo e foi excomungado pela Igreja ao defender o aborto, o amor livre e outras coisas. Escreveu o panfleto Os amantes do Papa, sobre as relações homossexuais de certo Papa. E sagrou “episcopisa” a esposa Rosanea Andrade Gomes Brito. Dom Agnaldo Oliveira Silva parece tê-lo seguido: eles introduziram os estudos da Inquisição numa escola local – um caso único na História do Brasil.

A seguir, a entrevista que concedi à jornalista Sonia Di Rebouças para o boletim on line da UESB, publicada a 12/12/2002, e aqui revista e corrigida.

Luiz Nazario diz que não há mais espaço para a crítica na mídia. Atualmente, o que existe são resenhas de filmes, feitas de forma superficial, atreladas a produtoras e distribuidoras. Respeitado pela sua atuação acadêmica na área de cinema e produção audiovisual, o professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), “cinéfilo estudioso”, como ele se define, Luiz Nazario, um paulista de origem italiana, ministrou, na UESB, o curso “O sexo cinematográfico – representações do desejo no cinema” oferecido dentro do projeto de Cine-vídeo Janela Indiscreta, que este ano comemora seus dez anos de atividades. O curso atraiu estudantes, professores, funcionários da instituição e cinéfilos de um modo geral para discutir aspectos históricos e sociais relacionados à veiculação das imagens do desejo no cinema mundial. No intervalo entre uma aula e outra, Nazario concedeu esta entrevista, na Assessoria de Comunicação da UESB, uma conversa agradável com a participação do produtor de vídeo Esmon Primo, em que se falou do cinema mundial, dos prêmios, dos festivais, de Glauber e da crítica de cinema que, segundo ele, acabou. (Sonia Di Rebouças).

UESB on line – Qual o papel da crítica de cinema na mídia?

Luiz Nazario – A crítica de cinema desapareceu. O que existe na imprensa hoje são comentários… Os jornalistas recebem os releases das produtoras, fazem um resumo e jogam ali umas opiniões pessoais. Isso não é crítica de cinema. É uma resenha ligada às produtoras. Acabou a crítica autêntica na imprensa.

UESB on line – A que se deve essa mudança de comportamento?

Nazario – É uma questão de reserva de mercado do jornalismo que não dá mais espaço para escritores e para críticos que, nem sempre, são formados em cursos de jornalismo. Os verdadeiros críticos de cinema possuem outra formação, eu mesmo sou formado em História e escrevia muito para jornais e revistas; porém, hoje a imprensa dispensa os especialistas que não são formados em jornalismo. Raramente um crítico de cinema é formado em jornalismo, ele pode ser formado em Filosofia, História, Artes, Letras… Os críticos não têm mais espaço.

UESB on line – Na sua opinião, isso traz prejuízos para a informação sobre cinema?

Nazario – Com certeza. Formei-me lendo as crônicas de Anatol Rosenfeld, Paulo Emílio Salles Gomes, Rubem Biáfora… Eles escreviam muito bem sobre cinema; escreviam ensaios com conteúdo, importantes para a formação de outros críticos. As gerações seguintes foram privadas dessa formação. Leem apenas resenhas nos jornais.

UESB on line – O senhor não considera importante que a própria pessoa forme um pensamento crítico sobre o filme a que vai assistir?

Nazario – É importante, mas as resenhas são superficiais e, como disse, associadas a produtoras e distribuidoras de cinema. O jornalista depende do material enviado pelas empresas. E aí também contam privilégios, como cafés da manhã, bonecos de personagens, bonezinhos, camisetas, essas “regalias” que fazem com que os jornalistas sejam mais positivos nas resenhas. Existe uma sedução comercial para que os jornalistas divulguem – e, se possível, bem – os filmes assim promovidos.

UESB on line – Há uma pressão por parte das distribuidoras também?

