CINEMA IÍDICHE

Der Dybbuk

Der Dybbuk (O Dybbuk, 1937): a obra-prima do cinema iídiche.

Derivado do teatro iídiche, o cinema iídiche floresceu nas décadas de 1920-1930, sobretudo na Polônia, com seus cerca de três milhões de judeus, mas também na Áustria, Rússia e Estados Unidos.

Um dos mais antigos filmes iídiche ainda existentes é o mudo Misrach un Marew (1923), de Sidney Goldin, uma comédia estrelada pela saborosa Molly Picon, no papel de uma judia rebelde que subverte as cerimônias judaicas tradicionais.

Na Polônia, Zygmunt Turkow (que mais tarde se radicou no Brasil) e Henryk Shapira levaram à tela histórias com base no folclore judaico, inspirando-se nos contos e peças de Scholem Aleichem e Josef Opatoshu.

Na Rússia, Alexander Granovsky adaptou Menachem Mendel, de Aleichem, em Jewish Luck (Sorte judaica, 1925), com intertítulos de Isaac Bábel. O protagonista é um Luftmensch que sofre uma série de calamidades. O patético personagem é interpretado por Solomon Mikhael, um dos grandes nomes do teatro ídiche. Uma cena nas escadarias de Odessa teria inspirado Sergei Eisenstein para a famosa sequência de seu Bronenosets Potyomkin (O encouraçado Potemkin, 1925).

Os primeiros filmes falados em iídiche são documentários datados de 1932 sobre as comunidades judaicas de cidades polonesas como Varsóvia, Lvov, Lodz e Cracóvia. Graças ao sonoro, o cinema dos anos de 1930 se tornará o veículo ideal para a realização do cinema iídiche, que conheceu então sua “idade de ouro”. Entre os filmes iídiche do período que chegaram até nós destacam-se os seguintes títulos:

Uncle Moses (Tio Moses, 1932), de Aubrey Goldin, com o célebre ator Maurice Schawrtz numa matizada encarnação de empresário judeu.

Yidl mit a Fidl (1936), de Joseph Green, onde Molly Picon interpreta uma jovem que se faz passar por homem para integrar uma banda de músicos.

Wu es Majn Kind? (Onde está meu filho?, 1937), de Abraham Leff e Henry Lynn, é um melodrama intensificado ao máximo pela interpretação de Célia Adler como a mãe desesperada, que passa 25 anos procurando pelo filho que lhe tiraram no orfanato.

Grine Felder (Campos verdes, 1937), de Jacob Ben-Ami e Edgar Ulmer, é uma bela história sobre a procura da felicidade, realizada nos EUA, por um cineasta que já se destacava em Hollywood por seus criativos thrillers, filmes noir e de terror.

Die Freyleche Kabtsonim (1937), de Zygmund Turkow, uma farsa amadorística.

Der Dybbuk (O Dibbuk, 1937) [1], de Michal Vashiasky (Michael Waszynski): baseado na peça de S. An-sky, ou Sholom Ansky [2], é a obra-prima do filme iídiche. Num shtetl da Polônia, dois jovens que cresceram juntos selam sua amizade arranjando o casamento de seus futuros filhos, ignorando o conselho de um misterioso viajante que adverte que não se deve traçar o caminho das futuras gerações. Logo depois, um deles morre, e a esposa do outro morre ao dar à luz. As crianças crescem em diferentes cidades, mas elas acabam se conhecendo na idade de se casarem, e apaixonam-se.

A jovem Leah está prometida a outro homem; mas Channon, que é o filho do pai que morreu, pratica misticismo, e procura conquistar sua noiva com o poder da magia. Ele faz um pacto com o diabo, numa cena erótica em que ele parece masturbar-se em meios a vapores dentro da sinagoga, e sua alma, saindo de seu corpo sem vida, apossa-se da noiva no dia de seu casamento com o rival. Realizado em dialeto iídiche pela comunidade judaica da Polônia de 1937, pouco antes que os nazistas a destruíssem no Holocausto, Der Dybbuk é, como observou um crítico, uma “história de fantasmas” em mais de um sentido.

