POT-POURRI 2012

Love (1927)

Tagline: “Garbo and Gilbert in Love.”

Love.

Love (1927), de Edmund Goulding: versão silenciosa de Anna Karenina, de Tolstoi, com Greta Garbo no papel que ela voltará a desempenhar no clássico Anna Karenina (1935), de Clarence Brown. Casada com um nobre russo, bem mais velho que ela, Anna apaixona-se por um oficial impulsivo, com fama de conquistador de mulheres, e acaba sacrificando o amor que sente pelo filho para ficar ao lado do amante. O marido vinga-se impedindo-a de ver o filho, a quem dizem que a mãe está morta. E a felicidade que Anna experimenta com o oficial logo é bloqueada pelas saudades que sente pelo filho. Ela vai visitá-lo, leva presentes, prepara um banho para o garoto, mas o marido a impede de continuar a interpretar aquele papel de mãe zelosa. Ela parte arrasada desse lar que já não lhe pertence. Cada vez mais dividida entre o amor pelo oficial o amor pelo filho, Anna pode acabar mal, mas nessa versão a tragédia não se consuma: o filme tem um final feliz.

As you desire me (1932)

As you desire.

As you desire me (1932). Direção: George Fitzmaurice. Com Greta Garbo, Melvyn Douglas, Erich von Stroheim, Hedda Hooper. Baseado na peça Come tu mi vuoi (1929), de Pirandello. A cantora Zara (Garbo) perdeu a memória e se embriaga em Budapeste, cortejada por três homens ao mesmo tempo (um militar, um nobre, um jovenzinho) enquanto seu amante, o famoso escritor Carl Salter (Stroheim) a espera ansioso para poder ir dormir. Quando todos se vão, ainda chega um estranho, em hora avançada da noite, naquela casa agitada. É um pintor, que revela que Zara é na verdade Maria, a esposa do Conde Bruno Varelli (Douglas), que há dez anos a procura. Zara de nada se lembra. Mas decide abandonar a vida dissoluta que leva, e parte à procura de sua alma. Os empregados da casa lembram que Maria tinha olhos cinzentos, não azuis como os de Zara. O marido apaixonado reconhece em Maria a imagem viva da pintura da amada que ele mantém na sala. Mas o ciumento Salter retorna com uma novidade: encontrou a verdadeira esposa do Conde. Ela entra em cena com um véu negro a cobrir-lhe o rosto, tal como a esposa do Sr. Ponza em Assim é (se lhe parece) – peça que Pirandello adaptou de seu conto “A senhora Frola e o senhor Ponza, seu genro”, obra-prima de humor e ambiguidade. A suposta verdadeira esposa desaparecida do Conde teria vivido dez anos num hospício. Como tantas mulheres na Primeira Guerra, ela fora brutalizada, perdendo a memória e permanecendo mentalmente perturbada. (O tema era caro a Pirandello, pois sua esposa passou décadas num hospício.) Salter descobriu, também, que as propriedades do Conde pertenciam na verdade à esposa: se ele não a encontrasse, perderia tudo. Ou seja, o Conde poderia estar dissimulando ter reconhecido Zara como Maria. E esta, apaixonada por ele, agora questiona até que ponto é amada ou usada de modo cafajeste pelo amado com fins de obtenção de herança. A esposa, porém, se lembra dos empregados, da irmã que aparece, e que Zara não reconheceu. A prova de que não é Maria é que não poderia ter hoje a aparência exata do retrato de dez anos atrás. Quem sofreu o que Maria sofreu não se pareceria com Zara, mas com a louca que veio do hospício. Porém, Zara também percebe que a suposta verdadeira esposa, que o marido recusa reconhecer como sua antiga amada, poderia ser apenas uma amiga de Maria que teria sofrido a mesma triste sorte. Em meio à revolução das aparências, o Conde confessa seu amor a Zara, e a Zara somente. Ele poderia perder tudo, nada mais lhe importava! E Zara, sem saber se é ou não sua esposa, deixa-se, então, conquistar: afinal, a verdade não é o mais importante, mas o que amamos, acima de todas as provas, acima de todas as verdades. Que filme!

Nightmare Alley (1947)

TaglineSerá que a cartomante vai acertar em sua previsão macabra?

