PARA ONDE OLHO, VEJO UM VAMPIRO

Dracula (Drácula, 1931), de Tod Browning, com Bela Lugosi.

Dracula (Drácula, 1931), de Tod Browning, com Bela Lugosi.

Depoimento dado à repórter Cláudia Amorim, parcialmente publicado em O Globo, a propósito do seminário Noites com Vampiros: representações e estéticas do sangue, que ocorre de 12 a 15 de março de 2013, na Caixa Cultural, no Rio de Janeiro. No dia 13, às 18 horas, participo como palestrante na mesa intitulada Todos os vampiros: para onde eu olho há um vampiro

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Cláudia Amorim: A que metáforas você se refere quando fala do vampiro?

Luiz Nazario: Como mostrei no meu livro Da natureza dos monstros, as metáforas do vampiro podem ser sexuais ou políticas. Ser imaginário, o vampiro é um morto-vivo que mantém sua vida eterna alimentando-se de sangue humano. A partir dessa estrutura básica da criatura, muitas variações sobre sua natureza foram criadas em livros e filmes. Seu metabolismo, inspirado em fenômenos tanto naturais quanto sociais, inspira por sua vez as metáforas do vampirismo. O seu viver eternamente, sendo ele um cadáver, é também um morrer eternamente: por isso ele dorme num caixão, cujo fundo é recoberto com um bocado da sua terra natal. Drácula, cuja imagem não se reflete ao espelho, não penetra em casa alheia senão quando convidado, mas depois pode entrar quando quiser. Fedendo aos céus por ser um morto-vivo, ele se aproxima de suas vítimas depois que as hipnotiza e só é delas afastado através do uso de um crucifixo e de resmas de alho. Ele pode ser exterminado quando exposto à luz do sol ou mergulhado na água corrente, e melhor ainda se tiver seu coração cravado com uma estaca de madeira, com a cabeça cortada logo em seguida. O alimento exclusivo do vampiro, o sangue alheio, é uma metáfora da vida e, assim, o vampirismo torna-se facilmente uma metáfora da exploração. A metáfora política mais comum é essa que associa o vampiro ao capitalista. É assim que os comunistas vêm os capitalistas. Muitos cartunistas e propagandistas de sociedades totalitárias usam essa metáfora contra seus “inimigos”, na defesa de seu próprio sistema socialista de opressão, que é diverso, mas nem um pouco melhor. As características do vampiro também fazem dele uma metáfora do falo: como o Nosferatu está preso ao caixão, o pênis está preso ao escroto, “dorme” de dia e “desperta” à noite, quando se torna muito ativo; só entra no outro quando convidado, mas depois, entra à vontade; amolece diante de um crucifixo, sob a água corrente, com o cheiro de alho, que europeus racistas associam a estrangeiros indesejáveis; e pode ser eventualmente castrado.

Cláudia Amorim: Por favor, fale um pouco sobre essa onipresença que dá nome à mesa.

Luiz Nazario: O título da mesa – que não é de minha autoria – refere-se, creio eu, ao sentido metafórico do vampiro, associando este sanguessuga sobrenatural a dimensões da realidade social, projetadas e exageradas no imaginário. Num sentido amplo, podemos considerar as relações humanas viciadas como vampirescas: é uma carência de si que move invejosos copiadores, piratas, plagiadores, apropriadores de ideais e feitos alheios; invasores de propriedades privadas; saqueadores das fortunas acumuladas; capitalistas que exploram operários; trabalhadores que sobrevivem à custa de empresários; totalitários que se alimentam do poder das massas; mendigos que vivem de esmolas; maridos que usufruem o trabalho doméstico das esposas; esposas que vivem do salário dos maridos; espiões da vida dos outros; parasitas das emoções dos vizinhos; torcedores de times de futebol; etc. De certa forma, para onde olhamos podemos ver vampiros metafóricos em plena atividade.

2 Respostas para “PARA ONDE OLHO, VEJO UM VAMPIRO

  1. Muito bom, ótimo.

  2. Evento imperdivel, mas é uma pena que eu more no RS.

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