Arquivo do mês: fevereiro 2013

CINEMA IÍDICHE

Der Dybbuk

Der Dybbuk (O Dybbuk, 1937): a obra-prima do cinema iídiche.

Derivado do teatro iídiche, o cinema iídiche floresceu nas décadas de 1920-1930, sobretudo na Polônia, com seus cerca de três milhões de judeus, mas também na Áustria, Rússia e Estados Unidos.

Um dos mais antigos filmes iídiche ainda existentes é o mudo Misrach un Marew (1923), de Sidney Goldin, uma comédia estrelada pela saborosa Molly Picon, no papel de uma judia rebelde que subverte as cerimônias judaicas tradicionais.

Na Polônia, Zygmunt Turkow (que mais tarde se radicou no Brasil) e Henryk Shapira levaram à tela histórias com base no folclore judaico, inspirando-se nos contos e peças de Scholem Aleichem e Josef Opatoshu.

Na Rússia, Alexander Granovsky adaptou Menachem Mendel, de Aleichem, em Jewish Luck (Sorte judaica, 1925), com intertítulos de Isaac Bábel. O protagonista é um Luftmensch que sofre uma série de calamidades. O patético personagem é interpretado por Solomon Mikhael, um dos grandes nomes do teatro ídiche. Uma cena nas escadarias de Odessa teria inspirado Sergei Eisenstein para a famosa sequência de seu Bronenosets Potyomkin (O encouraçado Potemkin, 1925).

Os primeiros filmes falados em iídiche são documentários datados de 1932 sobre as comunidades judaicas de cidades polonesas como Varsóvia, Lvov, Lodz e Cracóvia. Graças ao sonoro, o cinema dos anos de 1930 se tornará o veículo ideal para a realização do cinema iídiche, que conheceu então sua “idade de ouro”. Entre os filmes iídiche do período que chegaram até nós destacam-se os seguintes títulos:

Uncle Moses (Tio Moses, 1932), de Aubrey Goldin, com o célebre ator Maurice Schawrtz numa matizada encarnação de empresário judeu.

Yidl mit a Fidl (1936), de Joseph Green, onde Molly Picon interpreta uma jovem que se faz passar por homem para integrar uma banda de músicos.

Wu es Majn Kind? (Onde está meu filho?, 1937), de Abraham Leff e Henry Lynn, é um melodrama intensificado ao máximo pela interpretação de Célia Adler como a mãe desesperada, que passa 25 anos procurando pelo filho que lhe tiraram no orfanato.

Grine Felder (Campos verdes, 1937), de Jacob Ben-Ami e Edgar Ulmer, é uma bela história sobre a procura da felicidade, realizada nos EUA, por um cineasta que já se destacava em Hollywood por seus criativos thrillers, filmes noir e de terror.

Die Freyleche Kabtsonim (1937), de Zygmund Turkow, uma farsa amadorística.

Der Dybbuk (O Dibbuk, 1937) [1], de Michal Vashiasky (Michael Waszynski): baseado na peça de S. An-sky, ou Sholom Ansky [2], é a obra-prima do filme iídiche. Num shtetl da Polônia, dois jovens que cresceram juntos selam sua amizade arranjando o casamento de seus futuros filhos, ignorando o conselho de um misterioso viajante que adverte que não se deve traçar o caminho das futuras gerações. Logo depois, um deles morre, e a esposa do outro morre ao dar à luz. As crianças crescem em diferentes cidades, mas elas acabam se conhecendo na idade de se casarem, e apaixonam-se.

A jovem Leah está prometida a outro homem; mas Channon, que é o filho do pai que morreu, pratica misticismo, e procura conquistar sua noiva com o poder da magia. Ele faz um pacto com o diabo, numa cena erótica em que ele parece masturbar-se em meios a vapores dentro da sinagoga, e sua alma, saindo de seu corpo sem vida, apossa-se da noiva no dia de seu casamento com o rival. Realizado em dialeto iídiche pela comunidade judaica da Polônia de 1937, pouco antes que os nazistas a destruíssem no Holocausto, Der Dybbuk é, como observou um crítico, uma “história de fantasmas” em mais de um sentido.

