FRANK BORZAGE (1894-1962)

Frank Borzage (pronuncia-se Borzeigi) nasceu em 1894, em Salt Lake City, em Utah, filho de pais católicos ítalo-austríacos e suíços. Sua mãe Maria teve quatorze filhos, seis deles morrendo de gripe ainda crianças. A família era pobre, mas muito unida.

Borzage começou a trabalhar cedo, em construção, com seu pai. Com quatorze anos, trabalhava numa mina para juntar dinheiro e fazer um curso de ator. Logo se engajou na companhia de teatro ambulante Gilmour Brown, atuando em diversas montagens itinerantes.

Após três anos de estrada, chegou a Hollywood e, com apenas dezoito anos, conseguiu, graças à sua boa aparência (algo entre Charles Farrell e Spencer Tracy, seus dois galãs prediletos), um primeiro trabalho como extra num faroeste de Allan Dwan estrelado por Wallace Reid.

A bela figura de Borzage, de par com sua personalidade ambiciosa, chamou a atenção do pioneiro produtor e diretor Thomas Ince, que o empregou em diversos papéis até que, em The Wrath of the Gods (1914), ele obteve o papel principal, ao lado da atriz japonesa Tsuru Aoki.

Bozage estreou na direção com The Pitch O’ Chance (1916) e continuou atuando em seus primeiros filmes. Sempre ligado à família, passou a ajudar seus pais e a empregar seus irmãos como figurantes. Fez dezenas de faroestes, melodramas e suspenses até definir seu estilo pessoal e o gênero no qual se saía melhor.

Foi a partir de Humoresque (1920) que Borzage especializou-se em filmes românticos intensamente sentimentais. A trama acompanhava a ascensão de um jovem violinista judeu ao topo da carreira, do gueto ao bairro mais elegante de Nova York, e o drama que se seguia, quando ele retornava ferido da Primeira Guerra, esforçando-se, então, para conseguir voltar a tocar piano.

7th Heaven (O sétimo céu, 1927)

Em 7th Heaven (O sétimo céu, 1927), Chico (Charles Farrell), um limpador de esgoto parisiense cujo sonho é ser lavador de rua, salva das garras da irmã bêbada, que a estrangula na sarjeta, a pobre e infeliz Denise (Janet Gaynor). Depois, o limpador discursa contra Deus, que ele testou duas vezes: apesar das gorjetas que lhe deu, nunca recebera o que pedira: uma chance de trabalhar ao sol e uma esposa de cabelos dourados.

Mas um padre o escutava e, percebendo que aquele ateu tinha uma alma boa, concede-lhe o sonhado emprego de lavador de rua. Logo Chico salva pela segunda vez da morte a coitada da Denise, que agora tenta se matar, por não ter mais esperanças. Ele a despreza ao mesmo tempo em que não consegue afastar-se dela. Não quer, por alguma misteriosa razão, deixar aquela perdida entregue à própria sorte.

Mais tarde, quando a irmã viciada é detida como prostituta, e pede aos policiais que prendam também Denise, que não vale nada como ela, Chico novamente se interpõe dizendo, num impulso, que a garota é sua esposa. O guarda anota seu endereço, e promete uma investigação para certificar-se de que ele não estava mentindo. Desesperado, Chico agora teme ser preso e perder o novo emprego.

Denise sugere morar com ele, sem compromisso, até que a polícia faça a prometida averiguação. Chico a leva para seu apartamento, prevenindo-a para que ela não abuse dele, bom moço que não tem o menor interesse por ela. Não pense ela que será sua esposa de verdade. Ele tem orgulho de sua bravura e de morar no sétimo andar de uma espelunca.

E logo essa mansarda se tornará o sétimo céu para os dois amantes que, na verdade, nunca se amarão. Chico até decide casar-se com Denise e compra-lhe um vestido de noiva. Mas não consegue dizer a ela “eu te amo”, e quando se vê forçado a isso como condição de casamento imposta pela noiva, ele se declara incapaz de proferir tal tolice, só podendo dizer isso a seu modo: “Chico… Denise… Paraíso!”. Contudo, ao ver Denise em seu vestido de noiva, linda como nunca, Chico percebe, enfim, o que realmente sente por ela.

Neste momento, porém, a vida impede a felicidade do casal. A Primeira Guerra explode e o jovem é mobilizado. Chorando, ele se arrepende de sua indiferença anterior e diz pela primeira vez a Denise: “eu te amo!”. Ele a abraça com um desejo intenso. E esse abraço de despedida, com Chico beijando Denise erguida do chão pelos seus braços fortes, funciona como um ato sexual, ao cabo da qual Denise quase desmaia em êxtase.