Nazario – Claro. Quando estréia um filme como O Homem Aranha, por exemplo, existe todo um aparato de marketing para que o filme seja maciçamente divulgado, antes mesmo que entre em cartaz. A mídia cria um clima psicológico favorável ao sucesso do filme, que pode ser bom ou ruim, isso já nem importa. A qualidade cinematográfica não está mais em questão. A questão é criar um smash hit, um sucesso esmagador, preparado através de campanhas que envolvem todas as mídias.

UESB on line – E a questão ética, como fica?

Nazario – O crítico não cedia à pressão de produtoras ou distribuidoras. Ele se mantinha fiel à questão estética. Não existia nem mesmo a preocupação em apontar: este é um bom filme, aquele é um abacaxi. Isso é típico de resenhistas. Até os anos de 1970, existia uma crítica ensaística que analisava a carreira de um diretor, a significação de uma obra. Os críticos mais tradicionais voltavam-se para a análise do conteúdo e da forma das obras. Não tinham a preocupação de apontar: “não percam este filme” ou “fujam deste”.

UESB on line – Até que ponto a crítica pode influenciar o público na opção por assistir ou não a um filme?

Nazario – A crítica a que me referi não se preocupava com isso. Mas sempre existiu uma crítica jornalística, e também essa vem decaindo. Mesmo essa contava, há uns 20 anos atrás, com muitos críticos interessantes. Hoje, eu não saberia citar um único crítico de categoria na imprensa. Os últimos talvez tenham sido Carlos Motta, Pola Vartuck, Edmar Pereira e Geraldo Mayrink – eram críticos jornalísticos que tinham suas paixões, suas idiossincrasias, suas intrigas em relação a diretores e atores; cada um escrevia de acordo com seu gosto pessoal, por vezes aberrante… Se o público concordava ou não, problema do público. Se um crítico não gostasse de determinado filme, com certeza afastava certo público desse filme. Dependia muito de quem lia o jornal e interpretava a crítica. Porque se eu conheço o crítico e sei do que ele gosta, e se eu não gosto do que ele gosta, então vou correndo assistir ao filme que ele detestou, evitando como uma praga o filme que ele adorou. O crítico tem que ter uma personalidade forte, que você passa a conhecer depois de certo tempo de leitura para poder agir em oposição ou conformidade a essa personalidade.  Se eu detesto um Rubens Ewald Filho, por exemplo, e leio uma resenha positiva assinada por ele, não assistirei ao filme; só verei os filmes que ele ataca. E posso até assistir a todos, só para rir das críticas positivas ou negativas igualmente equivocadas.

UESB on line – Ainda há espaço para o crítico na mídia, apesar do marketing?

Nazario – Não, não existe mais espaço para o crítico, porque o crítico tem que ter uma personalidade e para isso é preciso ter uma formação cinematográfica: o crítico é um cinéfilo precoce, um apaixonado pelo cinema desde a mais tenra idade. Para o jornalista de formação, o cinema é uma disciplina do programa de curso do jornalismo. Raramente, o jornalista é um cinéfilo, uma pessoa doente que vai ao cinema todos os dias a partir dos dez anos de idade. Trata-se de uma tara, ou de uma vocação, como a de um músico. É a personalidade forte do crítico que produz polêmicas. Desde criança, eles já têm uma orientação quase sexual para o cinema, e revelam gostos que entram em confronto com o gosto do público. E isso é o que era interessante. Com quem que eu poderia, hoje, discutir questões de cinema? Não me ocorre nenhum nome.

UESB on line – Fale agora dos projetos pedagógicos na área de cinema, com os quais o senhor está envolvido?

Nazario – A Escola de Belas Artes tem uma habilitação em animação, existe uma preocupação nossa, na área de cinema, de formar animadores. Só que a formação do animador na área de cinema engloba toda a história do cinema, toda a história da animação – que é uma história que corre paralela à história do cinema – e conhecimentos de artes plásticas, de artes gráficas e, hoje, de computação gráfica. Outra tendência dentro da Escola de Belas Artes é a realização de documentários; é outra linha de pesquisa que existe na Escola. Há também, depois da incorporação da área de teatro, uma tendência para a produção de filmes de ficção com atores.

UESB on line – E o seu trabalho na Internet? Do que se trata?

