AMOS GUTTMAN

Amazing Grace.

Nascido na Transilvânia, na Romênia, em 1954, Amos Guttman imigrou para Israel aos sete anos de idade, vivendo desde então em Ramat-Gan. Depois de dirigir o curta-metragem Premierot Hozrot / Returning Premiers (Israel, 1976, CM), Guttman chamou a atenção dos críticos com Makom Batuach /A Safe Place (Um lugar seguro, Israel, 1977, 29’, p&b), onde um estudante de faculdade reavalia sua vida após uma experiência de sexo casual num cinema; e com Nagu’a / Drifting (Contaminado, 1979, CM), proibido à época para exibição na TV local.

Desde esses primeiros filmes Guttman afirmava-se como um “cineasta gay” – o primeiro de Israel – ao descortinar a cena homossexual do país, que havia permanecido até então na sombra, sem ter qualquer representação decente nas telas. Personagens homossexuais haviam aparecido em comédias burlescas e como personagens secundários, geralmente sob uma visão estereotipada. No cinema de Guttman, o homossexual judeu torna-se o protagonista.

Guttman fez em seguida Nagu’a (Sem rumo, Israel, 1982, 80’, p&b), seu primeiro longa-metragem, ao qual ele resolveu dar o mesmo título de Nagu’a (“contaminado”, “enfermo” ou “infectado” em hebraico), de seu último curta-metragem, aquele que havia sido banido na TV. O filme trata de um jovem gay israelense que trabalha na loja da avó e sonha tornar-se cineasta.

51 Bar (Bar 51, Israel, 1985, cor), indicado ao Hugo de Ouro no Festival de Chicago, é sobre um irmão e uma irmã que se mudam para Tel Aviv e se relacionam com diversos personagens da cena noturna e boêmia da cidade. O filme conta com a participação de Juliano Mer-Khamis, o ator judeu-árabe que, optando por viver em Jenin, foi ali assassinado em 2011 por palestinos fanáticos, e de Ada Valeria Tal, que apenas postumamente foi reconhecida como uma das primeiras transexuais de Israel.

Guttman realizou, em seguida, o já clássico Himmo Melech Yerushalaim / Himmo, King of Jerusalem (Himmo, Rei de Jerusalém, Israel, 1988, 86’, cor). Ambientado numa enfermaria improvisada durante a Guerra da Independência de Israel, em 1948, o filme mostra que os soldados nem sempre são solidários. Baseado num romance de Yoram Kaniuk, a heroína é a bela enfermeira Hamuttal (Alona Kimhi), única pessoa ali a demonstrar compaixão por Himmo.

Vítima do escárnio dos companheiros, Himmo era antes da guerra “o Rei de Jerusalém”, pelo sucesso que fazia junto às mulheres. Mas esse jovem belo e sedutor estava agora cego e mutilado. Seu corpo inteiro está envolto em bandagens, devido às múltiplas amputações decorrentes dos ferimentos de guerra. Ele não consegue mexer-se, nem mesmo falar, e ainda poderá morrer a qualquer momento. Os ambíguos sentimentos da enfermeira Hamuttal por seu paciente monstruoso são tratados com grande delicadeza. Nas entrelinhas, o filme transmite o trauma e a dor dos pioneiros que lutaram para construir Israel.

No Festival de Berlim de 1993, vi, numa das sessões dos filmes concorrentes ao The Golden Bear, no Cine Astor, Hessed Mufla / Amazing Grace (Israel, 1992, 95’, cor), premiado com o Hugo de Ouro no Festival de Chicago. É um filme belo e triste, ainda que por vezes incompreensível. Aborda com sutileza o tema da AIDS, contando a história de duas famílias com filhos gays. Apoiado pela família, Jonathan é um jovem inexperiente que inveja os casos do amigo Miki, tentando, a seu modo, tornar-se adulto. Sente-se atraído pelo vizinho Thomas, que voltou de Nova York doente e dependente de drogas, após fracassar como músico. A mãe de Thomas passa a vida trabalhando e a avó encara a velhice com amargura.