Mas a garota fica novamente sozinha. Espera pelo amado, mantendo-se fiel, trabalhando como operária. Mas seu amado retornará? Este clássico absoluto do cinema ganhou três merecidos Oscars – de Melhor Roteiro, de Melhor Diretor e de Melhor Atriz (Janet Gaynor). É um daqueles filmes que estão no sétimo céu de todo cinéfilo que se preze. Um filme que vi chorando do começo ao fim, quase não suportando tanta beleza e perfeição.

Em Liliom (1930), baseado na peça de Ferenc Molnár filmada também por Fritz Lang, um trabalhador desempregado, à beira da miséria, com a esposa prestes a ter um filho, aceita participar de um assalto com dois comparsas. O golpe não dá certo e ele prefere se matar a ser preso. Sua alma fica no Purgatório por dez anos e, após esse tempo, ele tem a oportunidade de visitar a Terra por um dia a fim de corrigir os erros de sua vida.

A Farewell to Arms (Adeus às armas, 1932)

A Farewell to Arms

A Farewell to Arms (Adeus às armas, 1932), a partir da novela de Ernest Hemingway, é um drama de guerra intensamente romântico. Na Itália, durante a Primeira Guerra Mundial, o motorista de ambulância Tenente Frederic Henry (Gary Cooper) vive uma noite de orgia pedólatra em companhia do amigo Major Rinaldi (Adolphe Menjou), que termina em bombardeio.

O Tenente Frederic acorda, ainda bêbado, tentando calçar o sapato da prostituta que ficou em suas mãos no pé de uma enfermeira desmaiada, Catherine Barkley (Helen Hayes). Logo a jovem se afasta daquele “louco”, comentando o caso com a amiga Helen Ferguson (Mary Philips).

Mas o Major Rinaldi insiste em apresentar seu amigo, a quem chama carinhosamente de “Baby”, à garota por quem está apaixonado: e é justamente aquela enfermeira. Os dois predestinados se apaixonam, e o Major, que adora o amigo que o traiu, desenvolve um ciúme doentio, que o leva, mais tarde, a censurar a correspondência entre os dois amantes. Este pequeno ato de maldade  provocará uma catástrofe de dimensões inauditas.

O filme tem espetaculares cenas de batalha realizadas em estúdio, com cenários deformados e iluminação contrastada em estilo expressionista. O som também é usado com grande sofisticação, como na cena da despedida dos amantes, com os apitos do trem se confundindo com os soluços de Cartherine. O final, dolorosamente trágico, apela à paz numa revisão antológica da Pietà.

Desire (Desejo, 1936)

Desire (Desejo, 1936) mescla comédia, drama e suspense numa trama simples, que gira em torno do roubo de um colar de pérolas no valor de 2,2 milhões de dólares pela vigarista internacional Madeline (Marlene Dietrich).

O plano de Madeline é muito bem elaborado, mas em sua fuga para a Espanha ela comete na alfândega um faux-pas, ao fazer deslizar a jóia roubada para o bolso do paletó de um engenheiro americano em férias (Gary Cooper).

Agora ela precisa vigiar sua “mula” inconciente, o americano que imagina o interesse da bela vigarista por sua pessoa como um romance. Mas a ladra o trata com desprezo, interessada apenas no paletó que ele guardou na mala.

Na Espanha, Madeline assume o papel de “Condessa”, e é pressionada pelo seu comparsa “Sua Alteza”. Mais tarde sua “tia” Olga também se apresenta como outra peça do esquema criminoso.

A gangue zela pelo retorno da jóia às suas mãos e, depois, pela vendad dela antes que seja localizada pela polícia. Mas neste meio tempo Madeline apaixonou-se pelo americano, e este não está disposto a perdê-la. Mas resistirá seu amor à revelação de que a amada não pertence à aristocracia, não passando, na verdade, de uma criminosa?

No final, durante o pequeno jantar a quatro, quando o suspense atinge o ponto máximo, com a tensão do ambiente podendo ser cortada a faca, o cinismo de Madeline servindo sauce holandaise para o fricassé de frango atinge o cúmulo da comicidade.

