30 ANOS DE ‘E.T.’

Íntegra da entrevista de Luiz Nazario para a reportagem de Paulo Henrique da Silva, jornal Hoje em Dia, Caderno Mosaico, maio de 2012.

Trinta anos após o lançamento de E.T., o filme ainda está muito presente no imaginário ou já virou um trabalho valorizado apenas pela repercussão criada na época?

Apenas os pais dos jovens de hoje, os “tiozinhos” que estão agora com seus quarenta anos ou mais, terão uma lembrança viva do fenômeno que foi o E.T. Os jovens de hoje podem mesmo dizer: “Ah, fulano é um ET!”, sem desconfiar que o termo “ET”, usado com sentido cômico na linguagem cotidiana, espalhou-se como vírus pelo mundo graças ao tremendo sucesso do filme de Spielberg. Antes de ET, o extraterrestre, os alienígenas do cinema (e, para os ufólogos, também da realidade) eram geralmente temíveis, assustadores, monstruosos. Depois do filme, eles passaram a ser queridos, simpáticos, amistosos,  ainda que se mantivessem feiosos e esquisitos. Daí o sentido ambíguo, cômico, que o termo assumiu. Surgiram, então, as lendas em torno do “ET de Varginha”, a dupla de comediantes “ET e Rodolfo”,  expressões como “Ele parece um ET”, “Ela é um verdadeiro ET”, etc. O E.T. de Spielberg foi um desses raros filmes capazes de transcender os limites do mero entretenimento, passando a exercer uma influência marcante, visível, sobre toda a sociedade. E Spielberg conseguiu essas proeza com pelo menos mais dois filmes: Tubarão e Parque  dos dinossauros.

Ainda é possível encontrar ingredientes que ainda fazem dele um trabalho singular?

O ET de Spielberg rompeu com os antigos estereótipos do alienígena no cinema paranoico. Ele é o personagem-chave da nova ideologia do “politicamente correto”, que exerce até hoje grande influência em todo o mundo político. Ele representa o fim da Guerra Fria, o multiculturalismo, o sentimento esquerdista e populista que contaminou o cinema e o mundo desde então. O cinema foi invadido pelos “monstros queridos” e os esquerdistas e populistas que hoje estão no poder não foram formados na leitura árdua e anacrônica de Marx e Engels, mas na absorção fácil daqueles filmes politicamente corretos nos quais os monstros tornam-se dignos de nosso amor, mais humanos que os humanos, verdadeiros salvadores do mundo. Nesse sentido, ET foi um dos filmes mais ingênuos e, logo, nefastos, do final do século XX. Com seu humanismo monstruoso e seu pacifismo irracional, deixou a humanidade despreparada para enfrentar a verdadeira monstruosidade. O “amor ao estranho” pode ser positivo no caso das  minorias perseguidas; mas quando petrificado numa ideologia e aplicado cegamente corre o risco de extinguir a liberdade. O próprio Spielberg deu-se conta disso ao perceber a real ameaça do terrorismo, entendendo que o cinema paranoico da Guerra Fria não era apenas propaganda vazia, que o mal absoluto continuava a existir, respondendo então à realidade do fascismo disfarçado de religião com a fantasia mais complexa de Guerra dos mundos.

O que fez de ET um filme tão popular na época? O lado familiar? O mistério misturado a um enredo sobre amizade?

Creio que o ET conseguiu dar vazão, na época, a um acúmulo impressionante de homossexualidade reprimida em todo o mundo, permitindo que ela se extravasasse de modo ainda imperceptível e socialmente aceitável, na figura de um feioso, mas querido, extraterrestre. O ET é um “falo” bom, com seu dedo dotado de uma “cabeça” vermelha e potente, criadora de vida. Os adolescentes apaixonam-se por essa criatura, são capazes de morrer por ele. Especialmente o Elliott, que tem o nome do ET embutido em seu próprio nome, como que penetrado por ele, indissociável dele. A trajetória do ET na Terra é exatamente a do Cristo, com seu calvário, morte e ressurreição. O ET substitui a figura messiânica, salvadora, redentora, do Filho de Deus, para gerações que cresceram em sociedades laicas, sem religião, ou sem muita religião, mas que ainda precisam do Messias, do Salvador, do Redentor, ainda que sob a forma de um ET.

No campo da ficção científica, qual foi a contribuição do filme? Pode-se dizer que é um dos filmes mais importantes do gênero?

O filme é um marco da ficção científica. O ET criou um novo padrão dentro do gênero. Forçou o gênero a um novo limite, cruzando a fronteira da ficção científica para fincar o outro pé na fronteira do melodrama. Com a espetacular trilha musical de John Williams (como definiu Douglas Sirk, “o melodrama é um drama com música”), Spielberg criou um novo gênero: o melodrama de ficção científica. Nunca o público havia se emocionado até as lágrimas com um filme supostamente de ficção científica: gritava, tremia e até ria de nervoso, mas nunca chorava de emoção… O filme representou um “corte epistemológico” no gênero, mudando a visão dos seres extraterrestres no cinema paranoico e até mesmo na vida real, entendendo por “vida real” tanto a vida em sociedade (com as minorias passando a ser mais respeitadas e até amadas apenas por suas diferenças e estranhezas) quanto a vida extraterrestre que muitos supõem existir (com ufólogos prestigiados como nunca e instituições ganhando verbas milionárias e até bilionárias para torrar em pesquisas curiosas e viagens espaciais inúteis).

O que você achou da versão, lançada em 2002, que tornou o filme mais politicamente correto, trocando armas por walk-talkies? A inclusão de novas cenas tornaram o filme melhor?

Foi possivelmente a pior ideia que Spielberg teve na vida. Uma ideia indigna de Spielberg, que tanto procura preservar a memória do cinema, criando e financiando arquivos de filmes, colaborando com restaurações de películas, etc. Não se pode alterar o passado, nem se, com boa intenção, se deseje “melhorar” esse passado, dar a ele uma nova cor, uma nova forma, uma nova roupagem. O que aconteceu, aconteceu. É como colorizar um filme realizado em preto-e-branco para agradar a sensibilidade deturpada do público atual, que geralmente associa o preto-e-branco a “velharias”. Um escritor pode corrigir, modificar, ampliar e atualizar seus livros, a cada edição, pois aí se trata de informações, de dados, de erros que devem ser corrigidos, mas um filme é diferente, é  um documento da época, com seus discursos sublimados, estampados, estilizados. Um filme não pode ser “atualizado” sob a pena de se falsificar, com isso, todo o passado.

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