Arquivo do mês: março 2012

BRIGITTE BARDOT

Entrevista a Paulo Henrique Silva, 6 de março de 2012.

Reportagem publicada: SILVA, Paulo Henrique. Força loura. Jornal Hoje em Dia, 8 mar. 2012, Caderno Cultura, p. 1.

De que forma Brigitte Bardot moldou a imagem da mulher na década de 1960?

Na verdade, Brigitte Bardot é uma estrela dos anos de 1950, lançada por Roger Vadim no início dessa década, em filmes que não fizeram grande sucesso, até o explosivo escândalo de Et Dieu… créa la femme (E Deus criou a mulher, 1956), onde apareceu nua, interpretando uma jovem amoral numa pequena cidade balneária francesa. Nos anos de 1960 ela já tem uma longa carreira atrás de si. É quando, madura como atriz, fez seus melhores filmes, tentando minimizar a imagem de vamp sedutora, vagabunda e imoral – sempre andando pelada, dormindo pelada, nadando pelada – que acabou se tornando sua marca registrada no cinema, graças aos seus diretores machistas. Como nesta época o cinema americano sofria pesadas proibições – Marilyn Monroe nunca apareceu nua num filme, ou apenas numa rápida cena de seu último, o inacabado Something’s Got to Give (1962), de George Cukor, lançado sob a forma de curta-metragem apenas em 2001 –, Bardot conquistou a fantasia masculina como ícone sexual. Era o estereótipo vivo da “mulher francesa” – liberada, fácil, salope. Tão forte era a fantasia gerada pela Bardot nos anos de 1950 que o cinema brasileiro criou a paródica BeBê, em O Homem do Sputnik (1959), de Carlos Manga, com Norma Benguell numa imitação notável da Bardot. A Benguell logo se tornaria a “nossa” Brigitte ao protagonizar em Os cafajestes (1962), de Ruy Guerra, a primeira sequência de nudez feminina integral no cinema brasileiro.

O que difere BB de outros símbolos sexuais? Bardot tinha uma beleza mais natural, diferentemente das louras fabricadas como Marilyn Monroe?

Bardot era um símbolo sexual com acento francês, isto é, sua nudez era generosa, sem a censura a que estava submetido o cinema americano. E ela ostentava essa nudez com espontaneidade, sem qualquer constrangimento, como se fosse esse o seu “natural estar no mundo”. Simone de Beauvoir escreveu um belo texto sobre essa criação de Bardot. Parecia não haver nenhum distanciamento ou contradição entre a pessoa da atriz e as personagens vulgares de seus filmes, o que, é claro, não era verdade, o que diz muito sobre seu verdadeiro talento de intérprete. Na vida real, como se demonstrou, a imagem que Bardot projetava a incomodava profundamente. E isso contribuiu para seu progressivo isolamento, e para a revelação de uma personalidade mais preconceituosa e tacanha que libertária ou libertina. Também a beleza icônica da “loira” Bardot foi tão fabricada quanto a da “loira” Marilyn: nem uma nem outra eram loiras de verdade. Marilyn era ruiva e Bardot era morena, e é assim, como adolescente brunette, meio desajeitada e tristonha, que BB aparece em seus primeiros filmes.

Bardot era apenas um rostinho bonito, badalado por Roger Vadim, ou tinha talento?

Como Marilyn, Bardot era uma atriz excelente, que também sabia cantar e dançar muito bem – ela fez musicais na TV e gravou vários discos produzidos por Sacha Distel e Serge Gainsbourg. É uma pena que tenha se retirado para sua mansão, La Madrague, em Saint Tropez, recusando novas propostas de filmes, dedicando-se apenas à propaganda da sua fundação não lucrativa de proteção aos animais. Esse amor extremo aos bichos denota certo horror à humanidade…

Foi em E Deus Criou a Mulher que ela teve sua atuação mais marcante?

Foi sua atuação mais marcante no sentido de ter sido um papel provocador para a época em que o filme foi feito, pelo amoralismo da personagem e pela nudez que ostenta. Mas ela nos legou interpretações mais sólidas em filmes bem melhores: em La Vérité ( A verdade, 1960), de Henri-Georges Clouzot, como a mulher acusada de matar o ex-amante; em Vie Privée (Vida privada, 1962), de Louis Malle, como uma estrela de cinema perseguida pelos fãs e pelas mídias, e que acaba se matando – a última cena, em que ela cai no vazio, por longos minutos, em ralenti, linda com os cabelos esvoaçantes, sem nunca se estatelar no chão, é antológica. Também marcante é sua presença em Le Mépris (O desprezo, 1963), de Jean-Luc Godard, contracenando com Fritz Lang.

