Arquivo do mês: junho 2012

KAUSHIK GANGULY

Aarekti Premer Golpo (Mais uma história de amor, 2010)

Aarekti Premer Golpo (Mais uma história de amor, Índia, 2010, 129’, cor, drama). Direção: Kaushik Ganguly. Com Rituparno Ghosh, Chapal Bhaduri, Indraneil Sengupta, Churni Ganguly.

O cineasta-travesti Abhiroop (Rituparno Ghosh), que vive na moderna Delhi, realiza um documentário sobre o decadente ator-travesti Chapal Bhaduri (Chapal Bhaduri), que se encontra esquecido e retirado na atrasada Calcutá. O feioso cineasta, que ostenta ser a pessoa mais sensível do mundo, mantém um affaire de dez anos com o fotógrafo de seus filmes, o esbelto bissexual Basudeb (Indraneil Sengupta). Sua história de amor é abalada com a chegada de Rani (Churni Ganguly), a esposa de Basudeb, no set das filmagens.

Rani, que a crer no roteiro apenas “desconfiava” das traições do marido, fica chocada ao ver, no quarto de Abhiroop, para o qual é levada por engano, fotos comprometoras do seu homem agarrado ao amante. E, quase como uma vingança, escarnece do amante do marido pedindo-lhe sugestões de nomes para uma criança que vai nascer, só depois “deixando escapar” que se trata de seu próprio rebento. Ela mata dois coelhos com uma cajadada só: surpreende o marido desgarrado, que tem passado mais tempo com o amante, e deixa seu rival abalado com a perspectiva de novas chantagens emocionais.

Mesmo flertando com outro homem, que quer levá-lo a Nice apesar de aí viver com seu namorado, Abhiroop sofre com a indecisão de Basudeb: futuro pai, ele agora pretende passar mais tempo com a esposa. Esses amores desatinados, complicados pela sensualidade ambígua de Basudeb, segue paralelamente ao igualmente caótico quarteto amoroso que marcou a vida do velho ator-travesti Chapal, dividido entre a paixão por dois homens e por eles obrigado a humilhantes tarefas domésticas, pelo favor de morar em suas casas, após perder o emprego no teatro, denunciado por comportamento escandaloso pelas atrizes enciumadas de seu sucesso junto aos colegas.

Depois da queda, Chapal é instado pelo namorado e deixar sua casa, e encontra novo amante, com quem vive alguns anos, mas acaba por deixá-lo quando o antigo namorado, que o havia rejeitado, pede que ele volte para cuidar de sua esposa, que se encontra gravemente doente. Mas a doença grave da mulher se prolonga por longos anos… E, sempre fora de casa, fugindo de suas responsabilidades, o homem arruma outra amante, mais jovem, que vai morar com ele e com seu abnegado amante que cuida de sua esposa.

Banhado na confusão de sentimentos desses indecisos personagens, o filme é um melodrama típico do cinema indiano, com leve ou ousado (dependendo da perspectiva) acento gay. Reforçando o jogo de espelhos, as cenas do passado de Chapal, revividas no “documentário”, são encenadas pelos mesmos atores: Rituparno Ghosh encarna Abhiroop no presente e Chapal no passado, evidenciando o paralelo entre o romance fictício de Abhiroop e o real (encenado) de Chapal, que interpreta a si mesmo na atualidade.

Os dramas paralelos avançam lentamente no filme e no filme dentro do filme, entre desgraças açucaradas e denúncias histéricas, reflexões inteligentes e depressões musicadas. Infelizmente, a melhor cena é curta: a encarnação da Deusa da Peste por Chapal. Abhiroop não poderá recriar essa incrível performance do ator, porque populares de Calcutá, acreditando que com ela o travesti atrairá a peste, acionam a polícia. Não apenas nesta cena, mas em todo o docudrama, a homofobia mostra-se, na Índia dominada por tabus milenares, gritante e hipócrita.

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RIDLEY SCOTT

Michael Fassbender, como o robô David, em ‘Prometheus’ (2012), de Ridley Scott.