O cemitério da aldeia polonesa de Kazimerz, com seus túmulos cuidadosamente desalinhados; as interpretações exasperantes de Leon Liebgold e Lili Liliana como os amantes infelizes que só podem unir-se na morte; e, sobretudo, a macabra dança dos pobres durante as bodas, contrastando com a dança elegante das famílias dos noivos, e onde o sobrenatural irrompe nos gestos desarticulados dos figurantes, que assimilam os mendigos aos demônios, e na própria presença da morte (interpretada por Judith Berg, que coreografou toda a sequência) – a Morte assume para a noiva os traços do amado – filiam o filme às melhores tradições do expressionismo.

Jankel der Chimid (1938), de Edgar Ulmer, é uma comédia que contém um fantástico dueto musical entre Moshe Oysher e Miriam Riselle.

Der Wilner Schotot Chazan (1938), de Max Nossek, conta a mesma história do filme mudo alemão Baruch / Das alte Gesetz (A antiga lei, 1923), de Richard Oswald, e na qual se inspirou o primeiro filme falado norte-americano, The Jazz Singer (O cantor de jazz, 1927), de Alan Crosland, mas tratada em chave moralista, com o triunfo das tradições religiosas.

A Brivele der mamen (Uma carta da mãe, 1938), de Joseph Green, mostra a luta de uma mãe para sustentar seus três filhos em meio à pobreza. Com os rumores da guerra que se aproxima, ela decide imigrar com os filhos para a América, buscando ajuda junto à Sociedade de Imigração Hebraica.

Mamele (Mamele, 1938), de Joseph Green, descreve a crepitante vida judaica em Lodz, com seus boêmios e gangsters, religiosos e desempregados, no meio dos quais vive Mamele (Molly Picon), mulher de fibra cuja vida o público acompanha da infância à velhice.

Tevye (1939), de Maurice Schwartz, é uma adaptação de célebre história de Sholem Aleichem que inspiraria mais tarde o musical O violinista no telhado.

O nazismo destruiu a rica cultura iídiche, que florescera nos shteltl dos países do Leste da Europa e da Rússia. Após o nazismo, o iídiche ainda foi derrotado em Israel, pela adoção do hebraico como língua oficial, o que não deixou de ser outro milagre, que fez renascer uma língua morta, que os judeus não mais falavam, conhecida dos poucos que dominavam os textos sagrados.

Nas últimas décadas, a língua iídiche também conheceu certo revival e o cinema em iídiche reapareceu no cenário da vida judaica, em peças e filmes, como no curta-metragem de animação norte-americano The Bent Tree (1980), de Sally Heckel, realizado a partir de uma canção popular em iídiche sobre a relação de uma criança com sua mãe.


[1] Der Dybbuk (O Dybbuk, Polônia, 1937, 125’, p&b, versão americana: The Dybbuk, 108’). Direção: Michal Waszynski. Roteiro: S. A. Kacyzna e A. Marek, com base na peça de S. An-sky, ou Sholom Ansky. Elenco: Avrom Morevski (Rabbi Azrael ben Hodos); Isaac Samberg (O Mensageiro); Moyshe Lipman (Sender ben Henie); Lili Liliana (Leah, filha de Sender); Leon Liebgold (Channon); Dina Halpern (Tia Frade); Max Bozyk (Nuta, amigo de Sender); M. Messinger (Menashe); Gershon Lamberger (Nison ben Rifke, pai de Channon); S. Bronecki (Nachman); Samuel Landau (Zalman); Outros: Z. Katz (Mendel); A. Kurc (Michael); D. Lederman (Meyer). Produção: Zygfryd Mayflauer. Edição: George Roland. Direção de arte: Andrew Marek. Tradução (versão americana): Abraham Armband. Conselheiro técnico: Dr. Meyer Balaban. Coreografia: Judith Berg. Titulagem (versão americana): Leonora Fleischer. Intérprete (versão americana): Jacob Mestel.

