Arquivo do mês: agosto 2012

DRAMAS DE PRISÃO

Fortune and Men’s Eyes (Sob o teto do demônio, 1971, 102’, cor, drama). Direção: de Harvey Hart. Produção: Lester Persky e Lewis Allen. Roteiro: John Herbert, a partir de sua peça Fortune and Men’s Eyes. Fotografia: Georges Dufaux. Trilha: Galt McDermott. Com Wendell Burton, Zooey Hall, Michael Greer, Danny Freedman.

Drama de prisão, Fortune and Men’s Eyes (Sob o teto do demônio, 1971), de Harvey Hart, é a adaptação de uma peça do autor canadense John Herbert que, em sua época, causou escândalo. O jovem Smitty (Wendell Burton) é condenado a seis meses de prisão por fumar maconha. O mundo que ele conhecia desaparece quando ele entra na “jaula”. A namorada é uma fotografia escondida no colchão, motivo de chacota na cela. Ali, a sexualidade é modelada pelos veteranos.

Novatos como Smitty são submetidos a um ritual de iniciação, após o qual se tornam as “fêmeas” dos “machos”. Logo no primeiro banho coletivo, Smitty vê um dos prisioneiros sendo sodomizado à força e sucessivamente por todos os membros de uma das gangues que ali proliferam, com a cumplicidade dos guardas. Temendo a sua vez, Smitty entrega-se à proteção do solitário líder Rocky (Zooey Hall).

Mas seu novo parceiro não demora a cobrar o preço da proteção, sodomizando o protegido e logo causando ciúmes entre os dois outros colegas de cela: o degenerado e vulgar travesti Queenie (Michael Greer) e seu frágil amante Mona (Danny Freedman), sempre humilhado por ser um “fraco” e ler poemas de Shakespeare (entre os quais aquele intitulado “When in disgrace with fortune and men’s eyes”, de onde o título da peça e do filme foi tirado).

A violência latente ao longo da trama, que por momentos sobe à tona nas cenas de estupro, explode na sequencia final durante a festa de Natal dos prisioneiros, comandada por Queenie, que, entusiasmado com a calorosa recepção dos detentos, agride com obscenidades as autoridades que prestigiam seu show grotesco. Não suportando as provocações do travesti, o “respeitável público” deixa o recinto.

É a oportunidade para os detentos extravasarem seu ódio acumulado. Smitty aproveita a rebelião coletiva para vingar-se de Rocky, mostrando que aprendeu a ser violento e pode agora, também ele, dar as cartas. Assumindo a personalidade de Rocky, que antes ele tanto temia, ele passa de violado a violentador.

Inteiramente rodado numa prisão real do Quebec, no Canadá, o filme revela, mais centrado nos diálogos que nas ações, devido à sua origem teatral, como o ambiente da prisão modela o comportamento humano, cada confinado aí se transformando no instrumento da satisfação do desejo imperioso dos outros confinados.

Todos preferem se entregar às relações homossexuais – dentro das quais eles podem reproduzir as relações de poder (dominação, humilhação, submissão, sadismo, masoquismo) vivendo uma fantasia concreta de “liberdade” – a se masturbarem (o que os obrigaria a assumir a impotência de sua condição de prisioneiros, base da real liberdade possível).

No papel do travesti, Michael Greer cria um personagem assustador, mesclado de piedade e de sadismo, de sentimentos patéticos e atitudes predatórias, oscilando o tempo todo entre a solidariedade e a perversidade, gerando no protagonista (e no espectador) uma inquietação constante, pois nunca se pode prever sua reação diante dos fatos.

O chocante realismo do filme vem de que a peça – produzida em Los Angeles, em 1969, por Sal Mineo, que nela contracenava, no papel de Rocky, com Greer (Queenie) e Don Johnson (Smitty) – reproduzia as experiências do autor numa prisão do Canadá. Como o personagem de Mona, Herbert foi condenado em 1947 após ser roubado e espancado por adolescentes delinquentes, que depois o acusaram de assédio sexual. E como Queenie, ele também se montava como drag  queen nos shows de Natal do presídio.

