Arquivo do mês: outubro 2011

AUDREY HEPBURN

Audrey Hepburn em ‘Funny Face’, de Stanley Donen.

Entrevista a Julia Guimarães, a 28 de abril de 2009, para o Jornal Pampulha.

O que Audrey Hepburn representou para a indústria cinematográfica do período?

Audrey Hepburn foi uma estrela cujo perfil aproximava-se do de Grace Kelly, sendo menos belo, porém. Na verdade, ela era quase uma feiosa. Esquelética, tinha um nariz grande e pés enormes para os padrões de uma estrela; seu pescoço era tão longo quanto o de uma girafa, ou uma figura de Modigliani. E se os homens preferem as loiras, ela também levava desvantagem no acessório. Mas, apesar dos detalhes transgressores desses padrões clássicos de beleza, o conjunto era perfeito, e ela se tornou uma top model pelo porte elegante e pelo charme discreto, dominando, enfim, a arte de representar.

Que imagem a atriz transmitiu através de seus personagens? Por que ela se tornou uma figura tão emblemática?

Audrey Hepburn projetou no cinema dos anos de 1950-1960 a imagem de uma jovem intelectual, aparentemente frágil, que se revela, apresentada a ocasião, enérgica e determinada. Um de seus papéis mais marcantes foi a da princesa hesitante de Roman Holiday (A princesa e o plebeu, 1953), de William Wyler: Gregory Peck é o jornalista que a leva aos mais encantadores passeios pela Roma pré-turismo de massa, e que representam uma iniciação à vida adulta para a jovem apaixonada que acaba assumindo a condição de princesa, consciente das responsabilidades, aceitando sacrificar as alegrias simples ao destino que a entronizou. Note-se que Audrey Hepburn, nascida na Bélgica e educada na Inglaterra, tinha “sangue azul”, era filha de uma duquesa. Outro papel marcante foi sua Holly Golightly em Breakfast at Tiffany’s (Bonequinha de luxo), de Blake Edwards, que revela sua faceta de comediante sofisticada e onde seu corpo esbelto é realçado pelos vestidos tubinhos de Givanchy. Outro papel inesquecível é sua Eliza Doolittle, a feirante arruaceira que se transforma, graças ao Professor Higgins (Rex Harrison), numa grande dama de pronúncia refinada em My Fair Lady (Minha bela dama, 1964), de George Cukor. Outra personagem sensacional é a sua cega que leva uma vida independente, e que, assaltada em Wait until Dark (Um clarão nas trevas, 1967), de Terence Young, conta apenas com sua inteligência para vencer o sinistro vilão.

No período em que Audrey Hepburn começa a fazer sucesso, o ideário de beleza era muito distinto do corpo magro, os cabelos pretos e o estilo discreto da atriz?

Creio que foi um período de transição, das divas “sensuais”, “carnudas”, “escandalosas” como Marilyn Monroe, Elizabeth Taylor, Lana Turner, que chegam à caricatura com Jayne Mansfield, Shelley Winters e Dorothy Malone, para estrelas mais discretas, elegantes e magras, sob a influência crescente das revistas de moda e de suas top models, como Grace Kelly (ex-modelo de moda); Shirley MacLaine (que fez balé clássico); e Audrey Hepburn (que estudou balé e também foi modelo).

Em sua opinião, como ela conseguiu impor seu padrão e tornar-se referência em Hollywood?

Bem, não é porque você é linda e ótima atriz que se tornará modelo de beleza e estrela de Hollywood: milhares de fatores, chances, oportunidades, eventualidades, acasos e vontades precisam convergir num mesmo tempo e lugar sobre algumas privilegiadas do destino, sob trabalho árduo, para que apenas essas dentre as centenas de milhares de jovens com as mesmas características, desejos e qualidades de uma Audrey Hepburn triunfem no cinema industrial americano.

Em sua opinião, qual é o filme mais importante dela? Por quê?

