THE WALKING DEAD

Andrew Lincoln (xerife Rick) em 'The Walking Dead' (2011), de Frank Darabont.

Entrevista concedida por e-mail a 8/2/2012 a Alline Dauroiz de Souza Soares para sua reportagem “A hora do horror”, in Caderno 2, O Estado de S. Paulo, p. D-10 e D-11, 12 fev. 2012.

Zumbis sempre foram muito populares no cinema, mas na TV eles pareciam um pouco relegados. Por que acredita que eles (e o terror, em geral) demoraram tanto para chegar à TV?

Ao contrário dos vampiros, que mantêm uma boa aparência e se mostram sempre abertos a todo tipo de relação, os zumbis são cansativos, porque ao sair da tumba num estado putrefato sempre se comportam de maneira histérica e previsível. Por isso eles precisam ser conservados na geladeira – literal e simbolicamente. Somente graças ao espaçamento de tempo que uma boa irrupção deles pode ganhar relevância. Ou seja, é só depois de uma longa ausência nas telas que a rentrée dos mortos-vivos no grand monde torna-se um sucesso estrondoso. Basta lembrar o filme Night of the Living Dead (A noite dos mortos vivos, 1968), de George Romero; o videoclipe Thriller (1982), de John Landis e Michael Jackson; e a atual série de TV The Walking Dead (2011), de Frank Darabont – para citar três produções com zumbis que se tornaram fenômenos de bilheteria e de audiência. Quanto ao terror (que se cruza e se confunde com a ficção científica) ele sempre esteve presente na TV americana desde The Vampira Show (1954). São clássicas as séries The Twilight Zone (Além da imaginação, 1959-1964); The Outer Limits (Quinta Dimensão, 1963-1965); The Invaders (Os Invasores, 1967-1968); Night Gallery (1969-1973); revividas nas décadas seguintes por Creepshow (Creepshow: show de horrores, 1982); The Ray Bradbury Theater (O Teatro de Ray Bradbury, 1985-1992); Tales from the Crypt (Contos da cripta, 1989-1996); The X Files (Arquivo X, 1993-2002); Lost (Lost, 2004-2010); Medium (Medium, 2005-2011), Invasion (Invasion, 2005-2006); entre tantas outras. Também na Inglaterra as séries televisivas de terror sempre foram populares, desde The Quatermass Experiment (1953) até V (V 1983), esta atualizada pela nova versão americana, também intitulada V (V, 2009-2012).

A que você atribuiria o sucesso dessas criaturas hoje, em uma trama seriada que só cresce em audiência?

Em The Walking Dead, os zumbis são mais um subplot, um pano de fundo para a trama principal. O tema desta série, como de todas as séries americanas recentes, sejam elas policiais, de ficção científica ou de terror é sempre a família. Como provam as novelas, os dramas de família são sempre um sucesso. Todas as tramas das séries americanas giram agora em torno da família, da importância da família, da necessidade de se manter a família unida a qualquer preço, dos problemas que surgem entre os membros da família em suas interações com os membros de outras famílias, etc. Na nova dramaturgia das séries de TV a coisa mais importante do mundo é a própria família. O mundo pode acabar, desde que os membros do núcleo familiar permaneçam unidos durante o apocalipse. Os zumbis são usados, geralmente, como um símbolo para as massas, de natureza gregária e totalitária. As massas estão do lado de fora da casa, vivem na rua, todos os seus integrantes comportam-se da mesma maneira, agindo em geral coletivamente. Os zumbis perderam o núcleo familiar, a intimidade, a voz, a identidade, depois de serem contaminados por uma estranha doença que deixa apenas uma parte de seus cérebros funcionando, o que lhes permite apenas uma locomoção arrastada e o desejo de agarrar e devorar os vivos, transformando suas vítimas naquilo em que eles próprios foram reduzidos. Sozinhos são fracos, mas em bando tornam-se quase invencíveis. A casa é o espaço sagrado da família e aqueles cadáveres ambulantes que rondam à noite, nas ruas, são os sem família, os que merecem ser exterminados. A série atualiza os filmes de zumbis integrando-se à tendência mais recente dos filmes apocalípticos de difundir, como ápice do horror, a imagem angustiante das metrópoles vazias. A imagem mais radical da catástrofe é uma grande cidade esvaziada de gente. Aqui, o xerife tenta chegar a Atlanta a cavalo, passando por paisagens urbanas completamente esvaziadas de vida. Os espaços deteriorados das cidades vazias equivalem às carcaças destroçadas dos mortos vivos que se encontram espalhados pelas campos e que na cidade se concentram nos becos, cercando e devorando os últimos sobreviventes da humanidade.