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Nightmare Alley (O beco das almas perdidas, 1947), de Edmund Goulding: fantástico noir passado no mundo do circo, com uma trama circular que se fecha com precisão espantosa. Stanton Carlisle (Tyrone Power, em grande forma) é o ambicioso auxiliar da prestidigitadora Zeena (Joan Blondell). Observando o espetáculo do Homem Selvagem, que devora galinhas vivas, ele não entende como alguém pode cair tão baixo. Sua amiga também decaíra. Mas não por sua culpa. Ela havia brilhado nos teatros fazendo números com o uso de um código, com seu velho parceiro e marido. E foi este que, ao tornar-se alcoólatra, arrastou-a de volta ao circo. O jovem propõe então decorar o código e substituir o beberrão. Quer levar a amiga de volta ao estrelato. Na verdade, quer usá-la para chegar ao topo. Mas seus planos dão errado. Visto de namorico com a jovem Molly (Coleen Gray), que fazia o número da Mulher Eletrocutada, e que o amava às escondidas, ele se vê obrigado pelo parceiro gigante da garota a casar-se com ela. Mas, agora de posse do código, ele decide levar adiante seus planos, com a esposa substituindo Zeena. O jovem casal alcança rapidamente a fama. Ele é muito bom n o que faz. Mas, durante uma apresentação, uma psicóloga inteligentíssima (Helen Walker) percebe o truque do prestidigitador, e o desafia. Depois do espetáculo, o vidente a procura e juntos acabam empreendendo uma enorme fraude. Carlisle agora se apresenta como paranormal, capaz de contatar os espíritos dos mortos queridos dos clientes da psicóloga charlatã. É que, em seu consultório, onde usa um terno masculino, ela grava as confissões dos milionários, passando ao cúmplice as informações mais sigilosas. O pretenso vidente chega ao ponto de receber grandes doações para fundar um tabernáculo. Mas, nesse ponto, tudo degringola. A farsa é descoberta. Por fim, trapaceado pela perversa parceira, que ameaça interná-lo num hospício, o talentoso Carlisle cai em desgraça, sem ter em quem se apoiar. Ele se entrega por sua vez à bebida e acaba, arruinado, retornando ao circo, no papel da mais baixa das aberrações: o Homem Selvagem.

Obsession (1949)

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Obsession (Inglaterra, 1949, policial, p&b). Direção: Edward Dmytryck. Sinistro brit noir sobre um médico, Dr. Clive Riordan (Robert Newton), que se vinga da esposa adúltera prendendo o amante dela, o jovem americano Bill Kronin, no porão de um prédio abandonado. Atado a correntes, sem possibilidade de escapar ou ter os gritos ouvidos, alimentado toda noite pelo médico, como um cão acorrentado, o prisioneiro deve aguardar, semana após semana, o fim que o doutor lhe prepara. No laboratório de seu consultório particular, Dr. Riordan fabrica, todos os dias, um pouco de ácido, que leva em sua valise para o cativeiro, e com o qual vai enchendo uma banheira. Ali ele pretende mergulhar e dissolver as partes do corpo de sua vítima, que ele esquartejará assim que a banheira estiver cheia. Acionada pela esposa, que perdeu seu cãozinho, a Scotland Yard segue a única pista de que dispõe: o pelo do totó no terno do médico. Ele o levara ao cativeiro para distrair seu cão humano. O perfeccionista cometeu assim um erro fatal. Baseado no best-seller policial A man about a dog, de Alec Coppel, o filme pode ter inspirado o autor do romance no qual Pedro Almodóvar baseou-se para realizar La piel en que habito.

The Glass Mountain (1949)

The Glass Mountain.

The Glass Mountain (Inglaterra / Itália, 1949, 99’, p&b, drama). Direção: Henry Cass. Com Michael Denison, Dulce Gray, Valentina Cortesa. Trilha: Nino Rota. O compositor erudito Richard Wilder (Michael Denison) encanta-se, passeando com a esposa Anne (Dulce Gray), com uma bela casa à beira do rio. Sem dinheiro para comprá-la, ele decide procurar um letrista famoso e com ele compor um hit. A canção entra nas paradas. O músico  consegue adquirir o imóvel. Mas a guerra estoura. Ele é mobilizado como piloto. Ao sobrevoar as Dolomitas italianas, seu avião é atingido. Ele é salvo, porém, pela jovem Alida (Valentina Cortesa), uma garota dos Alpes. Ela conta ao compositor a história trágica dos amantes do Monte Cristallo. OP tema o inspira a escrever uma ópera. Apaixonado pela garota, ele se afasta da esposa, sem pensar, contudo, em divórcio. A ópera é encenada pelo amigo tenor Tito Gobbi (Tito Gobbi) e por Elena Rizzieri (Elena Rizzieri), no teatro La Fenice, em Veneza. O compositor convida a esposa e se inquieta ao ver sua poltrona vazia. É que ao sobrevoar as Dolomitas ela pede ao piloto, um velho amigo, que se desvie da rota para que ela possa ver o Monte Cristallo. O avião sofre uma pane bem no clímax da ópera. As sequências da ópera e do acidente alternam-se de forma dramática. O músico é, enfim, informado do ocorrido no momento em que a plateia o ovaciona. Ele se despede de Alida para sempre. Parte para as Dolomitas decidido a salvar seu casamento, caso Anne ainda viva. As músicas do filme foram compostas por Nino Rotta e as sequências finais, com os atos da ópera alternados com os lances do acidente são muito boas. Infelizmente o ator Michael Denison, querido do público inglês, é feioso e sem nenhum carisma. A atriz que interpreta sua esposa, Dulce Gray, era casada com ele na vida real, e os dois estrelaram diversos filmes juntos.

It’s a Small Word (1950)

TaglineThe amazing story of a man forced to live in a child’s world.

