BRUCE KESSLER

The Gay Deceivers (Os enganadores, EUA, 1969, 91’, cor, comédia, gay). Direção: Bruce Kessler. Com Kevin Coughlin, Brooke Bundy, Lawrence Casey, Jo Ann Harris, Michael Greer.

Para evitar serem enviados para combater no Vietnã, dois amigos heterossexuais, Danny (Kevin Coughlin) e Elliot (Larry Casey), fingem ser homossexuais diante do oficial militar Dixon (Jack Starrett), que entrevista rapazes alistados no exército. Eles conseguem ser reprovados no exame, livrando-se de ir para a guerra, mas têm de pagar um preço alto por isso, pois passam a ser investigados por Dixon, que desconfia deles.

Para evitar uma possível revisão do julgamento, eles decidem morar juntos no mesmo apartamento e enganar amigos, namoradas e familiares sobre a natureza de sua convivência cada vez mais íntima. Para complicar as coisas, o apartamento que eles alugam fica numa comunidade de gays intrometidos, que vivem “invadindo” o apartamento deles para espiar os dois “pombinhos recém-casados”.

Danny e Elliot não conseguem tampouco manter o pacto de castidade temporária que firmam e que, de fato, precisariam manter para que a farsa que decidiram viver não levantasse suspeitas: o mais sério, que se destina a ser um advogado de sucesso, vive procurando a namorada; o outro, salva-vidas na piscina do clube do pai do amigo, um atleta vigoroso que transpira sexo, mostra-se incapaz de manter o jejum de garotas. O resultado é uma sucessão de mal-entendidos hilariantes e dubiedades eróticas.

Não sei qual o status do filme dentro da “cultura queer”, mas ele deve ter sido o primeiro em alguma coisa, pois visto hoje surpreeende por sua ousadia e atualidade. Tudo ali é datado e, ao mesmo tempo, ali nada envelheceu. O uso dos estereótipos é simultaneamente ingênuo e malicioso; o elenco esquisitíssimo, os cenários berrantes, a fotografia de “cores absolutamente divinas”, as músicas alegrinhas – tudo é um primor de estética camp.

Em The Gay Deceivers, o clima de 1968 é encapsulado numa trama que visita toda a cena gay da época: da homofobia mais mórbida à bichice mais louca, num circulo vicioso azeitado pelo bom humor, que percorre a inteira gama da comédia, da mais tola à mais ácida. É um filme barato, com atores esquecidos até pelo diretor Bruce Kessler, que não sabe bem o que cada um deles faz hoje – Kevin Coughlin morreu logo depois do filme, “atropelado na rua ao sair do carro, parece”, ele afirma no documentário incluído no DVD.

Mesmo com cenas censuradas na época, o filme foi bem recebido pelo público. Visto hoje na íntegra merece o posto de cult favorito. Dois achados: Michael Greer – o senhorio que decorou o apartamento em rosa-choque, carregando-o de cópias baratas de arte homoerótica – vinha do teatro e oferece uma caracterização impagável; e Larry Casey – o galã loiro e musculoso – é visivelmente um homossexual na “vida real”, mas interpreta um heterossexual que tem de interpretar um homossexual na “vida real” do filme. Verdadeiro enganador, entrando e saindo o tempo todo de seus papéis, ele nos lança numa divertida e fascinante realidade em camadas, à qual a cena final se associa de modo brilhante.

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