The Shining Hour (A mulher proibida, 1938)

Fay Bainter, Robert Young, Margaret Sullavan, Melvyn Douglas, Joan Crawford

Em The Shining Hour (A mulher proibida, 1938), baseado na peça de Keith Winter, Olivia (Joan Crawford), uma dançarina de boate de Nova York, cansada de sua vida mundana e de seus amigos invejosos, casa-se com o milionário fazendeiro Henry Linden (Melvyn Douglas), mesmo sem o amar como ele a ama. Os dois vão viver na mansão dos Linden, em Wisconsin, enquanto sua casa separada, na mesma fazenda, começa a ser construída.

Olivia fica logo amiga de Judy (Margaret Sullavan), esposa do cunhado David (Robert Young), secretamente apaixonado por ela desde que a viu dançando na boate, quando foi alertá-la contra casar-se com um Linden, devido ao orgulho daquela família tradicional e puritana. Hannah (Fay Bainter), a outra irmã da família, detesta a intrusa e quer que ela desapareça, chegando a incendiar a casa nova em construção.

Apaixonada desde quando era criança pelo homem com quem se casou, Judy percebe que ele agora está caído por Olivia. No auge do desespero, desiste dele, para que o marido possa ser feliz com Olivia, que nesse meio tempo se apaixonou por ele. Os dois casais se assemelham, assimetricamente. Mas o incêndio da casa muda tudo.

Judy tenta o suicídio lançando-se nas chamas, mas Olivia salva a amiga da morte certa. Diante da esposa queimada, David se arrepende de suas traições morais. Olivia dá razão à inimiga Hannah, e decide abandonar Henry. Mas, nesse exato momento, Hannah também se arrepende de suas maldades e manda Henry ir atrás de Olivia: “Você não pode perder essa mulher! Não seja tolo, corra atrás dela e a traga de volta!”. O drama termina com um final feliz, em aparência, pois o futuro permanece incerto. Neste show de estrelas, os duelos entre Crawford e Bainter, e entre Sullavan e Crawford, são deliciosos.

Three Comrades (Três camaradas, 1938)

Three Comrades (Três camaradas, 1938) é baseado numa novela de Erich Maria Remarque que dá sequência a All Quiet On The Western Front (Nada de novo no front), com o pano de fundo da ascensão do nazismo. Mas no filme as alusões políticas explícitas da trama original foram eliminadas, uma vez que em 1938 emblemas nazistas e menções a Hitler e outros líderes ainda eram tabus em Hollywood.

Lenz é um “idealista” – um eufemismo para comunista – e ao tentar proteger seu líder de uma massa linchadora de militantes de extrema-direita, é baleado por um atirador, morrendo nos braços de seus dois amigos. Koster vingará essa morte procurando o jovem assassino e o matando ao som de Aleluia.

O escritor F. Scott Fitzgerald escreveu boa parte do roteiro (foi o único, de fato, que ele escreveu, ou pelo qual foi creditado). Mas, do meio para o fim, quando os produtores perceberam que a trama estava ficando demasiado densa para fazer sucesso, ele foi afastado.

Entre as críticas ao nazismo expurgadas pela MGM, sob a pressão do Código de Produção, uma cena aludia ao antissemitismo, outra mostrava os nazistas queimando livros, incluindo os romances de Remarque. Não eram permitidas ainda, em Hollywood, as referências diretas ao regime de Hitler.

O filme resultou numa love story comovente e dramática, com as luzes e sombras do expressionismo intervindo na cena em que Koster mata o assassino de Lenz e com os insights existencialistas de um ménage à quatre, mas onde o background da Alemanha empurrando o mundo para uma nova guerra foi esmaecido ao máximo, ficando praticamente apagado.

The Mortal Storm (Tempestade d’alma, 1940)

The Mortal Storm (Tempestade d’alma, 1940) tem início com imagens de um céu carregado de nuvens que se tornam cada vez mais negras e ameaçadoras, anunciando uma tempestade iminente, enquanto o narrador discursa sobre os temores humanos e a atual situação do mundo. A humanidade – ele afirma – encontra-se novamente ameaçada, mas não exatamente pelas velhas forças da natureza, e sim por um mal gerado pelo próprio homem, motivado pelos medos ancestrais que ele ainda carrega dentro de si:

When man was new upon the earth, he was frightened by the dangers of the elements. He cried out, “The gods of the lightning are angry, and I must kill my fellow man to appease them!” As man grew bolder, he created shelters against the wind and the rain and made harmless the force of the lightning. But within man himself were elements strong as the wind and terrible as the lightning. And he denied the existence of these elements, because he dared not face them. The tale we are about to tell is of the mortal storm in which man finds himself today. Again he is crying, “I must kill my fellow man!” Our story asks, “How soon will man find wisdom in his heart and build a lasting shelter against his ignorant fears?

