GEORGE CUKOR

Keeper of the Flame.

Keeper of the Flame (EUA, 1943, 100’, p&b, drama antinazista). Direção: George Cukor. Produção: Victor Saville / MGM. Roteiro: Donald Ogden Stewart, a partir do romance de I. A. R. Wylie. Com Spencer Tracy, Katharine Hepburn, Richard Whorf, Margaret Wycherly, Forrest Tucker, Darryl Hickman.Trilha: Bronisław Kaper. Fotografia: William Daniels. Edição: James Newcom.

O líder civil Robert Forrest, amado por toda a América, morre subitamente num acidente de carro, mergulhando no vazio ao cruzar uma ponte avariada, no meio de uma terrível tempestade. A viúva Christine (Katharine Hepburn) recusa receber jornalistas, mas Stephen O’Malley (Spencer Tracy), um correspondente de guerra que acaba de retornar de Berlim, consegue furar a “muralha de Jericó” e penetrar na mansão dos Forrest.

Diversos personagens interessantes enriquecem a trama: o primo da viúva (Forrest Tucker), que não suporta jornalistas intrometidos; o garoto Jeb (Darryl Hickman), que adora o líder e pensa ser o responsável por sua morte por não tê-lo avisado sobre a ponte em ruínas; a repórter Jane Harding (Audrey Christie), apaixonada por O’Malley, mas que sabe não ter a menor chance com ele; o repórter Freddie Ridges (Stephen McNally), que tenta furar a reportagem de O’Malley; o secretário Clive Kerndon (Richard Whorf), que sabe de cor e salteado o que os jornalistas escreveram sobre o líder; a mãe do líder (Margaret Wycherly), inválida e doente mental, que vive escondida numa mansão isolada da vasta propriedade, e que afirma que seu filho foi assassinado.

Mas é Katharine Hepburn quem rouba o filme com sua presença magnética, que dá vida à personagem complexa, ambígua, misteriosa, manipulada, dominadora, delicada e assassina de Christine. O mistério de sua personagem será desvendado nos minutos finais, quando o jornalista, depois de descobrir a ferradura do cavalo de Christine confronta a mentirosa ao mesmo tempo em que lhe confessa seu amor. Abalada por tantas emoções, Christine abre ao jornalista os arquivos que queimava, contendo o plano maligno do amado e odiado Robert Forrest, que pretendia tomar o poder na América perseguindo os judeus, os negros, os liberais e os sindicatos.

Como o líder popular que ela adorara tornou-se um fascista, sem que ninguém soubesse, ela teve que destruir o homem para salvar sua imagem, deixando que ele atravessasse a ponte que ela sabia estar avariada. O’Malley contesta-a, pois não adiantava manter a imagem boa de um líder que se tornou fascista: o povo não era criança, saberia lidar com isso. Christine se deixa convencer, mas antes que possa viver feliz com O’Malley, é assassinada pelo cúmplice que a manipulava. Ela morre nos braços de O’Malley suspirando que ele revele a verdade ao mundo. Ao invés de escrever a biografia de Robert Forrest na qual trabalhava, O’Malley publica Christine Forrest: Her Life.

Um dia depois de obter os direitos autorais do romance best-seller Keeper of the Flame, de I. A. R. Wylie, Eddie Mannix, vice-presidente da MGM, percebeu ter nas mãos uma bomba política. Mas depois do ataque japonês a Pearl Harbor, e o engajamento dos EUA na guerra, a produção obteve sinal verde. O viés político do filme, radicalmente antifascista, desagradou, contudo, o chefe do estúdio, Louis Mayer, e políticos republicanos chegaram a se queixar a Will Hays, Presidente do Código de Produção, sobre a propaganda comunista disfarçada na trama. Mesmo o diretor Cukor considerou o filme um de seus piores trabalhos.

Visto hoje, Keeper of the Flame é uma visão sensacional de como um líder popular pode se tornar um líder fascista. Incrivelmente, o filme foi todo rodado em estúdio, sem locações. E, durante as filmagens, o ator Forrest Tucker teve um caso com o sedutor George Cukor, enquanto Katharine Hepburn mantinha seu caso extraconjugal com Spencer Tracy.

Keeper of the Flame evoca Citizen Kane (Cidadão Kane, 1941), de Orson Welles: o líder morre logo na abertura do filme e o que sabemos dele é apenas aquilo que os personagens que o conheceram revelam. O segredo de sua personalidade só vem à tona nas últimas cenas, em meio às chamas. O filme também antecipa The Man Who Shot Liberty Valance (O homem que matou o facínora, 1961), de John Ford, pois Christine segue ao pé da letra a máxima daquele faroeste: “Quando a lenda é mais interessante que a realidade, imprima-se a lenda.”…

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