Nazario – A construção da linguagem do cinema é um dos meus temas. Há também a questão da performance no cinema, ligada à minha participação no NELAP (Núcleo de Estudos de Letras e Artes Performáticas). Pesquiso o cinema experimental, no qual os atores têm um tipo de atuação diferente daquela do cinema comercial. São filmes em que a espontaneidade é maior, onde a improvisação conta muito, com atores não profissionais que admitem maior exposição dos corpos. Pesquiso também as ligações entre cinema e história. Tenho vários cursos montados. Especializei-me no cinema alemão do período nazista, fiquei três anos na Alemanha estudando este cinema. O Holocausto é o tema de outro curso que preparei junto com professores de Letras, em que abordo a literatura e o cinema que se produziu sobre a Shoah.

UESB on line – Que influência teve o cinema nazista no mundo?

Nazario – O cinema nazista era o segundo cinema no mundo em termos de produção. Depois de Hollywood, estava o cinema alemão controlado por Goebbels. Foram produzidos, de 1933 a 1945, cerca de mil longas-metragens. Existe uma quantidade enorme de produção de filmes de propaganda, algumas explícitas, outras sugestivas. O cinema alemão não influenciava tanto o resto do mundo, porque ficava restrito à Alemanha. Contudo, durante a guerra, ele circulou pelos países conquistados: à medida que a Alemanha ocupava a Europa, destruindo as cinematografias locais, impunha suas produções. Durante a guerra, ele circulou muito. Depois voltou a ficar restrito à Alemanha, exercendo aí uma influência forte até hoje. Os filmes produzidos nos anos 30 e 40 são exibidos em “sessões nostalgia”, como nós assistimos, no Brasil, aos filmes de Oscarito e Grande Otelo, os filmes da Atlântida, nas sessões da tarde. Lá, eles assistem aos filmes nazistas à tarde, diariamente, na televisão. Então, esta é uma cultura que permanece viva no país, influenciando o povo alemão.

UESB on line –  Qual o senhor considera a fase mais importante do cinema?

Nazario – Durante toda a história do cinema, Hollywood exerceu a maior atração, a maior influência sobre o público mundial. Foi o cinema mais poderoso em todas as épocas, desde o cinema mudo, porque o cinema americano já era uma indústria por volta de 1914. Em outros países, essa indústria foi tentada nos anos 30 e 40, como, no Brasil, a Vera Cruz. Depois essas indústrias desarticularam-se, e a única que prevalece é a indústria americana, que atravessou todas as crises e permaneceu sempre produzindo em quantidade e distribuindo mundialmente. Então, é a única indústria que, desde o começo do cinema até hoje, tem produção incessante e distribuição mundial.

UESB on line – Foi um investimento intencional de certa forma, pois o cinema permite influenciar no modo de ver as coisas e no comportamento das pessoas.

Nazario – A distribuição mundial possibilita que os filmes americanos conquistem um público mundial. A cinematografia indiana produz até mais filmes que Hollywood, mas não tem uma distribuição mundial, visando exclusivamente o mercado interno. Não existe influência do cinema indiano no Brasil. Todo brasileiro é modelado pelo imaginário americano, que chega pelo cinema, pela televisão, pelo vídeo, pelo DVD, pela Internet… Então, mundialmente, a influência do cinema americano é imbatível. O cinema russo também sempre ficou limitado à Rússia; embora os russos tenham uma produção enorme, ela não sai da Rússia.  Da mesma forma, o cinema nazista ficou limitado à Alemanha. Já o cinema americano, por suas características universalizantes, penetrou em todas as sociedades.

UESB on line –  Que produções cinematográficas de grande valor cultural deixam ou deixaram de chegar até nós por conta dessa força da distribuição do cinema americano?

