SUZANA AMARAL

A HORA DA ESTRELA

Suzana Amaral - A hora da estrela.

Experimentada documentarista, Suzana Amaral elegeu uma espécie de freak como a heroína de seu primeiro longa-metragem, A hora da estrela (1985), adaptado da novela de Clarice Lispector: Macabéa, uma nordestina que vive na cidade grande desligada de seu meio e manipulada pelos que a rodeiam: a coleguinha Glória, uma datilógrafa mais esperta, que lhe rouba o namorado; o namorado Olímpico, que não quer ter nenhuma despesa com ela; o patrão Seu Raimundo, que tem pena de despedi-la; a cartomante Madame Carlota, que lhe prevê um futuro de estrela; e as três Marias, que dividem com ela um miserável quarto de pensão.

Todos os atores que Suzana escolheu para A hora da estrela têm uma atuação precisa, cumprindo as exigências de seus papéis da melhor maneira possível. Aí se nota a dedicação da diretora, que declarou ter trabalhado o tempo inteiro de pé, durante as filmagens, para dar ânimo à equipe. Ela teve ainda a preocupação de ser fiel ao espírito intimista de Clarice Lispector, “no limite do intangível e do indizível”. Mesmo as modificações práticas da roteirização justificam-se dentro do universo original das personagens, de modo que poderiam ter sido imaginadas pela própria escritora.

O filme abre com os créditos a desfilar ao som da Rádio Relógio: somos imediatamente introduzidos no universo de Macabéa quando, no livro, havia toda uma relação complexa do narrador com a personagem. Clarice havia optado por assumir uma personalidade masculina: é um homem que “inventa” Macabéa, o fracassado escritor Rodrigo S. M., que se esforça para contar a história.

O livro se faz quase como um parto. Apresentar Macabéa é, para o narrador, tão difícil quanto gerar um filho: ele sofre e transpira; desiste; desperta e recomeça. Trata-se de criar “uma pessoa inteira que na certa está tão viva quanto eu”. E o resultado é um aborto. Ao suprimir essa relação, dificilmente transponível para a tela, Suzana Amaral correu o risco de reduzir A hora da estrela à história contada pelo personagem principal: o narrador.

Rodrigo S. M. é quase uma nova versão do Dr. Frankenstein, trancado em seu escritório/laboratório, com a firme determinação de insuflar vida a uma matéria inerte, a um corpo feito de pedaços de outros corpos, e registrando suas experiências num diário. Felizmente, o filme não se reduz à narrativa.

Suzana, que obteve um rendimento ótimo de todos os atores, teve a sorte de encontrar, para encarnar Macabéa, Marcélia Cartaxo, uma jovem atriz paraibana que empresta seu corpo e sua alma à “virgem inócua” do livro. E a aparição de Macabéa tal como a pudera imaginar (e nos fazer imaginar) Clarice, tornou dispensável, no filme, a presença do narrador e redimiu o livro e o filme da amargura que seus epílogos lhe prometem,

É que, no livro, sem qualquer esperança, a hora da estrela é a hora da morte, único instante de glória que o destino reservou à patética criatura que escapou do laboratório da natureza e vaga pelo mundo com a mesma inocência demonstrada pela criatura de Frankenstein.

O livro de Clarice destaca-se da literatura social (e, por extensão, o filme de Suzana do cinema político) é que seu personagem não é um “tipo” popular, um “exemplar” de explorado. De tão densamente estúpida, Macabéa atinge dimensões metafísicas. Ela vive “num limbo impessoal”, e somente vive: “inspirando e expirando, inspirando e expirando”. O seu viver é “ralo”. Sua única paixão, goiabada com queijo. Seus problemas não remetem a nenhum modelo social injusto, a nenhuma realidade pré-revolucionária. Naturalmente, ela é fruto de uma miséria secular, membro de uma sociedade criminosa. Mas é um fruto que nasceu sem caroço, um membro que nasceu sem ossos.

Macabéa não representa ninguém, não reivindica nada. Ela é apenas uma dor que pede para ser aliviada; um monstro que escapou às determinações da espécie: nada há de comum entre Macabéa e a colega de escritório, entre Macabéa e as colegas de quarto. Ela é uma estranha entre as de sua classe, uma estranha entre as de seu sexo. Só espera sentir alguma identidade com o conterrâneo Olímpico de Jesus, metalúrgico que sonha ser deputado e que momentaneamente a toma por namorada. Mas essa identidade, logo se verá, é apenas geográfica.

Se Macabéa é um monstro, Olímpico é um fóssil – no sentido preciso que Michel Foucault deu, em Les Mots et les Choses, a esses dois seres: “O monstro conta, como caricaturalmente, a gênese das diferenças, e o fóssil lembra, na incerteza de suas semelhanças, as primeiras obstinações da identidade”.

Olímpico, que Suzana Amaral vê como uma espécie de “matriz de todos os machos”, é um misto de animal e mineral, fóssil arraigado na sua ignorância e já sedento de poder, desejando arrancar todos os dentes naturais para substitui-los por dentes de ouro, ostentando na boca o orgulho da pepita, projeto de estátua incapaz de reações humanas, animal irracional já petrificado por dentro.

Macabéa, ao contrário, possui uma alma sensível. Ela chora ao ouvir Caruso cantar Una Furtiva Lacrima. E decora os dados dispersos da Rádio Relógio – único meio de informação de que dispõe – como quem engole pílulas que a curarão para sempre da ignorância. Seu sonho impossível é ser artista de cinema. Imagina Greta Garbo como “a mulher mais importante do mundo” e Marilyn Monroe “toda cor-de-rosa”. Quando um vazio se instala em sua conversa com Olímpico, ela ressente a violência de seu peso e não hesita em revelar o que lhe vai dentro da mente: “Gosto tanto de parafuso!”.

No fundo, Macabéa se acha doente – doente de existir. Quando é traída ou magoada, pede à colega do escritório uma aspirina, que ela engole para livrar-se da angústia. “Mas aonde dói?”, desconfia Glória. “Dentro, não sei explicar”. Sem consciência de si, Macabéa limita-se a sofrer o escândalo de seu ser-no-mundo que, por essa mesma inconsciência, passa a ter o sentido do escândalo universal de qualquer existência.

Assim, por Macabéa passam certas intuições que a razão não alcança ou que há muito acredita ter superado. Alguns dos subtítulos que Clarice deu ao livro o indicam: Ela não sabe gritar, A culpa é minha, Uma sensação de perda, Eu não posso fazer nada… Se o raquitismo de Macabéa é uma herança do sertão, se sua repressão vem do sadismo de uma tia, já é tarde para resgatá-la: seria preciso que ela nascesse de novo, em outra terra, numa família diferente.

Como tantas criaturas concebidas por acaso, vomitadas no mundo, abandonadas à sorte, e que “vingam” sem razão, só por inércia, Macabéa é uma tentativa apenas esboçada de ser, um protótipo defeituoso e inutilizado pela criação. E se a única saída para Macabéa é a morte, fazendo dela uma estrela, Clarice Lispector com as armas da literatura, e Suzana Amaral, com as do cinema, engajaram-se num combate mais radical que o de toda a literatura social, de todo o cinema político: aquele que exige, mais do que uma revolução na sociedade, uma revolução na vida.

[Originalmente publicado sob o título “Macabéa, um esboço de ser” na Revista Caderno de Crítica, n. 2, Embrafilme, Ministério da Cultura, Rio de Janeiro, nov. 1986, p. 3-4. O artigo foi aqui revisto e atualizado].

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