Arquivo do mês: dezembro 2014

Os números de 2014

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2014 deste blog.

Aqui está um resumo:

A sala de concertos em Sydney, Opera House tem lugar para 2.700 pessoas. Este blog foi visto por cerca de 10.000 vezes em Se fosse um show na Opera House, levaria cerca de 4 shows lotados para que muitas pessoas pudessem vê-lo.

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GEORGE CUKOR

Keeper of the Flame.

Keeper of the Flame (EUA, 1943, 100’, p&b, drama antinazista). Direção: George Cukor. Produção: Victor Saville / MGM. Roteiro: Donald Ogden Stewart, a partir do romance de I. A. R. Wylie. Com Spencer Tracy, Katharine Hepburn, Richard Whorf, Margaret Wycherly, Forrest Tucker, Darryl Hickman.Trilha: Bronisław Kaper. Fotografia: William Daniels. Edição: James Newcom.

O líder civil Robert Forrest, amado por toda a América, morre subitamente num acidente de carro, mergulhando no vazio ao cruzar uma ponte avariada, no meio de uma terrível tempestade. A viúva Christine (Katharine Hepburn) recusa receber jornalistas, mas Stephen O’Malley (Spencer Tracy), um correspondente de guerra que acaba de retornar de Berlim, consegue furar a “muralha de Jericó” e penetrar na mansão dos Forrest.

Diversos personagens interessantes enriquecem a trama: o primo da viúva (Forrest Tucker), que não suporta jornalistas intrometidos; o garoto Jeb (Darryl Hickman), que adora o líder e pensa ser o responsável por sua morte por não tê-lo avisado sobre a ponte em ruínas; a repórter Jane Harding (Audrey Christie), apaixonada por O’Malley, mas que sabe não ter a menor chance com ele; o repórter Freddie Ridges (Stephen McNally), que tenta furar a reportagem de O’Malley; o secretário Clive Kerndon (Richard Whorf), que sabe de cor e salteado o que os jornalistas escreveram sobre o líder; a mãe do líder (Margaret Wycherly), inválida e doente mental, que vive escondida numa mansão isolada da vasta propriedade, e que afirma que seu filho foi assassinado.

Mas é Katharine Hepburn quem rouba o filme com sua presença magnética, que dá vida à personagem complexa, ambígua, misteriosa, manipulada, dominadora, delicada e assassina de Christine. O mistério de sua personagem será desvendado nos minutos finais, quando o jornalista, depois de descobrir a ferradura do cavalo de Christine confronta a mentirosa ao mesmo tempo em que lhe confessa seu amor. Abalada por tantas emoções, Christine abre ao jornalista os arquivos que queimava, contendo o plano maligno do amado e odiado Robert Forrest, que pretendia tomar o poder na América perseguindo os judeus, os negros, os liberais e os sindicatos.

Como o líder popular que ela adorara tornou-se um fascista, sem que ninguém soubesse, ela teve que destruir o homem para salvar sua imagem, deixando que ele atravessasse a ponte que ela sabia estar avariada. O’Malley contesta-a, pois não adiantava manter a imagem boa de um líder que se tornou fascista: o povo não era criança, saberia lidar com isso. Christine se deixa convencer, mas antes que possa viver feliz com O’Malley, é assassinada pelo cúmplice que a manipulava. Ela morre nos braços de O’Malley suspirando que ele revele a verdade ao mundo. Ao invés de escrever a biografia de Robert Forrest na qual trabalhava, O’Malley publica Christine Forrest: Her Life.

Um dia depois de obter os direitos autorais do romance best-seller Keeper of the Flame, de I. A. R. Wylie, Eddie Mannix, vice-presidente da MGM, percebeu ter nas mãos uma bomba política. Mas depois do ataque japonês a Pearl Harbor, e o engajamento dos EUA na guerra, a produção obteve sinal verde. O viés político do filme, radicalmente antifascista, desagradou, contudo, o chefe do estúdio, Louis Mayer, e políticos republicanos chegaram a se queixar a Will Hays, Presidente do Código de Produção, sobre a propaganda comunista disfarçada na trama. Mesmo o diretor Cukor considerou o filme um de seus piores trabalhos.

Visto hoje, Keeper of the Flame é uma visão sensacional de como um líder popular pode se tornar um líder fascista. Incrivelmente, o filme foi todo rodado em estúdio, sem locações. E, durante as filmagens, o ator Forrest Tucker teve um caso com o sedutor George Cukor, enquanto Katharine Hepburn mantinha seu caso extraconjugal com Spencer Tracy.

Keeper of the Flame evoca Citizen Kane (Cidadão Kane, 1941), de Orson Welles: o líder morre logo na abertura do filme e o que sabemos dele é apenas aquilo que os personagens que o conheceram revelam. O segredo de sua personalidade só vem à tona nas últimas cenas, em meio às chamas. O filme também antecipa The Man Who Shot Liberty Valance (O homem que matou o facínora, 1961), de John Ford, pois Christine segue ao pé da letra a máxima daquele faroeste: “Quando a lenda é mais interessante que a realidade, imprima-se a lenda.”…