TINTOMARA

Tintomara, em desenho original do autor do livro.

Tintomara (Suécia / Dinamarca, 1970, cor, drama). Direção: Hans Abramson. Produção Athena Film / Sam Lomberg. Roteiro: Hans Abramson, a partir da novela de Drottningens juvelsmycke, de Carl Jonas Love Almquist. Fotografia: Mikael Salomon. Edição: Anders Refn. Figurino: Evy Mark. Música: Ulf Björlin. Com Pia Gronning (Tintomara), Britt Ekland (Adolfine), Eva Dahlbeck (Baronesa). Monica Ekman (Amanda), Torben Hundal (Ankarström), Jørgen Kiil (Tio), Bill Öhrström (Clas-Henrik), Hardy Rafn (Padre), Bruno Wintzell (Ferdinand).

Estou contente: decifrei um enigma. Há décadas assisti a um filme na TV que muito me impressionou. Tinha uma fotografia deslumbrante, uma atmosfera de pesadelo, e contava uma história espantosa: uma jovem foragida refugiava-se numa aldeia disfarçada de homem. A garota ganhava, como rapaz, uma beleza exótica e andrógina, que atraía mulheres e rapazes, que a perseguiam com um desejo crescente. Do meio para o fim, quando a garota era descoberta e presa, o drama perdia sua ambiguidade e se tornava mais comum, arrastando-se um pouco até um fim trágico, creio, pois eu já devia, tarde da noite, estar sonhando.

Gostaria tanto de rever esse filme. Mas ele não existe mais em parte alguma. O titulo rondava minha mente e tocava vez por outra como um sino ao longe. Certa vez deparei-me com o titulo Fontamara (1980), de Carlo Lizzani, e acreditei piamente que este era o filme que eu procurava! Mas a data não parecia bater com as lembranças que eu tinha da fotografia do filme (nada revela mais a data de produção de um filme que a textura concreta de suas imagens), e depois que soube qual era a trama de Fontamara, perdi as poucas esperanças que depositava nessa possibilidade.

Ontem, porém, topei com outro titulo que me fez novamente suspeitar tratar-se daquele filme mítico da minha adolescência – Tintomara (1970). O ano coincidia. Precisava agora encontrar uma sinopse. As raras fichas técnicas existentes no mundo on line nada diziam sobre a trama. Parece que nenhum crítico viu o filme. Mas como, pela ficha técnica, eu constatei que ele fora baseado num romance clássico, Drottningens juvelsmycke (A tiara da rainha, 1834), de Carl Jonas Love Almquist, famoso na Suécia, procurei saber sobre esse livro. Lendo uma resenha em sueco topei com a palavra “androginia”. Bingo! Era o filme que eu procurava.

A novela transcorria no ano de 1792. Numa vingança ligada à sua bastardia, filha de uma atriz com um conde, pai biológico do rei Gustavo III da Suécia, a andrógina Tintomara mata este rei e rouba a tiara da rainha para mostrar à sua mãe. É protegida por uma baronesa, que a esconde em sua aldeia, mas, travestida como homem, Tintomara é disputada por dois homens, os nobres Ferdinand e Clas-Henrik, e duas mulheres, Amanda e Adolfine, filhas da baronesa – os quatro se apaixonam pelo belo “rapaz”. Mas Tintomara acaba sendo assassinada por Ferdinand durante um número de dança programado para a Corte, quando o festejo termina em sangue.

Descobri que existe uma ópera baseada no livro, montada com certa regularidade na Suécia. Mas o filme, fantástico, tornou-se invisível, quiçá aguardando sua improvável ressurreição no fundo da estante de um arquivo sueco. Como é terrível o destino desses clássicos bastardos do cinema, mal vistos, perdidos no túnel do tempo, esquecidos pelo mundo inteiro, incluindo os críticos e historiadores. É preciso que um fã se lembre deles. Mas um fã nada pode fazer com essa lembrança, além de deixar registrado num blog que os filmes bastardos que marcaram sua juventude são mais que lembranças de sonhos apenas sonhados – são lembranças de sonhos que realmente existiram.