Arquivo do dia: 15/12/2012

OS INTOCÁVEIS

intouchables

Intouchables (Os intocáveis, 2011), de Eric Toledano e Olivier Nakache, é o mais forte candidato que a França deve apresentar para concorrer ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Baseado em fatos reais (mas com o enfermeiro marroquino do caso verdadeiro representado por um personagem senegalês), o filme é divertido em alguns momentos e conta com atores excelentes, com destaque para a dupla central vivida por François Cluzet e Omar Sy.

Perto do final, a trama tem uma reviravolta pouco convincente, com o enfermeiro sendo despedido quando o irmão é ameaçado por traficantes. Ora, nada justifica a demissão do enfermeiro pelo patrão tetraplégico que o adora. Isso ocorre apenas para que ele retorne após o vácuo na “paixão” dos dois, e apronte mais algumas na companhia do amigo milionário. Nisso, os dois diretores “politicamente incorretos” seguem à risca, mas não de modo perfeito, os manuais americanos de roteiro para filmes de sucesso.

Mas o que faz soar meu alerta vermelho nesse filme é o subplot desagradável que perpassa a comédia “politicamente incorreta”, que pretende passar mensagens positivas sobre as limitações da vida: o choque cultural entre o imigrante que vive de salário-desemprego e o meio social burguês no qual ele é inserido ao aceitar o emprego. Esse choque é uma sublimação cor-de-rosa do choque cultural real entre o islamismo que chega “cheio de vida”, em ondas massivas, à Europa que, com sua cultura ocidental “rica e decadente”, o acolhe.

O filme toma o partido de uma nova cultura mista, que passa a dominar na Europa islamizada: a de um moralismo fundamentalista. O suposto islamita Driss adora putas, mas condena o estilo de vida da jovem filha do patrão, que namora aos dezesseis anos. Ele ainda dá em cima da secretária, de modo cansativo, sem perceber que ela o rejeita, por ser lésbica. Quando finalmente ela lhe apresenta sua namorada, ele as chama de “rapazes”.

O moralismo contagiante do personagem é combinado com um estilo de vida criminoso: órfão adotado por uma imigrante que se enche de filhos, Driss cresce inculto na degradada periferia de Paris, torna-se traficante de drogas e é preso por roubo de jóias. O consumo de drogas é propaganda no filme, numa sugestão implícita da legalização da maconha, mostrada como remédio para o alívio das dores. Pior quer tudo é a incultura militante, com a paródia da música clássica, a ridicularização da ópera, a depreciação das artes plásticas, a ojeriza pela poesia.

A exaltação hilariante da degradação da cultura europeia pela sua contaminação com os “valores” do islamismo, celebrados pelas esquerdas sem rumo após o fim do comunismo, explica o grande sucesso do filme. É nesse contexto que a paródia do bigode de Hitler encontra sua razão de ser: o filme sugere que, graças à incorporação do “humanismo violento” do Islã, já se pode brincar com a figura de Hitler, rir com a figura de Hitler, admirar secretamente a figura de Hitler…

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RENÉ CLÉMENT

Gervaise (1956), de René Clément.

Gervaise (1956), de René Clément.

Gervaise (1956), de René Clément.

Diretor da velha escola do cinema francês, René Clément (1913-1996) era um perfeccionista, e sua adaptação de L’Asssommoir  (1877), de Émile Zola, é um bom exemplo da sua incansável busca pela perfeição. Em Gervaise (1956), que conta com um roteiro de Jean Aurenche e Pierre Bost, desenho de produção de Paul Bertrand e fotografia de Robert Juillard, o universo decadente e atroz do pai do Naturalismo é recriado com a riqueza de detalhes característica das carpintarias dos grandes mestres do cinema.

Zola já fora bastante adaptado pelo cinema, desde o épico Germinal (1913), de Albert Capellani, passando por La Terre (1921), de André Antoine; L’Argent (1928), de Marcel L’Herbier; Nana (1926) e La Bête humaine (1938), de Jean Renoir; Thérèse Raquin (1953), de Marcel Carné; Human Desire (1954), de Fritz Lang. Mas em Gervaise, o naturalismo do ciclo Rougon-Macquart é traduzido com minuciosa fidelidade. Esse estilo que primava pelo perfeito domínio da técnica e da linguagem cinematográficas foi atacado pelos críticos raivosos dos Cahiers du Cinéma como “acadêmico”, “cinema de papai” e, por fim, descartado nos filmes da Nouvelle Vague.

A bela e manca lavadeira Gervaise (Maria Schell), amante apaixonada do canalha Lantier (Armand Mestral), depois de ser traída e abandonada, ataca a irmã de sua rival, a crapulosa Virginie Poisson (Suzy Delair), rasgando a roupa íntima dela durante a briga e batendo com uma pá nas suas nádegas expostas (em despudorado close no filme). Depois, sem marido e com dois filhos para criar, Gervaise arruma outro amante, o telhadeiro Coupeau (Francois Périer), e abre, com a ajuda de um amigo da família, o ferreiro politizado Goujet (Jacques Harden), secretamente apaixonado por ela, uma pequena loja de lavagem de roupa.

Nessa lavanderia, também a roupa suja da família é lavada em público, depois que Coupeau, ao cair do telhado e ficar também ele manco, faz disso uma desculpa para não trabalhar mais, entregando-se à bebida e criando situações constrangedoras que infernizam a esposa, cujas economias ele rouba e gasta à noite nos bares. A situação chega ao absurdo quando ele se encanta com Lantier, levando-o para morar com a família, lançando Gervaise numa cilada sexual. Ela passa ser explorada por dois canalhas ao mesmo tempo, sem conseguir se desvencilhar deles para se dedicar a Goujet, que a ama de verdade, e acaba por deixar Paris.

Gervaise não chegou a esse beco sem saída por acaso. Tudo foi planejado pela maldosa Virginie Poisson, que depois de tramar a ruína financeira da inimiga, tratada como “amiga” durante o plano, adquire o imóvel da pobre lavadeira, após a destruição de sua loja, num ataque de delirium tremens de Coupeau (quando seus pés nus são enfocados, tremelicando, em outro close “obsceno”despertando a curiosidade sexual da pequena Nana). A ruína financeira de Gervaise, que sem teto nem trabalho decai se entregando, por sua vez, à bebida, lança a não mais inocente Nana na senda da prostituição infantil.

O filme descreve o estilo de vida grosseiro e violento da classe operária francesa do fim do século XIX. Nas fantásticas reconstituições plásticas da Paris do Segundo Império, o Louvre aparece enlameado e as ruas e becos da cidade ainda mantêm seu aspecto medieval. Na brilhante sequência de festa, um ganso assado transforma-se em objeto de culto, entre risos de gozo e piadas pornográficas. Atravessando os ambientes sujos, superando os comportamentos repulsivos, o caráter da otimista Gervaise permanece puro, até cair na armadilha que Virginie Poisson monta para ela. Incapaz de se libertar, explorada e corrompida pelos dois amantes canalhas, ela perde, enfim, a vontade de lutar e de viver.

Filmografia parcial

La Bataille du rail (1946).

Le Père tranquille (1946).

Les Maudits (1947).

Au-delà des grilles (1948).

Les Jeux interdits (1952).

Monsieur Ripois (1954).

Gervaise (1956).

Barrage contre le Pacifique (1958).

Plein soleil (1960).

Le Jour et l’heure (1963).

Les Félins (1964).

Is Paris Burning? (1966).

Le Passager de la pluie (1969).

La Maison sous les arbres (1971).

La Course du lièvre à travers les champs (1972).

La Baby-Sitter (1975),