KRZYSTOF ZANUSSI (1939-)

Depois de estudar Física na Universidade de Varsóvia e Filosofia na Universidade de Cracóvia, Zanussi formou-se na Escola de Cinema de Lodz com o filme Smierc prowincjala (Morte de um provinciano, 1966), que ganhou diversos prêmios em festivais. Fez, desde então, dezenas de curtas-metragens e documentários para a TV.

O cinema moderno foi povoado por anti-heróis: rebeldes sem causa, prostitutas honestas, neuróticos de guerra, sadomasoquistas de bom caráter, policiais sem escrúpulos, serial-killers espirituosos, padres pedófilos, ex-presidiários queridos e traficantes sensíveis.

Já os heróis de Zanussi são, como o próprio diretor, cientistas, intelectuais e homens cultos que trazem o inferno na alma e procuram, desesperadamente, junto a outros cientistas, sábios ou religiosos, um sentido para a vida.

A denúncia da rotina vazia em Struktura Kristalu (A estrutura do cristal, 1969) ou a demolição do casamento em Bilaus Kwartalny (Balanço semestral, 1975) são etapas nessa busca encarniçada da verdade última do homem.

Essa procura constitui a maior aventura, na qual o protagonista engaja o próprio corpo: em Iluminacja (Iluminação, 1973), o herói inquieto, depois de interrogar cientistas e religiosos e um cirurgião que abre o crânio de um homem consciente, acaba sofrendo um colapso nervoso; em Imperativ (Imperativo, 1982), o angustiado chega à automutilação.

Spiral (Espiral, 1978) e Constans (Constante, 1980) foram filmes menos inspirados. Mas Zanussi ainda criava personagens que mantinham acesa a chama do puro existencialismo cinematográfico.

A busca espiritual de Zanussi tornou-se, nos anos de 1980, menos ansiosa. A força do catolicismo na Polônia é avassaladora. E à medida que ela foi avançando, conquistou Zanussi e apaziguou suas angústias metafísicas. O diretor passou a assinar filmes de qualidade inferior. No seu cinema, a arte perdeu terreno para a propaganda.

Essa propaganda inclui Watykan, stolica kultury (1983), episódio sobre o Vaticano para a série Capitali culturali d’Europa (Capitais culturais da Europa, 1983, TV), a cinebiografia do Papa João Paulo II (o polonês Karol Wojtyla) em From a Far Country (1981); e a adaptação da peça Our God’s Brother (1997), escrita pelo mesmo Papa.

Inclui ainda Leben für Leben (Vida por vida, 1991), sobre o padre Maximilian Kolbe que, em Auschwitz, em 1941, trocou sua vida pela de um prisioneiro condenado a morrer de fome. O sacrifício santifica o padre e a palavra “judeu” é silenciada, num reforço ao atual projeto da Igreja de cristianizar a Shoah.

Sinto maior identidade com o “primeiro” Zanussi, aquele que descobri na juventude, com seus personagens a buscar, como eu, o absoluto. Guardo de Iluminacja, sua obra-prima, uma frase que sempre repito, como um mantra, quando minha ansiedade me leva aos paroxismos da loucura:

– Tens um corpo que te limita.

Outros filmes

Barwy ochronne (Camuflagem / Mimetismo, Polônia, 1977, 103’, cor). Direção: Krzysztof Zanussi. Com Christine Paul-Podlasky, Magdalena Zwadzka, Mariusz Dmochowski, Zbigniew Zapasiewicz, Piotr Garlicki. Num acampamento de verão, o encarregado de organizar o Concurso de Trabalhos Científicos dos Jovens Linguistas trata os estudantes como camaradas, esforçando-se para o bom andamento das provas. Mas um docente cínico confronta o idealismo do assistente. E, em meio ao conformismo e ao oportunismo generalizados, revela-se a falácia do “socialismo democrático”.

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