Vivendo numa pequena cidade dos Alpes alemães, o professor universitário Viktor Roth (Frank Morgan) e sua família “não ariana” são surpreendidos com a ascensão de Hitler ao poder. Martin Brietner (James Stewart), amigo da família Roth, é um dos poucos alemães da cidade que não aderem ao nazismo. A filha dos Roth, Freya (Margaret Sullavan) rompe o noivado com Fritz Marberg (Robert Young), novo entusiasta de Hitler, e se aproxima cada vez mais de Martin. As pressões contra os “não arianos” crescem em toda parte.

A melhor sequencia do filme é aquela, tremenda, do jantar que comemora o aniversário do patriarca, que fora celebrado também na universidade. Subitamente, a empregada alemã dos Roth irrompe na sala anunciando, feliz da vida, após ouvir o noticiário do rádio: “Dr. Roth, acabo de ouvir uma notícia maravilhosa! Hitler tomou o poder!”. A cena tem a força de um soco no estômago. A família imediatamente se divide. Fritz exulta com a “boa nova”, enquanto seu rival Martin ironiza o nazismo. O mal estar se instala no meio da festa.

Depois disso, a família Roth será pouco a pouco excluída da sociedade. No filme, os Roth não são definidos como judeus. Segundo instruções dos produtores aos roteiristas, eles seriam chamados de “não arianos”. O antissemitismo seria evocado como “perseguição aos de outras religiões ou de outras raças”. Mesmo assim, The Mortal Storm permanece um dos filmes mais corajosos de seu tempo, assumindo o antinazismo antes que os EUA entrassem na guerra, o que só ocorreu após o ataque a Pearl Harbor, em 1941. A Alemanha não tolerou essa crítica:  proibiu o filme em seu território e rompeu seu contrato de importação com a Warner.

Strange Cargo (1940), considerado um dos filmes mais bizarros produzidos pela Metro, foi banido pela Igreja católica em diversas cidades americanas, devido a um enredo digno de Luis Buñuel, com criminosos fugidos da prisão e outros marginais seguindo um mapa escrito na capa de uma Bíblia, indo parar numa floresta tropical, num barco guiado por um sósia de Cristo.

Stage Door Canteen (As noivas do Tio Sam, 1943)

Stage Door Canteen (1943).

Stage Door Canteen (As noivas do Tio Sam, 1943) é uma propaganda musical de guerra, mas com personagens humanos, em situações reais, mostrando como um grande país se faz através de um patriotismo verdadeiro, que nunca descamba para o populismo do Terceiro Mundo nem para o fascismo da Europa. Aqui, astros e estrelas como Judith Anderson, Tallulah Bankhead, Helen Hayes, Katharine Hepburn, Harpo Marx, Ethel Merman, Paul Muni, Merle Oberon, George Raft, Johnny Weissmuller servem comida (sem poder  comer) na cantina dos atores criada para os soldados, entretidos por lindas garotas (proibidas de saírem depois com eles) e concertos de Yehudi Menuhin, Count Basie, Xavier Cugat, Benny Goodman, Guy Lombardo e Peggy Lee. A ideia da liberdade nos EUA é insuperável. O discurso final de Katharine Hepburn, que o sintetiza, é uma chave de ouro: em dois minutos ela nos dá uma performance arrasadora e consegue, sem qualquer esforço aparente, arrancar nossas lágrimas, nossos aplausos, nossos pulos de felicidade.

Alguns críticos consideraram os filmes de Borzage demasiado sentimentais e isso explicaria o progressivo esquecimento deste que foi um dos grandes da Hollywood dos anos de 1920-1930, depois de ter atuado em 114 filmes, dirigido 107, produzido 27 e escrito seis, sendo hoje muito menos lembrado que diretores do mesmo porte como John Ford, Howard Hawks, Frank Capra, Raoul Walsh ou Alfred Hitchcock.

Nos filmes de Borzage o amor de fato substitui a religião e seus amantes devem enfrentar os horrores do mundo antes de, finalmente, se acasalarem. Homens e mulheres comuns, eles adquirem grandeza heroica quando o amor neles desperta a coragem que residia no fundo de suas almas, levando-os a superar barreiras que lhes pareciam até então insuperáveis.