É difícil dizer, uma vez que ela atuou em filmes relevantes em diversos gêneros diferentes (comédias, policiais, suspenses, dramas, musicais). Meu drama predileto com Audrey Hepburn é The Children’s Hour (Calúnia, 1961), de William Wyler, em que ela contracena com Shirley MacLaine, baseado na peça teatral de Lilliam Hellman, sobre duas professoras perseguidas depois de terem sido acusadas por uma aluna maldosa de manterem uma relação lésbica. Já no gênero musical, Funny Face (Cinderela em Paris, 1957), de Stanley Donen, em que ela contracena com Fred Astaire como o fotógrafo de moda Dick Avery (uma espécie de Richard Avedon), é a maior maravilha.

Qual é o legado que Audrey Hepburn deixou para o cinema de hoje?

A maioria dos filmes estrelados por Audrey Hapburn, de Sabrina (Sabrina , 1954), de Billy Wilder, a Charade (Charada, 1963), de Stanley Donen, é de alta qualidade. O segredo de sua eternidade está, além de sua própria figura, nos personagens que ela interpretou sob a direção dos maiores cineastas da Hollywood dos anos de 1950-1960, como Fred Zinnemann, William Wyler, Billy Wilder, Stanley Donen, George Cukor, John Huston; e finalmente até por Steven Spielberg, infelizmente num filme menor do cineasta – Always (Além da eternidade, 1989) – que soube, contudo, valorizar a estrela veterana, já em idade avançada e doente de câncer.

Existiriam, hoje, atrizes correspondentes a Audrey? Quem?

A atriz que hoje mais se aproxima de Audrey Hepburn, pelo charme, pelo porte elegante e pela discreta feminilidade, é Gwyneth Paltrow. Mas ela só agora atinge sua maturidade como atriz, maturidade que Audrey Hepburn demonstrou já em seus primeiros trabalhos.

REPORTAGEM PUBLICADA

AUDREY HEPBURN:A ETERNA BONEQUINHA DE LUXO

JORNAL PAMPULHA, 02/05/2009.

Responsável por um forte legado no cinema e na moda, Audrey Hepburn completaria 80 na próxima segunda-feira.

Julia Guimarães

Refletida na vitrine, com um longo preto, luvas de veludo, grandes óculos escuros e o cabelo preso em coque, lá está ela. A despeito de toda a sua elegância, toma um singelíssimo café da manhã, de pé mesmo, enquanto contempla seu objeto de desejo: as belas joias da loja Tiffany´s. Quem conhece a cena, sabe de que filme e atriz estamos falando. Sim, trata-se da eterna Audrey Hepburn, uma das maiores referências para o cinema e a moda de todos os tempos, que consagrou seu estilo singular em “Bonequinha de Luxo” (1961).

Se estivesse viva, a atriz completaria 80 anos na próxima segunda-feira (dia 4). E a prova de que sua imagem atravessou gerações para ganhar o status de atemporal foi o prêmio que recebeu recentemente como a atriz mais bonita da história do cinema, superando beldades atuais como Angelina Jolie, Cameron Diaz e Julia Roberts, segundo uma pesquisa publicada no Reino Unido em fevereiro deste ano. Para entender porque a “oitentona” Audrey continua tão presente no imaginário coletivo, inspirando estilistas, cineastas e personalidades, é preciso reconstruir o significado de sua imagem no período em que despontou no cinema. Com um padrão de beleza e comportamento contrastante aos das grandes divas do período, como Marilyn Monroe e Rita Hayworth, Audrey tinha tudo para ser um grande fracasso.

“Na verdade, ela era quase uma feiosa. Esquelética, tinha um nariz grande e pés enormes para os padrões de uma estrela; seu pescoço era tão longo quanto o de uma girafa, ou uma figura de Modigliani. E se os homens preferem as loiras, ela também levava desvantagem no acessório”, descreve o professor de Cinema da UFMG, Luiz Nazario. Porém, foi a astúcia e confiança no próprio estilo que fizeram da atriz referência de elegância. Audrey sabia valorizar o que tinha de melhor, como os olhos amendoados, o charme discreto, o porte de modelo e o domínio na arte de representar. “O conjunto era perfeito”, define Nazario.

