Arquivo do dia: 22/07/2012

30 ANOS DE ‘E.T.’

Íntegra da entrevista de Luiz Nazario para a reportagem de Paulo Henrique da Silva, jornal Hoje em Dia, Caderno Mosaico, maio de 2012.

Trinta anos após o lançamento de E.T., o filme ainda está muito presente no imaginário ou já virou um trabalho valorizado apenas pela repercussão criada na época?

Apenas os pais dos jovens de hoje, os “tiozinhos” que estão agora com seus quarenta anos ou mais, terão uma lembrança viva do fenômeno que foi o E.T. Os jovens de hoje podem mesmo dizer: “Ah, fulano é um ET!”, sem desconfiar que o termo “ET”, usado com sentido cômico na linguagem cotidiana, espalhou-se como vírus pelo mundo graças ao tremendo sucesso do filme de Spielberg. Antes de ET, o extraterrestre, os alienígenas do cinema (e, para os ufólogos, também da realidade) eram geralmente temíveis, assustadores, monstruosos. Depois do filme, eles passaram a ser queridos, simpáticos, amistosos,  ainda que se mantivessem feiosos e esquisitos. Daí o sentido ambíguo, cômico, que o termo assumiu. Surgiram, então, as lendas em torno do “ET de Varginha”, a dupla de comediantes “ET e Rodolfo”,  expressões como “Ele parece um ET”, “Ela é um verdadeiro ET”, etc. O E.T. de Spielberg foi um desses raros filmes capazes de transcender os limites do mero entretenimento, passando a exercer uma influência marcante, visível, sobre toda a sociedade. E Spielberg conseguiu essas proeza com pelo menos mais dois filmes: Tubarão e Parque  dos dinossauros.

Ainda é possível encontrar ingredientes que ainda fazem dele um trabalho singular?

O ET de Spielberg rompeu com os antigos estereótipos do alienígena no cinema paranoico. Ele é o personagem-chave da nova ideologia do “politicamente correto”, que exerce até hoje grande influência em todo o mundo político. Ele representa o fim da Guerra Fria, o multiculturalismo, o sentimento esquerdista e populista que contaminou o cinema e o mundo desde então. O cinema foi invadido pelos “monstros queridos” e os esquerdistas e populistas que hoje estão no poder não foram formados na leitura árdua e anacrônica de Marx e Engels, mas na absorção fácil daqueles filmes politicamente corretos nos quais os monstros tornam-se dignos de nosso amor, mais humanos que os humanos, verdadeiros salvadores do mundo. Nesse sentido, ET foi um dos filmes mais ingênuos e, logo, nefastos, do final do século XX. Com seu humanismo monstruoso e seu pacifismo irracional, deixou a humanidade despreparada para enfrentar a verdadeira monstruosidade. O “amor ao estranho” pode ser positivo no caso das  minorias perseguidas; mas quando petrificado numa ideologia e aplicado cegamente corre o risco de extinguir a liberdade. O próprio Spielberg deu-se conta disso ao perceber a real ameaça do terrorismo, entendendo que o cinema paranoico da Guerra Fria não era apenas propaganda vazia, que o mal absoluto continuava a existir, respondendo então à realidade do fascismo disfarçado de religião com a fantasia mais complexa de Guerra dos mundos.

O que fez de ET um filme tão popular na época? O lado familiar? O mistério misturado a um enredo sobre amizade?

Creio que o ET conseguiu dar vazão, na época, a um acúmulo impressionante de homossexualidade reprimida em todo o mundo, permitindo que ela se extravasasse de modo ainda imperceptível e socialmente aceitável, na figura de um feioso, mas querido, extraterrestre. O ET é um “falo” bom, com seu dedo dotado de uma “cabeça” vermelha e potente, criadora de vida. Os adolescentes apaixonam-se por essa criatura, são capazes de morrer por ele. Especialmente o Elliott, que tem o nome do ET embutido em seu próprio nome, como que penetrado por ele, indissociável dele. A trajetória do ET na Terra é exatamente a do Cristo, com seu calvário, morte e ressurreição. O ET substitui a figura messiânica, salvadora, redentora, do Filho de Deus, para gerações que cresceram em sociedades laicas, sem religião, ou sem muita religião, mas que ainda precisam do Messias, do Salvador, do Redentor, ainda que sob a forma de um ET.

No campo da ficção científica, qual foi a contribuição do filme? Pode-se dizer que é um dos filmes mais importantes do gênero?

