Arquivo do mês: maio 2013

A BESTA DE BERLIM

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Hitler: Beast of Berlin (A besta de Berlim, EUA, 1939, p&b, drama antinazista). Direção: Sherman Scott (Sam Newfield). Produção: Producer’s Distributing Corporation / Ben Judell. Com Alan Ladd, Roland Drew, Frederick Giermann, Steffi Duna, Hans von Twardowski, Greta Granstedt, Vernon Dent.

Em 1939, Shepard Traube escreveu um conto com ação passada dentro da Alemanha nazista, intitulado “Goose Step” (Passo de ganso). A produtora independente Producers Releasing Corporation (PRC), fundada naquele ano por Ben Judell, comprou os direitos da história para fazer seu primeiro filme, que se chamou Hitler: Beast of Berlin (Hitler: a besta de Berlim, 1939).

Em Berlim, às vésperas da Segunda Guerra Mundial, Hans Memling (Roland Drew), Padre Pommer (Frederick Giermann), Anna Wahl (Greta Granstedt) e outros idealistas desafiam a censura e imprimem panfletos onde divulgam notícias censuradas, que recebem de transmissões radiofônicas clandestinas. Os resistentes encontram-se na cervejaria do companheiro Lustig (Vernon Dent). Memling convence o irmão da esposa Elsa (Steffi Duna), Karl Bach (Alan Ladd), que Hitler levará o mundo à guerra.

Apaixonado por Anna, Karl adere ao grupo, embora duvide que a população possa resistir à brutalidade do regime nazista. O grupo conta ainda com um agente infiltrado nas SS, Albert Stalhelm (Hans von Twardowski), que embora enojado com os métodos nazistas, é incitado a permanecer estrategicamente naquele posto. Ele adverte aos companheiros, contudo, que os SS costumam convidá-lo para suas orgias e o incitam, maliciosamente, a embebedar-se: ele teme acabar, contra sua vontade, falando demais.

Elsa revela a Hans estar grávida, e não quer que seu filho cresça como nazista. Hans trata então de organizar a imigração dela para os EUA. Quando a Gestapo, que vigia o grupo, estoura a célula clandestina, Hans, Bach, Schultz e Padre Pommer são internados num campo de concentração. Entre os prisioneiros há um cientista (supostamente judeu), humilhado com sadismo por um SS. Também o Padre Pommer tem suas vestes arrancadas e seu terço pisoteado. Todos dormem numa barraca imunda.

Torturado pela Gestapo, Hans nada revela. Mas Bach não suporta permanecer mais um dia naquele inferno e tenta fugir durante a noite, para juntar-se à amada Anna, com quem deseja casar e ser feliz. Agindo por conta própria, de modo imprudente, ele é flagrado na fuga pelos holofotes dos vigias do campo, que disparam contra ele. Hans morre agarrado à cerca de arame farpado.

Doente com as torturas que deve agora infligir aos amigos presos, Albert se embriaga numa nova orgia SS após a sessão de tortura, e dá com a língua nos dentes. No campo, o comandante Colonel Hess, que fora amigo de Hans, quando lutavam na Primeira Guerra, tenta dissuadir o  ex-camarada, agora seu prisioneiro, a juntar-se ao movimento nazista, ao qual aderiu com fervor.

Por seu lado, Elsa procura um advogado nazista corrupto, que promete tirar seu marido do campo por mil marcos. Mas como Hans contraria o adesismo de Hess, este faz vistas grossas à requisição do advogado. No campo onde os detentos trabalham como escravos, Hans conta, porém, com a ajuda do guarda Braun (Hans von Morhart): ele consegue, assim, escapar.

Hans vai ao encontro da esposa, que deu à luz, sã e salva, na Suíça. Mas ele não pensa em viver ali com ela: anuncia que voltará à Alemanha para continuar a obra da Resistência. A mulher reage, decidida a dissuadi-lo a ficar com ela na Suíça. A missão deles, agora, é revelar a verdade do nazismo ao mundo. Em nome do futuro da humanidade, não recairão na normalidade de um casal comum enquanto Hitler permanecer no poder, mas se engajarão na luta coletiva, mantendo viva, no exílio, a chama da Resistência.

Primeiro filme americano a mostrar a verdadeira face do nazismo, Hitler: Beast of Berlin foi considerado pela Censura de Nova York como “inumano, sacrílego e tendente a incitar o crime”. Temendo distúrbios, ela só o liberou, com cortes, a 18 de novembro de 1939. Sofrendo, além disso,  pressão do lobby pró-alemão, o produtor Ben Judell não conseguiu obter para o lançamento uma sala importante que pagasse a produção: o projeto que ele tinha, de criar um novo estúdio independente, foi assim abortado.