Mudanças nos padrões de beleza

Segundo Luiz Nazario, Audrey participou de um período de transição das divas “sensuais” e “carnudas” – como Marilyn Monroe, Elizabeth Taylor e Lana Turner – para estrelas mais discretas, elegantes e magras. Na lista das últimas, Nazario inclui, além de Audrey, Grace Kelly e Shirley MacLaine. Não por acaso, as três tinham na biografia passagens pelo balé e pela carreira de modelo. Audrey chegou até a se profissionalizar em dança, mas não prosseguiu, surpreendentemente, por falta de talento. (JG)

Dobradinha moda/cinema foi sucesso

Ainda que afirmasse não se interessar tanto por moda, foi Audrey Hepburn quem teve a iniciativa de procurar Givenchy em Paris, onde pediu que o estilista lhe vestisse em “Sabrina”. A partir daí, a parceria se prolongaria pelos filmes seguintes. Sob influência do amigo e estilista Balenciaga, Givenchy foi extremamente inovador no cinema ao criar figurinos arquitetônicos, consagrando a presença da alta costura em Hollywood. (JG)

ELEGANTE NA TELA E NA VIDA REAL

JORNAL PAMPULHA, 02/05/2009.

Biografia da jovem culta e antenada, de estilo limpo e atemporal, se pautou pela coerência entre a carreira e vida pessoal.

Julia Guimarães

O legado deixado por Audrey Hepburn para a posteridade vai além das roupas, maquiagens e cabelos que adotou. Está ligada a uma vida singular, de uma jovem culta e antenada, cuja biografia se pautou, sobretudo, pela coerência entre o que a atriz aparentava e o que era. Além de falar cinco idiomas e ter ‘sangue azul’ – era filha de baronesa – Audrey, no fim da vida, se engajou em questões humanitárias, tornando-se embaixadora da Unicef. E apesar de ser um ícone para a moda, especialistas afirmam que seu estilo não envelhece justamente por ter driblado a temporalidade do mundo fashion.

“Audrey dizia que a moda não está na aparência, mas nos detalhes. E, na minha opinião, isso está ligado a um minimalismo que se observa até na composição da imagem dela. É tudo tão limpo e atemporal que isso a torna eterna. Não é algo datado como a Marilyn Monroe, por exemplo”, explica Angélica Oliveira Adverse, professora da Faculdade de Moda da Fumec. Angélica observa que a elegância presente na imagem de Audrey estaria muito mais ligada a uma postura. “Uma pessoa bem vestida é aquela que possui um comportamento refinado que vem de uma essência. Vem da gentileza, da fala e de como a pessoa se comporta no cotidiano.”

Para a professora, a elegância de Audrey tornou-se algo escasso na atualidade. “É o excesso que causa a falta de elegância. E a preocupação com os modismos estão mais fortes do que nunca. É raro ver uma atriz de hoje que tenha um estilo singular, elas são camaleoas, mudam de acordo com a tendência. E como dizia Channel, a moda é efêmera, mas o estilo permanece”, diz. Outro motivo que fez a imagem de Audrey permanecer atual foi sua bem-articulada carreira.

“O segredo de sua eternidade está, além da própria figura, nos personagens que interpretou sob a direção dos maiores cineastas da Hollywood dos anos de 50 e 60, como Fred Zinnemann, William Wyler, Billy Wilder e John Huston”, explica Luiz Nazario, professor de Cinema da UFMG. Ao se referir aos papéis marcantes, Nazario destaca, entre outros, a princesa hesitante de A Princesa e o Plebeu e a comediante sofisticada de “Bonequinha de Luxo”. “Ela projetou no cinema a imagem de uma jovem intelectual, aparentemente frágil, que se revela, apresentada a ocasião, enérgica e determinada.”

A inspiração que Audrey Hepburn desperta nos estilistas parece não ter fim. De Givanchy à GAP, inúmeras foram as grifes que se referenciaram na atriz, seja por suas calças corsário, pelos tubinhos e malhas pretas, os enormes óculos escuros ou as despojadas sapatilhas. Entre os seguidores tupiniquins, Walter Rodrigues homenageou Audrey no ano passado, na coleção de verão do Fashion Rio. Outra que se declara fã assumida da atriz é Clô Orozco, diretora de estilo das marcas Huis Clo e Maria Garcia.