[2] S. An-sky, ou Sholom Ansky, escritor, poeta e dramaturgo, escreveu toda sua obra iídiche. Nascido na Rússia, seu verdadeiro nome era Salomon Seinwill Rapaport. Adulto, foi viver em Varsóvia, na Polônia. Editava artigos para jornais iídiche, e produzia muito, mas seu talento só foi reconhecido após sua morte quando, em 1920, enceraram Der Dybuk, sua obra-prima, peça logo traduzida para muitas línguas.

O FIM DOS PALÁCIOS DO CINEMA

Gloria Swanson nas ruínas do Roxy Theater, 1960.

O Roxy Theatre, um dos maiores palácios do cinema, que custou 12 milhões de dólares (soma gigantesca na época), com capacidade, segundo algumas fontes, para 5.920 espectadores e, segundo outras, para 6.200, foi inaugurado, na Times Square, em Nova York, com o filme mudo The Love of Sunya (1927), produzido e estrelado por Gloria Swanson.

Nem uma geração depois, Eliot Elisofon fotografou para a Life Magazine a última homenagem que a diva prestou ao Roxy, como uma sacerdotisa abandonada pelos fiéis, diante do templo em ruínas, durante a demolição do prédio, a 14 de outubro de 1960. Desde então, os palácios do cinema foram desaparecendo em todo o mundo, graças à massificação da TV.

COLECIONANDO CLÁSSICOS

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A cópia de The Painted Veil (O véu pintado, 1934), de Richard Boleslawski, com Greta Garbo, lançado em DVD pela editora COLECIONE CLÁSSICOS (CC), está uma vergonha. Eu tinha uma cópia do filme gravada da TV, que adquiri do simpático SEBO QUERELLE, e queria substitui-la por uma oficial, supostamente melhor.

Mas a cópia lançada pela CC é a mesma cópia da TV, e ainda por cima piorada: copiada da cópia da TV, para tapar o logo do canal que exibia o filme (mais discreto na minha cópia) colocaram um enorme e berrante selo COLECIONE CLÁSSICOS, que avacalha o filme do começo ao fim! Infame! Nem se fosse de graça isso podia ser oferecido ao público, e ainda cobram mais de trinta pilas!

Já a cópia de Susan Lenox (Susan Lenox, 1931), de Robert Z. Leonard, com Greta Garbo e Clark Gable, que a CC lançou está melhor que a vendida pelo SEBO QUERELLE, sem ser ótima. A lamentar, porque o projeto gráfico da COLECIONE CLÁSSICOS é acima da média. Mas não basta uma embalagem bonita e um encarte bem feito, em papel couché, com informações úteis sobre o filme, se a própria cópia não está em condições de ser exibida.

COLECIONE CLÁSSICOS poderia ser uma nova MAGNUM OPUS (que por seu lado descuida da parte gráfica), dedicada aos clássicos, já que a CONTINENTAL e a CLASSICLINE são outras vergonhas. Mas a CC já começou mal. Aliás, já me disseram que todas essas empresas pertencem ao mesmo grupo. Não sei. O que sei é que a VERSÁTIL e a LUME FILMES continuam sendo as únicas empresas mais confiáveis nesse setor.

Em tempo: a cópia de Juno and the Peycock (Juno e o pavão, 1930), de Alfred Hitchcock (filme que, como muito outros da fase inglesa do diretor, estava inédito em DVD no Brasil) pareceu-me razoável, e as de Swing Time (Ritmo louco, 1936), de George Stevens, e de Action in the North Atlantic (Comboio para o Leste, 1943), de Lloyd Bacon, todos lançados pela CC, estão boas. Esperemos que o forfait de The Painted Veil tenha sido uma exceção.

