Arquivo do mês: outubro 2013

PARK CHAN-WOOK

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Stoker (Segredos de sangue, 2013, 101′, cor). Direção: Park Chan-wook. Roteiro: Wentworth Miller. Com Nicole Kidman, Mia Wasikowska, Matthew Goode.

India (Mia Wasikowska) é uma adolescente americana que age como uma típica adolescente oriental catatônica, tornando-se vítima de piadas violentas dos colegas, que a tomam por uma freak. Arrasada com a morte súbita do pai, ela se sente incomodada e atraída pelo estranho tio Charlie (Matthew Goode), que se hospeda em sua casa após o velório.

Tio Charlie parece querer seduzir a viúva Evelyn (Nicole Kidman), que não disfarça sua indiferença pela morte do marido. A futilidade em pessoa, ela logo se sente atraída pelo jovem cunhado, que lhe parece ser o companheiro ideal, gostando como ela de ouvir música, passear, gazetear, passar o tempo sem fazer nada. Com todas essas qualidades, ele ainda por cima sabe cozinhar.

India desconfia do talentoso tio, mas Charlie ama a sobrinha desde que ela nasceu, presenteando-a com um par de sapatos horrorosos e masculinos a cada ano, até que ela faz dezoito anos e ganha um sapato feminino de salto alto. A governanta ajuda o tio Charlie em suas intenções malignas, mas como sabe demais acaba sendo morta e colocada dentro do frízer no porão da casa. 

Uma tia tenta alertar Evelyn sobre Charlie, mas ela não lhe dá ouvidos. Quando tenta se comunicar com India de um telefone público, a mulher é estrangulada pelo insano tio. O primeiro namorado de India tenta estuprá-la e tem o mesmo fim. Logo será a vez de Evelyn conhecer a verdadeira natureza de Charlie, na sequencia de maior suspense do filme.

O sul-coreano Chan-wook estreia em Hollywood com este thriller poético-pretensioso, que preenche com imagens estilizadas (os lindos cabelos cor de palha de Nicole Kidman, penteados pela filha até que os fios se fundem com um capinzal; as flores vermelhas do campo que são na verdade brancas, e tingidas de sangue; etc.) uma trama bem elaborada, mas desvirtuada por valores turvos.

Estreando como roteirista, o ator Wentworth Miller (Prison Break) cruza várias referências disparatadas (de Bram Stoker a Alfred Hitchcock) para terminar sua narrativa de modo sádico, lançando ao mundo uma triunfante heroína do mal. Ao contrário do que sua fábula de terror pretende provar, seguir sua natureza não é tornar-se adulto e livre, mas refugiar-se na imanência para não assumir que se está, desde sempre, condenado à liberdade.

MARC FORSTER

Machine Gun Preacher (Redenção, EUA, 2011, cor, drama, guerra). Direção: Marc Forster. Com Gerard Butler.

Machine Gun Preacher (Redenção).

Machine Gun Preacher (Redenção).

Baseado no caso verídico de Sam Childers, este filme perturbador enfia o dedo numa das feridas mais sangrentas de nosso mundo – as guerras tribais africanas, com violências de toda sorte, incluindo a escravização de crianças para sua transformação em guerreiros sádicos.

O filme destaca os horrores orquestrados no sul do Sudão pelo grupo sincrético teocrático cristão-islamita Lord’s Resistance Army (LRA) e a ação de um americano (Gerard Butler), ex-criminoso de índole machista e racista, que se converte, abandona as drogas, cria uma empresa de construção e acaba fundando sua própria igreja.

Após ouvir o relato de um missionário que esteve no sul do Sudão, ele imagina à noite ouvir a voz de Deus e decide “fazer alguma coisa”, criando um abrigo para crianças refugiadas em Uganda, em plena zona de guerra. Pastor por acidente, ele não conhece limites morais para suas ações benfeitoras. Seu maior inimigo é o invisível líder dos rebeldes, Joseph Kony, o Mabuse africano por trás de todas as barbáries.

Childers vê em Kony o próprio Satã encarnado e, missionário por vocação, age como um Cristo-Rambo redentor. No final, por meio de cenas reais, o diretor legitima as ações violentas do pastor guerrilheiro e concede ao verdadeiro Childers a palavra final: “Se você tiver um parente seu sequestrado, e me pedir para salvá-lo dos bandidos, você não vai querer saber como eu farei isso.”