“Ela sempre foi minha inspiração porque desenho para uma mulher como ela: magra, elegante e chique. Outro dia, fiquei surpresa porque alguém disse que Audrey não era sensual, mas a sensualidade dela está no gesto e eu priorizo isso na minha marca. Nunca quis fazer roupa sexy, prefiro investir num design inteligente e desconstruído”, afirma Clô. Entre seus artigos favoritos que se inspiram na atriz, a estilista destaca os laços, as luvas e as calças cigarretes. “Tem um tipo de camisa usada por ela que está sempre nas minhas coleções. E o curioso é que nunca sai do ranking das mais vendidas”, afirma.

Assim como as roupas e o tipo físico, o cabelo de Audrey Hepburn também foi um divisor de águas no período. Enquanto as ‘blondie girls’ reinavam absolutas, com suas madeixas soltas e compridas, a atriz investiu em franjinhas, coques sofisticados, cabelos escuros e curtos, além de uma maquiagem sem muito excesso. A inovação agradou tanto que atualmente já é mais regra do que exceção. “O cabelo dela era muito importante para os personagens que representava. Seus cortes sempre versáteis traziam um ar jovial, traduzidos nas franjinhas e no rabo-de-cavalo”, afirma Patricia Sant’Anna, professora de história da moda, na Universidade Anhembi Morumbi. (JG).

ANDREI KONCHALOVSKY

Shy People (Gente diferente, 1987), de Andrei Konchalovsky.

Depois de realizar uma sensível adaptação de Anton Tchecov, Dyabya Vanya (Tio Vânia, 1971) e a mais cara produção soviética, o épico Sibiriada (Siberíade, 1979), o russo Andrei Konchalovsky adotou o Ocidente e dirigiu, em Hollywood, uma série de melodramas simbólicos: Marias’s Lovers (Os amantes de Maria, 1984); Runaway Train (Expresso para o Inferno, 1985), Duet for One (Sede de amar, 1986); Shy People (Gente diferente, 1987). Este último foi seu melhor filme dessa fase e o mais irritante também: atores excelentes, fotografia admirável, uma história que prende a atenção, mas algo dentro dele não funciona e provoca a mesma sensação ruim de se olhar para um relógio e não encontrar os ponteiros.

Na verdade, Shy People é uma charada, óbvia demais depois de decifrada. O problema é que as metáforas não se dissolvem na narrativa realista. O mal-entendido do espectador é, contudo, a esperteza de Konchalovsky. Os defeitos de seu filme fazem a perfeição de sua propaganda. Filmando uma alegoria russa em belas locações no sul dos Estados Unidos, Konchalovsky parace focalizar o contraste entre duas formas diversas de educação familiar.

Diana Sullivan, uma pretensamente sofisticada nova-iorquina, que escreve para a Cosmopolitan, resolve pesquisar um ramo perdido de sua família em vista de uma futura reportagem. Preocupada com Grace, sua filha-problema, que se encaminha para uma vida promíscua de “sexo, drogas e rock-and-roll”, acredita que este mergulho nas raízes fará bem à menina. As duas partem par um ponto perdido no mapa da Louisiana, onde sobrevive, sem nenhum contato com o mundo civilizado, uma família chefiada por Ruth Sulivan, que tiraniza três filhos e uma nora grávida, em nome do desaparecido marido, Joe, que ela considera vivo até hoje. O confronto entre Diana e Ruth parece dar-se, à primeira vista, entre duas culturas americanas. Nada mais enganoso.

O que Konchalovsky tortuosamente evoca, com sua “família Busca-pé” esvaziada de humor, é a União Soviética. A metáfora que ele encena, realisticamente, é o choque político entre o capitalismo, representado por Diana, e o socialismo, encarnado por Ruth. O mundo de Ruth é opressivo e atrasado. Ela prende e tortura o filho menor por desobediência, considera como morto o filho mais velho que escapou de seu domínio e manda o filho do meio matar um pescador de siris, que “invadiu” suas águas territoriais, dizendo-lhe que “pense no que seu pai faria e faça o mesmo”.

