O INFERNO, DE MÉLIÈS A EISENSTEIN

Les quatre cents farces du diable (França, 1906), de Georges Méliès.

Em Les quatre cents farces du diable (França, 1906, 17’, p&b e cor, mudo), de Georges Méliès, recentemente restaurado, o engenheiro inglês William Crackford, fã de recordes de velocidade, vende a alma ao alquimista Alcofribazs, em troca de pílulas mágicas, que lhe permitem viajar por onde lhe dá na telha. Depois de uma cavalgada celeste, em companhia de seu mordomo John, Crackford é conduzido aos infernos: retirando seu disfarce, Alcofribazs revela ser o Satã em pessoa.

Atravessando cenários alucinantes onde pululam figuras estilizadas, o cavalo-esqueleto apocalíptico que puxa a carruagem alimenta-se de luas em forma de croissants. Essas imagens impressionaram o então menino Sergei Eisenstein, levado ao cinema por sua mãe: ele mais tarde escreveu, em suas Memórias imorais, ter sido este um dos filmes que mais o assombraram na infância. Eisenstein carregou essas imagens traumáticas até a idade adulta e reelaborou a cena do cavalo apocalíptico na famosa sequência da ponte que se abre para impedir a propagação da revolta até o bairro operário, em Oktyabr (Outubro, 1927).

A carruagem que estava prestes a atravessar a ponte é metralhada. E o cavalo branco que a puxava tem suas patas quebradas ao mesmo tempo em que o mastro da bandeira comunista é partido ao meio por uma burguesa gorda. E tudo (carruagem, cavalo, povo metralhado) despenca no abismo escavado pela ponte que se eleva, segundo as ordens do governador, para dividir a cidade de Petrogrado (ex-São Petersburgo, logo Leningrado, com o fim do comunismo novamente São Petersburgo). O regime czarista que Eisenstein associa ao poder absoluto, inserindo de contrabando a imagem da estátua gigantesca de Ramsés II na sua “montagem de atrações”, é o disfarce de Satã (o capitalismo, para os bolcheviques).

O delegado tenta, cumprindo as ordens do governador, todos a serviço de Satã, impedir a gloriosa marcha das massas trabalhadoras em direção ao comunismo. O cavalo cai e afunda, o porta-bandeira jaz massacrado pelas sombrinhas das burguesas, a bandeira vermelha se desmancha na água, onde ainda submergem, além do peito nu do militante, exemplares do Pravda (da Verdade), lançados pelos reacionários em êxtase. Mas a contrarrevolução, que a queda do cavalo apocalíptico simboliza, não venceria a guerra, a despeito das batalhas perdidas: as massas russas que viam essa tragédia projetada nas telas já desfrutavam do paraíso soviético, que financiava as grandiosas fantasias comunistas infantis de Eisenstein.

Oktyabr (Outubro, 1927), de Sergei Eisenstein.

Uma resposta para “O INFERNO, DE MÉLIÈS A EISENSTEIN

  1. Graças aos Deuses do cinema, Georges Méliès está mais vivo do que nunca atualmente.

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