Nazario – O cinema nasceu na França, depois é que ele foi para os Estados Unidos, e muitas das invenções do começo do cinema são europeias  O cinema desenvolveu-se bem na Europa até a Segunda Guerra, depois houve uma decadência geral. E, aí, houve o predomínio total do cinema americano. O cinema europeu dos anos de 1910, 1920 e 1930, é tão vigoroso quanto o cinema americano. Depois haverá apenas alguns nomes que se destacam, porque as indústrias européias serão destruídas. Na Itália, haverá o neo-realismo italiano, e nomes como Fellini, Pasolini, Antonioni, Visconti, De Sica, Comencini, Monicelli, Bolognini; ou Wajda, Munk, Polanski, na Polônia; alguns nomes da Nouvelle Vague, como Rivette, Truffaut, Godard. Mas depois dos anos 70, o cinema europeu começa a decair. A França tem uma grande produção atualmente, mas ela não circula muito no mundo, com raras exceções.

UESB on line – E o cinema iraniano?

Nazario – O Irã vive sob uma ditadura e seu cinema sofre censura. Há filmes que só passam sem cortes nos festivais internacionais de cinema, depois eles são censurados para o público iraniano. É muito limitado em termos de conteúdo. O sexo é proibido, a violência é proibida. Os cineastas iranianos só podem fazer filmes de criancinha que perdeu o sapato.

UESB on line – No filme americano predomina o espetáculo, seja ele violento, seja ele o amor, é o espetáculo e muito bem feito. O senhor não acha que o cinema iraniano, de uns cinco ou mais anos para cá, ou o chinês, que começamos a ver através de mostras, trabalham com coisas mostrando que não é necessário esse espetáculo para se falar da amizade, da fraternidade e do amor entre as pessoas?

Nazario – O cinema iraniano é um fenômeno curioso, porque existe uma produção marginal maravilhosa na Inglaterra, na Itália, na Suíça, que não chega ao Brasil, mas o filme iraniano chega em massa. O filme acaba de ser produzido no Irã e já está no Brasil. Acho tão estranho esse fenômeno. No Brasil, não chegam o cinema inglês, o cinema italiano, o português, o francês, mas o iraniano chega infalivelmente. É estranho. E esses filmes iranianos são sempre premiados em festivais internacionais, mesmo quando existem grandes produções de diversos países concorrendo, até do Himalaia, que não são premiadas. Além do mais, o governo do Irã é uma ditadura, e muitos dos diretores iranianos associam-se a essa ditadura para produzir seus filmes, porque é um cinema produzido com o patrocínio do Estado. Assim, vejo com suspeita um filme produzido por um estado ditatorial religioso que chega no mundo inteiro, ganha prêmios e encanta todo mundo. Vejo com desconfiança esse cinema. E, para falar a verdade, recuso-me a ver filmes iranianos, eu os boicoto.

UESB on line – Como estão as produções audiovisuais nas universidades?

Nazario – Não temos escolas de cinema no Brasil, ou se existem, são muito precárias. Elas se limitam à produção de vídeo. Hoje, por um avanço da tecnologia dispomos de um diálogo muito grande entre as diversas mídias. Há um diálogo do computador com o vídeo, do vídeo com o cinema, do cinema com o computador, então, é possível agora, nas escolas de cinema, ou de comunicação, produzir cinema com menos dinheiro. Pode-se produzir em vídeo e, depois, transferir para película. Pode-se produzir um filme no computador e passar no cinema. Existe tecnologia que permite a transferência. A produção de cinema tende a crescer cada vez mais. Existem, agora, mais de 50 festivais de cinema no Brasil e a maioria deles admite todo tipo de produção, inclusive na Internet. As barreiras entre essas mídias estão sendo quebradas. Isso é positivo, os estudantes podem produzir a baixo custo, se tiverem uma boa ideia e um bom roteiro, filmes em diversos formatos. As limitações e o preconceito contra o vídeo e o computador tendem a acabar.

UESB on line – É possível parcerias entre universidades para o desenvolvimento das produções audiovisuais?

Nazario – Com certeza. Essa tendência também tende a crescer. É muito importante porque, às vezes, uma universidade possui uma determinada tecnologia, ou um equipamento que outra não tem, mas pode oferecer outras coisas em troca. Existe uma gama de possibilidades.