O pai é uma alegoria de Joseph Stalin. No mundo de Ruth, seu velho Joe morreu e não morreu: seu fantasma ronda os pântanos da região e seu retrato é pendurado na sala de jantar, sempre a olhar diretamente para os convivas, vigiando suas almas, controlando cada passo dos filhos que interiorizam sua repressão. O filho mais velho revoltou-se contra esse totalitarismo stalinista: fugindo para o mundo capitalista, tornou-se dono de uma casa noturna que vende “sexo, drogas e rock-and-roll” para os trabalhadores e criminosos da região. O equilíbrio precário do universo de Ruth é abalado com a visita amistosa de Diana e sua filha mimada.

Diana representa o sistema de tolerância que permite a degeneração do capitalismo, fragilizado por sua própria atitude de respeitosa compreensão dos padrões totalitários da cultura “diferente”: Grace já é um produto desse liberalismo: evoluiu da tolerância para a permissividade; não pretende disfarçar sua decadência, reconhece o horror do totalitarismo e tenta nele se integrar até fisicamente. Ela está, em suma, perdida.

Assim também o filho mais novo de Ruth, que a chama de “velha idiota” e diz que o pai, o velho Joe, morreu, e continuará morto; ele ressente o horror totalitário em que vive, conhece o lado “sexo, drogas e rock-and-roll” do capitalismo (primeiro, através do contato com o irmão, e, depois, pela amizade com Grace), mas está tão integrado no socialismo que mesmo sendo aí torturado recusa libertar-se pela fuga.

O quadro está completo. Então, quando Ruth ensaia algumas “aberturas”, a Glasnost induzida pela presença de Dianna em seu mundo, este começa a desmoronar junto com os agentes da mudança. Em sua ausência – ela foi à cidade comprar uma televisão para a nora e recorrer à lei para punir o “invasor” – os filhos encontram-se subitamente entregues a si próprios, e isso não é nada bom.

Konchalovsky mostra que os reprimidos pelo totalitarismo não sabem o que fazer com a súbita liberdade, ou melhor, que sua liberdade se resume a “sexo, drogas e rock-and-roll”. No auge da orgia, o filho debilóide encontra uma bandeira e começa a agitá-la, numa alusão aos movimentos nacionalistas reprimidos na URSS. O filho do meio tenta violentar Grace, que escapa numa canoa furada, permanecendo ilhada no pântano de jacarés.

Ruth volta da cidade e, perdendo a paciência com a lei, faz justiça com as próprias mãos. Diana toma conhecimento do ocorrido e parte desesperada atrás da filha, mas seu barco choca-se contra as pedras e ela também fica encalhada no pântano. Dá-se, então, o seu encontro com Joe, que milagrosamente salva mãe e filho da morte certa.

Ao retornarem ao mundo de Ruth, esta explica a Diana que ela, na verdade, odiava o marido, especialmente quando ele bateu em seu ventre grávido, durante uma enchente, para que ela escapasse até um lugar seguro. Foi a pancada que a fez gerar um demente. Contudo, este gesto brutal salvou a família. Ela afirma, portanto, que tudo foi necessário, desprezando o modo de agir das pessoas “mornas” que não são “nem quentes nem frias”.

