ROSA VON PRAUNHEIM

Rosa von Praunheim.

Nascido em Riga, em 1942, Holger Mischwitzki passou a infância na Alemanha oriental, e fugiu da Cortina de Ferro com sua família para a Alemanha ocidental, acabando por estabelecer-se em Frankfurt. Estudou Artes em Offenbach, Berlim e Paris, sem se formar, optando pela profissão de cineasta.

Escrevendo livros, realizando curtas-metragens como Samuel Beckett (1969) e colaborando nos filmes de Werner Schroeter e George Markopoulos, Holger Mischwitzki adotou o nome de Rosa von Praunheim (“Rosa em alusão” ao “triângulo rosa” com que os nazistas marcavam os homossexuais e “Praunheim” em homenagem ao bairro de Frankfurt onde ele vivia) e assumiu  pouco a pouco a militância gay no cinema alemão.

Os filmes de Praunheim permanecem impermeáveis ao mercado, embora Nicht der Homosexueller ist pervers, sondern die Situation, in der er lebt (Não é o homossexual que é perverso, mas a situação na qual ele vive, 1971) tenha se tornado um clássico no gênero camp e o documento detonador de uma revolução social. Entrevistando homossexuais espantosamente feios e vulgares, Rosa von Praunheim tecia uma defesa irônica da homossexualidade.

Praunheim também denunciava em Nicht der Homosexueller ist pervers, sondern die Situation, in der er lebt a passividade dos homossexuais nas sociedades democráticas e tolerantes: “os gays não querem ser gays, e sim levar uma vida pequeno-burguesa como cidadãos médios, seu conformismo político sendo seu agradecimento pelo fato de não estarem mortos”. Essa constatação despertou a consciência dos homossexuais alemães e levou-os a reagir: cerca de 50 grupos militantes foram então organizados no país.

O cineasta realizou, em seguida, uma série de filmes pouco vistos: Macbeth Oper von Rosa von Praunheim (1971); Bettwurst (1971); Leidenschaften (1972); Was di Rechte nicht sieht, kommt erst recht aus dem Ohr heraus (1972); Axel von Auersperg (1974, feito para a TV); Monolog eines Stars (1974); Rosa von Praunheim zeigt (1975); Berliner Bettwurst (1975); Porträt Marianne Rosenberg (1976); Ich bin ein Antistar – Das skandalöse Leben der Evelyn Künneke (1976); Underground and Emigrants (1976); Der 24. Stock (1977); Portrait George and Mike Kuchar (1977); Frühling für Frankfurt (1977) – peças extravagantes, bufas, autogozadoras, girando em torno de personagens marginais, decadentes e caricatas.

Praunheim não esconde ser alguém que é completamente dominado pelo sexo. Em Armee der Liebenden oder Aufstand der Perversen (O exército dos perversos, 1979) documenta, em meio às manifestações históricas do Gay Lib americano, a felação que praticou, em público, num dos jovens participantes de seus workshops.

Mas, ao contrário de outros militantes gays, Praunheim interessa-se por política, abordando a corrida armamentista em Das Todesmagazin oder: Wie werde ich ein Blumentopf? (1979); a repressão soviética da sexualidade em Rote Liebe – Wassilissa (Amor vermelho, 1981); a política alemã em Unsere Leichen leben noch (Nossos cadáveres ainda vivem, 1981); a espionagem internacional em Stadt der verlorenen Seelen (A cidade das almas perdidas, 1983); a epidemia da Aids em Ein Virus kennt keine Moral (Um vírus não conhece nenhuma moral, 1986).

O filme mais original de Rosa von Praunheim talvez seja Horror Vacui (Horror Vacui, 1984), uma parábola caligaresca sobre dois jovens amantes que se envolvem com uma perigosa Madame que, por um lado, prediz a seus clientes um futuro sombrio e, por outro, lidera a seita Optimismus Optimal, a única capaz de inverter a sorte das vítimas de seus vaticínios anteriores.