UESB on line – Como o senhor vê a atual fase do cinema brasileiro?

Nazario – O cinema brasileiro vive uma fase positiva. Não sou otimista, mas é um fato que a produção cresceu com os mecanismos de financiamento das leis de incentivo. Não há mais aquela pressão ideológica da época da Embrafilme e do Cinema Novo, quando alguns poucos cineastas podiam produzir, identificados com a ideologia correta – o cinema era muito ideológico. Hoje, qualquer pessoa que tenha um bom roteiro, que ganha um prêmio, pode produzir sem passar pela sabatina ideológica. A produção cresceu enormemente em todo o Brasil, houve uma descentralização da produção. Temos produções regionais muito interessantes, o que falta é a distribuição: acabamos não conhecendo essa produção; há coisas sendo produzidas de Norte a Sul que a gente nem toma conhecimento. Muita coisa produzida no Norte que não chega ao Sul e vice-versa. Mas a produção cresceu em qualidade também: o apuro técnico do cinema brasileiro aumenta a cada ano.

UESB on line – Os prêmios internacionais (Oscar, Urso de Prata etc.) tiveram influência no crescimento do cinema brasileiro?

Nazario – O Oscar é uma ilusão. É uma festa americana para os americanos, é uma festa familiar deles. Se, por acaso, um filme brasileiro foi indicado para o Oscar e uma atriz brasileira sentou no Teatro Chinês, isso não deve iludir ninguém. Foi apenas um acidente de percurso; o cinema brasileiro deve procurar outros caminhos. A meta não é o Oscar.

UESB on line – E os festivais?

Nazario – Os filmes brasileiros que chegam ao Oscar não são 100% brasileiros. Central do Brasil é uma produção americana com distribuição americana. O que é isso companheiro? tem produção americana e foi dirigido por Bruno Barreto, casado com Amy Irving, ex-mulher de Steven Spielberg, com muita influência em Hollywood. Só cineastas com trânsito nos EUA e contatos com produtores americanos conseguem ser indicados ao Oscar. Já os festivais internacionais são eventos abertos, onde há possibilidade de concorrência leal com cineastas nas mesmas condições estruturais de produção.

UESB on line – Recordando Walter Salles, aqui na UESB em 1999, ele disse que muito mais importante que almejar o Oscar é  a possibilidade de ter o seu filme visto no seu próprio país. Diante disso, a pergunta é: não haveria uma forma de o governo investir na construção de empresas de distribuição?

Nazario – Creio que o governo deveria investir alto na área do audiovisual, não só para criar salas onde só fossem exibidos filmes brasileiros, mas salas em que a produção não comercial pudesse encontrar o público, ter um espaço, porque público existe. Há um interesse cada vez maior dos jovens em conhecer o cinema brasileiro como um todo, não só do seu Estado, da sua cidade, como também do resto do país. Também deveria haver interesse do Estado em preservar o cinema, porque não importa somente a produção, é preciso conservar o que foi realizado para as futuras gerações. É preciso cuidar da memória audiovisual do país. Guardar os filmes todos em cinematecas sob condições adequadas, cuidar da recuperação, da restauração das cópias antigas, nada disso tem sido feito, ou tem sido feito timidamente, com poucos recursos. Nos EUA, caixas e mais caixas de filmes do cinema mudo podem ser compradas em DVD. No Brasil, só agora lançaram os filmes de Humberto Mauro em DVD, e começam a lançar a obra de Glauber Rocha. Os filmes antigos não passam mais nos cinemas, nem mesmo nas TVs abertas – a única forma de se ter acesso à história do cinema aqui, hoje, é o DVD. Deveria haver investimentos pesados na conservação das matrizes, na restauração dos filmes; depois de restaurados, os filmes deveriam ser exibidos em salas de cinema e comercializados em DVD.

UESB on line – Fale um pouco sobre seu curso O sexo cinematográfico – representações do desejo no cinema.