KRZYSTOF ZANUSSI (1939-)

Depois de estudar Física na Universidade de Varsóvia e Filosofia na Universidade de Cracóvia, Zanussi formou-se na Escola de Cinema de Lodz com o filme Smierc prowincjala (Morte de um provinciano, 1966), que ganhou diversos prêmios em festivais. Fez, desde então, dezenas de curtas-metragens e documentários para a TV.

O cinema moderno foi povoado por anti-heróis: rebeldes sem causa, prostitutas honestas, neuróticos de guerra, sadomasoquistas de bom caráter, policiais sem escrúpulos, serial-killers espirituosos, padres pedófilos, ex-presidiários queridos e traficantes sensíveis.

Já os heróis de Zanussi são, como o próprio diretor, cientistas, intelectuais e homens cultos que trazem o inferno na alma e procuram, desesperadamente, junto a outros cientistas, sábios ou religiosos, um sentido para a vida.

A denúncia da rotina vazia em Struktura Kristalu (A estrutura do cristal, 1969) ou a demolição do casamento em Bilaus Kwartalny (Balanço semestral, 1975) são etapas nessa busca encarniçada da verdade última do homem.

Essa procura constitui a maior aventura, na qual o protagonista engaja o próprio corpo: em Iluminacja (Iluminação, 1973), o herói inquieto, depois de interrogar cientistas e religiosos e um cirurgião que abre o crânio de um homem consciente, acaba sofrendo um colapso nervoso; em Imperativ (Imperativo, 1982), o angustiado chega à automutilação.

Spiral (Espiral, 1978) e Constans (Constante, 1980) foram filmes menos inspirados. Mas Zanussi ainda criava personagens que mantinham acesa a chama do puro existencialismo cinematográfico.

A busca espiritual de Zanussi tornou-se, nos anos de 1980, menos ansiosa. A força do catolicismo na Polônia é avassaladora. E à medida que ela foi avançando, conquistou Zanussi e apaziguou suas angústias metafísicas. O diretor passou a assinar filmes de qualidade inferior. No seu cinema, a arte perdeu terreno para a propaganda.

Essa propaganda inclui Watykan, stolica kultury (1983), episódio sobre o Vaticano para a série Capitali culturali d’Europa (Capitais culturais da Europa, 1983, TV), a cinebiografia do Papa João Paulo II (o polonês Karol Wojtyla) em From a Far Country (1981); e a adaptação da peça Our God’s Brother (1997), escrita pelo mesmo Papa.

Inclui ainda Leben für Leben (Vida por vida, 1991), sobre o padre Maximilian Kolbe que, em Auschwitz, em 1941, trocou sua vida pela de um prisioneiro condenado a morrer de fome. O sacrifício santifica o padre e a palavra “judeu” é silenciada, num reforço ao atual projeto da Igreja de cristianizar a Shoah.

Sinto maior identidade com o “primeiro” Zanussi, aquele que descobri na juventude, com seus personagens a buscar, como eu, o absoluto. Guardo de Iluminacja, sua obra-prima, uma frase que sempre repito, como um mantra, quando minha ansiedade me leva aos paroxismos da loucura:

– Tens um corpo que te limita.

Outros filmes

Barwy ochronne (Camuflagem / Mimetismo, Polônia, 1977, 103’, cor). Direção: Krzysztof Zanussi. Com Christine Paul-Podlasky, Magdalena Zwadzka, Mariusz Dmochowski, Zbigniew Zapasiewicz, Piotr Garlicki. Num acampamento de verão, o encarregado de organizar o Concurso de Trabalhos Científicos dos Jovens Linguistas trata os estudantes como camaradas, esforçando-se para o bom andamento das provas. Mas um docente cínico confronta o idealismo do assistente. E, em meio ao conformismo e ao oportunismo generalizados, revela-se a falácia do “socialismo democrático”.