OS FILMES DE 1939

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Depoimento ao repórter Daniel Oliveira, do jornal O Tempo, a 26 de fevereiro de 2014.

Daniel Oliveira: A safra hollywoodiana de 1939 é considerada por muitos críticos como a mais icônica de Hollywood até hoje. Filmes como “E o Vento Levou”, “No Tempo das Diligências” e “O Mágico de Oz” permanecem muito fortes no imaginário dos cinéfilos e do público em geral, resistindo até a outros filmes de maior mérito artístico ou mais importantes para a linguagem cinematográfica. Você acha que essa força pode estar ligada ao fato de que, tendo sido lançados em 1939, esses longas foram produzidos no início daquele ano, ou em 1938, sendo as últimas grande produções do mundo pré-guerra e, portanto, os derradeiros representantes de um imaginário romântico (Vento), fantasioso (Oz), heroico (Diligências) e satírico (Ninotchka), típico do cinema clássico, que seria inevitavelmente abalado e alterado pelos horrores do conflito na Europa?

Luiz Nazario: Esses filmes estão realmente entre os melhores filmes de todos os tempos, e mantiveram até hoje seu interesse junto ao público porque resistiram à prova do tempo. E o vento levou, além de cenas grandiosas e de uma Vivien Leigh no auge da beleza, possui uma fotografia em Tecnicolor que poucos filmes conseguiram superar. No tempo das diligências é um melhores faroestes da história do cinema. O mágico de Oz, a despeito de seu artificialismo, reúne tantas qualidades (como Judy Garland cantando Over the Rainbow) e bizarrices (como a lenda do suicídio do Munchkin durante as filmagens) que continua a encantar adultos e crianças, além de cineastas sombrios como David Lynch; Ninotschka, uma comédia deliciosa, traz Greta Garbo num papel diverso da maioria de seus papéis (“Garbo ri” era a propaganda da época), e divina como sempre; O corcunda de Notre Dame é uma proeza em termos de cenários (a Notre Dame e a Paris medieval reconstruídas à perfeição nos estúdios), de maquiagem (a máscara do corcunda é impressionante) e de interpretação (Charles Laughton, espantoso no papel); O Morro dos Ventos Uivantes (1939), é outra obra-prima.

Daniel Oliveira: Esses filmes são marcos e referências de linguagem até hoje, mas carregam também um legado histórico obscuro, em termos de conteúdo (o retrato da escravidão em Vento, dos índios em Diligências, a infantilização da obra original em Oz, por ex.). Você acredita que essa dualidade – a excelência técnica compensando por narrativas nem sempre à altura – se tornaria o modelo do que Hollywood viria a se tornar hoje?

Luiz Nazario: Não creio que esses filmes carreguem um legado histórico obscuro, embora a História nunca seja um mar de rosas. Mas esse legado não se compara, em termos de horror, à história europeia, com suas Cruzadas, Inquisições, pestes, guerras, massacres, torturas, escravidões, colonialismos, fascismos, comunismos, campos de concentração e de extermínio. E o vento levou faz um retrato simpático dos sulistas, o lado derrotado e arrasado na guerra. Existe entre os liberais americanos do norte um complexo de culpa em relação aos sulistas. Mas os adeptos sulistas do Partido Democrata eram escravagistas. Os republicanos do norte, que eram os abolicionistas e representavam o progresso cultural, político e econômico, são geralmente descritos como os malvados no cinema americano, devido a esse complexo esquerdista. Tampouco vejo os índios com romantismo: eram guerreiros como os pioneiros, e numa guerra vencem os mais fortes. Quanto à infantilização de Oz, ela ocorre em toda adaptação para o cinema, porque os contos de fadas, em geral de origem europeia, são demasiadamente cruéis, refletindo uma sensibilidade endurecida por séculos de miséria moral numa Europa mergulhada em conflitos.

Daniel Oliveira: 1939 vem também em uma encruzilhada, não só pelo início da Guerra. Em pouco tempo, Hitchcock chegaria a Hollywood, o cinema noir chegaria às telas e a “cara” das produções ficaria cada vez mais na mão de seus diretores. Como curiosidade, George Cukor começa ligado a Ninotchka, tem que largá-lo por E o Vento, e acaba como substituto em Oz por algumas semanas, após ser demitido por Selznick: um pequeno retrato de como as coisas funcionavam na época. Você diria que 1939 talvez marque um auge do sistema dos “grandes produtores” e que, a partir dali, os diretores ganhariam gradativamente mais autoria de suas obras?

Luiz Nazario: Os diretores nunca terão autonomia em Hollywood. Os estúdios só começaram a decair no final dos anos de 1950, com a crescente massificação da TV, que roubou o grande público das salas de cinema. Com a guerra, há grandes mudanças no sistema de produção, com a intervenção do governo para a produção de filmes de propaganda de guerra e de filmes antinazistas; há rompimento de exportações de filmes para os países do Eixo e para os países ocupados pelos nazistas, mas a posição dos diretores sempre foi a de um empregado do estúdio, devendo se limitar a filmar o roteiro, sem querer “se expressar”, como os autores de cinema imaginados pelos críticos do Cahiers du Cinéma.

Daniel Oliveira: Fora de Hollywood, um dos grandes destaques do ano foi A regra do jogo, de Jean Renoir. Existe algum título, dentre essa safra de 39, que você destaque como mais relevante para a história do cinema, ou mesmo algum que seja subestimado ou esquecido perto desses pilares blockbusters de Oz e E o vento…?

Luiz NazarioA regra do jogo, de Jean Renoir, é um clássico do realismo poético francês, e no mesmo ano temos outro clássico desse cinema: Trágico amanhecer, de Marcel Carné. Gosto muito de O pássaro azul, uma fantasia realizada pela Fox em resposta a O mágico de Oz, da Metro, estrelado pela recentemente falecida Shirley Temple. Foi também filmado em deslumbrante tecnicolor em 1939, lançado em janeiro de 1940, inspirado na peça de Maurice Maeterlinck, mas fracassou na bilheteria. Possui uma sequência muito poética, que se passa numa espécie de limbo, onde as crianças aguardam o momento de serem chamadas para nascer na Terra. Um menino belo e triste, que encarnará num comunista, pois deseja justiça e igualdade, teme nascer: “Vão me destruir!”. Um jovem casal chora porque sabe que quando um nascer o outro terá morrido, e o rapaz, ao ser chamado, separando-se da amada para sempre, diz que será a pessoa mais infeliz da Terra. Também adoro Vitória amarga, onde Bette Davis é uma jovem grã-fina que age como uma louca, porque foi diagnosticada com câncer e resta-lhe pouco tempo de vida. São muitos os filmes notáveis realizados nesse ano: Gunga Din, Beau Geste, A mocidade de Lincoln, O paraíso infernal, De ratos e homens, Adeus, Mr. Chips, As mulheres, Heróis esquecidos, Confissões de um espião nazista, E as chuvas chegaram, o espantoso filme de terror O monstro humano, a curiosa animação As aventuras de Gulliver… Foi uma grande safra.

DEPOIMENTO PUBLICADO

Jornal O Tempo, Belo Horizonte, 9 de março de 2014.

(1) 1939, o ano que se eternizou nas telas.

(2) Clássico francês estreou no período.

(3) Outros clássicos se escondem sob a sombra dos grandes sucessos do ano.

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