ZOLTÁN HUSZÁRICK

Szindbád (1971), de Zoltán Huszárick.

Em outros tempos, eu teria amado Szindbád (1971), de Zoltán Huszárick: as imagens deslumbrantes, a atmosfera de decadência, a textura das coisas num ritmo sincopado, o mergulho da câmera no prato de sopa, despertando o apetite até o nojo de uma “abstratação” da comida pelo uso das lentes macros, que captam as bolhas de gordura, os fiapos de carne – tudo isso me teria encantado.

Szindbád, que traduz em imagens os pequenos contos do escritor surrealista Gyula Krúdy, sobre as lembranças dos encontros de um sedutor envelhecido com as mulheres de sua vida, foi incluído numa lista dos dez melhores do cinema húngaro de todos os tempos e, para alguns críticos, é o melhor deles. Mas hoje esse cinema quase abstrato, fragmentado num mosaico colorido e impressionista, sem uma narrativa sólida, não me sustenta mais. É uma sopa rala, um cinema pretensioso que não consegue me saciar.

O diretor Huszárick fez alguns curtas-metragens e morreu cedo, aos cinquenta anos, em 1981, entregue ao álcool, de modo suicida, infeliz com o fracasso de seu segundo longa-metragem, Csontváry (1980), sobre o pintor húngaro Csontvary Tivadar. O ator originalmente escalado para interpretar o personagem, Latinovitsj Zoltan, matou-se antes das filmagens. Um desespero sem saída era a marca dos artistas do Leste europeu, sufocados pela repressão do comunismo e pela própria sofisticação estética.

Szindbád (1971), de Zoltán Huszárick.

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