O cemitério da aldeia polonesa de Kazimerz, com seus túmulos cuidadosamente desalinhados; as interpretações exasperantes de Leon Liebgold e Lili Liliana como os amantes infelizes que só podem unir-se na morte; e, sobretudo, a macabra dança dos pobres durante as bodas, contrastando com a dança elegante das famílias dos noivos, e onde o sobrenatural irrompe nos gestos desarticulados dos figurantes, que assimilam os mendigos aos demônios, e na própria presença da morte (interpretada por Judith Berg, que coreografou toda a sequência) – a Morte assume para a noiva os traços do amado – filiam o filme às melhores tradições do expressionismo.

Jankel der Chimid (1938), de Edgar Ulmer, é uma comédia que contém um fantástico dueto musical entre Moshe Oysher e Miriam Riselle.

Der Wilner Schotot Chazan (1938), de Max Nossek, conta a mesma história do filme mudo alemão Baruch / Das alte Gesetz (A antiga lei, 1923), de Richard Oswald, e na qual se inspirou o primeiro filme falado norte-americano, The Jazz Singer (O cantor de jazz, 1927), de Alan Crosland, mas tratada em chave moralista, com o triunfo das tradições religiosas.

A Brivele der mamen (Uma carta da mãe, 1938), de Joseph Green, mostra a luta de uma mãe para sustentar seus três filhos em meio à pobreza. Com os rumores da guerra que se aproxima, ela decide imigrar com os filhos para a América, buscando ajuda junto à Sociedade de Imigração Hebraica.

Mamele (Mamele, 1938), de Joseph Green, descreve a crepitante vida judaica em Lodz, com seus boêmios e gangsters, religiosos e desempregados, no meio dos quais vive Mamele (Molly Picon), mulher de fibra cuja vida o público acompanha da infância à velhice.

Tevye (1939), de Maurice Schwartz, é uma adaptação de célebre história de Sholem Aleichem que inspiraria mais tarde o musical O violinista no telhado.

O nazismo destruiu a rica cultura iídiche, que florescera nos shteltl dos países do Leste da Europa e da Rússia. Após o nazismo, o iídiche ainda foi derrotado em Israel, pela adoção do hebraico como língua oficial, o que não deixou de ser outro milagre, que fez renascer uma língua morta, que os judeus não mais falavam, conhecida dos poucos que dominavam os textos sagrados.

Nas últimas décadas, a língua iídiche também conheceu certo revival e o cinema em iídiche reapareceu no cenário da vida judaica, em peças e filmes, como no curta-metragem de animação norte-americano The Bent Tree (1980), de Sally Heckel, realizado a partir de uma canção popular em iídiche sobre a relação de uma criança com sua mãe.


[1] Der Dybbuk (O Dybbuk, Polônia, 1937, 125’, p&b, versão americana: The Dybbuk, 108’). Direção: Michal Waszynski. Roteiro: S. A. Kacyzna e A. Marek, com base na peça de S. An-sky, ou Sholom Ansky. Elenco: Avrom Morevski (Rabbi Azrael ben Hodos); Isaac Samberg (O Mensageiro); Moyshe Lipman (Sender ben Henie); Lili Liliana (Leah, filha de Sender); Leon Liebgold (Channon); Dina Halpern (Tia Frade); Max Bozyk (Nuta, amigo de Sender); M. Messinger (Menashe); Gershon Lamberger (Nison ben Rifke, pai de Channon); S. Bronecki (Nachman); Samuel Landau (Zalman); Outros: Z. Katz (Mendel); A. Kurc (Michael); D. Lederman (Meyer). Produção: Zygfryd Mayflauer. Edição: George Roland. Direção de arte: Andrew Marek. Tradução (versão americana): Abraham Armband. Conselheiro técnico: Dr. Meyer Balaban. Coreografia: Judith Berg. Titulagem (versão americana): Leonora Fleischer. Intérprete (versão americana): Jacob Mestel.

[2] S. An-sky, ou Sholom Ansky, escritor, poeta e dramaturgo, escreveu toda sua obra iídiche. Nascido na Rússia, seu verdadeiro nome era Salomon Seinwill Rapaport. Adulto, foi viver em Varsóvia, na Polônia. Editava artigos para jornais iídiche, e produzia muito, mas seu talento só foi reconhecido após sua morte quando, em 1920, enceraram Der Dybuk, sua obra-prima, peça logo traduzida para muitas línguas.

2 Respostas para “CINEMA IÍDICHE

  1. Muito interessante e ótimo conteúdo.

  2. Márcio F. Souza

    Parabéns pelo texto e pela pesquisa! Excelente fonte de informação.

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