Os vampiros – que de uns tempos pra cá viraram febre teen – já têm séries na TV há, pelo menos, uns 3 anos (True Blood e The Vampire Diaries, por exemplo, sem contar as novelas da Globo sobre o assunto). Eles seriam mais “amados” que os zumbis?

Embora os vampiros estejam tão “mortos” quanto os zumbis, eles se tornaram, com o tempo, personagens sedutores no cinema. No Drácula, de Bram Stoker, o conde Drácula é asqueroso e fedido, ele só consegue aproximar-se de suas vítimas para mordê-las depois de hipnotizá-las, pois sua visão produz asco e horror. Um pouco como o Nosferatu (1922), de Murnau, nisto ainda fiel ao romance, apesar de sua adaptação ter sido ilegal (não pagando os direitos autorais e mudando, por conta disso, o nome do personagem para Conde Orloff). Mas desde o Drácula (1931), de Tod Browning, o vampiro foi perdendo o caráter de monstro asqueroso e se tornando progressivamente uma espécie de símbolo sexual para sensibilidades sadomasoquistas, na linha “Meu doce vampiro”, de Rita Lee. O auge dessa tendência, depois do Dracula (Drácula, 1979), de John  Badham, e de Interview with the Vampire: The Vampire Chronicles (Entrevista com o vampiro, 1994), de Neil Jordan, é a “saga” Crepúsculo, onde o jovem vampiro romântico não pode tomar sol pois seu corpo o denunciaria ao mundo: ao sol, seu corpo brilha como que coberto por um pó dourado, numa fantasia erótica afetada para adolescentes ambíguos. Já ninguém pensa em ir para a cama com um zumbi. Enquanto a mordida do vampiro e as gotas de sangue que escorrem de sua boca ou das feridas que deixam na vítima sugerem a penetração forçada e o orgasmo sadomasoquista, as dentadas do zumbi e sua aparência desgrenhada evocam o submundo da fome, da pobreza, da miséria e da mendicância, que nada têm de erótico. O vampiro é sempre um aristocrata, um conde, um príncipe, que mora ou morou em castelo – ele também decai na modernidade, indo viver em apartamentos, frequentando boates e discotecas, mas sempre charmoso e sedutor. Já o zumbi, mesmo que tenha sido antes elegante e comedido, é sempre um sem-teto morto de fome, um vagabundo das ruas catando na enorme lata de lixo em que se converte a cidade os restos de comida que os vivos representam.

Ainda que os zumbis sejam vilões muito óbvios, a série The Walking Dead mostra a convivência entre humanos nos centros de sobreviventes refugiados, o que nos faz descobrir quem, de fato, podem ser os reais vilões da história (só para te dar uma ideia, a séria fala de racismo, como em A Noite dos Mortos Vivos, além de traições, homens que batem em mulheres etc). Podemos aí traçar algum paralelo com a realidade? Os zumbis não seriam assim tão maus? Conviveríamos hoje com vilões ainda piores, na vida real?

A questão que todo filme de terror coloca é a da sobrevivência: os heróis precisam sobreviver e só aqueles que sobrevivem são os heróis. Muitas vezes, todos os personagens vão morrendo, e apenas um ou dois sobrevivem no final: esses são os heróis do filme, geralmente um casal branco heterossexual, que no imaginário oculto do pós-filme dará origem a uma nova humanidade branca heterossexual. Num mundo cheio de monstros que desejam devorar os vivos, é preciso aprender a matar – como o menino negro de oito anos que ainda usa tacos de baseball para exterminar os zumbis e deseja aprender a atirar para acertá-los a distância, pois “já tenho a  idade necessária”, dentro de uma visão civilizada e respeitadora das leis. Já o pai dele não consegue matar a esposa que se tornou zumbi e fica rondando a casa, nostálgica da família que perdeu. Ele não consegue explodir o crânio dela nem mesmo com rifle, mirando a longa distância. No fundo ele é um fraco, e por isso não serve para ser o herói. Já o xerife branco demonstra frieza ao explodir os crânios dos zumbis, mesmo o de um colega policial – sendo o assassinato de um tira o maior crime que se possa cometer. Ainda que ele demonstre piedade diante da mulher sem pernas que se arrasta para tentar em vão agarrá-lo, ele logo arrebenta o crânio dela a bala, sem pestanejar. Ele faz o que é necessário para sobreviver, apresentando-se desde o começo da série como o herói que a sociedade americana exige e respeita. Por outro lado, nas séries paranoicas contemporâneas, como Arquivo X, os vilões maiores não são os monstros, os aliens, os vampiros e os zumbis, mas o governo americano, que conspira contra a humanidade. Essas séries americanas difundem uma nova paranoia, não mais voltada contra o comunismo, mas contra o americanismo das agências federais, agradando ao público mundial que se converteu ao antiamericanismo de tanto consumir os filmes e as séries de TV americanas.

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