Certa vez, num encontro com jornalistas durante uma mostra de seus filmes dentro da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, perguntei a Rosa von Praunheim se gostaria de refilmar alguns de seus filmes, todos de produção visivelmente precária, caso dispusesse de maiores orçamentos. Ele me respondeu negativamente: “Não me interessa o resultado do filme, mas o tipo de vida que levo enquanto realizo o filme”. Se contasse com um alto orçamento, investiria boa parte dele em festas e orgias. Rosa nunca passará de um esboço de cineasta, pois seu objetivo não é primordialmente criar, mas fazer da profissão de cineasta um estilo de vida, um meio de conhecer pessoas, viajar, descobrir talentos, fazer sexo e propagar suas opiniões a um público específico.

Neste sentido, Tally Brown – New York (1979) pode ter sido um dos filmes que Rosa von Praunheim mais gostou de fazer. Este documentário único registrou, com exclusividade, a voz extraordinária da maior cantora underground americana: a feiosa anãzinha de voz possante Tally Brown, uma superstar verdadeiramente freak, desfilando seu sofisticado repertório por saunas gays e bares decadentes, interpretando como ninguém o Rock’n’ Roll Suicide, de David Bowie: “You’re not alone! / Just turn on with me and you’re not alone / Let’s turn on and be not alone (wonderful) / Gimme your hands cause you’re wonderful (wonderful) / Gimme your hands cause you’re wonderful (wonderful) / Oh gimme your hands.” – ela canta, desesperada, estendo a mão aos gays de uma boate decadente, e é impossível não verter algumas lágrimas com os extremos dramáticos de sua performance quando ela declama esses últimos versos da canção.

Affengeil (1991) é outra reportagem, esta sobre a vida de mais uma freak extraordinária: Lotti Huber. Eis uma mulher que poderia ter sido uma grande atriz, mas que só possui uma carreira de atribulações e fugas, lutando até a velhice pela sobrevivência. Judia, ao unir-se na Alemanha nazista com um jovem loiro alemão, foi denunciada pela vizinhança: a Gestapo invadiu seu apartamento, levou o alemão para ser executado e internou Lotti num campo de concentração pelo crime de Rassenschande. Lotti conseguiu escapar do KZ e partiu para Jerusalém, onde se tornou dançarina de variedades. Mais tarde, casou-se com um inglês, e ambos tentaram montar uma nova vida em Chipre. Lotti desentendeu-se com ele e decidiu viver sozinha, montando um bar, chamado Octopussi. Mais tarde, Lotti voltou para a Alemanha, casada com outro inglês. Ao perder o marido, com sessenta anos de idade, e apenas sete mil marcos no banco, teve que voltar a trabalhar, vendendo produtos de porta em porta, ocupação que a sustentou por sete anos (“Tornei-me estrela de propaganda”, ironizava em entrevistas).

Somente nos anos de 1970 o talento de Lotti Huber foi descoberto pelo ator e cineasta David Hammings, que lhe deu um pequeno papel em Schöner Gigolo, armer Gigolo / Just a Gigolo (1978), seu primeiro filme. Mas foi Rosa von Praunheim quem a transformou numa verdadeira estrela underground, fazendo-a protagonizar Unsere Leichen leben noch (Nossos cadáveres ainda vivem, 1981); Stadt der verlorenen Seelen (A cidade das almas perdidas, 1983); Horror vacui (Horror vacui, 1984); Ein Virus kennt keine Moral (Um vírus não conhece nenhuma moral, 1986); Anita – Tänze des Lasters (1987); Affengeil (1991); Neurosia – 50 Jahre pervers (1995).