Diana aprendeu a lição. A caminho de casa, surpreende Grace no banheiro do avião retomando a sua trilha de “sexo, drogas e rock-and-roll”. Mas, então, escolada nos métodos stalinistas, ela dá uma sova na filha e diz-lhe o quanto a ama. Grace não resite ao apelo totalitário e se joga nos braços da mãe, que agora promete controlá-la dia e noite. É a bandeira da guerra contra as drogas empunhada por Ronald Reagan, assimilando os métodos do socialismo…

Também no mundo de Ruth ocorrem grandes mudanças: durante o jantar, o filho pródigo retorna ao socialismo, quebrando a televisão da cunhada como prova de dureza. Finalmente, retomando a citação do Apocalipse, Andrei Konchalovsky conclui sua metáfora caolha do mundo moderno, que no capitalismo enxerga apenas “sexo, drogas e rock-and-roll”, justificando os crimes de Stalin como males necessários para a preservação da pureza socialista que, como ele mesmo descreve, confunde-se com a debilidade mental…

Konchalovsky não resistiu e retornou à Rússia, passando a fazer filmes russos intercalados com filmes americanos, ou co-produções entre os EUA e a Rússia: sua adesão ao capitalismo é nostálgica do stalinismo. A deliciosa comédia que dirigiu na Rússia,  Kurochka Ryaba (O ouro dos tolos, 1994), é um exemplo disso. Em sua pátria, Konchalovsky retoma suas raízes fincadas no grandioso, poético, perfeito e totalitário cinema russo.

Mas ele logo sente falta da liberdade, do caos, da vulgaridade, da mediocridade do cinema americano, e retorna ao Ocidente para dirigir filmes comerciais, vendáveis, como o telefilme The Odyssey (A Odisséia, 1997), repleto de efeitos especiais encantadores e astros de Hollywood a revitalizar a velha e sempre fascinante mitologia grega, que nunca encontrou, estranhamente, sendo ela tão cinematográfica, o tom certo no cinema.

A última realização de Konchalovsky – ao que parece inédita no Brasil – é um verdadeiro híbrido entre seu cinema mais leve feito no Ocidente e seu cinema mais pesado feito na Rússia: The Nutcracker in 3D (2010), com produção inglesa e húngara. Ele aí adapta temas russos de Tchaikovsky num roteiro original com ação passada em Viena, vivida por astros de Hollywood, utilizando efeitos especiais poéticos para revitalizar suas críticas ao totalitarismo soviético – sempre carregadas de uma estranha nostalgia.

SHERLOCK (2011)

Nesta nova série da BBC, cujo primeiro episódio intitula-se “A mulher de rosa”, a atualização dos personagens é radical: o Dr. John Watson (Martin Freeman) retornou da guerra no Afeganistão manco de uma perna, neurótico e sem dinheiro para viver na cara Londres atual. Um amigo o convence a dividir o aluguel de um apartamento com o jovem gênio Sherlock Holmes (Benedict Cumberbatch). Trata-se de um desajustado social que colabora com a polícia em casos desesperados e que vive sem amigo algum num apartamento bagunçado na Baker Street.

Quando os dois se encontram pela primeira vez, com Sherlock deduzindo várias coisas da aparência de Watson, é amor à primeira vista, embora ambos neguem ao garçom intrometido que os serve, à noite, no restaurante, serem namorados: não, eles não são namorados, mas também não têm namoradas – resolvem logo esse problema num diálogo áspero: Watson: – Você é como eu, não se dá com ninguém. Sherlock:  – Não me entenda mal, estou casado com meu trabalho. Logo passam a fazer juntos o trabalho que os apaixona e os torna inseparáveis.

O seriado integra às tramas típicas de Conan Doyle toda a parafernália tecnológica contemporânea (computador, laptop, e-mail, twiter, facebook, smartphone, GPS, etc), que é muito propícia ao suspense, como já o demonstrara a série 24 horas, que usou e abusou desses apetrechos, com excelentes resultados. As deduções instantâneas de Sherlock ganham ainda visualizações modernas, com letreiros cruzando as imagens. Os críticos elogiaram o desempenho de Freeman na composição de um jovem Watson rabugento, mas é o esguio Cumberbatch, com seus olhinhos azuis brilhando cristalinos num rosto pálido como giz, quem torna, a meu ver, tudo mais fascinante.

A ERVA MALDITA

Reefer Madness (A erva maldita, 1936).

Reefer Madness (A erva maldita, EUA, 1936, p&b, docudrama de propaganda). Direção: Lois Gasnier. Com Dave O’Brien, Dorothy Short, Carleton Young, Thelma White, Kenneth Craig, Josef Forte, Warren McCullum.