O filme é um marco da ficção científica. O ET criou um novo padrão dentro do gênero. Forçou o gênero a um novo limite, cruzando a fronteira da ficção científica para fincar o outro pé na fronteira do melodrama. Com a espetacular trilha musical de John Williams (como definiu Douglas Sirk, “o melodrama é um drama com música”), Spielberg criou um novo gênero: o melodrama de ficção científica. Nunca o público havia se emocionado até as lágrimas com um filme supostamente de ficção científica: gritava, tremia e até ria de nervoso, mas nunca chorava de emoção… O filme representou um “corte epistemológico” no gênero, mudando a visão dos seres extraterrestres no cinema paranoico e até mesmo na vida real, entendendo por “vida real” tanto a vida em sociedade (com as minorias passando a ser mais respeitadas e até amadas apenas por suas diferenças e estranhezas) quanto a vida extraterrestre que muitos supõem existir (com ufólogos prestigiados como nunca e instituições ganhando verbas milionárias e até bilionárias para torrar em pesquisas curiosas e viagens espaciais inúteis).

O que você achou da versão, lançada em 2002, que tornou o filme mais politicamente correto, trocando armas por walk-talkies? A inclusão de novas cenas tornaram o filme melhor?

Foi possivelmente a pior ideia que Spielberg teve na vida. Uma ideia indigna de Spielberg, que tanto procura preservar a memória do cinema, criando e financiando arquivos de filmes, colaborando com restaurações de películas, etc. Não se pode alterar o passado, nem se, com boa intenção, se deseje “melhorar” esse passado, dar a ele uma nova cor, uma nova forma, uma nova roupagem. O que aconteceu, aconteceu. É como colorizar um filme realizado em preto-e-branco para agradar a sensibilidade deturpada do público atual, que geralmente associa o preto-e-branco a “velharias”. Um escritor pode corrigir, modificar, ampliar e atualizar seus livros, a cada edição, pois aí se trata de informações, de dados, de erros que devem ser corrigidos, mas um filme é diferente, é  um documento da época, com seus discursos sublimados, estampados, estilizados. Um filme não pode ser “atualizado” sob a pena de se falsificar, com isso, todo o passado.

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SHERLOCK HOLMES E A ARMA SECRETA

Sherlock Holmes and the Secret Weapon (1943),

Sherlock Holmes and The Secret Weapon (Sherlock Holmes e a arma, EUA, 1943, 80’ na versão inglesa, 68’ na versão americana, p&b e colorizado). Direção: Roy William Neill. Com Nigel Bruce, Basil Rathbone, William Post, Lionel Atwill.

O cientista Dr. Franz Tobel (William Post) inventou uma mira aérea que dá aos aviões bombardeiros uma precisão até então inédita. Ele deseja vender seu invento para os ingleses e precisa escapar dos agentes da Gestapo, que estão no seu encalço, na Suíça. Conta com a ajuda de Sherlock Holmes (Basil Rathbone) que, disfarçado de antiquário, consegue despistar os agentes que tentam sequestrar o inventor. Já em sua casa, em Londres, Holmes esconde as partes do invento desmontado em enormes livros encadernados esvaziados de seu miolo e encarrega o Dr. John Watson (Nigel Bruce) da missão de zelar pelo esquivo Dr. Tobel até a apresentação da mira ao exército britânico, na manhã seguinte. Contudo, o inventor apenas finge tomar o remédio para dormir que Holmes lhe administra e aproveita o sono do médico para dar uma escapadela e encontrar sua amante londrina.

Ao sair da alcova, de madrugada, sofre uma tentativa de sequestro, mas consegue livrar-se dos capangas. A apresentação do invento é um sucesso, mas logo descobrem que as peças escondidas nos livros foram roubadas. O inventor desaparece em seguida. A única pista é a amante, que revela que ele lhe confiara, na noite anterior, um envelope endereçado a Holmes, contendo estranhos desenhos. Mas ao buscar o envelope, ela o encontra vazio: também fora roubado. Holmes consegue, graças aos seus conhecimentos de química, reconstituir a nota pelos traços de pressão da escrita na agenda. Tratava-se de um código secreto. Por trás de tudo estava o gênio do mal, Professor James Moriarty (Lionel Atwill), que sequestrara o inventor, roubara as partes da mira e a fórmula de sua montagem. O destino da Inglaterra estava em jogo. A Scotland Yard, Holmes e Watson juntam suas forças para resgatar o inventor e impedir o traidor Moriarty de vender aos nazistas a nova e poderosa arma secreta.

O filme foi restaurado e lançado em DVD na edição americana original de 68 minutos em duas versões: a original em preto e branco e a colorizada. Embora eu não seja um defensor da colorização, bem ao contrário, devo admitir que a intromissão das cores funciona bem nesse filme e o torna até mais interessante. Não se tratando de um clássico, mas de um seriado de produção barata da Universal, que já nasceu como pastiche, a trama mescla dois contos de Sir Arthur Conan Doyle (“The Dancing Men” e “The Empty House”), atualizando-os para o ambiente da Segunda Guerra. A colorização empresta ao remix cores irreais, menos parecidas com as do sistema Tecnicolor da época que com as dos cartazes em tons fortes que anunciavam os filmes ou com as das lindas fotografias coloridas de Londres sob o bombardeio alemão durante a guerra.