Nazario – A pornografia sempre existiu, em circuitos paralelos, desde o começo do cinema e, até hoje, e cada vez mais essa indústria mostra-se poderosa. O cinema erótico, que tem o sexo como preocupação dramática, psicológica, com todas as conseqüências sociais da sexualidade, sofreu em Hollywood muitas barreiras a partir dos anos de 1930, com os códigos de produção. No Brasil, Laranja mecânica foi exibido com bolinhas pretas… Existem duas censuras: a do Estado e a dos próprios estúdios – o Código de Produção que nos EUA vigorou até 1968, proibindo a sexualidade explícita, a nudez (mesmo de criança), beijos prolongados e violência explícita (mutilação, sangue jorrando, etc.). Com o fim do Código, a violência e a sexualidade tornaram-se cada vez mais explicitas. No cinema underground sempre houve nudez e sexo, desde os anos de 1940, mas no cinema comercial o código proibia tudo. Depois, há uma influência recíproca da pornografia no cinema comercias. A indústria pornográfica torna-se popular com Garganta profunda, que despertou curiosidade em todas as camadas sociais, não mais no circuito pornográfico: o sexo explícito ganhou as grandes plateias. A pornografia passou a ser mais vista pelas pessoas em geral, não só pelos viciados em sexo. Aquele filme abriu as portas para uma pornografia que passou a influenciar a produção comercial e os artistas começaram a incorporar cada vez mais elementos da pornografia em seus filmes. Na Europa, essa liberação veio com Deus criou a mulher, de Roger Vadim, que lançou Brigite Bardot como mito sexual; nos EUA, Marilyn Monroe foi um mito sexual, mas seu corpo foi preservado da nudez; já a Bardot se desnudava em cena. Depois, com Trilogia da vida, Império dos sentidos, O último tango em Paris, Salò, Querelle, etc. outros tabus foram caindo.

UESB on line – E a nudez masculina?

Nazario – A nudez masculina demorou mais para chegar às telas. No cinema industrial americano, só chegou nos anos de 1990, enquanto que no cinema comercial europeu chegou nos anos de 1970. É lenta a evolução da sexualidade no cinema. Recentemente, há maior liberação e filmes artísticos incorporam imagens pornográficas: em Romance, por exemplo, uma atriz de cinema convencional tem uma relação explícita com um ator de cinema pornográfico, ela aceitou o papel. De olhos bem fechados, o último filme do Kubrick, traz cenas de orgia quase explícitas. Em Os idiotas, de Lars von Trier, há uma seqüência de sexo explícito. Assim, a tendência do atual cinema artístico é incorporar elementos da pornografia dentro de certos contextos.

UESB on line – E o cinema de Glauber Rocha?

Nazario – É um cinema desigual. Há coisas geniais em Di, Terra em transe, Deus e o Diabo na Terra do Sol e fracassos como A Idade da Terra. Ele transformou em estilo a dificuldade de produção do cinema brasileiro. É um cineasta visionário, que aponta caminhos, um cineasta de manifestos ideológicos, que sintetizou o Cinema Novo em sua obra como um todo, mais que um cineasta que sirva de modelo; ele não se preocupou em desenvolver a linguagem cinematográfica, apenas o seu próprio estilo. O cinema de Glauber é um cinema de conteúdo, um cinema político, um cinema de manifestos.

Ao final da entrevista, Luiz Nazario respondeu a este ping-pong:

Um filmeOs pássaros.

Um diretor – Alfred Hitchcock.

Uma época – Cinema mudo.

Um gênero – Suspense.

Um ator – Gary Cooper.

Uma atriz – Marilyn Monroe.

O cinema de um país – Cinema alemão.

Estilo – Expressionismo.

Preto e branco ou colorido – Preto e branco.

Estudioso ou cinéfilo – Cinéfilo estudioso.

MELHORES FILMES DE 2002

01. Cidade dos sonhos.

02. Crônica da inocência.

03. Assassinato em Gosford Park.

04. Fale com ela.

05. O poder vai dançar.

06. Minority Report.

07. Plata quemada.

08. História real.

09. O escorpião de Jade.

10. O senhor dos anéis.

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