O MISTÉRIO DE CARLOS CLARENS

Escrevendo um artigo sobre filmes de zumbis para o Estadão, fui consultar um livro de que gosto muito, Horror Movies, de Carlos Clarens. Li-o há décadas, quando escrevia meu ensaio “Esboço para uma teoria da monstruosidade” (1983), na Biblioteca do Museu Lasar Segall. Muitos anos depois, encontrei um exemplar do livro num sebo de Belo Horizonte e o adquiri feliz da vida. Ao folhear então este meu exemplar, para recordar-me da análise que Clarens fizera de White Zombie, o primeiro dos filmes de zumbis, fiquei chocado: faltavam no exemplar justamente as duas páginas – a 116 e a 117 – que ele dedicara ao filme! Terminei meu artigo, sem referir-me a Clarens, e pensei em jogar a edição mutilada no lixo.

Sempre inconformado, pus-me a procurar outra edição antes de desfazer-me dessa. Consegui localizar uma usada na Amazon, que pela descrição parecia ser igual à minha, editada na Inglaterra, hardcover, pois seria detestável ter uma edição em paperback depois de possuir uma em capa dura. Comprei na hora. O livro chegou, e fiquei um pouco desapontado, porque a minha edição, que ia para o lixo, era ligeiramente maior e estava mais bem conservada que essa, que tinha a lombada um pouco carcomida. Acabei mantendo as duas até decidir o que fazer.

Hoje tive a ideia de conservar a minha edição mutilada, retirando da edição comprada há pouco as páginas faltantes naquela, jogando então esta fora. Fui direto às páginas 116 e 117, e… Um choque! As duas páginas dessa outra edição também estavam faltando! Intrigado, peguei uma lupa e constatei que não era defeito de tiragem! Nas duas edições – ligeiramente diferentes no tamanho – as duas páginas haviam sido cuidadosamente ARRANCADAS.

Mas quem teria arrancado essas páginas de diversas edições do livro – e ao mesmo tempo em Belo Horizonte e em Nova York? Isso era um enigma macabro. Elas devem ter sido arrancadas provavelmente em Londres. E pela própria editora! Uma das páginas devia ser ocupada com uma grande imagem do filme. Essa imagem teria incomodado tanto o editor que ao vê-la publicada mandou arrancar a folha de todas as edições?! Ou teria sido uma determinação da censura?! Um mistério que seria interessante investigar.

Pesquisando na rede, nada encontrei. Mas descobri algumas coisas interessantes sobre Clarens. Nascido em Havana, ele foi estudar arquitetura em Paris. Ali se apaixonou por cinema e acabou se tornando assistente de Jacques Demy e Robert Bresson. Contracenou com Viva, Shirley Clarke e Eddie Constantine no filme surrealista Lion’s Love (1969), de Agnès Varda. Vivendo em Nova York, dominando cinco línguas, trabalhou na tradução de intertítulos de filmes estrangeiros, como La Traviata (La Traviata, 1982), de Franco Zeffirelli. Possuindo uma coleção de centenas de milhares de stills, abriu com seu parceiro Howard Mandelbaum um negócio de venda de imagens: a Phototeque. Frequentava todas as mostras de cinema, era um crítico inteligente e de aparência jovial. Morreu em 1987 com 56 anos de ataque cardíaco. Num tributo a Clarens, no então lotado Little Theatre, um dos seis oradores da noite era Susan Sontag.

Fontes:

New Yorker

The New York Times

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