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It’s a Small Word (1950), de William Castle: Harry Musk (Paul Dale) é um homem em um milhão. Perfeitamente saudável e bem proporcionado, ele nunca crescerá, permanecendo com a altura de uma criança de seis anos. O pai o retira da escola, onde ele sofre com as perseguições dos colegas. Ao se tornar adulto, não suportando a rejeição da irmã, que o acusa de não deixá-la ter uma vida normal – suas amigas e seus namorados nunca passam da soleira da porta, pois todos estranham o anão, ele decide, apesar de amado pelo pai, abandonar o lar e viver por conta própria. Assina um contrato com um empresário de circo, mas logo se sente humilhado pelas piadas dele e foge do emprego. Enfrenta a falta de dinheiro e passa fome, mas é ajudado por um engraxate que lhe ensina a profissão. Como todos querem engraxar os sapatos com o pequenino, ele agora tem algum dinheiro sobrando. E começa a esbanjá-lo com uma vizinha interesseira. Ela avalia seu potencial e o apresenta a uma Madame, que o ensina a bater carteiras. Vítima de sua paixão pela vizinha grandalhona, Harry torna-se um membro da gangue. Mas uma noite ele surpreende aquela que ele já vê como sua futura esposa tecendo com o namorado comentários que o ofendem. E decide denunciar toda a gangue. Preso, ele ganha, ao contrário dos outros, uma segunda chance. Deve agora trabalhar num circo. Teme, no começo, sofrer novas humilhações, mas o dono deste circo é um homem doce, respeitoso e tranquilo. Ele apresenta Harry a uma anãzinha sedutora, que se sente imediatamente atraída por ele. Ela  mostra ao novo companheiro a beleza do mundo do circo e o convence de que ali é o lugar dele, bem ao lado seu. Harry demonstra sua felicidade cantando maravilhosamente “It’s a Small Word”Surpresa com a afinação de Harry, a pequena é definitivamente conquistada.

Il sapore del grano (O sabor do grão, 1986)

Il sapore del grano (O sabor do grão, 1986)

Il sapore del grano (O sabor do grão, 1986), de Gianni Da Campo, é um filme bem estranho. O jovem professor Lorenzo (Lorenzo Lena), recém-formado, vai ensinar numa aldeia. Logo é advertido pelo diretor da escola de que o livro que indicou em classe não é recomendado pela Igreja. Além disso, ele não deve frequentar a casa dos alunos, e se o fizer será por sua conta e risco. Logo um aluno, com seus treze anos, apaixona-se pelo professor. Lorenzo visita-o constantemente em sua casa e é bem recebido pelos pais e avós do adolescente. Apenas a madrasta torna-se suspeitosa quando Lorenzo presenteia o jovem com uma enciclopédia. Embora o aluno sinta forte atração por Lorenzo, a amizade nunca descamba para o sexo. Lorenzo tem, de resto, uma amante, bastante cínica, pois noiva de outro homem e prestes a desposá-lo. As cenas de sexo não deixam dúvidas quanto à sexualidade de Lorenzo, que avança ainda num breve romance com a irmã do aluno. O romance só não se consuma porque a jovem o rejeita. Seus relacionamentos heterossexuais fracassados são a explicação canhestra de seu relacionamento com o garoto. Mas esse relacionamento não produz, como se poderia imaginar, nenhuma desgraça. O romance platônico entre professor e aluno é tolerado e até incentivado pela família do garoto, especialmente pelo pai, e só é interrompido pelo professor quando ele começa a sentir desejo pelo corpo do adolescente. Antes que seu amor vá longe demais, Lorenzo deixa a cidade ao término do semestre. A produção da RAI contou com a colaboração da aldeia, cujos habitantes são os atores do filme. Da Campo parece evocar, no ambiente e nas circunstâncias de seu filme, o Pasolini professor de adolescentes na aldeia de Casarsa. Mas ele mascara o personagem como um heterossexual assumido, o que torna errática a sua psicologia e misterioso o seu comportamento.

Head on (2000)

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Head on (2000), de Ana Kokkinos: um jovem australiano de pais gregos, que se droga para fugir da vida sufocante em família e em sua comunidade, impregnados de um machismo que também o contamina, passa a ter relacionamentos homossexuais catastróficos, sem conseguir encontrar um sentido para sua existência. O personagem, como a diretora, não entende que o sentido da vida não cai do céu, mas precisa ser construído. Intragável desde o primeiro cigarro de maconha fumado pelo protagonista (e são dezenas, além da cocaína cheirada e da heroína injetada), o filme faz questão de desperdiçar o carisma do jovem ator Alex Dimitriades, aproximando-se de uma longa propaganda de entorpecentes.

Venus (2006)

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Venus (Vênus, 2006), de Roger Michell: filme vagabundo com astros veteranos (Peter O’Toole, Vanessa Readgrave, Leslie Phillips), que deveriam evitar esse tipo de exposição, que nada acrescenta às suas carreiras. O diretor de Nothing Hill devia também se poupar, e nos poupar, dessa bobagem. Parece que todo o filme existe apenas para a última cena, a única que transcende a banalidade: o torso nu de Jodie Whittaker no tableaux-vivant de Vênus fundindo-se na imagem do quadro da Vênus com espelho, de Diego Velázquez, ao som de “Put your records on”, de Corinne Bailey Rae.

[amanhã continuo]

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