Apesar dos efeitos especiais tecnicamente perfeitos e da direção de arte esteticamente impecável, Prometheus (Prometheus, 2012), de Ridley Scott, é um pastiche de luxo do Alien (Alien, o oitavo passageiro, 1979), do mesmo diretor. O processo 3D do filme também não passa de um modismo: há mais efeitos 3D nos trailers e anúncios nacionais produzidos em 3D e exibidos antes do filme que nesse Alien requentado.

Convocadas pelos roteiristas, as ideias mais surpreendentes do original compareceram em massa: ali estão elas assinando a lista, levantando os braços, batendo ponto, berrando “presente!”. Temos as máquinas criogênicas que preservam os astronautas em anos de viagem espacial; o robô de aparência humana que trai e equipe e acaba perdendo a cabeça; um astronauta asiático certinho e outro afro-americano (Idris Elba) movido pelos instintos; os cientistas encantados com um planeta estranho anos-luz distante da Terra.

Temos também todos os membros da tripulação sendo invadidos ou contaminados por organismos estranhos, e dizimados aos poucos; os aliens parasitas que usam os humanos como hospedeiros, entrando pelas suas bocas e saindo pelas suas barrigas; a heroína machona que sobrevive a tudo e a todos; o grande Alien que ressurge e promete, no final da trama, com a aparição-mensagem final – obrigatória para os fãs e produtores da série – uma continuação sem fim para mais esse “sucesso”.

Marx escreveu que a História se repete em farsa. Também um filme se repete em forma de paródia. Tudo o que foi espontaneamente inventado em Alien torna-se um aplicativo forçado em Prometheus, um produto industrialmente programado como uma espécie de embalagem nova para um velho produto testado e comprovado à exaustão. Não há surpresas num universo que nasce lindamente produzido em formato déjà vu.

A única novidade de Prometheus é um detalhe de figurino: os dois galãs do filme – o perfeito robô David (Michael Fassbender), que ama Peter O’Toole em Lawrence da Arábia, e o jovem cientista idiota Charlie (Logan Marshall-Green), que se angustia com a própria idiotice, usam, não por coincidência de hábitos, chinelos de dedo dentro da nave. Esse modo de estar à-vontade dá aos dois filhotes da hipertecnologia um ar “riponga”, mas de luxo, pois as chinelas espaciais devem ser tão caras como as nossas havaianas com fios de ouro manufaturadas para os novos ricos poderem se exibir nas praias.

Na ausência de ideias originais, as emoções das plateias, hoje embrutecidas, são estimuladas com altas doses de violência e absurdo. No original, o monstro, apenas vislumbrado ao longo da trama, só era visto, de relance, no final; a violência gráfica de seus ataques era geralmente atenuada pelos cenários sombrios. Aqui os monstros aparecem, sempre que possível, sob uma luz meridiana, e seus ataques são exibidos em detalhes escabrosos. A cena da operação, fortemente iluminada, foi concebida para enojar ao máximo as pessoas sensíveis e deliciar os experts. O crítico Marcelo Hessel, do Omelete, ficou bastante satisfeito: “A cena do ‘parto’, especialmente, é linda”.

Já os absurdos são tantos que se torna enfadonho enumerá-los. Basta citar a incrível capacidade de resistência da cientista Elizabeth, vivida pela interessante atriz sueca Noomi Rapace. Após ter a barriga cortada a laser de ponta a ponta, ela pula da mesa de operações e corre em disparada, só um tanto dolorida, até o final do filme, quando precisa escapar da gigantesca espaçonave, que despenca sobre ela e a empresária (a belíssima Charlize Theron). Esta, claro, morre esmagada, por ser uma capitalista avara e egoísta, sem o jogo de cintura da cientista mística e telúrica, capaz de rolar quilômetros em dois segundos, embora ainda sofra um pouco com a barriga recém-cortada-e-grampeada.

