ENTREVISTA COM RUBEM BIÁFORA

Entrevista concedida a Heitor Capuzzo e Rubens Ewald Filho em São Paulo no dia 10 de agosto de 1986. Edição feita por Luiz Nazario e Heitor Capuzzo. Publicada em: CAPUZZO, Heitor (ed.). O cinema segundo a crítica paulista. São Paulo: Nova Stella, 1986, p. 41-48. Retomada em: MOTTA, Carlos; SPIEVAK, José Júlio (eds.). Rubem Biáfora: a coragem de ser. São Paulo: Imprensa Oficial. (Coleção Aplauso! – Críticas), 2006, p. 179-186.

Rubem Biáfora exerceu a crítica de cinema em vários jornais paulistas, incluindo Folha da Tarde e O Estado de S. Paulo. Dirigiu os longas-metragens Ravina (1958), O quarto (1968) e A casa das tentações (1975), além do curta-metragem Mario Gruber (1966). Produziu os filmes As armas, As galinhas e Fora das grades, todos de Astolfo Araújo, além de Noites de Iemanjá, de Maurice Capovilla. Participou do movimento de fundação da Cinemateca Brasileira e dirigiu teleteatros na Rede Record.

O que é cinema para você e porque você resolveu dedicar sua vida a ele?

Ih, eu ando numa fase em que tudo isso me chateia… Eu anotava tudo o que via… Mas perdi uma parte e tenho vontade de jogar fora o que sobrou.

Mudou o cinema ou mudou você?

As duas coisas… Tive uma doença muito chata e quando voltei o cinema já não era mais aquilo a que eu dava tanta importância. E hoje não tem mais cinema, não é? Será que tem? De vez em quando aparece alguma coisa que dá a impressão de que o cinema ainda está vivo. Aí eu me pergunto se o cinema vai voltar, como é que se interrompeu tudo isso… Naquele estágio tudo era feito de uma continuidade, descobertas, impressões… E agora, interrompido, não vai voltar mais daquele jeito. Como será que vai voltar? Antigamente, o cinema interessava a todos, era um tema importante de conversa, observavam, viviam, gostavam… Hoje alguém faz isso? A não ser gente interessada por outros motivos, para aparecer, para cavar algum dinheiro… Inclusive há muito tempo o cinema aqui ficou meio de picaretagem, de fazer tráfico político, conseguir posições, e ninguém se incomodou mais com cinema. Até riam de quem (de mim no caso) se interessava por cinema, como se fosse a maior bobagem… E hoje, será que vale a pena se incomodar com alguma coisa? Será que é a época que não presta?… A televisão foi sempre uma inimiga terrível do cinema… Assim como na época do cinemascope, quando muitos bons diretores, obrigados a trabalhar neste sistema, foram julgados como maus diretores… Às vezes o sujeito recebia uma encomenda ruim e a crítica caía em cima, elogiando aqueles que continuavam na maravilha, e desprezando os novos que ninguém havia ainda descoberto… Ninguém sabia reconhecer na hora um valor…

E a juventude?

Não adianta querer ensinar a juventude. É tudo uma questão de caráter, de índole. Se o caráter não é bom, como é que a gente vai querer que a pessoa entenda um filme como era aquela média de ética, de razão, de honestidade… Havia uma ética nos filmes que não sei quem foi que criou – será que foram os judeus donos dos estúdios? A coisa mais hábil do mundo foi criar todas aquelas normas que duraram tanto tempo: não se arriscavam a fazer uma pessoa cuspindo em cena, não podiam fazer um espectador sequer se sentir mal. E não era bitolamento, não. A gente vê na televisão que quando a pessoa é destrambelhada ela se excede, devido a anormalidades que causam choques… E no cinema todo mundo se mantinha no tom. Será que isso se devia à quantidade de filmes testados junto ao público? O gozado é que as pessoas falavam que era cor de rosa, água com açúcar, que queriam realismo. As pessoas mais fora do realismo, mais fora da vergonha na cara, ou da luta por qualquer decência ou fora de qualquer raciocínio, eram as que mais se arvoravam em juízes. Eu me lembro de alguns antigos militantes de esquerda que, quando surgiu Roma, cidade aberta, disseram: “O povo não quer mais esta bobagem, esse pó-de-arroz, o povo quer a verdade!”. Dizer que Roma, cidade aberta é a verdade é uma piada. O filme é uma comédia popularesca, que só tinha mesmo de decente a Anna Magnani… Eu sei como o Rossellini fez o filme: parentes próximos me disseram que ele ficou revoltado vendo um padre ser assassinado e se trancou num porão e resolveu fazer um filme. Veja só, isso lembra a história de Herzog que ficou com raiva e foi trabalhar numa fábrica para arranjar dinheiro para fazer um filme. Imagine, isso, em relação ao Brasil, é um paraíso… Sem falar nos loucos que diziam que tinham feito o maior filme do mundo… Incrivelmente caraduras e incrivelmente loucos: como sempre pessoas que tinham as costas quentes junto a poderosos, que também eram uns recalcados, que nunca puderam fazer um filme, que era o que mais queriam; nunca tiveram fôlego, nunca tiveram coragem, pois achavam que aquilo era uma coisa fora do mundo, fora do alcance deles também, e aí ficavam atiçando uns molequinhos meio terroristas, meio gângsteres, e saíam por aí dizendo “é fulaninho, você não está rico, não está milionário nem famoso como Pasolini, como Fellini, porque fulano não deixa” e lá o monstrinho saía com a lata de banha debaixo do braço e ia jogar as bombas por aí. Foi uma época bem louca.

Como você começou o seu arquivo pessoal?