Pontuado pelo blues “All Night Long Blues”, Hessed Mufla / Amazing Grace mostra o bloqueio da comunicação em todas as relações pessoais: Thomas não é capaz de confessar a Jonathan que contraiu a doença fatal; a mãe não consegue perceber o drama do filho; a avó reluta em entender-se com a nora. Mas essa avó – e as avós são personagens recorrentes na obra autobiográfica de Guttman – resume a frustração desses relacionamentos falhados numa frase: “Eu queria poder conversar com meu neto, contar sobre o seu pai, os sonhos que ele teve, e como ele morreu.”. A velha senhora carrega uma dimensão da essência da vida que os demais perderam. Mas sua autenticidade também a torna insuportável para os outros.

Antes de concluir o filme, o cineasta foi hospitalizado. Rodou as cenas finais dentro do hospital, aonde veio a falecer, vítima da AIDS, aos 38 anos de idade. Nas sessões dos independentes, nos festivais de então, muitos títulos eram exibidos postumamente, porque seus diretores morriam, um a um, da misteriosa e implacável doença que ainda hoje mata anualmente mais de 3 milhões de pessoas. Há 42 milhões de HIV-soropositivos no mundo, a metade ignorando serem portadoras do vírus, que matou 25 milhões de pessoas desde sua descoberta, números que se aproximam aos das vítimas da Segunda Guerra Mundial.

Com sua breve e marcante carreira lembrada no documentário Amos Gutman (1997), de Ran Kozer, Guttman é hoje reconhecido como o “pai fundador” do cinema gay israelense. Este cinema conhece na atualidade um verdadeiro boom internacional. O excelente documentário Trembling Before G-d (2001), de Sandi Simcha Dubowski; e os filmes provocadores de Eytan Fox, como Yossi & Jagger (2002), Walk on Water (2004) e The Bubble (A bolha, 2009) são bons exemplos.

Há que se reconhecer o vigor da Nouvelle Vague Gay de Israel, na qual se incluem Say Amen (2005), de David Deri; The Secrets (2007), de Avi Nesher; Antarctica (2009), de Yair Hochner; Eyes Wide Open (2009), de Haim Tabakman;  Joe + Belle (2009), de Veronica Kedar; Lipstikka (2009), de Jonathan Sagall; Melting Away (2009), de Doron Eran; Things Behind the Sun (2009), de Yuval Shafferman; Tied Hands (2009), de Dan Wolman. Chegando após Guttman, pioneiro que precisou de maior coragem para dar visibilidade à minoria dentro da minoria, os novos cineastas encontraram o terreno preparado e sólido para edificar.

Fontes

ADMIN. Israeli men are coming out of the closet and onto the screen. The Prophecy Blog, 2 mar. 2012. Disponível em: http://www.theprophecyblog.com/?p=16990. Ativo em 26/12/2012.

COHEN, Nir. Soldiers, Rebels and Drifters: Gay Representation in Israeli Cinema. Wayne State University Press, 2012.

GROSS, Nathan; GROSS, Yacov. The Hebrew Film: Chapters in the History of Motion Pictures and Cinema in Israel. Published by the authors, 1991.

KRONISH, Amy; SAFIRMAN, Costel. Israeli Film: A Reference Guide. Westport / London: Preager Publishers, 2003.

NE’EMAN, Yehuda; SCHWARTZ, Ronit (ed). An Introduction to Israeli Cinema. Film and Television Department, Tel-Aviv University, 1988.

Sobre os números atualizados da AIDS

GREATER THAN ONE. Disponível em: http://greaterthanone.org/about/hivaids-facts.html. Ativo em 26/12/2012.

YALE AIDS WATCH. Disponível em: http://www.yale.edu/yaw/world.html. Ativo em 26/12/2012.

2 Respostas para “AMOS GUTTMAN

  1. Onde se consegue os filmes dele? Obrigado!

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