DRAMAS DE PRISÃO

Fortune and Men’s Eyes (Sob o teto do demônio, 1971, 102’, cor, drama). Direção: de Harvey Hart. Produção: Lester Persky e Lewis Allen. Roteiro: John Herbert, a partir de sua peça Fortune and Men’s Eyes. Fotografia: Georges Dufaux. Trilha: Galt McDermott. Com Wendell Burton, Zooey Hall, Michael Greer, Danny Freedman.

Drama de prisão, Fortune and Men’s Eyes (Sob o teto do demônio, 1971), de Harvey Hart, é a adaptação de uma peça do autor canadense John Herbert que, em sua época, causou escândalo. O jovem Smitty (Wendell Burton) é condenado a seis meses de prisão por fumar maconha. O mundo que ele conhecia desaparece quando ele entra na “jaula”. A namorada é uma fotografia escondida no colchão, motivo de chacota na cela. Ali, a sexualidade é modelada pelos veteranos.

Novatos como Smitty são submetidos a um ritual de iniciação, após o qual se tornam as “fêmeas” dos “machos”. Logo no primeiro banho coletivo, Smitty vê um dos prisioneiros sendo sodomizado à força e sucessivamente por todos os membros de uma das gangues que ali proliferam, com a cumplicidade dos guardas. Temendo a sua vez, Smitty entrega-se à proteção do solitário líder Rocky (Zooey Hall).

Mas seu novo parceiro não demora a cobrar o preço da proteção, sodomizando o protegido e logo causando ciúmes entre os dois outros colegas de cela: o degenerado e vulgar travesti Queenie (Michael Greer) e seu frágil amante Mona (Danny Freedman), sempre humilhado por ser um “fraco” e ler poemas de Shakespeare (entre os quais aquele intitulado “When in disgrace with fortune and men’s eyes”, de onde o título da peça e do filme foi tirado).

A violência latente ao longo da trama, que por momentos sobe à tona nas cenas de estupro, explode na sequencia final durante a festa de Natal dos prisioneiros, comandada por Queenie, que, entusiasmado com a calorosa recepção dos detentos, agride com obscenidades as autoridades que prestigiam seu show grotesco. Não suportando as provocações do travesti, o “respeitável público” deixa o recinto.

É a oportunidade para os detentos extravasarem seu ódio acumulado. Smitty aproveita a rebelião coletiva para vingar-se de Rocky, mostrando que aprendeu a ser violento e pode agora, também ele, dar as cartas. Assumindo a personalidade de Rocky, que antes ele tanto temia, ele passa de violado a violentador.

Inteiramente rodado numa prisão real do Quebec, no Canadá, o filme revela, mais centrado nos diálogos que nas ações, devido à sua origem teatral, como o ambiente da prisão modela o comportamento humano, cada confinado aí se transformando no instrumento da satisfação do desejo imperioso dos outros confinados.

Todos preferem se entregar às relações homossexuais – dentro das quais eles podem reproduzir as relações de poder (dominação, humilhação, submissão, sadismo, masoquismo) vivendo uma fantasia concreta de “liberdade” – a se masturbarem (o que os obrigaria a assumir a impotência de sua condição de prisioneiros, base da real liberdade possível).

No papel do travesti, Michael Greer cria um personagem assustador, mesclado de piedade e de sadismo, de sentimentos patéticos e atitudes predatórias, oscilando o tempo todo entre a solidariedade e a perversidade, gerando no protagonista (e no espectador) uma inquietação constante, pois nunca se pode prever sua reação diante dos fatos.

O chocante realismo do filme vem de que a peça – produzida em Los Angeles, em 1969, por Sal Mineo, que nela contracenava, no papel de Rocky, com Greer (Queenie) e Don Johnson (Smitty) – reproduzia as experiências do autor numa prisão do Canadá. Como o personagem de Mona, Herbert foi condenado em 1947 após ser roubado e espancado por adolescentes delinquentes, que depois o acusaram de assédio sexual. E como Queenie, ele também se montava como drag  queen nos shows de Natal do presídio.

2 Respostas para “DRAMAS DE PRISÃO

  1. Para mim, um dos melhores filmes de prisão ainda acaba sendo O expresso da meia-noite, mas esse também é indispensável para o gênero.

  2. Marcelo, O expresso da meia-noite é muito bem filmado, mas peca por infidelidade à história real na qual se baseou. No livro, o autor conta que manteve por meses relações homossexuais com o amigo da prisão – relações que no filme ele educadamente recusa na promissora cena da sauna. O filme mais impactante no gênero permanece, para mim, The Glass House (O sistema, 1972), de Tom Gries, surpreendentemente produzido para a TV (como a ousada série Oz), mas escrito por um autor de peso: Truman Capote.

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