Lotti é uma dançarina e atriz que herdou as técnicas do expressionismo alemão. Seus gestos e movimentos seguem a tradição da dança grotesca de Valeska Gert. Sua máscara facial é capaz de evocar todas as nuances do horror, do medo, da angústia e da loucura. Ela é um teatro vivo, um feixe de emoções brutas: bondade e agressividade, compaixão e impiedade indissociáveis. Uma freak encantadora, que se tornou uma espécie de fada madrinha dos homossexuais alemães por sua estética Kitsch comum a todo travesti, sua aparência extravagante servida por roupas e maquilagem escandalosas, sua mente aberta a todas as aventuras eróticas.

Coerente e sempre militante, Rosa von Praunheim comemorou em 1993 seus 50 anos de idade com um livro de memórias, 50 Jahre pervers (“50 anos perverso”), e o lançamento do filme Ich bin meine eigene Frau (“Eu sou minha própria mulher”, 1993), sobre Charlotte von Mahlsdorf, nascida Lothar Berflede, um travesti da ex-Berlim oriental, com fixações sadomasoquistas e amor por antigüidades. Charlotte matou seu pai, um nazista; restaurou sozinho um castelo depois da guerra; e sofreu a repressão do regime demolidor da ex-DDR, que o obrigou a desmontar seu museu particular onde conservava as relíquias do único bar gay da Alemanha oriental, fechado pelo governo. Finalmente, teve seus atos de escandalosa bravura em prol da conservação do patrimônio público, reconhecidos pelo governo, sendo condecorado, após a reunificação das duas Alemanhas, pelo Presidente da República.

Em Der Einstein der Sex (O Einstein do sexo, 1999), Praunheim prossegue sua militância política e sexual biografando o pesquisador judeu comunista e homossexual Magnus Hirschfeld, o pioneiro da sexologia na República de Weimar, e cujo Instituto de Pesquisa da Sexualidade foi destruído pelos nazistas, que levaram os livros de sua preciosa biblioteca para queimar em praça pública, enquanto o “Eistein do sexo” conseguia fugir a tempo da Alemanha, levando seu protegido, o travesti oriental Dorchen. Num de seus últimos filmes, Für mich gab’s nur nor Fassbinder (2000), Praunheim prestou uma homenagem ao colega Rainer Werner Fassbinder, entrevistando as estrelas de seus filmes do já velho Novo Cinema Alemão.

Em Meine Mütter – Spurensuche in Riga (Minha mãe – em busca de rastros em Riga, 2008), Rosa resgatou seu passado depois de descobrir, em 2000, que sua mãe não era sua mãe: aos 94 anos de idade, ela confessou ter adotado o diretor. Viveu com Rosa seus últimos dez anos de vida, morrendo em 2003. Praunheim decidiu investigar então seu próprio passado, e depois de muita pesquisa descobriu ter nascido na Prisão Central de Riga: sua verdadeira mãe morrera num hospital psiquiátrico em 1946.

Num de seus últimos filmes, o documentário nostálgico New York Memories (Memórias de Nova York, 2010), Rosa von Praunheim revisita a cidade onde, confessa, viveu seus melhores anos, no meio underground onde reinava como o sumo sacerdote de mistérios insondáveis o extraterrestre Andy Warhol, sempre acompanhado de sua corte de freaks neuróticas, travestis superstars, socialites drogadas e de alguns dos homens mais belos do mundo.

Candy Darling e Andy Warhol em 'New York Memories' (2010), de Rosa von Praunheim.

Fontes:

ALBUQUERQUE, Carlos. El diretor y activista gay Rosa von Praunheim cumple 65 años. Deutsche Welle / Eikidu. URL: http://www.enkidumagazine.com/art/2007/201107/e_2011_048.htm

Cinema Gay.  URL: http://www.cinemagay.it/schede.asp?IDFilm=2840.

Rosa von Praunheim. URL: http://www.rosavonpraunheim.de.

Rosa von Praunheim. Internet Movie Data Base. URL: http://www.imdb.com/name/nm0902823.

Schwules Museum. URL: http://www.schwulesmuseum.de.

Teddy Award. URL: http://news.teddyaward.tv/de.

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