VERA, OU A LIBERDADE AO AVESSO

Vera (1986)

Em Vera (1986), Sergio Toledo elege como heroína uma personagem complexa e marginal: Sandra Mara Herzer. Em sua autobiografia, A queda para o alto, o que impressiona é a perda das mediações ideológicas entre a liberdade e libido. Para Sandra e suas companheiras, a liberdade consistia em praticar o amor lésbico no orfanato-prisão.

Longe dessa prisão, elas não podiam mais realizar sua liberdade. Chegaram, então, a este paradoxo: a prisão era sua liberdade, e a liberdade uma prisão. Dentro da prisão, queriam fugir; depois da fuga, queriam voltar.

Como a liberdade identificou-se com o prazer que elas só podiam obter na prisão, o mundo exterior se tornou cinzento, e sua vastidão parecia-lhes apenas uma pintura afixada além das grades invisíveis de seus corpos.

Sem um projeto de vida, sem raízes na sociedade, essas meninas eram livres na prisão e prisioneiras em liberdade, detestando a FEBEM, mas também o mundo, que não se conformava aos seus desejos.

A Vera de Sérgio Toledo só sente desejo por mulheres, mas não se vê como lésbica. Ela gosta de mulheres tal como um homem de mentalidade patriarcal: quer a mulher como uma propriedade sua.

Ela não sente prazer em toda a extensão do corpo, sua sexualidade está concentrada nos genitais: não espera possuir outra mulher numa relação amorosa, mas, sobretudo, dominá-la, fundando uma identidade e uma família.

Em sua adesão à natureza, Vera adota cegamente uma ideologia que elimina do universo uma possibilidade como a sua: aos seus próprios olhos, ela se afigura como um monstro que precisa ser aprisionado, castrado e, finalmente, exterminado.

Nesse intento, Vera começa por enfaixar os seios, recusando o prazer que eles poderiam proporcionar-lhe. Ela despreza a feminilidade e exalta os valores do machismo que a oprime. Por isso também fracassa na relação com uma mulher sem preconceitos, que se desvia dos homens justamente por buscar um relacionamento mais igualitário: o sexo com Vera resulta então impossível.

Como declarou o diretor, “Vera é única num mundo rodeado de darks, punks, yuppies…”. Uma singularidade gerada por uma ideologia comum, embutida no representante errado. Se Vera fosse homem, seria o mais integrado dos heteros. Mas Vera nasceu mulher, e o seu corpo nega a sua ideologia. Roland Barthes escreveu sobre outro monstro, o escritor:

[Ele] está só, abandonado pelas antigas classes e pelas novas. Sua queda é tanto mais grave quanto ele vive hoje numa sociedade onde a própria solidão, em si, é considerada como uma culpa. Nós aceitamos (aí está nosso golpe de mestre) os particularismos, mas não os indivíduos. Nós criamos (genial astúcia) coros de particulares, dotados de uma voz reivindicadora, gritante e inofensiva. Mas e o isolado absoluto? O que não é nem bretão, nem corso, nem mulher, nem homossexual, nem louco, nem árabe, etc.? O que nem mesmo pertence a uma minoria?

Essa é também a situação de Vera, que não é mulher, nem homem, nem propriamente lésbica. Não pertence à maioria, nem à minoria. Ela é um ser singular e compósito: uma cabeça de homem num corpo de mulher com um desejo lésbico. Para ser feliz no amor, Vera precisaria de uma mulher passiva e dócil que aceitasse seu jogo “macho” de sedução, conquista e dominação.

Na relação entre macho e fêmea, o prazer é um instrumento do poder, através do qual o macho dominante obtém vantagens materiais e psicológicas sobre a fêmea dominada. Vera quer possuir naturalmente esse poder, simbolizado pelo falo: o travesti é a maneira que ela encontra de iludir a si mesma.

Daí a crueldade do diretor do “orfanato” ao exigir que ela e suas companheiras ou demonstrem sua virilidade exibindo genitais masculinos ou passem a usar saia. A feminilidade é, para elas, uma punição, uma recaída na condição de fêmeas dominadas, já que em sua escala de valores não há lugar para a liberdade enquanto tal.

O castigo de usar saia, que recai sobre a menina gorda, é visto pelas colegas como a pior humilhação do mundo, como se um rapaz fosse obrigado a usar saia diante de seus camaradas. E quando Vera tem a sua primeira menstruação, na casa do liberal que a acolhe, a sua personalidade desintegra-se, tendo a base, toda construída de ilusões, arruinada por uma verdade que vem de dentro de si mesma.

Pois se a natureza a fez mulher, foi sua liberdade que a fez homem. Mas Vera não pode aceitar sua liberdade, pois teria de admitir que ela construiu o seu mundo a partir de falsas premissas, tomadas de empréstimo da sociedade patriarcal: sentindo-se homem, não pode suportar agora que ela não o seja por natureza.

Sérgio Toledo mostra o fracasso de Vera, contrapondo à fragilidade de seu projeto, que se quebra ao contato com a realidade, a dureza de um mundo despersonalizado, com sua arquitetura agressiva, sua tecnologia massificante e seu paternalismo frio.

Ao invés de mostrar o suicídio de Vera, o cineasta sugere a tragédia numa sequência simbólica: a personagem adentra um edifício em ruínas, repleto de monitores de televisão, que reproduzem a imagem de seu gosto. É uma boa metáfora para o destino de Vera, que preferiu aniquilar-se com o seu mistério a ser desmitificada no conglomerado.

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