ROBERT CAPA

Vejo Robert Capa: In Love and War (Robert Capa: no amor e na guerra, 2003), de Anne Makepeace, narrado por Goran Visnjic. Um excelente documentário sobre o fotógrafo que cobriu cinco guerras e morreu com apenas 42 anos, na Guerra da Indochina, por imprudência, ao não seguir a recomendação de jamais se afastar dos soldados: buscando um ângulo mais favorável para suas fotos, ele acabou pisando numa mina. Seu legado para a humanidade foram os 70 mil negativos que deixou.

Judeu nascido em Budapeste, filho de um pai que dilapidava as economias da família, e de uma mãe trabalhadora e diligente, chamava-se na verdade André Friedman. O nome Robert Capa foi inventado pela namorada diligente (como a mãe, pois ele puxara o pai irresponsável), que corria toda Paris para vender suas fotos a jornais e revistas: inspirado em Frank Capra, o nome pertenceria a um fotógrafo americano de grande sucesso, cujas fotos eram requisitadíssimas e que não tinha tempo para nada.

Assim a garota esperta conseguia vender mais facilmente as fotos do jovem namorado, que acabou, mais tarde, incorporando a personalidade da personagem inventada – ele se tornou realmente o fotógrafo-celebridade Robert Capa. A namorada, também fotógrafa, morreu cobrindo a Guerra Civil Espanhola, justo quando Capa se tornou mundialmente famoso com a foto que capturava o momento da morte de um soldado republicano que cai de pé, sem perder a dignidade.

Durante a Segunda Guerra, e com a Ocupação nazista de Paris,  Capa refugiou-se na América. Com a entrada dos EUA na guerra, por ser húngaro ele foi considerado um “inimigo”. Desesperado, ele escreveu uma carta ao governo explicando sua posição e sua disposição de lutar contra os nazistas. Capa se engajou então como o primeiro fotógrafo e correspondente de guerra a desembarcar no primeiro destacamento a chegar à praia da Normandia no Dia D.

Com a visão embaçada pelas lágrimas, fotografou o massacre dos soldados na praia de Omaha, em 134 fotos que tirou em estado de transe. Mas o técnico que revelou essas fotos no laboratório, em Londres, cometeu, por “nervosismo”, um erro fatal, destruindo a maioria dos negativos: apenas onze fotos foram salvas. Todas as onze foram publicadas pela revista Life.

Essas onze imagens inspiraram Steven Spielberg na criação do estilo visual da primeira sequência de Saving Private Ryan (O resgate do soldado Ryan, 1998) – e em depoimento no documentário ele lamenta a perda das outras 123. Capa cobriu também a Libertação de Paris, retornando a esta cidade junto com as tropas americanas, como um vencedor, e ao passar diante do apartamento onde morou, nos anos de pobreza, avistou a senhoria e gritou, feliz como nunca: “C’est moi! C’est moi!”.

Mais tarde, Capa viveu outro momento triunfal, ao conhecer Ingrid Bergman. O caso é recordado no filme por Isabela Rossellini, que lê trechos das memórias da mãe. Capa a vira subindo as escadas do mesmo hotel onde estava hospedado em Paris. Mandou-lhe uma mensagem, na qual pedia que ela aceitasse a oferta do jantar e de um ramalhete de flores. Ela respondeu dizendo que ele poderia oferecer uma coisa, duas seriam demais. Jantaram juntos e ela ficou apaixonada.

Mesmo casada, Ingrid teve um caso com Capa, e ele a seguiu em Hollywood. Fez fotos no set de Notorius (Interlúdio, 1946), de Alfred Hitchcock, mas aborreceu-se com a atividade. Tentou ser ator, interpretando o servente árabe Hamza, em Temptation (1946), de Irving Pichel. Mas sentia falta da adrenalina que as guerras lhe injetavam. E deixou Ingrid Bergman quando ela propôs divorciar-se para ficar com ele.

O documentário sugere que o affaire Ingrid-Capa tenha inspirado Hitchcock a realizar Rear Window (Janela indiscreta, 1954), que foi baseado no conto “It Had to Be Murder” (1942), de Cornell Woolrich, por sua vez inspirado no conto “Through a Window”, de H. G. Wells. Apesar da fonte ser outra, é possível que Hitchcock tenha trabalhado seus personagens segundo o modelo de romance Ingrid-Capa.

Robert Capa ainda fundou, com amigos fotógrafos, como Henri Cartier-Bresson, a agência Magnum, que valorizou a profissão dos fotógrafos, que passaram a negociar com mais liberdade suas produções com as diversas mídias. Mais tarde, para fugir dos problemas que surgiam na empresa, Capa seguiu em 1954 para a Indochina, a fim de cobrir mais uma guerra, e aonde a morte, traiçoeira, o esperava.

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