Coerente com a metafísica barata da “busca pelas respostas às perguntas mais importantes da humanidade”, o filme escalou o ainda jovem galã Guy Pearce para o papel do ancião proprietário das Weyland Industries. Sua maquilagem de corpo inteiro é visivelmente uma máscara. Hollywood prefere agora maquiar atores jovens, criando velhos fakes com rugas brilhantes de plástico, a empregar atores anciãos, que poderiam perfeitamente encarnar esses papéis. Na Hollywood de esquerda, anticapitalista, preocupada com questões metafísicas, velhos atores aposentados devem procurar, longe das telas, por sua própria conta, “as respostas às grandes perguntas da humanidade”.

Nota

Viagem aos seios de Duília (Brasil, 1964, 105’, p&b, drama). Direção: Carlos Hugo Christensen. Com Rodolfo Mayer, Nathália Timberg, Oswaldo Louzada, Lícia Magna, Sara Nobre, Isolda Crestam, Rosa Sandrini, Maurício Loyola, José Policena, Otávio Cardoso. Com roteiro do próprio diretor … Continuar lendo

ZOLTÁN HUSZÁRICK

Szindbád (1971), de Zoltán Huszárick.

Em outros tempos, eu teria amado Szindbád (1971), de Zoltán Huszárick: as imagens deslumbrantes, a atmosfera de decadência, a textura das coisas num ritmo sincopado, o mergulho da câmera no prato de sopa, despertando o apetite até o nojo de uma “abstratação” da comida pelo uso das lentes macros, que captam as bolhas de gordura, os fiapos de carne – tudo isso me teria encantado.

Szindbád, que traduz em imagens os pequenos contos do escritor surrealista Gyula Krúdy, sobre as lembranças dos encontros de um sedutor envelhecido com as mulheres de sua vida, foi incluído numa lista dos dez melhores do cinema húngaro de todos os tempos e, para alguns críticos, é o melhor deles. Mas hoje esse cinema quase abstrato, fragmentado num mosaico colorido e impressionista, sem uma narrativa sólida, não me sustenta mais. É uma sopa rala, um cinema pretensioso que não consegue me saciar.

O diretor Huszárick fez alguns curtas-metragens e morreu cedo, aos cinquenta anos, em 1981, entregue ao álcool, de modo suicida, infeliz com o fracasso de seu segundo longa-metragem, Csontváry (1980), sobre o pintor húngaro Csontvary Tivadar. O ator originalmente escalado para interpretar o personagem, Latinovitsj Zoltan, matou-se antes das filmagens. Um desespero sem saída era a marca dos artistas do Leste europeu, sufocados pela repressão do comunismo e pela própria sofisticação estética.

Szindbád (1971), de Zoltán Huszárick.

UMA ‘COISA’ NO PALCO

Ignorada com o prêmio, Jodie Foster desloca-se para o fundo do palco.

Jodie Foster estava magérrima e lindíssima na entrega do prêmio de Filme do Ano à equipe de The Twilight Saga’s Breaking Dawn Part I no MTV Academy Awards 2012. Mas quando os jovens atores e a equipe do filme subiram ao palco, nem sequer a cumprimentaram. Ela acabou se escondendo atrás do bando, à espera de que alguém se dignasse a receber o troféu que ficou a segurar.

Rapidamente, a estrelinha Kristen Stewart, com ar de drogada, avançou para o microfone e, balançando o corpo de forma grotesca, resmungou como uma adolescente mimada e estúpida: “I’ve been promoting Snow White and I get a lot of questions saying ‘You must be wanting to distance yourself from this.’ And I’m like, ‘Shut up!’. This really means a lot.” E saiu se balançando, de modo vulgar, como uma pata choca calçada em tênis.

Pelo menos o jovem ator Taylor Lautner manteve a compostura e o verniz da boa educação, agradecendo outras pessoas pelo sucesso do filme: “We really have so many people to thank. First and foremost, we have to thank you our dedicated fans. I want to thank our incredible director Bill Condon and the creator of this thing, producer and author Stephenie Meyer.” Não se fazem mais estrelas como antigamente. Kristen Stewart é apenas uma “coisa”, indigna de receber um prêmio das mãos de Jodie Foster.

Jodie Foster observa, constrangida, as miquices de Kristen Stewart.