Nota

CARLOS HUGO CHRISTENSEN

Rodolfo Meyer em ‘Viagem aos seios de Duília’ (1964)

Viagem aos seios de Duília (Brasil, 1964, 105’, p&b, drama). Direção: Carlos Hugo Christensen. Com Rodolfo Mayer, Nathália Timberg, Oswaldo Louzada, Lícia Magna, Sara Nobre, Isolda Crestam, Rosa Sandrini, Maurício Loyola, José Policena, Otávio Cardoso.

Com roteiro do próprio diretor e diálogos de Orígenes Lessa, a partir do conto de Aníbal Machado (considerado um dos melhores da literatura brasileira), Viagem aos seios de Duília conta a história de José Maria, funcionário público exemplar que, ao se aposentar após trinta e cinco anos de serviço burocrático na chefia de uma das seções de um dos Ministérios do Rio de Janeiro (então ainda capital do Brasil), depara-se com o vazio da sua existência. Solteiro, ele nunca namorou, jamais entrou num cabaré, conheceu apenas um amor em toda a vida.

Quando ele era um rapazinho, nos grotões de Minas Gerais, seus pais anunciaram a mudança da família para a capital. Criando coragem, ele então declara seu amor a uma garota, Duília, que amava secretamente. Ela também o amava e, demonstrando isso, começa a desnudar-se, mas é chamada pela mãe, e parte às pressas. José Maria viu, pela primeira e última vez, os seios de sua amada. Agora, no crepúsculo da vida, sem mulher nem amigos, agarra-se a esse romance interrompido no passado. Em busca do tempo perdido, ele empreende longa viagem à terra natal, sonhando sempre com os seios de Duília.

Rodolfo Mayer empresta ao personagem uma máscara trágica de sofrimento sóbrio, digno, em close-ups de uma força expressiva impressionante. O filme se equipara aos clássicos em preto e branco de Ingmar Bergman. Como tantos personagens de Bergman, José Maria vive o calvário da solidão absoluta e sua “crucificação” final emociona e decepciona ao mesmo tempo. Os filmes que o argentino Christensen escreveu, dirigiu e produziu no Brasil – Viagem aos seios de Duília (1964), O menino e o vento (1967) e A intrusa (1979), entre outros – estão entre os melhores do cinema brasileiro.

2 Respostas para “CARLOS HUGO CHRISTENSEN

  1. Márcio F. Souza

    Nazario, bela lembrança. Viagem aos seios de Duília é, de fato, um dos melhores exemplares do cinema brasileiro e Rodolfo Mayer está grandioso. Aliás, da extensa filmografia de Carlos Hugo Christensen, tive a oportunidade de assistir a alguns de seus filmes produzidos no Brasil, que frequentemente são exibidos no Cine Brasil TV. Não conheço suas produções argentinas. Bem que alguma “boa alma” poderia tomar a iniciativa da restauração de seus filmes e lançá-los em belo box de DVDs.

    • Sim, estamos muito atrasados na recuperação dos clássicos do cinema brasileiro. É que, infelizmente, não há mercado para eles. O grande público do cinema atual só se interessa por filmes de hoje, ontem ou anteontem. Às vezes digo a um jovem que vi um filme antigo muito bom e ele me pergunta: “Um filme antigo? Dos anos 80?”. Para os jovens de hoje, os filmes dos anos de 1980 são os mais antigos que concebem e, logo, os mais antigos que existem.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s