Uma casa suspeita promove festas regadas a uísque com oferta de cigarros de marijuana, atraindo com sua liberalidade estudantes incautos que terminam viciados na droga após algumas noitadas de fumo e sexo. Um deles, depois de fumar um baseado, atropela um transeunte. Outro, antes um aluno exemplar, abandona a quadra de tênis e passa a ir mal nos estudos, deixando ainda de frequentar a casa da namorada.

Preocupada com o sumiço do seu prometido, a namorada Mary tenta encontrá-lo rodando os bares. Obtém de um barman o endereço da casa suspeita. Ela é ali recebida por um estudante drogado que sempre a desejara e que lhe oferece um baseado, Nervosa, ela o fuma pensando tratar-se de um cigarro comum. Tampouco suspeita que seu namorado a está traindo num dos quartos do apartamento. Quando o jovem sai do quarto, vê na sala a namorada dopada sendo agarrada pelo colega. Furioso, avança contra ele.

Numa tentativa de parar a briga, o traficante pega sua arma para dar uma coronhada na cabeça do jovem furioso. Mas a arma dispara e atinge a pobre Mary, que jaz no sofá com um furo nas costas. Como o jovem furioso está dopado, o traficante coloca sua arma na mão dele e foge do local, cuidando para que todos os que estavam ali sumissem do mapa e calassem a boca, deixando que a polícia concluísse por si mesma quem fora o assassino.

Acreditando-se culpado, o rapaz não se defende e é condenado à morte, mas uma cúmplice do traficante, namorada do estudante drogado que agarrara a pobre Mary, tendo testemunhado o crime, não suporta a pressão da polícia e o sentimento de culpa. Ao ser detida, ela dá com a língua nos dentes e se suicida em seguida, atirando-se pela janela da delegacia. O rapaz é libertado, mas seu professor alerta a todos os pais sobre os perigos da marijuana, “a pior de todas as drogas”.

O filme tem uma produção bastante pobre e é bem ruim, mas não tão ruim quanto se poderia imaginar. Devido ao seu caráter de alerta contra o vício, ele acaba mostrando muito mais do que o Código Hays permitia ao cinema americano da época. Assim, vemos os jovens entrando em êxtase ao fumar os baseados e se entregando a danças frenéticas e a orgias sexuais. Há ainda algo de enigmático no discurso moralizante do filme, ao qualificar a marijuana como “a pior de todas as drogas”.

Parece que os autores do argumento estariam mais preocupados com os efeitos dessa droga na sociedade que com o organismo de quem a consumia: atropelamentos, brigas, assassinatos, etc. são atribuídos à marijuana como se ela tornasse seus consumidores violentos, quando eram as circunstâncias particulares encenadas no filme, em combinação com os efeitos da droga, que produziam os eventos trágicos exemplares.

A periculosidade da marijuana estaria na facilidade com que ela seria encontrada na sociedade, ao contrário das outras drogas, de efeitos mais devastadores no organismo dos consumidores. A estratégia do filme seria a de diabolizar a marijuana para tentar conter sua massificação em marcha. Drogas sabidamente piores, como a heroína, sendo menos acesíveis, representariam um perigo menor, pois mais controlável, não desestruturando a sociedade como aquela droga mais leve, que ao ser, porém, consumida em massa, danificaria o tecido social.

O DVD Reefer Madness (Flashstar) inclui uma versão colorizada do filme e, como bônus, o guia para maconheiros Grandpa’s Marijuana, elaborado pelo velhote Evan Keliher, viciado há trinta anos na suposta tentativa de “curar” um glaucoma. Acreditando piamente nos poderes milagrosos da droga, ele a recomenda a doentes e não doentes (preventivamente) como verdadeira panacéia. Em tom exaltado, pretensamente humorístico, não hesita em falsificar a História e mudar o texto da Bíblia para celebrar a marijuana. Além de curar doenças, a droga relaxaria o corpo, agilizaria a mente, melhoraria o sexo: nenhum mal poderia advir de substância tão “maravilhosa”…