Eu era muito pobre e anotava as minhas observações num papel de pão. Quando eu pegava o jornal, fui fazendo um arquivo com os filmes de lançamento, pois sempre achei, e continuo achando que, se você tem estatísticas na mão e dados, você aprende certas coisas. Muita besteira da turma do Cinema Novo, muita cretinice, muito gangsterismo que eles fizeram. Era a prova de que eram pessoas que, quando começaram a ir a cinema, nem tiveram o trabalho de acompanhar a programação do cinema do bairro. Eu tinha uma memória formidável e quando ouvia alguém dizer que tal nome era desconhecido, eu ficava numa aflição danada porque me lembrava de que já havia lido este nome em algum anúncio, que ele não era inédito no Brasil… Será que eu tinha razão? A imprensa está preocupada com a verdade, com a documentação ou em vender jornal, em promover pessoas? Assim, quando lançaram Rebecca, em 1940, todo mundo se surpreendeu com a aparição de uma tal Judith Anderson, mas eu me lembrava de tê-la visto num filme de 1933, Dinheiro de sangue, onde ela fazia o papel da mocinha, apesar de cascuda… Por isso é importante fotografar, gravar, documentar. No Brasil ninguém se interessa, ganhei muitos inimigos por querer documentar coisas. E era muito trabalho para uma pessoa. Eu tinha a ilusão de querer fazer num jornal diário uma seção como as das revistas europeias. Eu tinha que lutar para publicar uma foto ou para deixar um texto intacto, porque vinha sempre um sabichão que dizia que aquilo não estava bem escrito… O brasileiro odeia a documentação, não tem memória, é por isso que está sempre nessa. Mesmo os colegas críticos têm ódio de documentação. Ódio. Eu chegava a descer até a gráfica para corrigir uma data nas provas…

E como foi a sua experiência na direção de cinema?

Ravina eu não queria fazer, não era um projeto meu. Eu tinha um projeto na época que teria dado mais certo se fosse feito. Era um projeto de pobreza, meio choraminguento e claro que a esquerda festiva ia delirar. Era sobre o pavilhão dos pobres no Hospital das Clínicas, seis histórias curtas, entrelaçadas, sobre seis mulheres internadas que recebiam visitas: uma menina que tinha queimado a cara numa espiriteira, uma japonesa velha com câncer, uma moça do Brás com leucemia, uma garçonete espancada por um grupo de marinheiros, uma moça que tinha caído de um terraço no segundo andar quando foi limpar o lustre… Mas apesar de Ravina ser uma encomenda eu acabei dominando as bobagens dos autores do projeto, eu me preocupei com o acabamento, com um melhor nível técnico. Eu preferia que o filme fosse dirigido pelo J.B.Tanko, que era  o melhor técnico de direção do Brasil ou por Humberto Mauro, que trabalhava com esse lado caipira… Humberto Mauro havia feito O canto da saudade, que por sinal ninguém havia dado importância até então, encantados com o sucesso de O cangaceiro, do Lima Barreto… Mas eu sempre trabalhei contra os atores dos meus filmes. Mas os atores que eu escolhia sempre trabalharam contra os meus filmes: a Eliane Lage era contra Ravina, o Sergio Hingst era contra O quarto, Elizabeth Gasper era contra A casa das tentações… Nunca tive uma equipe amiga, por isto não gosto da minha experiência de direção.

Quais são para você os bons momentos do cinema?

Conforme o grau de montanha que você está subindo, uma hora acha bom, sobe mais um pouco acha ruim, desce mais um pouco acha bom de novo, sobe mais um pouco torna a achar ruim… Há várias perspectivas. Eu acho que o filme tem que vibrar, seja pelo corte, seja pelo entusiasmo, num crescendo, até o desenlace final… O filme que mais me marcou foi O morro dos ventos uivantes, de William Wyler… Um momento tão exacerbado de verdade humana, sem personagens coitadinhos, sem acasos de chuva, de bonde ou qualquer contratempo para impedir o romance, elas faziam exatamente o que queriam, eram personagens determinadas. Para quem estava acostumado ao cinema deste período, levava aquele choque. Mas atualmente o público gosta mesmo é da grossura e da cafajestada, justificadas por meio de intelectualismos. O brasileiro gosta de ver no cinema gente igual a ele, gente matando, enfiando a faca, tirando sangue. Você não encontra um filão romântico, uma ética… Bergman era considerado um rato branco, eu fui até insultado na rua por ter falado bem dele… Paulo Emílio, que já tinha rido de O morro dos ventos uivantes, chegou a escrever contra o Bergman. Que adianta falar que é isto, que é aquilo, se vão rir como sempre? Eles não entendem, as caras são duras e inexpressivas… Até hoje eu me lembro com nojo daquela cena de Xica da Silva em que a Zezé Motta prepara um assado, cuspindo e passando sabão para servir para a Elke Maravilha… Que anomalia! E isso vem de certa consciência de frustração, de miserabilidade. Não quero mais mexer com isso, não. Eu li recentemente uma coisa incrível que o Einstein escreveu, de que a energia vira matéria e a matéria vira energia. Então isso explica porque os gases se juntaram, formaram o sistema planetário e depois vai chegar o tempo em que todos os planetas vão explodir e virar gás de novo, depois virar planetas… Quer dizer, quantas vezes a Terra e os planetas já se fizeram e se desmancharam e se tornaram a fazer… E as pessoas pensam em eternidade… Não tem eternidade. Mas, e quando tudo explodir, será que vão fazer o cinema de novo?

Uma resposta para “ENTREVISTA COM RUBEM BIÁFORA

  1. Interessante a visão dele de uma época já passada.

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