KAUSHIK GANGULY

Aarekti Premer Golpo (Mais uma história de amor, 2010)

Aarekti Premer Golpo (Mais uma história de amor, Índia, 2010, 129’, cor, drama). Direção: Kaushik Ganguly. Com Rituparno Ghosh, Chapal Bhaduri, Indraneil Sengupta, Churni Ganguly.

O cineasta-travesti Abhiroop (Rituparno Ghosh), que vive na moderna Delhi, realiza um documentário sobre o decadente ator-travesti Chapal Bhaduri (Chapal Bhaduri), que se encontra esquecido e retirado na atrasada Calcutá. O feioso cineasta, que ostenta ser a pessoa mais sensível do mundo, mantém um affaire de dez anos com o fotógrafo de seus filmes, o esbelto bissexual Basudeb (Indraneil Sengupta). Sua história de amor é abalada com a chegada de Rani (Churni Ganguly), a esposa de Basudeb, no set das filmagens.

Rani, que a crer no roteiro apenas “desconfiava” das traições do marido, fica chocada ao ver, no quarto de Abhiroop, para o qual é levada por engano, fotos comprometoras do seu homem agarrado ao amante. E, quase como uma vingança, escarnece do amante do marido pedindo-lhe sugestões de nomes para uma criança que vai nascer, só depois “deixando escapar” que se trata de seu próprio rebento. Ela mata dois coelhos com uma cajadada só: surpreende o marido desgarrado, que tem passado mais tempo com o amante, e deixa seu rival abalado com a perspectiva de novas chantagens emocionais.

Mesmo flertando com outro homem, que quer levá-lo a Nice apesar de aí viver com seu namorado, Abhiroop sofre com a indecisão de Basudeb: futuro pai, ele agora pretende passar mais tempo com a esposa. Esses amores desatinados, complicados pela sensualidade ambígua de Basudeb, segue paralelamente ao igualmente caótico quarteto amoroso que marcou a vida do velho ator-travesti Chapal, dividido entre a paixão por dois homens e por eles obrigado a humilhantes tarefas domésticas, pelo favor de morar em suas casas, após perder o emprego no teatro, denunciado por comportamento escandaloso pelas atrizes enciumadas de seu sucesso junto aos colegas.

Depois da queda, Chapal é instado pelo namorado e deixar sua casa, e encontra novo amante, com quem vive alguns anos, mas acaba por deixá-lo quando o antigo namorado, que o havia rejeitado, pede que ele volte para cuidar de sua esposa, que se encontra gravemente doente. Mas a doença grave da mulher se prolonga por longos anos… E, sempre fora de casa, fugindo de suas responsabilidades, o homem arruma outra amante, mais jovem, que vai morar com ele e com seu abnegado amante que cuida de sua esposa.

Banhado na confusão de sentimentos desses indecisos personagens, o filme é um melodrama típico do cinema indiano, com leve ou ousado (dependendo da perspectiva) acento gay. Reforçando o jogo de espelhos, as cenas do passado de Chapal, revividas no “documentário”, são encenadas pelos mesmos atores: Rituparno Ghosh encarna Abhiroop no presente e Chapal no passado, evidenciando o paralelo entre o romance fictício de Abhiroop e o real (encenado) de Chapal, que interpreta a si mesmo na atualidade.

Os dramas paralelos avançam lentamente no filme e no filme dentro do filme, entre desgraças açucaradas e denúncias histéricas, reflexões inteligentes e depressões musicadas. Infelizmente, a melhor cena é curta: a encarnação da Deusa da Peste por Chapal. Abhiroop não poderá recriar essa incrível performance do ator, porque populares de Calcutá, acreditando que com ela o travesti atrairá a peste, acionam a polícia. Não apenas nesta cena, mas em todo o docudrama, a homofobia mostra-se, na Índia dominada por tabus milenares, gritante e hipócrita.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s