O antinazismo adquire, em Beast of Berlin, uma forte tonalidade comunista: embora os resistentes se declarem patriotas e democratas, e um padre colabore com  eles, o próprio fato de o grupo não abrigar pelo menos um comunista declarado e contrastante já o define como tal: somente a disciplina férrea do Partido capacita vítimas de tortura a nada revelar, assumindo o sacrifício da liberdade e da felicidade pessoal ao projeto da “resistência popular”.

A “resistência popular” não tem, evidentemente, qualquer chance de existir, e muito menos de triunfar, sob uma ditadura totalitária. Os erros crassos de avaliação da realidade, típicos do marxismo, são também inerentes à militância comunista. Por isso o personagem de Karl Bach, vivido por Alan Ladd, em sua estreia no cinema, precisa morrer, vítima tanto de suas ideias inadequadas quanto das engrenagens do campo de concentração.

O hesitante Bach questiona a eficácia da Resistência dominado por uma  subjetividade virgem, imatura, e ainda ousa preferir a liberdade ao sacrifício, a felicidade pessoal à luta coletiva. Sua execução pelos guardas é tanto uma denúncia dos horrores do nazismo quanto uma necessidade ideológica do roteiro comunista: se aquele fraco não tentasse fugir do campo (e, num sentido simbólico, da luta), ele teria sobrevivido como Hans.

Burgueses egoístas que tentam viver felizes devem ser eliminados, pois se suas existências “desprezíveis” não servem ao nazismo, tampouco servem ao comunismo que o combate, adotando, sub-repticiamente, algumas de suas características afiadas: com suas ideologias opostas, esses inimigos mortais convergem em sua essência totalitária, exigindo, cada um a seu modo, o sacrifício dos “pequenos” projetos individuais ao “grande” plano coletivo.

MIGUEL ZACARÍAS

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El pecado de Adán y Eva (México, 1969, 92’, cor, drama). Produção: Azteca Films. Direção, Roteiro, Produção: Miguel Zacarías. Música: Manuel Esperon. Com Jorge Rivero, Candy Wilson (como Candy Cave).

A ação de El pecado de Adán y Eva tem início logo após a Queda. Um solitário Adão (Jorge Rivero) vaga pela Terra inóspita, recordando-se dos dias felizes e inocentes que viveu nos Jardins do Eden, sem vergonha de sua nudez, até que a companheira Eva (Candy), tentada pelo Diabo sob a forma de serpente, come o fruto proibido e o incita a fazer o mesmo, desencadeando a cólera divina.

Rodado nas belas paisagens naturais de El Salto, em San Luis Potosi, o filme é quase surrealista em sua visão desavergonhada do episódio bíblico. O veterano diretor Miguel Zacarías explorou ao máximo a nudez de Jorge Rivero, o mais suculento beefcake do cinema mexicano, destacando seu corpo mais que o da desconhecida atriz americana Candy, ou Candy Cave, ou Candy Wilson.

Não há, contudo, nudez frontal: os dois atores e o diretor tomaram todas as precauções para evitar que isso ocorresse, evitando assim a censura. O caminhar de lado dos personagens, a vasta cabeleira da atriz cobrindo seu colo, os objetos interpostos entre os corpos e a câmera e as filmagens em posições estudadas conspiram para suprimir eventuais aparições de genitálias.

Com apenas a voz de Deus ressoando em off em alguns momentos da narrativa; os gritinhos de Eva, descrita como uma fútil e vaidosa chantagista emocional; e os grunhidos de Adão, um cabeça-dura machista e bruto que fere os pés delicados ao tropeçar reiteradamente nas raízes elevadas de uma árvore, El pecado de Adán y Eva é quase um filme mudo.

Embora inteiramente rodado em locações, nas belas paisagens de El Salto, em San Luis Potosi, os cenários naturais foram “aprimorados” com a colocação de enormes flores coloridas de papel crepom em meio à vegetação, para simular uma natureza primitiva, adâmica, do começo da humanidade. Adão também está sempre bem barbeado e com os cabelos penteados em estilo casual.

Produzido no auge do Flower Power, El pecado de Adán y Eva parece ter visado o público jovem, hippie, gay, underground, mais que um público conservador e evangélico. A ambígua natureza de seus propósitos torna seu camp completamente autêntico, segundo o conceito desenvolvido por Susan Sontag em seu famoso ensaio sobre esse estilo.

Fora dos padrões do gênero bíblico, à maneira das heresias de Luis Buñuel, e aprofundando a linha exploratícia aflorada em Adán y Eva (1956), de Alberto Gout, e timidamente visitada no episódio da Queda em The Bible … In the Beginning (A Bíblia, 1966), de John Huston, El pecado de Adán y Eva é um dos filmes mais bizarros e aberrantemente geniais do cinema mexicano.