World War Z (Guerra Mundial Z, EUA / Inglaterra, 2013, 110’, cor, thriller). Direção: Marc Foster. Produção: Brad Pitt, Dede Gardner, Jeremy Kleiner, Ian Bryce. Roteiro: Matthew Michael Carnahan, Drew Goddard, Damon Lindelof, a partir do romance de Max Brooks. Com Brad Pitt, Mireille Enos, James Dale, Matthew Fox.

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Gerry Lane (Brad Pitt), zeloso pai de família desempregado, que desempenhava misteriosas missões para a ONU, é convocado pelo ex-patrão em meio ao apocalipse provocado por uma epidemia mundial, para investigar a origem da doença que transforma as massas do planeta em zumbis carniceiros, prontos a transformar os demais assim que despertam de seu transe, ao ouvir algum som.

Gerry se separa momentaneamente da esposa Karen (Mireille Enos) e das duas filhas para escoltar um jovem patologista até a Coréia do Sul, suposto foco original da contaminação. A  missão é um desastre, mas um agente da CIA dá a Gerry uma boa dica; e ele parte para Israel a fim de se encontrar com o “décimo homem”, que havia sugerido, contra nove opiniões contrárias, proteger o país com uma muralha, sendo que as nove opiniões contrárias foram descartadas.

Durante a visita de Gerry, o muro de proteção revela-se um engodo e Jerusalém cai. No caos ali gerado um incidente sugere a Gerry a descoberta de uma fórmula que o torna “invisível” aos zumbis. Consegue usá-la mais tarde, num momento crucial, fazendo-se de cobaia, e depois transmite a descoberta aos poderes constituídos para que os exércitos que ainda resistem exterminem os zumbis em massa, com eficiência. O filme termina com a Guerra Mundial Z “apenas começando”, sem cura para a epidemia em curso.

A superprodução de US$ 125 milhões foi rodada em Malta, Glasgow e Budapeste. O último terço do filme não teria agradado aos produtores, e parece que teve de ser refeito, pelo que o talentoso diretor Marc Forster, um dos responsáveis pelo megassucesso do filme, já foi descartado por Brad Pitt da futura direção da planejada segunda parte da anunciada trilogia World War Z.

O filme possui elementos revisionistas. Embora a contaminação seja mundial e o “herói da ONU” não consiga identificar a origem do vírus, duas regiões são destacadas como focos originais: Coréia do Sul e Israel, dois aliados dos EUA. Mas esses aliados não são vistos com bons olhos pela Hollywood de esquerda. Os pacifistas simpatizam com a Coréia do Norte e com a Palestina. O filme parece querer então demostrar que a tática israelense de construir um Muro para “lacrar o país” (contra os homens-bombas) está fadada ao fracasso, o que, na vida real, não procede: a onda de terror foi interrompida graças ao Muro.

Embora Gerry não se transforme ao engolir acidentalmente um pouco do sangue contaminado de um zumbi que tentava agarrá-lo, ele corta, instintivamente, e de modo preventivo, o braço da soldada israelense quando ela é mordida por um zumbi, sem saber se ela se transformaria – ele mesmo não se transformou. Há então algo de sádico na trama em relação à soldada israelense, outra heroína do filme que deve, porém, ser mutilada, e a Israel, país aliado que gozava do privilégio da não contaminação só para ser privado desse privilégio, na sequência mais impressionante do filme.

A antipatia em relação à Coréia do Sul, com a sugestão de que o paciente zero poderia ser um soldado coreano ferido, que ataca o médico coreano, que espalha o mal para os soldados americanos – também tem ressonâncias revisionistas. Assim como a manutenção em cela de vidro, como “exemplar” da nova doença, no Centro de Controle e Prevenção, de um contaminado negro, de aparência medonha. A doença vem mais fortemente associada aos Outros (de outra cultura ou etnia) não americanos. Nesse sentido, também o menino mexicano que salva a vida de Gerry é o único de sua boa família capaz de sobreviver, porque é o único ali que já fala inglês, pensando e agindo como um pequeno herói americano, disparando um tiro certeiro no zumbi.