Em 7th Heaven, ao se apaixonar por Chico, Diane ousa andar na rampa da mansarda que antes tanto temia. E ao ter sua aliança arrancada do pescoço pela irmã que a maltratava, ousa finalmente avançar contra ela, expulsando-a de sua casa a chicotadas. Em Desire, Madeline vive sob a pressão de uma gangue criminosa, até que, ao conhecer o amor pela primeira vez, decide contar a verdade ao amante, livrando-se, desta forma, dos chantagistas.

Borzage também bebia na fonte do expressionismo alemão. Seu fotógrafo Ernest Palmer e seu diretor de arte Harry Oliver eram mestres na arte de contrastar luzes e sombras. Iluminado o fundo da cena mais que o rosto dos personagens, Borzage criava verdadeiros sacrários para suas figuras humildes.

A fragilidade de Janet Gaynor – que estrelou Aurora, de Murnau – contrasta com a dureza de sua vida de órfã pobre, sofrida, explorada, mas que preserva uma pureza de alma refletida em seus olhos. No final, já sem esperanças, ela quase se deixa vencer pela insistência do militar que a ama e tenta seduzir na ausência do marido. Mas esse ressurge dentre os mortos numa corrida cega e desesperada pelas escadarias que levam ao seu quarto, gritando o nome de Diane, como se a pressentir aquela involuntária traição.

Os personagens de Borzage são como que predestinados ao drama e só evoluem através do sacrifício: a cegueira do ateu Chico no final de 7th Heaven o capacita a “ver” Deus pela primeira vez. Essa cegueira sela também sua ansiada união carnal com Denise, que exclama quase feliz com essa condição: “Eu serei os seus olhos”, propósito amenizado pelo machismo do herói: “Minha cegueira será temporária, eu superarei isso!”.

Em The Shining Hour, David só passa a amar a esposa Judy, que o perdoa até quando ele a trai com a cunhada, depois que ela se sacrifica e fica toda queimada, com bandagens a cobrir-lhe o rosto, do qual só podemos ver os olhos lacrimosos e, enfim, felizes. Devido aos elementos exagerados de seus filmes, Borzage era popular entre os surrealistas: especialmente André Breton, criador do conceito de amor louco, o admirava. E Josef von Sternberg, igualmente obcecado pelo esteticismo, declarou amar a maioria dos filmes de Borzage.

Após nove anos sem filmar, exceto três episódios da série de TV Screen Director’s Playhouse, Borzage retornou à direção com China Doll (Bonequinha chinesa, 1958), que se passa na Segunda Guerra, quando um desiludido piloto alcoólatra (Victor Mature) compra acidentalmente uma esposa (Li Li Hua). Ele acaba por se apaixonar por ela, reencontrando uma razão para viver. Os dois são mortos por japoneses, mas a filha deles, materialização do amor, sobrevive.

O último filme de Borzage, o épico bíblico The Big Fisherman (O pescador da Galileia, 1959), adaptado do best-seller de Lloyd C. Douglas, foi rodado em Super Panavision, e tinha mais de três horas, antes de ser editado para 164 minutos e depois para 149 minutes. Foi um fracasso retumbante.

Em sua vida pessoal, Borzage sofreu bastante por amor. Casando-se em 1916 com a atriz Lorena Rogers, apaixonado por ela, logo descobriu que ela gastava o dinheiro que ele lhe dava com amantes dos dois sexos. Borzage tolerava as infidelidades da esposa, até que arrumou uma amante. Teria tido ainda casos passageiros com Lupe Velez, Mary Pickford, Marion Davies, Joan Crawford e Hedy Lamarr. Mas atormentado na relação com a esposa, começou a beber.

Em 1940, Borzage rompeu com Rena quando ela se afeiçoou a um homossexual, numa afronta à sua religião do amor heterossexual. Borzage mergulhou de vez na bebida e sua carreira decaiu, até que ele se casou novamente, em 1945, com Edna Skelton, ex-esposa do comediante Red Skelton. Divorciaram-se em 1949. Em 1953, Borzage casou-se com Juanita Scott e foi feliz com ela – conseguindo parar de beber – até sua morte, de câncer, em 1962.

Fontes

Frank Borzage, in IMDB. Disponível em: http://www.imdb.com/name/nm0097648/?ref_=sr_1.

Frank Borzage (1894-1962), in CineCollage Biographies. Disponível em: http://cinecollage.net/borzage.html.

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