O fato de ter deixado a profissão cedo, aos 39 anos, ajudou a perpetuar o mito, como acontece com artistas que morrem no auge da fama?

Infelizmente para os mitômanos, ela continuou viva, e não soube cultivar seu mito, como Marlene Dietrich e Greta Garbo, que também deixaram o cinema na hora certa e, vivendo ainda por longas décadas, desapareceram das mídias para preservar seus ícones. Hoje a Bardot, com 78 anos, pouco se importa com o cinema. Envelheceu mal, adotando a defesa militante e raivosa, quase anti-humana, dos animais. É curioso como ela ficou feia na meia-idade e feíssima na velhice. Andando com a ajuda de muletas, ainda ocupa as mídias para fazer declarações preconceituosas contra negros, homossexuais e imigrantes. Foi condenada pela Justiça a pagar uma multa ao ofender muçulmanos pelo abate ritual de animais, e deu publicamente seu apoio à Frente Nacional de Le Pen, um partido de extrema-direita.

O MISTÉRIO DE CARLOS CLARENS

Escrevendo um artigo sobre filmes de zumbis para o Estadão, fui consultar um livro de que gosto muito, Horror Movies, de Carlos Clarens. Li-o há décadas, quando escrevia meu ensaio “Esboço para uma teoria da monstruosidade” (1983), na Biblioteca do Museu Lasar Segall. Muitos anos depois, encontrei um exemplar do livro num sebo de Belo Horizonte e o adquiri feliz da vida. Ao folhear então este meu exemplar, para recordar-me da análise que Clarens fizera de White Zombie, o primeiro dos filmes de zumbis, fiquei chocado: faltavam no exemplar justamente as duas páginas – a 116 e a 117 – que ele dedicara ao filme! Terminei meu artigo, sem referir-me a Clarens, e pensei em jogar a edição mutilada no lixo.

Sempre inconformado, pus-me a procurar outra edição antes de desfazer-me dessa. Consegui localizar uma usada na Amazon, que pela descrição parecia ser igual à minha, editada na Inglaterra, hardcover, pois seria detestável ter uma edição em paperback depois de possuir uma em capa dura. Comprei na hora. O livro chegou, e fiquei um pouco desapontado, porque a minha edição, que ia para o lixo, era ligeiramente maior e estava mais bem conservada que essa, que tinha a lombada um pouco carcomida. Acabei mantendo as duas até decidir o que fazer.

Hoje tive a ideia de conservar a minha edição mutilada, retirando da edição comprada há pouco as páginas faltantes naquela, jogando então esta fora. Fui direto às páginas 116 e 117, e… Um choque! As duas páginas dessa outra edição também estavam faltando! Intrigado, peguei uma lupa e constatei que não era defeito de tiragem! Nas duas edições – ligeiramente diferentes no tamanho – as duas páginas haviam sido cuidadosamente ARRANCADAS.

Mas quem teria arrancado essas páginas de diversas edições do livro – e ao mesmo tempo em Belo Horizonte e em Nova York? Isso era um enigma macabro. Elas devem ter sido arrancadas provavelmente em Londres. E pela própria editora! Uma das páginas devia ser ocupada com uma grande imagem do filme. Essa imagem teria incomodado tanto o editor que ao vê-la publicada mandou arrancar a folha de todas as edições?! Ou teria sido uma determinação da censura?! Um mistério que seria interessante investigar.

Pesquisando na rede, nada encontrei. Mas descobri algumas coisas interessantes sobre Clarens. Nascido em Havana, ele foi estudar arquitetura em Paris. Ali se apaixonou por cinema e acabou se tornando assistente de Jacques Demy e Robert Bresson. Contracenou com Viva, Shirley Clarke e Eddie Constantine no filme surrealista Lion’s Love (1969), de Agnès Varda. Vivendo em Nova York, dominando cinco línguas, trabalhou na tradução de intertítulos de filmes estrangeiros, como La Traviata (La Traviata, 1982), de Franco Zeffirelli. Possuindo uma coleção de centenas de milhares de stills, abriu com seu parceiro Howard Mandelbaum um negócio de venda de imagens: a Phototeque. Frequentava todas as mostras de cinema, era um crítico inteligente e de aparência jovial. Morreu em 1987 com 56 anos de ataque cardíaco. Num tributo a Clarens, no então lotado Little Theatre, um dos seis oradores da noite era Susan Sontag.

Fontes:

New Yorker

The New York Times